segunda-feira, 20 de março de 2023

Sabedoria

De acordo com o que diz quem sabe, a Primavera chega hoje, lá pela boquinha da noite, talvez para não dar muito nas vistas ou sujeitar-se a algum assalto maquiavélico de uma série de mãos empunhando um microfone, ainda que protegido por um cálice de espuma.

Ainda quem sabe também disserta sobre a crise bancária que não irá acontecer salvo se ... acontecer. O Credit Suisse já foi absorvido pela UBS, faliram meia dúzia de "banquecas" nos States, mas certo, certo, é que nada disso afectará a restante banca europeia, como, aliás, se tem verificado em outras ocasiões.

Faleceu Rui Nabeiro e continuando a ouvir quem sabe, foi um empresário extraordinário que, de uma empresa quase nula fez um grande império, de acordo com o presidente da CIP, que nos inunda com a sua enorme sabedoria e experiência.

Rui Nabeiro dizia que os seus trabalhadores eram a essência das suas empresas. Na sua longa vida, deu-lhes formação, tranquilidade, apoio, confiança e, fundamental, disponibilizou-lhes os seus ouvidos atentos, sempre que foi necessário. Se todos reconhecem este mérito, poder-se-á perguntar a razão pela qual a grande maioria não imita.

Agora que Rui Nabeiro já não pode transmitir, de viva voz, o segredo, talvez fosse útil a muitos que fizessem uma leitura do "Almoço de Domingo", que José Luís Peixoto escreveu, deixando no papel e para a posteridade, um testemunho enorme de inteligência e humildade.

Abram-se as portas à Primavera, para que a Prima Vera e todos os seus pares que por aqui vivem, deixem de vegetar e sintam que, ao menos, uma florzinha a abrir-se e a dar-lhes esperança de aparecer melhor fruto.

domingo, 19 de março de 2023

Dia do Pai

Se (ainda) por cá estivesse, o meu pai celebraria hoje 101 anos e apagaria as velas do bolo com a gana e a vontade que sempre o nortearam numa vida de duração significativa, com muito trabalho esgotante e, por vezes até, escravizante.

FOLHINHA

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano, 
Outra flor, 
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.

É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outro flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Gráfica de Coimbra (1992)

sábado, 18 de março de 2023

Lembranças

A carreira de tiro estava situada a cerca de cinco quilómetros do quartel e a ela se chegava a pé, após um percurso deliberadamente escolhido, bem sinuoso e por caminhos que nem as cabras utilizavam. Se, nessa época, já existissem estas modernices dos relógios que contam passos e dão distâncias, surgiriam caminhadas de, pelo menos, o dobro.

Naquele dia, o treino era de tiro de G-3, individual e deitado. Dez garbosos recrutas deitavam-se frente aos alvos e, à voz de comando, puxavam o gatilho. No final, cada alvo era analisado e pontuado, contribuindo para a classificação final que iria determinar a ordem de mobilização para a guerra colonial, presente todos os dias como destino. Ao segundo tiro, a G-3 encravou e a bala não saiu. A aflição foi grande e o braço levantado pediu ajuda ao Tenente que comandava a instrução de tiro, conhecido como muito rígido, talvez por passar todo o dia fechado naquela espelunca onde só se disparava. Com a pressa de resolver o problema, o corpo rodou e a G-3 deixou de estar  apontada ao alvo e acompanhou o movimento.

A vardascada foi lesta e o correctivo verbal, recheado de vernáculo e bem alto, para todos ouvirem, soou de imediato.

- Ninguém aqui se pode esquecer que a nossa arma só faz fogo em frente ... Cada um de nós é parte de um todo e tem de ter isso presente em cada momento. Levanta o braço mas mantém a posição. Não esquecer isto, seus ...

As forças militares têm regras próprias e os "plenários" devem fazer-se antes da aprovação da ordem de operações. Depois, é executar o melhor possível e de forma a que corra bem para todos. Na operação não há discussão. 

Acabado o serviço militar obrigatório de triste memória para os que o tiveram de suportar, quem não quer, não pode ou não sabe ser assim, tem a porta da rua que é a serventia da casa, podendo escolher ser canoísta do Mondego ou mariscador de berbigão, mas não mais membro da tripulação de um NRP.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Carapaus

A vizinha tinha entrado sem ser convidada, como era costume. Os seus olhos não saíam da frigideira e o nariz parecia extasiado, se é que o apêndice que nos divide a face também tem emoções.

