domingo, 21 de maio de 2023

Domingo

Bem alinhadas e sob vigilância da que comanda a embarcação, as gaivotas da Lagoa aguardam, serenamente, que a próxima semana seja tão divertida como a que hoje termina, e que as notícias as mantenham atentas e bem divertidas, sem tédio nem modorra e, muito menos, novos discursos do homem de Boliqueime.

Mesmo com o tempo a fazer carantonhas, a caminhada matinal é sempre reconfortante e a paisagem, diferente todos os dias.

sábado, 20 de maio de 2023

Fama

A telenovela TAP versus computador surripiado, roubado, desviado, transviado, com gritaria, ameaças, diz que disse, seguranças e polícia à mistura, conhece uma curta pausa de fim-de-semana. Outros valores mais altos se alevantam e é fundamental concentrar energias no futebol, que está ao rubro e a dar audiências e vendas, antecipando-se que o Benfica será campeão se ganhar em Alvalade e o Porto perder com o Famalicão, o que garante a permanência de todos os olhos e ouvidos bem atentos.

Segunda-feira haverá novos episódios, com muitos Zandinga a fazer previsões e a afirmar certezas sobre quem prevaricou, se é roubo ou furto, ou se, afinal, é apenas uma brincadeira de garotos, que se poderia resolver com um par de estalos e nunca com dois socos, como parece ter sido ameaçado pelos dois principais actores.

Ambicionemos que o bom senso regresse ao local de onde nunca deveria ter saído e que, do acontecido, se tirem conclusões rápidas e se corrijam procedimentos. Talvez seja de ponderar a obrigação de frequência e aproveitamento na disciplina de "Serviço Público".

Entretanto e para que se habituem a trabalhar, talvez seja importante passarem os olhos pel'Os Lusíadas, não para lerem toda a obra mas fixando a atenção nas estrofes 95 e 97, do Canto IV.

Aprende-se sempre alguma coisa ...

95
Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

97
A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhes destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhes prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Os Lusíadas
Luís de Camões

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Aprendizagem

As conversas, ou melhor, as dissertações profundas e eloquentes a que temos assistido nas nossas televisões, reproduzindo o que se tem passado no Governo, no Parlamento e em Belém nos últimos tempos, fazem lembrar a velha anedota picante que suscita sempre o comentário: está a descer de nível e a subir de interesse.

Assessores, ministros, chefes de gabinete, deputados, comissões, políticos em geral, têm dado, com poucas e honrosas excepções, um exemplo claro de como não se deve actuar na causa pública, da necessidade de transparência e do dever de servir objectivamente o país, como consta do juramento que, solenemente, todos os titulares de cargos públicos, subscrevem.

Aos olhos de quem vê de longe e já vai sofrendo de miopia, salta à vista que há meninos a quem não chega portar-se mal no recreio e acabam também a fazer asneiras nas aulas.

Há uns meses, foi tema de conversa um inquérito que deveria ser preenchido por todos os candidatos a governantes, com vista a deixarem explícitos os activos detidos antes da entrada na esfera do poder. Os últimos acontecimentos parecem aconselhar que, cumulativamente, haja acções de formação a antecipar a ida para o governo, e que seja condição obrigatória a obtenção de nota positiva, sem recurso a cábulas ou copianço. 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Palavras bonitas

Contraste entre a vida campestre e a das cidades

Nos campos o vilão sem sustos passa,
Inquieto na corte o nobre mora;
O que é ser infeliz aquele ignora,
Este encontra nas pompas a desgraça.

Aquele canta e ri; não se embaraça
Com essas coisas vãs que o mundo adora;
Este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
Porque não acha bem que o satisfaça.

Aquele dorme em paz no chão deitado,
Este, no ebúrneo leito precioso,
Nutre, exaspera velador cuidado.

Triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão, mas desgraçado,
Antes ser camponês e venturoso!

Obras escolhidas - Volume I
Bocage
Círculo de Leitores (1985)

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Obrar

O Verão está a chegar e, ao que indicam as imagens obtidas no dia em que a cidade se celebra a si própria, as obras também estão a surgir vindas lá bem do fundo da sabedoria e na altura indicada para não prejudicar ninguém e dar uma imagem de progresso e atenção ao espaço que é de todos.



O que será?

sexta-feira, 12 de maio de 2023

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Alcatruzes

No balcão da clínica onde me havia deslocado para uma consulta de rotina, surgiu a confrontação com o 25 de Abril, quando a menina do atendimento, simpática, quis confirmar que o cliente postado na sua frente era mesmo este e não outro.

