Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
domingo, 27 de novembro de 2022
Mulheres
A música foi gravada em 1979, no álbum "Fura, fura". A revolta a que se refere aconteceu em 1846. Hoje, infelizmente, o conteúdo mantém-se actual e o alerta necessário.
sábado, 26 de novembro de 2022
Viagens
Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Qatar, devidamente autorizado pela Assembleia da República onde, nos últimos tempos, imperam os gritos de histeria de um deputado que por lá se senta e faz lembrar aquele velho ditado segundo o qual vozes de burro não chegam ao céu, por mais que se clame pela intervenção divina.
Pelo que se ouviu, a diferença horária causou alguns problemas no sono do nosso Presidente, coisa que não é muito vulgar na sua pessoa, conhecida que é a sua capacidade de dormir pouco e estar sempre bem desperto.
Foi dar uma aula sobre educação e direitos humanos, o que justificou, por si só, a deslocação e as mais de dezasseis horas consumidas nas viagens. A actividade lectiva que incide sobre a educação e sobre os direitos fundamentais é importantíssima e é cada vez mais difícil encontrar docentes que a ministrem. Aproveitou para estar presente no jogo da selecção, apoiando os seus jogadores e satisfazendo a sua necessidade de algum lazer, fazendo uma pausa e retemperando forças para chegar ao fim do seu mandato com a capacidade e a dignidade em alta, como até aqui.
No ínterim, a Judiciária desencadeou uma operação contra os proxenetas da mão de obra, dando indicação de que, finalmente, se irão tomar medidas para acabar com este "putedo". É mais do que tempo de parar com o aluguer de gente como máquinas que se armazenam em barracões por todo o país, alguns até nesta cidade oestina.
Infelizmente, Marcelo não pôde comentar esta operação, não por falta de vontade mas apenas por, como toda a gente sabe, ele não fazer comentários sobre a situação interna quando se encontra no estrangeiro ...
sexta-feira, 25 de novembro de 2022
Livros (lidos ou em vias disso)
(...)11 de Agosto
Não há nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez que ele desce daqui a três dias. Creio que ele cedeu ao desejo de ser lido por mim e de me ler também. Questão de simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas ...
... Lá vai a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza saíram quase amigas. Concordei que Nova Friburgo era delicioso, e concluí por estas palavras: <<Quando descer venha almoçar comigo; falaremos de lá e de cá.>>
17 de Agosto
Fidélia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou: eu mesmo cheguei a mim mesmo - por outras palavras, estou reconciliado com as minhas cãs. Os olhos que pus na viúva Noronha foram de admiração pura, sem a mínima intenção de outra espécie, como nos primeiros dias deste ano. Verdade é que já então citava eu o verso de Sheley, mas uma cousa é citar versos, outra é crer neles. Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda a fé ao poeta inglês, dou-lhe agora, e aqui a dou de novo para mim. A admiração basta.
19 de Agosto
Tristão veio almoçar comigo. A primeira parte do almoço foi a glosa da carta que ele me escreveu. Contou-me que já em criança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que três: reconheceu a cidade agora e gostou muito dela. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz dela uma criatura particular e rara, por ser tudo uma espécie também rara e particular. Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a infância e a adolescência. O fim do almoço foi com o naturalizado e o político. A política parece ser grande necessidade para este moço. Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas públicas em Portugal e na Espanha; confiou-me as suas idéias e ambições de homem de Estado. Não disse formalmente estas três palavras últimas, mas todas as que empregou vinham a dar nelas. Enfim, ainda que pareça algo excessivo, não perde o interesse e fala com graça. (...)
quinta-feira, 24 de novembro de 2022
Mundial 2022
quarta-feira, 23 de novembro de 2022
Futebol
O comboio não ia cheio, longe disso. Porém, a julgar pelo barulho que se ouvia de dentro da carruagem, os poucos passageiros eram suficientemente ruidosos para se julgar que até haveria gente a mais.
Naquela carruagem não estariam mais de uma vintena de pessoas, distribuída pelos vários bancos, sempre no singular, salvo as que pertenciam à mesma família ou à tentativa de a vir a constituir. Lá ao fundo, no átrio de acesso ou de saída, um grupo, pequeno, discutia, bem animado, os últimos resultados do futebol, a justiça dos mesmos, o falhanço do penalty, o erro do árbitro no off-side. Afinal, o barulho imenso que se ouvia era apenas daquela meia dúzia, todos bem dotados de garganta e de velocidade de argumentação, sempre sobreposta na do parceiro, tornando a conversa uma gritaria que mais ninguém conseguia compreender. A preocupação era gritar mais alto, sempre mais alto, cada vez mais forte. Pouco importavam os argumentos, as expressões, as frases. Os gestos, os esgares, os pontapés no ar e, por vezes, na carruagem, eram a expressão dos afectos pela discussão enriquecedora e interpretativa, num espectáculo para outrem usufruir, obviamente sem qualquer prazer.
