quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Percentagens

Era mais uma das habituais reuniões mensais, para análise dos resultados alcançados, em confrontação directa com os objectivos definidos para o ano em curso. Nelas, era apresentado um quadro com os resultados - o PowerPoint estava a dar os primeiros passos - e cada um comentava os seus, ensaiava justificações para o que ficara por realizar, enfatizava o que tinha acontecido de bom. O PowerPoint dava suporte visual e colorido, sendo o verde a esperança e a satisfação de todos.

Naquela reunião iriam, pela primeira vez, ser apresentados os resultados obtidos pelo contact center, contratado recentemente em outsourcing. O seu objectivo era contactar diariamente, via telefone, todos os clientes com prestações em atraso e assim, com a pressão, obter a regularização integral ou parcial do crédito vencido.

A conversa de apresentação foi novidade para todos e decorreu de forma eloquente, não deixando margem para dúvidas: são "sabões". O arrazoado foi extenso, as justificações, claras, a concretização definitiva e sem peias. O PowerPoint suportava os discursos e registava, a verde Bold, que havia sido conseguido sucesso em 99% dos telefonemas efectuados.

- Mas o valor do vencido não desceu ... murmurou-se à boca pequena, observação que, apesar de sussurrada, deve ter sido escutada ou imaginada no palco. A resposta, esclarecida, não tardou:

- A percentagem indicada diz respeito às chamadas atendidas. Se pagaram ou não, já não é connosco. 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

A escada do humor

Com a devida vénia, muito respeito pelo autor e sem pagar direitos ao dito, transcrevo, uma vez mais, a crónica, diária, que Miguel Esteves Cardoso mantém no jornal Público.

" O INTER-IDADES PARA O PORTO

     Quando eu tinha 27 anos e me davam 30, protestava violentamente: "Calma aí! Não tenho 30, só tenho 27!" Quando tinha 38 e me davam 40, ainda era pior: "Quais 40?! Quarenta tinha a tua tia. Fica sabendo que só tenho 38!"

     Aos 47, quando começaram a atribuir-me a idade caluniosa de 50 anos, até tremi de raiva: "Ainda sou um quarentão! Deixa-me em paz! Vai morrer longe!" E dez anos depois, quando cheguei aos 58, lá estavam os caluniadores outra vez ao ataque, dando-me sessentas sem mais nem menos: "Sessenta? Estão malucos ou quê? Ainda não tenho 60! Sou só um jovenzinho de 58!"

     Agora tenho 68 e estranho que ainda não me deem 70. Se calhar, já estou tão velho que passei essa barreira, e entrei no mundo mentiroso dos elogiozinhos de lar da terceira idade: "Ele hoje está muito bonito! Foi ele que escolheu as calças, não foi? E calçou os sapatos sozinho, não calçaste?"

     Mas, caso alguém esteja prestes a dar-me 70 anos, está bem, pronto, já aprendi a minha lição. As piores armadilhas são aquelas que nós próprios nos encarregamos de montar. Aquilo que nos envelhece escusadamente não é a prontidão dos outros para nos fazer mais velhos do que somos. É a veemência com que negamos ser de uma idade que estamos mesmo à beira de atingir.

     Disse mal dos trintas? Mais me agarrei aos trintas. Eram muito piores do que os vintes, mas era o que havia. Amaldiçoei os quarentas? Mais malditos foram os meus quarentas. E assim sucessivamente.

     É como ir no Inter-Idades de Lisboa ao Porto, em que, depois de nascer em Lisboa, os 10 anos são Vila Franca, 20 anos são Santarém, 30 são Entroncamento, 40 são Pombal, 50 são Alfarelos, 60 são Coimbra, 70 são Aveiro, 80 são Espinho, 90 são Gaia e a morte é o Porto.

     A Pampilhosa ficou de fora para que se faça dela o que quiserem.

     Já que vamos todos a caminho do Porto, parando nas estações todas, faz algum sentido protestar que ainda não chegámos a Alfarelos? Que bom seria poder ficar sempre em Alfarelos!"

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Livros

Os livros, tenho a certeza, têm inúmeras utilidades, sendo uma delas - não sei bem se a principal - o de serem lidos, embora as gentes que estudam estas coisas, digam que são cada vez menos os que perdem tempo com isso.

Cá pela Casa, paradeiro de muitos desde sempre, os livros são, nas últimas semanas, uma ocupação diária não apenas para a leitura que sempre foi rotina, mas para uma nova arrumação. Os espaços que lhes são destinados não esticam e a ordem, apesar do suporte informático, é essencial para nos entendermos (eu e eles).  Passá-los de um lado para o outro permite, para além do manuseamento que, por vezes, não acontecia há anos, passar o pano do pó,

- já nem me lembrava deste ...

