sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Realidade ou ficção

Havendo informação sem censura (até quando?), vamos sabendo o que se passa no país, e no mundo, e podemos, por nós próprios, aquilatar a licitude e a verdade dos factos, fazendo a nossa análise sem recorrer aos "analistas" que todos os dias nos "invadem" a casa sem pedir autorização.

Ontem vimos um filme de "cowboys", rodado na Rua do Benformoso, no qual os "cowboys" encostam os "índios" à parede, de mãos bem levantadas e pernas bem abertas, para que a revista decorra com a pompa securitária que o "povo" reclama. Encontraram uma faca ...

Noutros tempos, naquela mesma rua, passava a rusga e a "ramona" levava toda a gente - homens e mulheres - para o Governo Civil, onde os esperava uma noite para mais tarde recordar. Ficavam os proxenetas que, à época, o calão apelidava de chulos. Estes mantinham excelentes relações com a autoridade e sabiam que o negócio prosseguiria no dia seguinte. Ontem não foram para o Governo Civil (já não existe) mas os "índios" foram bem avisados (em que língua?) e enxovalhados. E os proxenetas?

Andaremos à nora ou os alcatruzes estão a recuperar águas de antanho?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve ... que fazer?

Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer ...

Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo primeiro dediquei uma hora.

Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo ...

Tomai lá do O'Neill
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Língua

Concluo, muitas vezes, que estaria na hora de voltar às aulas de Português, se a saudosa Doutora Elvira pudesse voltar a ministrá-las e a reforçar-me, se necessário fosse, o gosto pela língua, do vocabulário à ficção, da leitura de prosa ou de poesia e, sobretudo, dos cuidados a ter com a escrita e com a fala.

- Se não há certezas, não escrevam nem digam. Vão procurar saber a forma correcta antes de dizerem ou escreverem asneiras.

Procurei seguir sempre o sábio conselho.

Hoje fui, uma vez mais, surpreendido com a minha ignorância. De acordo com a Sic Notícias, um autocarro sem condutor desgovernou-se e albarroou um táxi que se encontrava estacionado junto à Gare do Oriente. Do albarroamento não resultaram quaisquer (vá lá, não foram quaisqueres) vítimas, estando já em curso um rigoroso inquérito por parte da empresa proprietária do autocarro, para apuramento dos motivos e das responsabilidades do albarroamento. Durante os dois ou três minutos em que o jornalista esteve de microfone na mão, várias vezes abalroou a língua que devia dominar em pleno. Da segunda vez que interveio, repetiu a proeza.

Tudo isto trouxe-me à memória um velho treinador de futebol que, tal como a minha dilecta professora, já cá não está para confirmar.

- Ó menino, não inventes! Joga só o que sabes!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Numa tarde do mês de Março de 1955, quando se preparava para servir o chá, a menina Fabre surpreendeu as suas alunas numa grande conversa. Os estudantes do secundário estavam em greve havia uma semana, por causa de uma jovem que um professor humilhara. Ele acusara-a de ter escrito uma composição subversiva sobre o combate de Joana d'Arc contra os Ingleses e de ter aproveitado a disciplina de História para manifestar as suas amizades nacionalistas. Do andar de cima, chegava-lhes o riso dos trabalhadores que reparavam o telhado da menina Fabre e as raparigas não se contiveram e tentaram vê-los. A dona da casa serviu, à moda dos Marroquinos, com um gesto amplo e cerimonioso, o chá de menta em copos lascados. Aproximou-se de Selma.

- Venha comigo, menina, quero falar consigo.

Selma seguiu-a até à cozinha. Perguntou-se qual seria o motivo daquela conversa à parte. Teve vontade de dizer que se estava a borrifar para a política, que a sua cunhada era francesa, que não tomava o partido de ninguém, mas a menina Fabre sorriu-lhe e convidou-a a sentar-se a uma mesinha de madeira, na qual estava pousado um cesto com fruta coberta de mosquinhas. A menina Fabre esticou as pernas. Durante uns minutos, que pareceram infindáveis a Selma, perdeu-se na contemplação da buganvília que se espraiava, em enormes cachos malvas, sobre o muro ao fundo do jardim. Pegou num pêssego demasiado maduro, com a casca a descolar, e deparou com a polpa escura e mole.

- Soube que deixou de ir às aulas.

 Selma encolheu os ombros.

- Para quê? Não entendia nada.

- A menina é uma tonta. Sem estudos, não será ninguém na vida.

Selma ficou surpreendida. Nunca ouvira a menina Fabre exprimir-se daquela maneira, dar mostras de tamanha severidade junto de uma das adolescentes.

- É por causa de algum rapaz, é isso?

Selma corou e, se pudesse, teria fugido a sete pés e nunca mais a veriam naquela casa. As pernas começaram a tremer-lhe e a menina Fabre pousou uma mão no joelho dela.

- Julga que não compreendo? Provavelmente pensa que nunca estive apaixonada.

<<Faz com que ela se cale. Faz com que ela me deixe ir embora>>, pensou Selma, mas a velha continuou, roçando os dedos na sua cruz de marfim, que, de tanto ser acariciada, estava lustrosa.

