Um novo mar entrou hoje na casa, agitado e rochoso, como para demonstrar, se tal fosse necessário, que a nossa costa não é só areia ...
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 13 de junho de 2023
segunda-feira, 12 de junho de 2023
Poda
A poda é uma actividade agrícola essencial para que as árvores e um grande número de plantas se desenvolvam harmoniosamente, cresçam nos limites e tenham melhor produção.
Ainda que sem qualquer intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa e bem antes de o Presidente ter dado ênfase a tão antigo mester, os pinheiros foram podados por quem "sabe da poda" e lá estão, brilhantes, viçosos, enormes, lindos. Vê-se a olho nu que adoraram a intervenção humana e até o seu porte tem agora um ar majestoso, talvez até aristocrático. Os pássaros gostam de por lá andar - corvos, melros, peneireiros, pintassilgos - o vento sussurra nas agulhas, as nuvens espreitam de cima e impedem que o Sol castigue muito. Lá bem no alto, o mundo é outro, até na forma como o clima se comporta.
Mas, como sempre, "não há bela sem senão": os ramos cortados ficaram espalhados por toda a extensão do pinhal e há necessidade de os apanhar, não só porque sim mas também por darem jeito à lareira, quando o inverno chegar. O trabalho é duro - apanha, corta, ensaca, transporta - tudo feito por "avenidas" cheias de socalcos e com inclinação acentuada.
A agricultura, para além de ser "a arte de empobrecer alegremente", puxa pelo cabedal a sério!
domingo, 11 de junho de 2023
Coexistência
Coelho e Rola: a convivência pacífica entre o mamífero e a ave, sem cartazes nem gritos, num entendimento perfeito.
Bem sei que é apenas o nome de uma embarcação e que a qualidade do fotógrafo deixa muito a desejar, tal como o diálogo que acontece nos humanos, por mais responsabilidades que tenham. Ainda ontem, sem "Peso" nem "Régua", alguns "educadores" gritaram bem alto a sua falta de educação, que se espera não seja o cartão de visita profissional.
sábado, 10 de junho de 2023
10 de Junho
Comemora-se hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Depois do início na África do Sul, as cerimónias oficiais decorreram no Peso da Régua, confirmando-se que o interior, tantas vezes esquecido, também tem direito à festa e sobre ela manifestou grande carinho e orgulho.
Para além dos desfiles próprios da ocasião, num tempo de guerra em que, por cá, ainda se limpam armas, houve os discursos de circunstância, com Marcelo a apelar à "poda das árvores" numa terra de cepas. Também se assistiu à sofreguidão costumeira de quem dá notícias, na procura dos protestos dos professores, dos assobios ao (ainda) Ministro Galamba, dos comentários do líder da oposição sobre a carta escrita e a resposta recebida.
O dia, que já foi da raça de má memória, vai terminar sem que o Peso da Régua se faça sentir sobre quem se porta mal. Felizmente, o tempo dela já passou há muito. Nos entretantos, alguns professores em protesto portaram-se francamente mal, deixando a turma perplexa. Quem dirigia a "aula" não teve a capacidade de corrigir e manter o nível.
quinta-feira, 8 de junho de 2023
Livros (lidos ou em vias disso)
Lealdade invisível
(...) No País de Gales, o turismo, divisa ou fachada de quase todos os países da actualidade, já se encontra em grande medida nas mãos dos ingleses, desde o pub ao hotel supostamente sofisticado (mas não muito, na verdade). São poucas as lojas de bairro que não fecharam. Metade dos postos de correios estão nas mãos de ingleses. E a imensa vaga de famílias inglesas que para aqui vem faz com que até as escolas, de cujo programa a língua galesa faz parte, fiquem mais ameranglicizadas a cada período que passa - pois por cada criança que para cá vem e se torna galesa, meia dúzia de crianças que sabem falar galês já não usam a nossa língua no recreio. Todos os dias do ano há mais umas centenas de casas das zonas rurais galesas que são vendidas a ingleses por preços que muito poucos galeses do campo poderiam pagar, muitas vezes para se transformarem em cabeça de ponte de corrosão cultural.
