segunda-feira, 5 de junho de 2023

Esforço e dedicação

Marcelo Rebelo de Sousa preocupado, como sempre, com o bem-estar de todos os portugueses, resolveu usar toda a sua influência e, num encontro fortuito e perfeitamente ocasional com os jornalistas, fez um veemente apelo à banca, pedindo um "esforçozinho" para que as taxas de juros dos depósitos sejam aumentadas. Podia ter feito uma chamada telefónica para os responsáveis máximos de cada banco, mas assim só gastou o "latim" uma vez e deu nota a toda a gente da sua preocupação.

A banca tremeu, reuniu, estudou, ponderou e decidiu, de imediato, o que não foi surpresa para ninguém: ficou tudo na mesma, mas tomaram boa nota das preocupações do PR. Quando precisarem de dinheiro, irão comprá-lo.

Entretanto, é expectável que o Presidente da República nomeie um grupo de trabalho que lhe forneça os elementos necessários às centenas de apelos que vai ter de fazer para que as grandes superfícies paguem mais aos agricultores, as gasolineiras vendam o combustível mais barato, os senhorios cobrem as rendas ao "preço da chuva", as construtoras diminuam o preço por metro quadrado, os táxis baixem as bandeiradas. 

Com um "esforçozinho" de todos, isto vai lá ...

domingo, 4 de junho de 2023

ORDEM

Há livros em vários locais da casa, espalhados pelos sítios mais inverosímeis aos olhos dos bem comportados e preocupados com a imagem. Estão começados, aguardam vez, esperam reunir condições para ocuparem o lugar que lhes compete e lhes está reservado numa das três enormes estantes que fazem parte da mobília.

A arrumação está a tornar-se, cada vez mais, um problema de difícil solução. As prateleiras estão repletas, com formatura em duas filas e, por vezes, algum atravessamento na parte superior. Procura-se a manutenção da ordem alfabética, para que a eventual necessidade de os encontrar dispense a consulta da base de dados. Livro terminado não é assunto arrumado; é problema complicado.

- Já não cabe aqui!

Muda-se o último para a prateleira seguinte, como forma de abrir o espaço necessário. Mas a seguinte também está completa e o mesmo se verifica com a seguinte. Existe um buraquinho lá ao fundo, mas isso implica alterar um montão de registos no computador.

- Que chatice!

O livro acaba por se aconchegar num espaço disponível, sem a preocupação da ordem, com a certeza de que, se a memória não funcionar, a consulta informática dá a localização precisa, qual GPS no carro.

No final, penso: quando deixar de comprar, reformulo tudo isto e a ordem alfabética regressa.

Será?

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Mercados

No mercado do peixe, os fiscais (2) e os vendedores (6), excediam largamente os clientes, confirmando que, a cada dia que passa, os habitantes preferem os hipermercados àquele estabelecimento, adaptado de propósito para melhorar as condições que, ao ar livre, se tinham tornado insuportáveis para todos. Os vendedores vão sendo cada vez menos e os clientes ... imitam-nos.

- O robalo é óptimo e fresquinho. As lulas são sensacionais, da nossa costa, a sardinha ainda está um bocadinho magra, mas tem cá um sabor ... e os jaquinzinhos, até me está a crescer água na boca só de os imaginar fritos, com um arrozinho ...

A peixeira, conhecida de há muito, não se cansa de elogiar o seu produto. Ninguém vende caro e sem qualidade, sabemos todos.

A praça da fruta, durante a semana, permite a circulação sem atropelos, o que se torna muito difícil ao sábado. Os vendedores são muitos mais e os clientes, incluindo os mirones, tornam uma aventura a circulação do carrinho das compras. Ainda bem que as férias, permanentes, permitem a ida a outro dia ...

- Só por curiosidade, diga-me quanto custa cada enfiada de pinhões?

- Um euro e meio. Eu sei que é caríssimo, mas olhe que dá muito trabalho. É preciso muito cuidado a partir o pinhão, muita habilidade para enfiar a agulha e a linha sem dar cabo dele ...