O "pica" entrou na carruagem, munido do necessário alicate, irrepreensivelmente fardado e com o seu boné castanho, com emblema, na cabeça, exibindo autoridade e mostrando à evidência que a CP lhe tinha confiado a manutenção da ordem pública dentro do comboio. Todos lhe teriam de mostrar o bilhetinho, pequenino, adquirido na estação onde haviam entrado e mencionando aquela onde saltariam para fora. Era esse minúsculo papel que lhes garantia o direito de viajar.
Mal o "pica" assomou ao corredor, o barulho lá do fundo cessou como que por milagre. O "jogo" tinha acabado e os participantes preocupavam-se em sair rapidamente do "campo". Não havia saída ...
- São vinte escudos a cada um, para não os entregar à Polícia na próxima estação.
terça-feira, 22 de novembro de 2022
Conversa fiada
A manhã ainda não ia a meio. Apesar da chuva inclemente e da ausência da luz do sol que é lenitivo para a disposição, já havia quatro pessoas no balneário masculino, a despachar-se após umas braçadas madrugadoras e tonificantes.
Gente nova, com conversas fora da caixa, sem problemas nem constrangimentos com a presença de quem tem idade para ser pai (ou avô?) deles. Enquanto se ensaboam, fechando sempre a água, a conversa vai fluindo, rápida, tipo fixe.
- Não vais a Lisboa hoje?
- Vou, claro. Daqui a bocado, por volta do meio-dia.
Nadar um bocado tinha trazido a tranquilidade que a água do chuveiro, quentinha, ainda reforçava.
- Hoje vou experimentar um transporte novo.
- Não me digas que vais de carro?
- Estás tonto ... nem pensar. Mal sentas o cu no carro e já lá vão trinta euros. Vou num autocarro de uma empresa nova que faz a viagem até à estação do Oriente, sem paragens. Uma hora e cinco. Um instante. Já comprei o bilhete na aplicação. Dois euros e picos, imagina!
- Isso é muito bom. E qual é a empresa?
- Chama-se Flix Bus e são uns autocarros verdes, enormes. Vou experimentar hoje. Vamos ver como corre.
- Depois dizes. Hoje fico por cá. 'tou em teletrabalho.
A água do chuveiro já tinha tirado o sabão, o meu e o dos jovens conversadores. A conversa continuou enquanto a toalha fez a sua parte e o corpo ia sendo coberto com a roupa necessária para enfrentar o "inimigo" que lá fora continuava a fazer das suas. Rapidamente mudou e o assunto passou a ser o futebol e a falta de tempo para ver os jogos.
- Estou a tentar ver na quinta-feira, mas ainda não tenho a certeza se posso.
O velho meteu o bedelho e foi integrado, sem quaisquer problemas, na conversa.
Apenas teve alguma dificuldade em explicar que tempo para ver a bola é coisa que lhe não falta. É a vida!
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
A tempo
Com o inverno instalado e o campeonato do mundo de futebol a começar, estão reunidas as condições para que as saídas sejam curtas e apenas quando estritamente necessárias.
A lareira já funciona, proporcionando uma temperatura que não é sequer comparável à que está lá fora, e, pelo menos por enquanto, a chuva não tem acesso ao interior. Tudo conjugado, há um convite ao borralho, ao sossego, à mandriice, à música, à leitura, tarefas extenuantes e exigentes, que deixam o pobre humano depauperado e contribuem para uma noite de sono sem sobressaltos.
Toda esta actividade faz com que se esfumem os ecos da guerra e da inflação. Não se perde tempo a ouvir a discussão do Orçamento nem se liga peva à capacidade literária do ex-governador do Banco de Portugal, que "pariu" um livro volumoso, com recurso a barriga de aluguer. Feitios ... vale mais tarde que nunca e, pelo interesse e destaque que a obra tem merecido nas parangonas, é "dinheiro em caixa", polémica para durar e entrada na história da literatura de cordel, com todo o respeito pelo género. Há sempre quem queira ficar na História pelo que diz que fez. Se não fez, a culpa não foi sua. Vontade tinha ...