(re)ler o princípio ou o fim, ou ambos, intercalado por uma página "ao calhas". A tarefa está muito longe de ser concluída, mas ... qual é a pressa? Uma pequena alteração na ordem, o intercalar de mais um que estava ausente, um outro que regressou, provoca a desordem total e obriga a mais trabalho.

E para quê?

Porque dá gozo, traz recordações e transmite-lhes o conforto de se saberem lembrados, o que, para quem não fala e convive sem se manifestar, não deverá ser despiciendo.

Apesar do muito trabalho já desenvolvido, ainda não encontrei nenhum envelope com dinheiro, o que, como eu esperava, me diferencia claramente do outro e me garante que o Ministério Público, em princípio, não passará por cá para colaborar na (des)arrumação.

As eleições estão marcadas para 10 de Março do próximo ano e, até lá, ou muito me engano ou os resultados das investigações em curso não verão a luz do dia. 

É muito mais fácil arrumar livros ... 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Novos tempos

"(...) Cesse tudo quanto a antiga musa canta,
que outro valor mais alto se alevanta. (...)"
Os Lusíadas - Luís de Camões

Acabaram as notícias e as imagens das guerras. Num ápice, tudo se alterou e as atenções viraram-se para o pedido de demissão do Primeiro Ministro António Costa, que o Presidente da República aceitou de imediato.

Sobre António Costa recaem suspeitas da prática de ilícitos criminais e tráfico de influências, no âmbito da exploração do lítio e do hidrogénio, que levaram à detenção de personalidades que lhe são próximas, de entre as quais se destaca o seu Chefe de Gabinete.

A Procuradoria- Geral da República, o Ministério Público e a PSP (?) irão investigar com a habitual celeridade e eficiência, e apresentar as provas irrefutáveis que, quase de certeza, se encontram já disponíveis e bem guardadas.

Aguardemos, sentados, os capítulos seguintes da novela que hoje teve a sua estreia e que terá, nos próximos capítulos, as eleições antecipadas. 

Felizmente, serão as cruzes dos eleitores a determinarem as caras que virão a seguir.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Ecos

Como se uma não bastasse, agora são duas as guerras que abrem telejornais, preenchem primeiras páginas e, vejam só, alimentam a verve do nosso Marcelo que, apesar do imenso trabalho, ainda consegue dar um saltinho à manifestação e opinar em grande.

O fim destas catástrofes não se vislumbra, ainda que muitos milhares já o tenham sentido e sofrido. O  diálogo é coisa que não existe, apesar de toda a gente falar inglês fluentemente. 

Procura-se, analisa-se, opina-se, acontecem cimeiras, e nada. 

Como sempre, quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão mais pequenino que o grande nada com facilidade para fora da zona perigosa.

Talvez a solução apareça quando os americanos decidirem se querem ser mandados pelo mais velho ou pelo mais tonto!

domingo, 5 de novembro de 2023

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

Crónica datada de Setembro de 1946, certamente por lapso ou descuido. Poderia e deveria ser Outubro de 2023. 

LOUVAÇÃO

Já escrevi sobre isso: mas a coisa me impressionou, e além do mais ainda não recebi os jornais, são seis e quarenta, e Chico Brito combinou de passar com o Cavalcanti às oito horas para irmos às enchovas. Se começar a procurar assunto, acabo perdendo a pescaria. E acontece que há pouco, quando acordei, eu estava sonhando com isso. Via um homem de avental e touca, como se fosse um sacerdote, mas um sacerdote em paramentos brancos de padeiro. E ele erguia à luz um pequeno pão branco. A luz era a mesma luz de meu quarto, um raio de sol fraco e louro: e o pequeno pão brilhava como hóstia e o homem dizia: "É puro, é puro."

O jornal deu esse caso do padeiro de Brás de Pina que foi autuado por estar fabricando pão com farinha de trigo pura. Entende-se que a Prefeitura tem razão. Temos pouco trigo - e precisamos misturá-lo. O padeiro será punido, mas que ele ouça este canto matinal em seu favor.

Glória a ti, padeiro de Brás de Pina, padeiro do pão puro.