- Qual a data do seu nascimento?

- 25 de Abril de 1952.

- 25 de Abril?! Engraçado ...

- Sem dúvida. Foi no dia em que fiz 22 anos e nunca mais me esquecerei.

- Eu ainda não tinha nascido, nem jeito ...

Deveria ter 28, 30 anos, não mais. Mas sabia que o 25 de Abril tinha acontecido e era qualquer coisa importante, o que, nos dias de hoje, começa a ser cada vez mais raro.

- Olhe que isto está muito mal ... não sei se valeu a pena.

- Tem essa opinião porque não viveu no tempo "da outra senhora" e não faz a mínima ideia de como era. E ainda bem!

Mais duas ou três frases de circunstância, feito o registo que se pretendia e dada a informação necessária, a despedida. Era necessário atender outro cliente, dos vários que aguardavam.

O tempo, que passa a correr, limpa a memória dos mais velhos e cria o "quero lá saber disso" nos mais novos. Nada disto é privilégio destes tempos, embora pareça acentuar-se. Lembro-me bem de, na década de sessenta do século passado, dar por mim a questionar a razão pela qual um grupo de "velhos" organizava um almoço comemorativo do 5 de Outubro de 1910, uma evidente inutilidade para uma data tão longínqua.

A nora da vida não cessa o seu trabalho constante.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Recordar é viver

No passado sábado realizou-se o habitual almoço de confraternização dos antigos alunos da Escola Rafael Bordalo Pinheiro. Como sempre, aconteceu um excelente convívio e um desfilar de recordações que nunca mais tem fim, mesmo que as estórias já tenham barbas e todos saibam o seu final.

- Lembras-te disto?

E, com maior ou menor esforço, mais pormenor ou apenas pela rama, o acontecimento surge tão nítido quanto o nevoeiro da memória ainda permite. E lembram-se os que já partiram, os que não aparecem, os mais ousados, os tímidos, os habilidosos do desporto, os "chefes" que não permitiam que os "putos" pusessem pé em ramo verde.

- Já não vejo F. há tanto tempo ...

- Está muito em baixo. Acho que já pouco sai de casa.

Uns coxeiam, outros já aparecem amparados, os bailarinos, ainda que sempre animados, são cada vez menos e muitos acabam a dança sem a música terminar. O número dos que nunca mais estarão presentes vai subindo e tem colegas de turma, dos jogos, das brincadeiras. A vida!

A festa dura até ao final do dia. São já poucos os que se mantêm até ao apito do árbitro. A comida sobra, a bebida também, a conversa esgota-se.

- Vou andando. Estou cansado e quero ir ver o Benfica ...

- Tenho um compromisso. Para o ano há mais ...

E haverá. Infelizmente, já não irá ser para todos, mas continuará a valer a pena estar presente, mesmo que seja apenas para um caldinho ...

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Centenária

 A minha mãe faz(ia) hoje 100 anos. Para ela, uma Strelitzia Reginae, vulgarmente conhecida como Ave do Paraíso, de produção própria, e a música que enche sempre o coração.


domingo, 7 de maio de 2023

Primeira vez

- Estamos na Foz do Arelho. Nem calculas, isto é fantástico. Está um bocadinho de vento, mas é tudo lindo. Que maravilha!

A conversa, telefónica, pretendia retratar a alguém a satisfação e o espanto que estava a sentir, enquanto caminhava à beira da Lagoa. Era notório ser a primeira visita, bem pincelada com a descrição do que estava a ver e com a dificuldade de expressar o que estava a sentir. As sensações pareciam enormes e, a avaliar pelo tom de voz, o seu interlocutor devia ter o telemóvel afastado do ouvido, para não correr o risco de ver o tímpano perfurado. 

- O céu está lindo, o mar um espelho. E tudo azul, tão bonito. 

Apesar de haver nuvens no céu, duas ou três bem negras, a admiração era francamente entusiástica. O espelho de água era descrito como uma coisa nunca vista, sem nada comparável.

- O vento nem sequer é frio ... uma maravilha. Nunca tinha posto os olhos em alguma coisa semelhante!

A senhora continuava extasiada e excitada. Os adjectivos já iam faltando para a descrição completa que permitisse o entendimento do outro lado. Percebia-se que tinha sido desencadeada a inveja na outra pessoa, por não poder usufruir da beleza tão entusiasticamente explicitada.

- Eu disse-te ... não quiseste. Foi quanto perdeste.

Nada como a primeira vez. Depois, a gente habitua-se ...