- E vende-se bem?

- Vai-se vendendo ...

O segredo é a alma do negócio e não querem lá ver o "caramelo" a querer saber tanto como eu, pensou ele, com um sorriso nos lábios.

Comprados os tremoços e deixados os pinhões, seguem-se os alperces, as cerejas, os brócolos, as maçãs, uma couve coração de boi (a vaca deve sentir-se discriminada), as flores para quem as merece e já não as pede, meia dúzia de cumprimentos a conhecidos, três queijinhos frescos ... e o carrinho começa a sentir dificuldade em deslocar-se. Ou serei eu?

Sabe sempre bem esta rotina, tanto mais que a chuva e o vendaval anunciados não fizeram a visita. Quando isso acontece, a maior parte diz cobras e lagartos da falta que faz um mercado fechado, mas há sempre quem riposte:

- Pois, mas é o único mercado diário aberto em toda a Europa!

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Palavras bonitas

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

(Para todas as crianças, que hoje comemoram o seu Dia Mundial) 

Obra Poética (Geografia)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2011)

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Tabagismo

Deixei de fumar em 31 de Outubro de 1995, depois de, durante quase trinta anos, ter poluído os meus pulmões e os dos outros, com a impetuosidade própria de quem achava, de forma egoísta, que, quando muito, aquilo faria mal só aos outros.

Sem quaisquer desculpas para o vício que me moldou a vida nesses largos anos, ainda permanece na retina um anúncio que a televisão, única e a preto a branco, passava na minha juventude: KART dá quilómetros de prazer! E eu fumei Kart, Sagres, Definitivos, Português Suave, SG Gigante, SG Ventil, SG Filtro, Sporting, Estoril, Sintra e muitos outros cujo nome já se varreu. Fumei em todo o lado: na rua, no trabalho, nos bares, nos restaurantes, em casa. Só o quarto e a cama nunca foram poluídos, que o respeitinho é muito bonito.

Permanece, ainda, a sensação de que, se voltasse a pegar num cigarro, correria de imediato a comprar um maço, para colocar no bolsinho interior do casaco, onde uma simples apalpadela dizia quantos cigarros por lá restavam e a maior ou menor urgência em adquirir mais. Se o vício se mantivesse, não imagino como reagiria às proibições, às regras, aos sítios fechados para "matar o vício", e concluo sempre que foi uma hora de sorte aquela que determinou a decisão de deixar.

Hoje é o Dia Mundial sem Tabaco, ainda que o tabaco não vá desaparecer tão depressa, mesmo com as leis que parecem estar a chegar, proibindo isto e aquilo, assim ou assado. O fruto proibido é sempre o mais apetecido.

O tabaco é um vício, faz mal a tudo e a todos e não traz, podem ter a certeza, nada de novo à personalidade e à felicidade de cada um, muito menos "dá quilómetros de prazer".

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Liberdades e garantias

A minha carta de condução foi obtida no dia a seguir à morte do Botas - 28.07.1970 -, num exame realizado em Santarém, depois de uma viagem com a sombra de ser "um passeio à senhora da asneira", como referia o instrutor e condutor do veículo que transportava os quatro candidatos.

- Se calhar, chegamos lá e não há exames, por causa da morte do Presidente do Conselho.

Não aconteceu assim e, apesar do comboio que transportava o féretro para Santa Comba Dão ter parado na estação de Santarém e os exames terem sido suspensos naqueles dez ou quinze minutos, todos se submeteram ao Código e às provas de condução. Dos quatro, o mais velho tirou passaporte para lá voltar no mês seguinte, para mostrar ao engenheiro que, afinal, sabia muito daquilo. Voltou a não conseguir "explicar-se" e, pelo menos enquanto o não perdi de vista, o papel manteve-se longe.

