segunda-feira, 19 de junho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

 "(...) Descendo a Avenida Infante Santo, recuei ao dia da segunda TAC, ao ponto da estrada em que disse, com desassombro, que não ia durar muito. O movimento era então ascendente. Agora, a minha voz, a minha casa, a minha energia eram de verão. Já se via o rio ao fundo quando contraste um dia com o outro.

Almoço na esplanada. Primeira ida ao restaurante em quatro meses. Quase não comemos. Quis beber Água das Pedras. 

Bruscamente, uma saturação de estar ali. Não pude suportar um calor que intumescia os dedos das mãos, dos pés, os tornozelos, nem a prostração do suor, o corpo a empapar por dentro. 

Afirmei com segurança, como quem compreende um problema difícil, que preciso de aprender a viver com um corpo novo. O meu corpo deste verão não é o mesmo corpo do verão passado, e todos os problemas dos verões passados continuam a viver comigo, são agora potenciados. (...) "

O quarto do bebé
Anabela Mota Ribeiro
Quetzal (2023)

domingo, 18 de junho de 2023

Feras

O mar, calmo, se o termo de comparação for o da Foz do Arelho. Para muita gente, são ondas a mais e a água pelo joelho já pode ser perigosa. O mar é traiçoeiro e todo o cuidado é pouco...

O "leão da Tanzânia" é um desses. Passeia pela borda, exibe o cabedal, pavoneia-se, olha em volta, mira esta, espreita aquela, põe os óculos, tira os óculos, passa o pente, que traz no bolso dos calções, sempre a jeito para qualquer eventualidade. De repente pode surgir uma admiradora que não goste do despenteio.

A criança, que segura o baldinho com água para fazer o castelinho, pisou a toalha e por lá deixou alguma areia molhada que trazia agarrada aos pézitos. O "leão" fulminou-a com o olhar e não teve tempo de abrir a boca. O pai da criança, atento, pediu desculpa e não lhe deu hipótese de barafustar.

Limpou a pouca areia, sentou-se de novo e lá continuou a tarefa de conquistador sem castelo por perto. O almoço já deve estar preparado e são horas de partir.

Lá foi, sempre muito preocupado com o cabelo e com o estilo. A água, teimosa, não lhe passou cartão!

sábado, 17 de junho de 2023

Modernices

Isto anda tudo mudado...

A semana começa ao sábado, violando tudo o que estava ancestralmente estabelecido. Ainda por cima, vai ser dedicada ao ócio e ao lazer, sem horários nem compromissos e a remuneração chegará dentro do prazo normal, como convém e é fundamental que se mantenha!

Mudanças, sim, mas não em tudo... 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Viagens

Quase todos os dias me confronto com a frase, já por aqui citada várias vezes, do professor Dragomir Knapic, que me deu aulas nos idos de setenta do século passado: "Quanto mais sei, maior é a minha ignorância". E confirmo-a, sempre, cada vez mais desiludido ou, melhor, mais consciente.

As demissões, as comissões de inquérito, os comentários dos "tudólogos" e as opiniões, sempre claras e assertivas, do mais alto magistrado na Nação, alertam-me para a degradação da minha capacidade interpretativa e obrigam-me a constatar a diminuição, vertiginosa, dos neurónios que permitem o acesso ao entendimento.

As notícias de ontem informaram que a Top Atlântico, na sua qualidade de agência organizadora da viagem de Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique, assumiu o pedido de alteração da data do regresso do Presidente, sem que ninguém lho tivesse pedido e apenas com a preocupação, suprema, de facilitar a agenda do Presidente.

Parecendo-me desde logo estranho que a agência de viagens saiba os condicionalismos da agenda, fico apreensivo e a pensar que, se fosse comigo, correria o risco de não ter ninguém à minha espera no aeroporto, por o regresso acontecer antes da data programada, sem o meu conhecimento e consentimento.

Assim sendo, como confiar numa agência que se permite tentar alterar a data do regresso do Presidente da República sem lhe "passar cartão" ou "dar cavaco", transportando situação idêntica para um ser vulgar de Lineu que, ainda por cima, nunca passará de um "cliente da treta".

terça-feira, 13 de junho de 2023

Mares

Um novo mar entrou hoje na casa, agitado e rochoso, como para demonstrar, se tal fosse necessário, que a nossa costa não é só areia ...

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Poda

A poda é uma actividade agrícola essencial para que as árvores e um grande número de plantas se desenvolvam harmoniosamente, cresçam nos limites e tenham melhor produção.

Ainda que sem qualquer intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa e bem antes de o Presidente ter dado ênfase a tão antigo mester, os pinheiros foram podados por quem "sabe da poda" e lá estão, brilhantes, viçosos, enormes, lindos. Vê-se a olho nu que adoraram a intervenção humana e até o seu porte tem agora um ar majestoso, talvez até aristocrático. Os pássaros gostam de por lá andar - corvos, melros, peneireiros, pintassilgos - o vento sussurra nas agulhas, as nuvens espreitam de cima e impedem que o Sol castigue muito. Lá bem no alto, o mundo é outro, até na forma como o clima se comporta. 

