Já passaram 36 anos sobre a partida de José Afonso, que deixou um legado importantíssimo para os vindouros e inesquecível para os que tiveram o privilégio de o ver e ouvir.
A sua obra ainda mantém, infelizmente, uma grande actualidade social.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Já passaram 36 anos sobre a partida de José Afonso, que deixou um legado importantíssimo para os vindouros e inesquecível para os que tiveram o privilégio de o ver e ouvir.
A sua obra ainda mantém, infelizmente, uma grande actualidade social.
Estava poisado num ramo bem alto, camuflado entre a folhagem, densa, do castanheiro. De vez em quando ouvia-se aquele choro lancinante, característico da sua espécie quando em sofrimento. Transmitia dor e desencadeava pena.
Os olhos, experimentados, conduzidos pelo grito bem audível, conseguiram vislumbrar o azul das suas penas, lá bem no cimo da árvore. Era quase impossível que o gaio não tivesse já dado pela chegada do intruso. O normal teria sido que as asas batessem e o fizessem voar para longe, bem antes de a visita chegar à árvore. Não aconteceu, e ele permanecia quieto, lá no alto. Era claro que havia qualquer coisa de errado no seu comportamento, que indiciava impossibilidade de se pôr ao fresco.
Não era possível subir ao seu local de refúgio com o mínimo de segurança. Mesmo assim, a curiosidade aguçou o engenho e, com alguma dificuldade, subiram-se dois ou três troncos mais grossos, na sua direcção. Não se mexeu. Parecia convencido de que a sua hora havia chegado.
A meio da árvore, o encurtamento da distância permitia distinguir perfeitamente o que o mantinha ali, quietinho, chorando. A asa esquerda estava caída, talvez só segura pelas penas. Os olhos eram tristes, quase de súplica para lhe terminar o sofrimento.
Desci da árvore. A "nove mm" tinha ficado encostada à árvore, com o cartuxo no cano. Bastava apontar e puxar o gatilho. Nunca tinha atirado a um gaio, ensinado que fora a respeitar a sua beleza e o seu pouco préstimo para comer. Aquele não ia ser o primeiro, apesar de parecer que implorava isso.
Alguns dias depois, o regresso ao local: na árvore já não estava e, no chão, não havia qualquer vestígio de por ali ter caído. Talvez tenha conseguido sobreviver e voar de novo, quem sabe?
Por esta época, vestia-se da cabeça aos pés com o rigor de um palhaço profissional. Roupa larga e colorida, nariz vermelho, rosto pintado de branco, sapatos enormes, um adereço na mão que tanto podia ser uma gaiola sem pássaro como um cujo dito sem ela. Todos os anos diferente no tema, nos pormenores, na forma, mas sempre palhaço. Era a sua catarse. Depois de um ano de trabalho, dois dias de folia, bem completos.
Este ano, embora já tivesse tudo preparado há muito, não o fez. A mãe partiu há pouco tempo e entendeu que lhe devia esse respeito, embora ela talvez tivesse opinião diferente. Decidiu assim, fez como lhe pareceu melhor, sem mágoas nem arrependimentos.
Ontem esteve a ver o desfile e encontramo-nos. Muita conversa, muitas recordações, muitas apreciações, muitas críticas. Já vimos tanta coisa que não é fácil a surpresa e difícil a concordância. No final, sério, desabafou:
- Já reparaste que não há um único palhaço no desfile?!
E era verdade. Nem um. Toda a gente mascarada, de tudo e mais alguma coisa e nem sequer um palhaço vestido a rigor.
Dos outros, havia muitos ...
A gaivota pousou no pau ou está descansando na areia da margem esquerda?
Nada mexia!
Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Que importa!
"Calça justa e bem esticada / já manchada pelo selim / polainas afiveladas / antigamente era assim (...)"
É tempo de saltar, dançar, pular, gritar, marchar, sambar. A vida são dois dias e o Carnaval ... três!