O Código da Estrada que aprendi já se perdeu, quer pelas muitas alterações entretanto introduzidas quer pela minha memória mais ou menos relapsa. Permanece muito pouco desse tempo, mas mantém-se viva a lembrança de que "antes de efectuar uma ultrapassagem, o condutor deve sempre certificar-se de que não há trânsito em sentido contrário e ter muita atenção para com o trânsito que circula na sua retaguarda."

O cuidado referido já foi "chão que deu uvas." Agora é a quem ultrapassa que cabe averiguar se, do lado direito, tudo se encontra dentro da normalidade. Corre sempre o risco de, num ápice, o pisca-pisca ser accionado e lhe surgir à frente um avantesma apressado, que o obriga a uma travagem de emergência e a dar-lhe a passagem a que tem todo o direito, como é público e notório.

- Faça favor. Está no seu direito ... eu é que estou a mais!

domingo, 28 de maio de 2023

Impertinências

"Já não se pode ser padre numa freguesia destas."

Talvez este aforismo, velho e relho, seja adequado ao que, diariamente, nos passa pelos olhos e pelos ouvidos. Paulatinamente, parece haver muita gente a tentar demonstrar que somos todos parvos e necessitamos de "bengalas" explicativas para que entendamos o que nos é oferecido. Pretendem ser a voz entendida, que colmata a nossa (in)capacidade de entendimento e à qual devemos ficar eternamente gratos, por se dignarem partilhar connosco a sabedoria apenas ao alcance de alguns.

Cada vez mais parece que o importante é o supérfluo, o mesquinho, a caricatura, o diz que disse e a minhoquice. O pior é que quem tem responsabilidades, coloca-se muitas vezes a jeito e contribui para que estes iluminados nos massacrem a pinha. 

- O Ministro Galamba telefonou-lhe ou não?

- O governo preocupa-se com o bem-estar dos portugueses, bla-bla-bla ...

- Mas é ou não verdade que o Ministro Galamba lhe telefonou?

- A economia tem vindo a crescer, tudo indica que o futuro vai ser melhor, bla-bla-bla ...

- Mas recebeu ou não uma chamada do Ministro Galamba?

- ...

- O Ministro telefonou-lhe ou não? Porque não responde?

E a saga continuou até que o Secretário de Estado pediu desculpa e se foi. A menina repórter completou o seu brilhante desempenho repetindo que o governante, apesar de várias vezes questionado, não tinha respondido à pergunta se tinha, ou não, recebido um telefonema do Ministro Galamba.

O país permanece, assim, na ignorância, em brasa, com o coração a palpitar e os nervos em franja, por uma pergunta tão importante para o futuro de todos nós não ter sido respondida. A ausência daquela resposta traz um prejuízo incalculável à vida de cada português, só comparável ao aumento dos grelos de nabo na praça das Caldas da Rainha.

sábado, 27 de maio de 2023

Efeméride

No dia em que se decidirá quem vai ser o novo Campeão Nacional de Futebol e ainda antes de ser conhecido o resultado que irá dar o 38º. título ao Sport Lisboa e Benfica, passam 36 anos de um dia inesquecível vivido em Viena de Áustria, onde assisti à primeira vitória do F.C. do Porto na Taça dos Campeões Europeus de Futebol, feito que só tinha sido alcançado nos distantes 1961 e 1962 pelo "Glorioso".

Foi uma viagem fantástica, cheia de peripécias. Talvez um dia se deixem por aqui, ajude o vagar e a memória o permita. Dois dos companheiros já partiram e o tempo, esse carrasco imperturbável, vai deixando marcas nos restantes cinco aventureiros que, em tempos de fronteiras, moedas diferentes, dificuldades muitas, não hesitaram e fizeram-se à estrada para uma faina de vários milhares de quilómetros. Tão novos e tão loucos ...

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Mau feitio

A tendência para ser do "contra" vem de há muitos, muitos anos, até talvez se possa dizer, sem exagero, desde o começo de ser gente. 

A primeira reacção perante um dado novo é sempre de dúvida, em busca de alguma coisa que esteja menos clara ou tenha sido esquecida. Talvez a idade e a experiência, em vez de atenuarem esta característica, a tenham vindo a acentuar ainda mais. Parece que os olhos e os ouvidos estão cada vez mais atentos ao que está mal e não valorizam, como é devido, o que é feito de forma correcta.