- Ora viva! Gosta de carapauzinhos fritos, de um dia para o outro?

A pergunta foi oportuna e surtiu um efeito trapalhão na resposta.

- Adivinhou. Adoro carapauzinhos fritos, sempre. Quanto mais pequenos, melhor, e bem fritinhos, para ser possível comer tudo, espinhas incluídas.

A compostura foi recuperada num ápice e os olhos riram-se, diante da perspectiva do petisco adorado e ainda por cima de borla.

- Ainda bem. Passe por cá amanhã, que eu estou a fritá-los agora.

A mulher fritava os carapaus adquiridos logo pela manhã. A peixeira, que percorria a aldeia com a canastra na cabeça sempre coberta pelo lenço enorme e bem ornamentado de cores e flores diversas, raramente trazia os carapauzinhos indicados para fritar. Era claro que o peixe comprado era pouco para a prole e, por isso, não era muito indicada a hospitalidade e a partilha. A prole era grande, adorava aqueles peixinhos pequenos, acompanhados de um arroz de tomate saboroso, como sempre.

A habilidade da linguagem transmitiu o recado, sem hostilizar nem criar qualquer sentimento de recusa. Como todos sabem, os carapaus fritos ainda podem ficar melhores no dia seguinte ... quando sobram.

O problema é que nunca sobram ... são tão pequeninos e óptimos.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Partidas e chegadas

Passam hoje 49 anos sobre a partida dos militares do (então) Regimento de Infantaria 5 em direcção a Lisboa, numa viagem que não concretizaria os objectivos, culminaria com a prisão de todos os envolvidos, mas ficaria como prólogo do 25 de Abril, que surgiria daí a pouco mais de um mês.

Também hoje se registam os 30 anos da partida de Natália Correia, escritora de quem me habituei a gostar há muitos anos e cuja irreverência e forma de estar sempre apreciei, e muito.

Ao registo das duas partidas teria sempre de corresponder, pelo menos, uma chegada. E assim aconteceu. Não esperava que o rigor da editora fosse tanto, mas hoje, pouco antes da hora do almoço, o carteiro (não o que toca duas vezes, que este conhece os cantos à casa e sabe bem o que deve fazer quando, ao simples toque na campainha, não lhe aparece ninguém) tocou e, em conjunto com a Visão e a Gazeta, entregou o embrulho registado, esperado e mesmo a tempo de ser hoje começado.

O Dever de deslumbrar - Biografia de Natália Correia, é um livro escrito por Filipa Martins, que traz o dever de deslumbrar os seus leitores e transportar muitos detalhes de uma vida cheia que a grande escritora teve. Pena ter sido tão curta. São "só" 695 páginas que irão ser lidas, creio, num ápice e sempre com deleite.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Boné

Traz sempre o boné, já velho, que, na maior parte do tempo segura na mão, a evidenciar a subserviência e o respeito pelos outros, conforme aprendeu muito novo e lhe foi incutido como dever. Já ninguém lhe pede que descubra a cabeça nem que mostre esse claro acatamento das diferenças. Muita gente fica, até, incomodada com um comportamento tão antigo e hoje claramente desnecessário, e talvez, até, ofensivo. Foi assim que aprendeu e não consegue alterar.

- Deixe-se disso. O respeito pelos outros é bonito, necessário, até agradável de notar, mas só isso.

Mas ... não consegue cumprimentar ninguém sem tirar o boné. O gesto é automático, irreflectido, instantâneo. E lá segue na sua viagem, descobrindo-se no cumprimento, em qualquer serviço público, na loja, no café, na igreja. Em todo o lado o Zé tira o boné. A ausência de cabelo devia torná-lo mais cuidadoso, mas não é isso que acontece. Foram muitos anos a reverenciar os outros, descobrindo a cabeça que agora é careca e não tem medo de apanhar algum resfriado. 

Usar boné é hoje ser distinto, estar à la page, ter presença, ser notado, reconhecido e distinguido, sem necessidade de tirar o dito, não vá o cabelo aparecer oleoso e com sinais de ausência da higiene diária.

O Zé é teimoso e continua a retirar da cabeça o seu velho boné, sempre que cumprimenta alguém ou entra na roda. Tem cá um feitio ...

terça-feira, 14 de março de 2023

Tarefeiro

No final de uma tarde agitada pelos objectivos a cumprir e pelas tarefas distribuídas para execução (já vai faltando o treino dos compromissos e dos horários), nada melhor do que ouvir boa música, executada maravilhosamente pelos dedos de quem sabe e tão bem toca.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Moinhos de vento

O papel tinha sido lá colocado há cerca de 15 dias. Indicava o número de telefone e pedia um contacto, por haver necessidade de conversar sobre assunto importante para os dois, ainda que não houvesse conhecimento entre ambos.

