quarta-feira, 15 de março de 2023

Boné

Traz sempre o boné, já velho, que, na maior parte do tempo segura na mão, a evidenciar a subserviência e o respeito pelos outros, conforme aprendeu muito novo e lhe foi incutido como dever. Já ninguém lhe pede que descubra a cabeça nem que mostre esse claro acatamento das diferenças. Muita gente fica, até, incomodada com um comportamento tão antigo e hoje claramente desnecessário, e talvez, até, ofensivo. Foi assim que aprendeu e não consegue alterar.

- Deixe-se disso. O respeito pelos outros é bonito, necessário, até agradável de notar, mas só isso.

Mas ... não consegue cumprimentar ninguém sem tirar o boné. O gesto é automático, irreflectido, instantâneo. E lá segue na sua viagem, descobrindo-se no cumprimento, em qualquer serviço público, na loja, no café, na igreja. Em todo o lado o Zé tira o boné. A ausência de cabelo devia torná-lo mais cuidadoso, mas não é isso que acontece. Foram muitos anos a reverenciar os outros, descobrindo a cabeça que agora é careca e não tem medo de apanhar algum resfriado. 

Usar boné é hoje ser distinto, estar à la page, ter presença, ser notado, reconhecido e distinguido, sem necessidade de tirar o dito, não vá o cabelo aparecer oleoso e com sinais de ausência da higiene diária.

O Zé é teimoso e continua a retirar da cabeça o seu velho boné, sempre que cumprimenta alguém ou entra na roda. Tem cá um feitio ...

terça-feira, 14 de março de 2023

Tarefeiro

No final de uma tarde agitada pelos objectivos a cumprir e pelas tarefas distribuídas para execução (já vai faltando o treino dos compromissos e dos horários), nada melhor do que ouvir boa música, executada maravilhosamente pelos dedos de quem sabe e tão bem toca.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Moinhos de vento

O papel tinha sido lá colocado há cerca de 15 dias. Indicava o número de telefone e pedia um contacto, por haver necessidade de conversar sobre assunto importante para os dois, ainda que não houvesse conhecimento entre ambos.

O moinho está lá bem no alto, visitado sempre pelo vento agreste e muito raramente por pessoas. Hoje, em mais uma ida à "senhora da asneira" em busca de alguém, de gente nem rasto. O papel já não estava no sítio onde tinha sido colado e eram visíveis as marcas deixadas pela fita adesiva que o segurava. Uma olhadela em volta e lá estava ele, ainda dentro da mica de plástico que o protegia dos malefícios do tempo.

- Alguém leu ... mas não passou cartão.

Na Junta de Freguesia, nenhuma das duas funcionárias sabia quem era o proprietário, mas aquela "senhora de idade" que ali está, deve saber.

- Conheço bem ... está em França ... mas a filha está cá.

- E a senhora sabe onde ela mora?

- Segue por ali abaixo, corta à direita e, depois, é uma casa branca ... na subida.

Tudo clarinho como água ... para quem conhece.

- A senhora não se importa de vir connosco e indica-nos?

- Pode ser.

Quatrocentos, quinhentos metros, não mais. E era bastante fácil ... para quem conhece. A filha conversou, disse que tinha visto o papel e telefonado para o pai, informando-o.

- Ele disse-me que lhe ia mandar uma mensagem.

Deve ter havido algum contratempo nos Pirenéus ou o vento de lá soprou forte e a mensagem não conseguiu fazer a viagem. O que havia a tratar, foi tratado, olhos nos olhos, como convém.

O moinho lá continuará e irá assistir à limpeza do terreno e ao desbaste dos pinheiros, com conhecimento do dono, que foi moleiro e já não é, e que não ficará surpreendido quando vier de vacances.

É fundamental haver boa vizinhança, mesmo não conhecendo os vizinhos.

domingo, 12 de março de 2023

Rotinas

Como já inúmeras vezes por aqui ficou registado, o passeio matinal junto da Lagoa é um privilégio, uma beleza e um grande prazer. 

Hoje foi mais uma manhã sem vento, com o céu a anunciar a primavera e o mar a mostrar que está nas melhores condições para receber os surfistas que competem em Peniche, batendo com força na rocha e lixando o coitadinho do mexilhão, desgraçado nem sequer ouvido no acto de que nasceu e muito menos na fixação da data para a competição nos Supertubos.

A vista extasia e determina concentração, fazendo esquecer a quantidade de pilim que nos vai custar a saída da presidente da TAP, o cacau que está a ser arrecadado pelos que, atentos, se enchem à custa da guerra e da inflação e nunca, garantem, pelo seu egoísmo e ambição. Entretanto, o carcanhol do palco-altar já se encafuou nos meandros da sacristia, caminho que seguirão os problemas que afectam hoje a vida religiosa e estão a exigir a permanência dos bispos na ribalta.

Entretanto, Marcelo voltou às lides, depois de meia dúzia de dias de silêncio esclarecedor. Aproveitando o aniversário da sua segunda tomada de posse, zurziu com força António Costa e o seu, dele, governo, e deixou clara, finalmente, a sua posição sobre a actuação dos bispos.

Com tudo isto, daqui a pouco o Benfica joga na Madeira, o domingo está quase no fim e Março já cumpriu mais de um terço do seu caminho. Tudo se repete, para que seja sempre diferente.

sábado, 11 de março de 2023

O que lá vai ... foi!

Não adianta viver de recordações e, muito menos, abrir com os olhos de hoje as páginas do que aconteceu há longos anos.

Vale a pena, todavia, reflectir um pouco para concluir que vivi muita coisa, boa, má, ou assim-assim, ou melhor, passei por elas. E todas contribuíram para me tornar maior e, talvez, espero eu, melhor, recusando sempre a lamechice e evitando a presunção, por ter a certeza de que uma é inconveniente e a outra, parva. O tempo que fez ontem já não me perturba nada.