O Carnaval de Torres Vedras comemora 100 anos. Ao longo deste tempo imenso, tem proporcionado diversão muitas vezes louca, trapalhona, bem regada, pouco dormida, vivida sempre pelos habitantes da cidade como festa única. Nestes dias de folia, muitos milhares de forasteiros visitam e divertem-se na cidade, que hoje já exibia nas suas ruas a música apelativa e muita gente mascarada.
Trabalhei com alguns/algumas pessoas que, logo no início do ano pediam a marcação de oito dias de férias para esta altura, para poderem participar sem preocupações, em quatro dias (e noites) de loucura, intervalados com algum, pouco, tempo para fechar os olhos.
O "monumento" que anuncia a festa deste ano é, uma vez mais, uma obra de arte e de crítica, como convém para que o sorriso seja permanente, ao menos nestes dias de folguedo.
Quando o meu entendimento dos temas mais importantes, ou inquietantes, da vida começou a acontecer, fazia-me muita confusão os meus pais referirem, com regularidade, que tinham gasto dez mil réis a comprar isto ou aquilo e, muitas vezes, eu tinha presenciado que o custo tinha sido dez escudos.
- O que é isso dos mil réis?, questionava a minha impertinência.
- Antigamente era assim que se chamava a moeda - réis. Quase ninguém, dos mais velhos, fala em escudos e está sempre a fazer a comparação com o dantes.
O tempo foi corrigindo, com o apagamento dos que não sabiam, ou não queriam, utilizar, verbalmente, a nova moeda e os mil réis eclipsaram-se do quotidiano.
No primeiro dia de 2002, o Euro passou a ser a moeda corrente em Portugal e, durante bastante tempo, quase toda a gente fazia mentalmente a conversão para escudos, procurando avaliar o custo, aumentado, pela matemática a que estava habituada.
- É pá, isto está impossível. Oitenta paus por uma bica; uma nota de cem por uma alface.
O tempo foi correndo, muitos da época do escudo já se apagaram e a grande maioria dos outros não se preocupa em fazer ponderações. Não vale a pena!
Hoje, no supermercado, estava um livro de um autor que conheço bem e do qual tenho algumas obras. Aquele, dizia-me a memória, não estacionava na estante. Promoção: Cinco euros.
- Vou levar. Nem se nota na conta.
No regresso, fiz-me de velho e ponderei:
- A promoção, afinal, custou mil escudos e mais uns pózinhos.
Não recordo já quanto pagava, em escudos, por um livro, até porque perfilho o princípio de que dinheiro gasto não faz falta a ninguém. Todavia, não tenho dúvidas: quando iniciei a minha "carreira" de comprador de livros, nenhum dos "normais" custaria o valor que dei hoje na promoção. Quem ponderava com os olhos no antigamente, seguramente que pensaria ser um desperdício gastar quatrocentos ou quinhentos mil réis num monte de folhas. Mil réis era um crime. Seria o ordenado de um mês, pago à semana, claro.
Valeu que foi o cartão que pagou!
No pulso fazia vida, há já bastante tempo, uma máquina oferecida, com amor e carinho, pela geração seguinte. Aquela pequena peça mostra as pulsações, o tempo dormido, os passos dados, a correspondente distância em quilómetros, e muitas outras opções, a maior parte estranhas ou raramente consultadas por quem, com muita informação, só baralha a atenção. Para além disto tudo, a maquineta ainda dá as horas, minutos e segundos, os dias da semana, a data completa, tudo sempre certinho, sem falhas.
A pulseira da maquineta partiu-se e houve necessidade, não imperativa, de recorrer ao relógio tradicional, que há muito andava ausente, bem escondido e triste, lá no fundo da gaveta. A pilha estava descarregada!
Se fosse o primeiro que por este pulso andou, dava-se corda e os ponteiros ressuscitariam, oferecendo a hora certa, mais coisa menos coisa. Neste, apenas o relojoeiro consegue resolver o problema. Pilha nova e eis que o velho Tissot acorda com toda a energia, mostrando que, por mais invenções que aconteçam, os velhos ainda têm algum préstimo. Relógio é relógio, ainda que lhe não dêem a importância devida.