O moinho está lá bem no alto, visitado sempre pelo vento agreste e muito raramente por pessoas. Hoje, em mais uma ida à "senhora da asneira" em busca de alguém, de gente nem rasto. O papel já não estava no sítio onde tinha sido colado e eram visíveis as marcas deixadas pela fita adesiva que o segurava. Uma olhadela em volta e lá estava ele, ainda dentro da mica de plástico que o protegia dos malefícios do tempo.

- Alguém leu ... mas não passou cartão.

Na Junta de Freguesia, nenhuma das duas funcionárias sabia quem era o proprietário, mas aquela "senhora de idade" que ali está, deve saber.

- Conheço bem ... está em França ... mas a filha está cá.

- E a senhora sabe onde ela mora?

- Segue por ali abaixo, corta à direita e, depois, é uma casa branca ... na subida.

Tudo clarinho como água ... para quem conhece.

- A senhora não se importa de vir connosco e indica-nos?

- Pode ser.

Quatrocentos, quinhentos metros, não mais. E era bastante fácil ... para quem conhece. A filha conversou, disse que tinha visto o papel e telefonado para o pai, informando-o.

- Ele disse-me que lhe ia mandar uma mensagem.

Deve ter havido algum contratempo nos Pirenéus ou o vento de lá soprou forte e a mensagem não conseguiu fazer a viagem. O que havia a tratar, foi tratado, olhos nos olhos, como convém.

O moinho lá continuará e irá assistir à limpeza do terreno e ao desbaste dos pinheiros, com conhecimento do dono, que foi moleiro e já não é, e que não ficará surpreendido quando vier de vacances.

É fundamental haver boa vizinhança, mesmo não conhecendo os vizinhos.

domingo, 12 de março de 2023

Rotinas

Como já inúmeras vezes por aqui ficou registado, o passeio matinal junto da Lagoa é um privilégio, uma beleza e um grande prazer. 

Hoje foi mais uma manhã sem vento, com o céu a anunciar a primavera e o mar a mostrar que está nas melhores condições para receber os surfistas que competem em Peniche, batendo com força na rocha e lixando o coitadinho do mexilhão, desgraçado nem sequer ouvido no acto de que nasceu e muito menos na fixação da data para a competição nos Supertubos.

A vista extasia e determina concentração, fazendo esquecer a quantidade de pilim que nos vai custar a saída da presidente da TAP, o cacau que está a ser arrecadado pelos que, atentos, se enchem à custa da guerra e da inflação e nunca, garantem, pelo seu egoísmo e ambição. Entretanto, o carcanhol do palco-altar já se encafuou nos meandros da sacristia, caminho que seguirão os problemas que afectam hoje a vida religiosa e estão a exigir a permanência dos bispos na ribalta.

Entretanto, Marcelo voltou às lides, depois de meia dúzia de dias de silêncio esclarecedor. Aproveitando o aniversário da sua segunda tomada de posse, zurziu com força António Costa e o seu, dele, governo, e deixou clara, finalmente, a sua posição sobre a actuação dos bispos.

Com tudo isto, daqui a pouco o Benfica joga na Madeira, o domingo está quase no fim e Março já cumpriu mais de um terço do seu caminho. Tudo se repete, para que seja sempre diferente.

sábado, 11 de março de 2023

O que lá vai ... foi!

Não adianta viver de recordações e, muito menos, abrir com os olhos de hoje as páginas do que aconteceu há longos anos.

Vale a pena, todavia, reflectir um pouco para concluir que vivi muita coisa, boa, má, ou assim-assim, ou melhor, passei por elas. E todas contribuíram para me tornar maior e, talvez, espero eu, melhor, recusando sempre a lamechice e evitando a presunção, por ter a certeza de que uma é inconveniente e a outra, parva. O tempo que fez ontem já não me perturba nada.

Há 48 anos, este dia foi comprido, enervante e duro. Passou, é passado. 

Os historiadores, daqui a 100 anos, hão-de passar por ele e deixar uma pequenina nota de rodapé sobre o acontecido. Os que o viveram, directa ou indirectamente, ainda bem que caminham a passos largos para o esquecimento total.