Mas, como sempre, "não há bela sem senão": os ramos cortados ficaram espalhados por toda a extensão do pinhal e há necessidade de os apanhar, não só porque sim mas também por darem jeito à lareira, quando o inverno chegar. O trabalho é duro - apanha, corta, ensaca, transporta - tudo feito por "avenidas" cheias de socalcos e com inclinação acentuada.

A agricultura, para além de ser "a arte de empobrecer alegremente", puxa pelo cabedal a sério!

domingo, 11 de junho de 2023

Coexistência

Coelho e Rola: a convivência pacífica entre o mamífero e a ave, sem cartazes nem gritos, num entendimento perfeito.

Bem sei que é apenas o nome de uma embarcação e que a qualidade do fotógrafo deixa muito a desejar, tal como o diálogo que acontece nos humanos, por mais responsabilidades que tenham. Ainda ontem, sem "Peso" nem "Régua", alguns "educadores" gritaram bem alto a sua falta de educação, que se espera não seja o cartão de visita profissional.

sábado, 10 de junho de 2023

10 de Junho

Comemora-se hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Depois do início na África do Sul, as cerimónias oficiais decorreram no Peso da Régua, confirmando-se que o interior, tantas vezes esquecido, também tem direito à festa e sobre ela manifestou grande carinho e orgulho.

Para além dos desfiles próprios da ocasião, num tempo de guerra em que, por cá, ainda se limpam armas, houve os discursos de circunstância, com Marcelo a apelar à "poda das árvores" numa terra de cepas. Também se assistiu à sofreguidão costumeira de quem dá notícias, na procura dos protestos dos professores, dos assobios ao (ainda) Ministro Galamba, dos comentários do líder da oposição sobre a carta escrita e a resposta recebida.

O dia, que já foi da raça de má memória, vai terminar sem que o Peso da Régua se faça sentir sobre quem se porta mal. Felizmente, o tempo dela já passou há muito. Nos entretantos, alguns professores em protesto portaram-se francamente mal, deixando a turma perplexa. Quem dirigia a "aula" não teve a capacidade de corrigir e manter o nível.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

Lealdade invisível

(...) No País de Gales, o turismo, divisa ou fachada de quase todos os países da actualidade, já se encontra em grande medida nas mãos dos ingleses, desde o pub ao hotel supostamente sofisticado (mas não muito, na verdade). São poucas as lojas de bairro que não fecharam. Metade dos postos de correios estão nas mãos de ingleses. E a imensa vaga de famílias inglesas que para aqui vem faz com que até as escolas, de cujo programa a língua galesa faz parte, fiquem mais ameranglicizadas a cada período que passa - pois por cada criança que para cá vem e se torna galesa, meia dúzia de crianças que sabem falar galês já não usam a nossa língua no recreio. Todos os dias do ano há mais umas centenas de casas das zonas rurais galesas que são vendidas a ingleses por preços que muito poucos galeses do campo poderiam pagar, muitas vezes para se transformarem em cabeça de ponte de corrosão cultural.

Quanto a mim, meio galesa e meio inglesa, não sou certamente nenhuma racista, e só por pouco me considero nacionalista, pois já não acredito em nacionalidades, nem na porcaria do Estado-Nação. No entanto, sou uma culturalista e parece-me que, infelizmente, os povos têm de alcançar a condição de estado para preservarem o seu próprio ser. Na minha opinião, seria uma tragédia medonha se os pequenos povos como o nosso desaparecessem realmente do mapa - não do mapa geográfico, o que provavelmente não acontecerá no próximo milhão de anos ou assim, mas do mapa político, o que pode acontecer a qualquer momento.

Mas atrevo-me a dizer que aqueles cartógrafos do Compêndio Estatístico do Eurostat estariam a expressar subconscientemente uma verdade quando relegaram o País de Gales ao esquecimento. De certa forma, o nosso país já é invisível ou, pelo menos, oculto. <<Assim que entrámos no pub>>, dizem os ingleses que gostam de contar histórias quando voltam para casa, <<aquela gente desatou a palrar em galês.>> Que disparate. Já estavam a palrar em galês muito antes de lá entrar, meu senhor, muito antes de os seus antepassados atravessarem o Severn e pode acreditar que continuarão a palrar quando se for embora.

Assim será porque muita da cultura galesa é privada. (...)"

Alegorizações
Jan Morris

terça-feira, 6 de junho de 2023

Selos

Estavam há alguns anos em hibernação, por falta de pachorra e também alguma desmotivação. As rotinas, por vezes, quebram-se e depois não é fácil retomar.

Na semana passada, uma conversa com um amigo despertou a lembrança e eis-me a verificar o estado dos selos guardados com tanto carinho e que, por certo, já tinham estranhado a ausência e a falta de mimo.

As colecções nunca estão terminadas, têm sempre algo a rever e a modificar e dão uma trabalheira danada. 

Assim, a tarde passou a correr e nem deu para preocupações com as audiências dos casos e casinhos. Valeu a pena. A satisfação final até faz esquecer o tempo ... ganho.