Entretanto, a bracelete também evidenciava sinais de cansaço, fruto da idade e do abandono, indiciando partir a qualquer momento. Os riscos de fazer o velho despedaçar-se contra a calçada era elevado e não havia outra alternativa que não comprar também uma nova. Pilha nova, bracelete nova, relógio a funcionar em pleno, com uma jovialidade de fazer inveja e um aspecto de beleza sem igual, quando comparado com essas modernices.
Satisfeito com o resultado, fui consultar a Net, onde é possível saber e obter respostas para tudo. Pelo menos é o que toda a gente diz e, a julgar pelos comentários que por aí são feitos, não há hipóteses, sequer, de pôr isso em dúvida ...
Como sou meio baralhado, devo ter procurado de forma errada ou sem as coordenadas devidas: não encontrei uma única referência a pilhas que me ponham a funcionar como antigamente e nem sequer um anunciozito a um relojoeiro que isso arrisque.
Ocupa as mãos, a mente e a atenção, mesmo a intuitiva. É um elemento imprescindível na indumentária moderna, incluindo para aqueles que raramente o utilizam, quase o detestam e têm algumas dificuldades no seu manuseamento.
- Não tens telemóvel?
- Claro que sim, era o que faltava, mas não uso muito.
Quem assim responde está a necessitar de uma intervenção "ecológica", talvez parecida com a do lince e da serra da Malcata. O aparelhinho é fundamental nos dias de hoje. A sua versatilidade é imensa e os novos fazem tudo, até chamadas telefónicas e SMS. Cada vez é mais utilizado e, pouco a pouco, vai substituindo a necessidade de cérebro para executar o necessário, do trabalho ao lazer, do ócio ao prazer.
O botão de chamada do elevador foi premido e, enquanto se aguardava a chegada, foi-se preparando o acesso - password, aplicação de mensagens, destinatário - para que, em dois caracteres, se comunicasse o piso de destino. A porta abriu-se, a entrada foi feita, o botão do 1 premido. Daí a pouco, ainda a mensagem não tinha seguido, de novo a porta do transportador se abriu e a saída aconteceu. Mensagem enviada, surgiu no aparelhinho.
As cadeiras da sala estavam quase todas ocupadas. Lá ao fundo, duas livres, no cantinho. Bom sítio. O telemóvel foi emudecido que o sítio não é para barulhos, o livro aberto e a leitura, interessante, foi iniciada.
O tempo passa depressa para quem desespera e não consegue ser atendido de imediato. Parece que terão passado mais de cinco minutos. Uma eternidade! Por pressentimento ou gesto mecânico, a mão foi ao bolso e os olhos espreitaram o ecran.
- Curioso ... está a ligar. Não consegue arranjar lugar para o carro.
- Onde estás?
- Sentado, a ler, aguardando que o número apareça.
- Não pode ser. O médico veio chamar-te e eu fui ter com ele. Pensava que estavas na consulta. Afinal ... Disse-me que já era a segunda vez que te chamava. Agarrei-me ao telemóvel e tu não atendias ... pedi ao segurança para ir à casa de banho ver se lá estavas ...
O elevador tinha descido sem disso fazer eco. Despistado, saiu sem sequer olhar para o -1 escarrapachado na parede, em tamanho bem grande. Sentou-se, tranquilo, com o olhar atento aos números que iam desfilando no ecran, à espera que aparecesse aquele que estava no papelinho e lendo mais uns parágrafos, sem ligar ao tempo que tanto corre no piso certo como no errado.
- Desculpe, doutor. Não me apercebi que o elevador tinha descido em vez de subir ...
Tudo acabou bem e ninguém morreu. O pânico foi apenas um pormenor e a culpa, essa, sem dúvida que foi do elevador, que deveria ter cumprido a ordem de quem lá estava dentro e não de outro qualquer espontâneo que o desejava no -1.
Moral da estória: se é despassarado, use sempre as escadas.