Pensando bem, o livro chega a tempo de ainda assistir ao julgamento de Ricardo Salgado e, quem sabe, pode até servir para esclarecer as dúvidas que têm surgido e para fundamentar a sentença que, um dia, talvez seja proferida.
Tenho cá um palpite que o jornalista autor do livro poderia ter escrito o dobro das páginas, ou mais um volume, se tivesse pedido para consultar as actas da administração do Banco de Portugal da época. Lá deve estar tudo clarinho como água ... ou não.
domingo, 20 de novembro de 2022
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...) Abençoada seja, pois, a juventude com sua beleza, sua inocência e sua roupa escassa, seus braços à mostra e suas pernas despidas, sem frio e sem calor, sem queixume e sem dor nenhuma. Depois daqueles cinco rapazes e três raparigas, a nova equipa foi ainda reforçada com a chegada de uma Margarida e uma Duriel, e a tunisina Maha, e todos em conjunto produzem alguma coisa de tal modo preciosa, que tudo mudou no Hotel Paraíso. Falo com as minhas três companheiras de mesa e elas sentem isso mesmo, que as paredes parecem mais lavadas, e no entanto sempre alguém as lavou com o mesmo Fabuloso Aroma do Bosque. E também o chão e as portas brilham com mais intensidade, mas toda a gente sabe que o motivo desta mudança reside no sorriso destas grandes crianças, mulheres e homens, que aqui chegaram e a quem apetece chamar netos e netas, filhos e filhas. Trazem o futuro com eles, e assim, à nossa volta, tudo recomeça, nada termina. Nada termina, diz a juventude. Um passarinho azul canta em cima da cabeça de cada um deles. Trinados. Alegria. Abençoados sejam estes jovens por nos trazerem consolação. Eu esperava por este momento, e ele chegou a tempo. Arrependo-me das minhas horas mesquinhas em que me deixei arrastar pela tristeza. Não tenho motivos. A alegria de ter estes jovens a passear pelos corredores desta casa deu-me uma força que eu julgava já não possuir, de tal modo que ontem consegui caminhar por mim só, entre a cama e a cómoda.
Agarrada ao tampo, fiquei durante uns instantes diante do espelho, em pé, e para espanto meu, vi o desenho da minha alma reproduzido nele. Já não são os meus traços nem os meus cabelos, mas é o meu carácter, alguma coisa que se desenha entre a risca dos lábios e o arco onde antes os olhos brilhavam. De azul. Disse para a minha imagem - Olá, ainda aí estás, Alberti? E apesar de me achar feia, ainda gostei de mim. Congratulei-me por existir. E mantive esse sentimento, quando ontem nos levaram até ao jardim na parte que olha para a barra do mar. Por cima do Hotel Paraíso, nuvens brancas como se fosse Agosto, nem um rasto de água. (...)"
sábado, 19 de novembro de 2022
Acentos
Entrou na agência com ar de quem não se sente à vontade, apesar do corpanzil, enorme, de que era dono. O nervosismo era evidente e chamou logo os holofotes da atenção de quem tinha obrigação de a prestar ao que se passava.
- Bom dia. Faça favor ...
- Abrir conta ... patrão mandou.
Foi-lhe indicado caminho para a secretária. Sentado, ficou mais tranquilo e, apesar de não dominar bem a língua, falou sempre em português e conseguiu fazer-se entender.
- Ucrânia. Estou Portugal dois anos. Patrão novo, mandou abrir conta, receber ordenado.
- Tem o passaporte e o cartão de contribuinte?
- Sim, claro.
Abriu a carteira, retirou os dois documentos e disse:
- Não ri ...
Não percebi. Julguei que tinha utilizado o verbo rir por engano. O atendimento tinha sido normal, sem excessos, sem qualquer motivo para risos. Adiante ...
Abri o passaporte. A foto correspondia e, logo abaixo, lá estavam o nome e o apelido, em ucraniano e em inglês. Os olhos, que não pescavam nada do ucraniano, saltaram de imediato para o inglês.
- Surname: Camara
- Name: Fode
Registo feito, o banco ganhou mais um cliente, que se portou sempre bem enquanto por lá andei.
Eu, apesar de muitas vezes conversar com o homem, nunca consegui compreender a razão pela qual a falta de um acento circunflexo no apelido me haveria de provocar risota.