Quanto a mim, meio galesa e meio inglesa, não sou certamente nenhuma racista, e só por pouco me considero nacionalista, pois já não acredito em nacionalidades, nem na porcaria do Estado-Nação. No entanto, sou uma culturalista e parece-me que, infelizmente, os povos têm de alcançar a condição de estado para preservarem o seu próprio ser. Na minha opinião, seria uma tragédia medonha se os pequenos povos como o nosso desaparecessem realmente do mapa - não do mapa geográfico, o que provavelmente não acontecerá no próximo milhão de anos ou assim, mas do mapa político, o que pode acontecer a qualquer momento.
Mas atrevo-me a dizer que aqueles cartógrafos do Compêndio Estatístico do Eurostat estariam a expressar subconscientemente uma verdade quando relegaram o País de Gales ao esquecimento. De certa forma, o nosso país já é invisível ou, pelo menos, oculto. <<Assim que entrámos no pub>>, dizem os ingleses que gostam de contar histórias quando voltam para casa, <<aquela gente desatou a palrar em galês.>> Que disparate. Já estavam a palrar em galês muito antes de lá entrar, meu senhor, muito antes de os seus antepassados atravessarem o Severn e pode acreditar que continuarão a palrar quando se for embora.
Assim será porque muita da cultura galesa é privada. (...)"
terça-feira, 6 de junho de 2023
Selos
Estavam há alguns anos em hibernação, por falta de pachorra e também alguma desmotivação. As rotinas, por vezes, quebram-se e depois não é fácil retomar.
Na semana passada, uma conversa com um amigo despertou a lembrança e eis-me a verificar o estado dos selos guardados com tanto carinho e que, por certo, já tinham estranhado a ausência e a falta de mimo.
As colecções nunca estão terminadas, têm sempre algo a rever e a modificar e dão uma trabalheira danada.
Assim, a tarde passou a correr e nem deu para preocupações com as audiências dos casos e casinhos. Valeu a pena. A satisfação final até faz esquecer o tempo ... ganho.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
Esforço e dedicação
Marcelo Rebelo de Sousa preocupado, como sempre, com o bem-estar de todos os portugueses, resolveu usar toda a sua influência e, num encontro fortuito e perfeitamente ocasional com os jornalistas, fez um veemente apelo à banca, pedindo um "esforçozinho" para que as taxas de juros dos depósitos sejam aumentadas. Podia ter feito uma chamada telefónica para os responsáveis máximos de cada banco, mas assim só gastou o "latim" uma vez e deu nota a toda a gente da sua preocupação.
A banca tremeu, reuniu, estudou, ponderou e decidiu, de imediato, o que não foi surpresa para ninguém: ficou tudo na mesma, mas tomaram boa nota das preocupações do PR. Quando precisarem de dinheiro, irão comprá-lo.
Entretanto, é expectável que o Presidente da República nomeie um grupo de trabalho que lhe forneça os elementos necessários às centenas de apelos que vai ter de fazer para que as grandes superfícies paguem mais aos agricultores, as gasolineiras vendam o combustível mais barato, os senhorios cobrem as rendas ao "preço da chuva", as construtoras diminuam o preço por metro quadrado, os táxis baixem as bandeiradas.
Com um "esforçozinho" de todos, isto vai lá ...
domingo, 4 de junho de 2023
ORDEM
Há livros em vários locais da casa, espalhados pelos sítios mais inverosímeis aos olhos dos bem comportados e preocupados com a imagem. Estão começados, aguardam vez, esperam reunir condições para ocuparem o lugar que lhes compete e lhes está reservado numa das três enormes estantes que fazem parte da mobília.