Entre o falso leite, a falsa arte, a falsa crítica de arte, o falso dinheiro do governo, a falsa palavra do político; entre a falsa democracia - glória a ti. Mergulhamos no frenesi das falsificações; nossos panos são de falsos tecidos, os sapatos de falso couro, as garrafas de falsa bebida, as palavras de falsa moral. Há orquestras tocando falsas músicas e oradores com a voz embargada, pela falsa emoção; e o chefe de Polícia resolve punir falsos crimes. Os partidos fazem uma falsa coalizão ou se colocam em falsa oposição ou hipotecam falso apoio; e todos comem falsa manteiga, bebem água de falsa pureza e tomam falsos banhos sem água. De tudo isso nos queixamos aos falsos amigos; e todos nos fazem falsas promessas, e nos oferecemos falsos banquetes; quando tudo piora, o povo nas ruas promove falsos distúrbios, quebrando falsos artigos de falsos comerciantes.

Tu, só tu, fazes o puro pão. Às escondidas, nesta cidade pecaminosa; contra as posturas municipais e contra os costumes; é aí, na penumbra de Brás de Pina, que formas a tua massa pura e a levas ao forno de verdadeiro fogo do ideal, ao fogo do teu coração. Glória a ti, verdadeiro padeiro, último preparador da branca hóstia da verdade eterna e terrena do pão dos homens: glória a ti.

Sim, glória ao padeiro que acredita no pão. Não acreditam na paz os homens que a fazem; até a guerra a fizeram sem acreditar. Glória a ti, padeiro que fazes pão.

Rubem Braga
Desculpem tocar no assunto
Tinta da China (2023)

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Limpinho

Uns dias fora do ambiente oestino deram para relaxar, estar com amigos, comer diferente, dormir em cama nova, acordar cedo sem vento nem nuvens, dar uns mergulhos logo pela manhã (antes da "invasão" dos limos), andar na água sem os artelhos se queixarem da temperatura.

O sítio da estadia era bonito, agradável, sossegado, óptimo para recuperar forças e não pensar em problemas. Nestas experiências, confirmo sempre uma ideia de há longos anos: tenho feitio para estar de férias. Ainda para mais, num sítio cuidado, limpo e bem arranjado. Agradou-me sobremaneira a preocupação com a limpeza, expressa no cuidado que toda a gente envolvida nela colocava, e no aviso, afixado em vários sítios, bem visível para todos os frequentadores:

" Sr. Cão: por favor apanhe os seus cócós. Se não for capaz, chame o seu dono."

Faz tanta falta um aviso destes pelas ruas desta cidade ... 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Inveja

Palram pega e papagaio ...


Está poisada no passadiço, logo pela manhã, ainda o sol mal despontou no horizonte. Altiva, desligada de tudo que se passa à volta, olha ao longe e não quer reparar em quem se aproxima. A cabeça não se move na direcção de quem está quase, quase a chegar-lhe. Parece não ver. Não dá quaisquer sinais de susto ou de receio. Tudo lhe passa ao lado e ao largo. 

Quando se julga que vai ser desta que fará guarda de honra aos veraneantes, levanta voo, rápida, e interna-se na vegetação dunar. Desaparece completamente. Por mais esforço que os olhos façam, não se vislumbram aquelas penas negras debruadas a branco, num conjunto harmonioso e raro. Sabe-se que está ali bem perto. Ouve-se o palrar de várias, que já se tinham precavido dos visitantes indesejáveis. A cena repetiu-se várias vezes. Nada garante que a pega rabuda fosse a mesma, mas que parecia ser, parecia.

A caminhada, prévia ao mergulho no oceano sempre agradável  ainda que, vezes demais, impregnado de algas inoportunas, tornava-se mais apetecível e motivadora quando se descortinava, lá ao fundo, a sua pose altaneira e se apreciava, invejando, a capacidade de aguentar, sem pestanejar nem tremer, as vozes, os delírios, as inconveniências, os dislates e os disparates do mundo que a rodeia.

Deve ser bom ser pega, rabuda e a preto e branco.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Por vezes é difícil explicar por que razão algumas pessoas de repente fazem as coisas que fazem. Às vezes, claro está, é porque sabem que vão acabar por as fazer mais cedo ou mais tarde, e portanto mais lhes vale fazê-las o quanto antes. E outras vezes é precisamente o contrário porque se apercebem de que deveriam tê-las feito há muito tempo. Ove provavelmente já sabia desde o início o que tinha de fazer, mas todas as pessoas são, no fundo, otimistas em relação ao tempo. Achamos sempre que teremos tempo suficiente para fazer coisas com as outras pessoas. Tempo para lhes dizer coisas. E depois, de repente, um imprevisto acontece e ficamos agarrados aos "ses".

(...) Às vezes é difícil explicar por que razão algumas pessoas de repente fazem as coisas que fazem. (...)

Um homem chamado Ove
Frédéric Backman
Porto Editora (2023)