Há 48 anos, este dia foi comprido, enervante e duro. Passou, é passado. 

Os historiadores, daqui a 100 anos, hão-de passar por ele e deixar uma pequenina nota de rodapé sobre o acontecido. Os que o viveram, directa ou indirectamente, ainda bem que caminham a passos largos para o esquecimento total.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Surpresa

A Tradisom envia, regularmente, notícias sobre as suas edições, normalmente "fora da caixa" , sempre com grande qualidade e que não se ouvem nos canais radialistas, talvez por não caberem nas playlist prévia e cientificamente elaboradas.

Ontem chegou a última compra efectuada: um CD, de Pedro Branco, com o título AMOR. Para além de ser extraordinariamente agradável de ouvir, tem uma apresentação apelativa e de alta qualidade. Fui folheando enquanto ia ouvindo as músicas. Eis senão quando me deparo com uma fotografia de um dos músicos, que incluía um pequeno texto. O retrato era do Iúri, inconfundível.

Conheci-o bem miúdo, a esforçar-se por conseguir ser escolhido para a equipa de natação, o que conseguiu, claro, obtendo bons resultados, sempre à custa da sua muita humildade e de muito trabalho. Depois, foi nadador-salvador na Foz do Arelho e, ainda hoje, muita gente recorda a sua entrega e o seu profissionalismo, sempre firme, delicado e bem disposto. A música levou-o daqui e ainda bem. Tem corrido mundo e é tão agradável ouvi-lo fazer a percussão para grandes artistas quanto saber como continua a ser querido por todos e em todo o lado.




quinta-feira, 9 de março de 2023

Alcatruzes

Prosseguem, tranquilamente, o seu percurso, dando a oportunidade a que, nuns, a vida corra bem, noutros nem tanto, noutros ainda, seja impossível perceber o que acontece, como acontece e porque acontece. Ainda assim, seria muito mais fastidioso se os dias fossem como os alcatruzes da nora, sempre tirando a água do poço num ritmo constante e repetitivo que, ao fim de algum tempo, se torna rotina clássica, desenxabida e desinteressante.

Felizmente que a vida não é como a nora nem os seus alcatruzes são iguais. Tem a grande vantagem de nos oferecer dias melhores ou piores, mas todos diferentes. 

Faz hoje 45 anos que nasceu uma mulher extraordinária, mãe extremosa e filha para quem não há adjectivos adequados ao seu nível. É "só" a minha filha, que hoje completa mais um aniversário, para me encher de alegria e muita satisfação.

Parabéns, querida filha, e mantém sempre presente que os alcatruzes da nora são repetitivos mas os dias da vida nunca o serão. Amanhã será sempre diferente.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Palavras bonitas

No Dia Internacional da Mulher, escritas por uma grande mulher a falar de sua avó, outra enorme mulher nos tempos em que ainda era mais difícil sê-lo.

REVOLUÇÃO FRANCESA

Andou
na revolução francesa
desassossegou o coração

Foi amiga daquelas
que gritaram
caminhou com elas

Pisou o mesmo chão

Esteve nas assembleias
revolucionárias
fizeram com o seu grito

Um imenso cordão

Maria Teresa Horta
Poemas para Leonor
D. Quixote (2012)

terça-feira, 7 de março de 2023

Venham mais cinco ...

... para a minha irmã, que hoje faz anos mas não quer saber quantos, muito menos que alguém os conte e divulgue o resultado.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

O meu amigo ADS "obrigou-me" a reler o livro meu homónimo, escrito por Virginia Woolf em 1928 e trazido até nós em variadíssimas edições, a última das quais é a que hoje terminei. Tanto quanto me lembro e como é referido no prefácio, esta edição traz algumas diferenças em relação às anteriores mas, no fundo, a mesma essência.

O romance pretende ser uma biografia de Orlando, um ser humano cheio de "eus", os mais diversos, de tal modo que nasce masculino, cresce rapaz, e, já bem adulto, torna-se uma mulher, com uma imaginação imensa, que a leva a percorrer o mundo, no tempo e no espaço, sem sair do conforto do seu nobre casarão.

Actual, sem qualquer dúvida.

"(...)     - Mas, então, o quê? Quem? - perguntou. - Trinta e seis anos; num carro; mulher. Certo, mas também um milhão de outras coisas. Serei uma snobe? As condecorações, o brasão, os meus antepassados; se me orgulho deles? Sim! Ambiciosa, voluptuosa, depravada; será que sou?

(Aqui entrou outro eu.)

 - Quero lá saber se sou ou não. E serei de confiança? Acho que sim. Generosa? Ah, mas isso não conta.

(Já era outro eu.) 

- Passar a manhã na cama, nos meus lençóis da melhor qualidade, a ouvir os pombos; faqueiros de prata; vinho; criadas; criados. Serei mimada? Talvez. Demasiado a troco de nada. Daí os meus livros.

(E saíram-lhe cinquenta títulos de recorte clássico, que julgamos serem aquelas suas primeiras obras românticas, que rasgou.)

- Oco, fala-barato, romântico. Mas - (e entrou outro eu) - uma nulidade, um desajeitado. Mais desastrado seria impossível. E ... e ... 

(Aqui, hesitou, em busca da palavra certa, e, se sugerirmos <<amor>>, é possível que nos estejamos a enganar, mas o certo é que ela riu e corou e depois exclamou:)

- Um sapo incrustado de esmeraldas! Henrique, o arquiduque! O tecto cheio de varejeiras!

(E entrou outro eu.) (...)"

Orlando
Virginia Woolf 
Cavalo de Ferro (2021)