A arrumação está a tornar-se, cada vez mais, um problema de difícil solução. As prateleiras estão repletas, com formatura em duas filas e, por vezes, algum atravessamento na parte superior. Procura-se a manutenção da ordem alfabética, para que a eventual necessidade de os encontrar dispense a consulta da base de dados. Livro terminado não é assunto arrumado; é problema complicado.
- Já não cabe aqui!
Muda-se o último para a prateleira seguinte, como forma de abrir o espaço necessário. Mas a seguinte também está completa e o mesmo se verifica com a seguinte. Existe um buraquinho lá ao fundo, mas isso implica alterar um montão de registos no computador.
- Que chatice!
O livro acaba por se aconchegar num espaço disponível, sem a preocupação da ordem, com a certeza de que, se a memória não funcionar, a consulta informática dá a localização precisa, qual GPS no carro.
No final, penso: quando deixar de comprar, reformulo tudo isto e a ordem alfabética regressa.
Será?
sexta-feira, 2 de junho de 2023
Mercados
No mercado do peixe, os fiscais (2) e os vendedores (6), excediam largamente os clientes, confirmando que, a cada dia que passa, os habitantes preferem os hipermercados àquele estabelecimento, adaptado de propósito para melhorar as condições que, ao ar livre, se tinham tornado insuportáveis para todos. Os vendedores vão sendo cada vez menos e os clientes ... imitam-nos.
- O robalo é óptimo e fresquinho. As lulas são sensacionais, da nossa costa, a sardinha ainda está um bocadinho magra, mas tem cá um sabor ... e os jaquinzinhos, até me está a crescer água na boca só de os imaginar fritos, com um arrozinho ...
A peixeira, conhecida de há muito, não se cansa de elogiar o seu produto. Ninguém vende caro e sem qualidade, sabemos todos.
A praça da fruta, durante a semana, permite a circulação sem atropelos, o que se torna muito difícil ao sábado. Os vendedores são muitos mais e os clientes, incluindo os mirones, tornam uma aventura a circulação do carrinho das compras. Ainda bem que as férias, permanentes, permitem a ida a outro dia ...
- Só por curiosidade, diga-me quanto custa cada enfiada de pinhões?
- Um euro e meio. Eu sei que é caríssimo, mas olhe que dá muito trabalho. É preciso muito cuidado a partir o pinhão, muita habilidade para enfiar a agulha e a linha sem dar cabo dele ...
- E vende-se bem?
- Vai-se vendendo ...
O segredo é a alma do negócio e não querem lá ver o "caramelo" a querer saber tanto como eu, pensou ele, com um sorriso nos lábios.
Comprados os tremoços e deixados os pinhões, seguem-se os alperces, as cerejas, os brócolos, as maçãs, uma couve coração de boi (a vaca deve sentir-se discriminada), as flores para quem as merece e já não as pede, meia dúzia de cumprimentos a conhecidos, três queijinhos frescos ... e o carrinho começa a sentir dificuldade em deslocar-se. Ou serei eu?
Sabe sempre bem esta rotina, tanto mais que a chuva e o vendaval anunciados não fizeram a visita. Quando isso acontece, a maior parte diz cobras e lagartos da falta que faz um mercado fechado, mas há sempre quem riposte:
- Pois, mas é o único mercado diário aberto em toda a Europa!
quinta-feira, 1 de junho de 2023
Palavras bonitas
ESTA GENTE
Esta gente cujo rostoàs vezes luminosoE outras vezes toscoOra me lembra escravosOra me lembra reisFaz renascer meu gostoDe luta e de combateContra o abutre e a cobraO porco e o milhafrePois a gente que temO rosto desenhadoPor paciência e fomeÉ a gente em quemUm país ocupadoEscreve o seu nomeE em frente desta genteIgnorada e pisadaComo a pedra do chãoE mais do que a pedraHumilhada e calcadaMeu canto se renovaE recomeço a buscaDe um país libertoDe uma vida limpaE de um tempo justo(Para todas as crianças, que hoje comemoram o seu Dia Mundial)Obra Poética (Geografia)Sophia de Mello Breyner AndresenCaminho (2011)