Aprendi, bem cedo, que quem se dirige a algum sítio para ser atendido, deve ser cumprimentado tão breve quanto possível, nem que seja com uma simples troca de olhares. Também me ensinaram que a delicadeza deve estar sempre presente e que, até prova em contrário, o cliente tem sempre razão.

Cada vez mais me complica com o sistema nervoso chegar a um sítio e encontrar as pessoas do balcão em amena cavaqueira, talvez importante, mas que nada tem a ver com o "cliente" acabadinho de chegar para ser atendido. A água ferve quando, passados uns largos momentos (uma eternidade para quem espera), um dos "conversadores" se lembra do que está ali a fazer e, delicado, delicia-nos:

- Você quer alguma coisa?

Apetece sair pela porta fora e dizer que só ali fui espreitar a sua cara. Conto até dez.

- Boa tarde, desculpe. Precisava que este documento fosse anulado, porque tem validade de 30 dias e não é possível utilizá-lo nesse prazo.

- Não sei se vai ser possível ... mas deixe ficar.

"Vitória, vitória, acabou-se a história!"

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...)Morriam as pessoas, morria a aldeia, morriam as memórias, os costumes e a história de uma aldeia, de um pequeno mundo que toda a vida fora dele. Sentia, por isso, ser seu dever fazer alguma coisa. E, já que não podia evitar aquelas mortes - as mortes dos que lhe eram queridos -, lembrou-se de fazer renascer a aldeia com outras pessoas. Não seria a mesma coisa, mas não era isso que acontecia a todos os lugares? E, se os que ali habitavam não tinham já idade para procriar, ele traria para aquele lugar quem estivesse ainda em condições de o fazer.

Primeirissimamente, havia que criar condições para as pessoas ali viverem, condições que atraíssem gente nova. E tal empreendimento passava por fazer de uma aldeia em ruínas uma aldeia habitável, hercúlea tarefa para um homem só. No entanto, porque sentia que lhe tinha sido confiada uma missão de importância capital para o mundo - para o mundo dele, para o mundo que conhecia -, deslocou-se Baiôa à sede do município por quatro vezes: a primeira, para falar com quem mandava, mas que só lhe serviu para ficar a saber como poderia tentar falar com quem mandava; a segunda, para devolver o requerimento de audiência; a terceira, dois meses e meio depois, para falar com o adjunto do vereador; a quarta e última vez, para levantar um documento, assinado pelo presidente da Câmara, no qual este declarava que, por entender o valor da empreitada a que o cidadão supranomeado se propunha, merecia da autarquia e dele próprio, enquanto respectivo governante, o maior dos apreços, desde logo por não possuir a autarquia verbas - tão pequena era a dotação que recebia do erário público - para ela própria executar tão necessários trabalhos, atribuindo-lhe pois um alvará provisório para a realização das obras de construção civil, e isentando-o de todas as burocracias e formalismos necessários à execução de trabalhos de conservação e de reconstrução, no âmbito do disposto no Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação, considerando-se assim devidamente instruído e comunicado o aviso de início dos trabalhos em todas as edificações dentro do perímetro urbano de Gorda-e-Feia, desde que cumprido nos referidos trabalhos um conjunto básico de normas previstas pelo Regime Geral das Edificações Urbanas e simplificadas pelo Regime Excecional de Reabilitação Urbana, nas redações então em vigor, tais como as respeitantes às fachadas e à volumetria das edificações, bem como todas as demais regras para intervenções consideradas de escassa relevância urbanística e identificáveis nos documentos em anexo, um conjunto de textos legais eficientemente sublinhados a marcador amarelo fluorescente, que tive oportunidade de ler e de ajudar Baiôa a reanalisar numa longa tarde de chuva, etc. (...)"

Baiôa sem data para morrer
Rui Couceiro
Porto Editora (2022)