- Hoje está apaixonada e é maravilhoso. Acredita em tudo o que os rapazes lhe dizem. Está convencida de que isso vai durar e que eles vão gostar sempre tanto de si como gostam agora. Comparado com isso, os estudos não têm importância. Mas a menina não sabe nada da vida! Um dia, se sacrificar tudo por eles, vai ficar sem nada e dependente dos mais pequenos gestos deles. Dependente da boa disposição e afecto dos homens, à mercê da brutalidade deles. Acredite que devia pensar no seu futuro e estudar. Os tempos mudaram. Não tem de abraçar o mesmo destino que o da sua mãe. Pode vir a ser alguém, advogada, professora, enfermeira. Ou até aviadora! Não ouviu falar daquela rapariga, a Touria Chaoui, que conseguiu o brevet de piloto com apenas dezasseis anos? A menina pode ser quem quiser, desde que faça por isso. E nunca, nunca pedirá dinheiro a um homem. (...)"

O país dos outros
Leïla Slimani
Alfaguara (2021)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Se ...

E se, de repente, houvesse paz no mundo?

E se, de chofre, os pobres ficassem remediados?

E se, bruscamente, passasse a haver respeito por todos?

E se, sem pressas, toda a gente chegasse a tempo?

E se, sem falsos pudores nem nomenclaturas de ocasião, todos fossem livres?

E se, ostensivamente, desaparecessem os preconceitos?

E se ... te calasses no teu cantinho e te deixasses de parvoeiras sem nexo?

domingo, 8 de dezembro de 2024

Manhã fria

O João não está nada Feliz e tem muita pena de A Canária ter ficado tão tremida.

Paciência. Estava muito vento, frio, e a habilidade é pouca!



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Londres era, então, uma das maiores cidades do mundo: no dealbar do século XIX, tinha cerca de um milhão de habitantes e, no final desse mesmo século, quase sete milhões. Os muitos milhares de cavalos que eram utilizados como transporte levariam à grande crise do estrume, The Great Manure Crisis, em 1894, ameaçando soterrar Londres em bosta (cerca de meio milhão de quilogramas por dia) e urina (57 000 litros por dia). O problema haveria de tomar proporções tão graves, que um jornal, publicado nesse momento de crise, vaticinava que em cinquenta anos todas as ruas de Londres estariam cobertas por uma camada de estrume com três metros de altura. O presságio não se cumpriu, pois apareceram outras formas de transporte para substituir o cavalo. Todas elas, incluindo o automóvel, acabaram por ter consequências globais bem mais graves do que o estrume.

Num mercado de rua, Fuegia estendeu a mão, apanhou uma maçã e trincou-a. O vendedor gritou com ela. Nenhum dos três fueguinos compreendia exactamente o que se passava, de onde vinham aqueles gritos, pois nunca incorporaram completamente a noção de que a comida só era acessível em determinadas condições, muitas vezes em troca de dinheiro, fazendo uso dos tais botões brilhantes. Para eles, uma pessoa poderia ter, como propriedade individual, um cesto ou uma arma - não no sentido que damos à propriedade, mas por uso directo ou constante usufruto -, mas não poderia ser dono da comida. A comida pertence a todos. A quem pertence um guanaco, senão a Watawineiwa, que dá vida a todos os seres? Quem criou o guanaco? Uma pessoa pode fazer armas, roupas, cestos, são suas, mas as frutas das árvores, bem como as próprias árvores - ou as estrelas ou a chuva ou os albatrozes -, não podem pertencer a ninguém senão a Watawineiwa, que dá vida a tudo.

Londres era um mundo realmente diferente. Não o compreendiam, e não eram compreendidos.

Nenhum dos três fueguinos tinha palavras para dizer <<exército>> ou <<polícia>>. (...)"

O que a chama iluminou
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2024)

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Responsabilidade

Talvez princípios dos anos oitenta do século passado ou até finais da década de setenta. O funcionamento da Banca estava longe, muito longe, daquilo em que se viria a tornar, quer na forma quer no conteúdo. Os computadores estavam a dar os primeiros passos e tudo passava pelos olhos e pela esferográfica que preenchia e assinava.

O senhor H. era um cliente conhecido de todos pela sua arrogância, considerando-se com direitos especiais face à sua categoria e capacidade, e sempre disponível para abrir a porta do gabinete do gerente, queixando-se do atendimento de algum ou de ter sido preterido em favor de alguém menos "importante", ainda que chegado primeiro.

Naquele dia, trazia os cupões da Obrigações FIP, para receber os juros pagos semestralmente pelo Estado. As obrigações FIP - Fundo de Investimento Público eram tituladas por folhas enormes, impressas na Casa da Moeda, que exibiam na parte inferior os cupões que eram cortados em cada semestre e apresentados a pagamento. Também semestralmente, o Estado sorteava os números das obrigações que pretendia (ou podia) liquidar antecipadamente e reembolsava o capital de algumas delas. A vida máxima podia ir até aos dez anos e muitas permaneciam "vivas" até final. Ditavam o reembolso a evolução das taxas de juro e a disponibilidade do erário público.

 - Quero receber estes juros, disse o senhor H., sem nenhum cumprimento, o que ninguém estranhava.

Entregou o montinho e dirigiu-se ao gabinete para cumprimentar o "poder".

- Dá licença, senhor N.?

- Diga, diga ... 

- O senhor H. traz uma obrigação que foi sorteada há seis meses. Já não podemos pagar estes juros.

 Ninguém me disse nada. São uns incompetentes! 

A voz já estava alterada e as faces ruborizadas.

- Quero receber o capital e os juros dos seis meses.

O gerente garantiu de imediato a satisfação da exigência.

- Fique descansado, senhor H.. A sua conta será creditada hoje pelo valor total.

E foi. Os arquivos foram visitados e identificados os dois distraídos que tinham aposto a sua assinatura no documento de pagamento, sem cuidarem, primeiro, de verificar a lista das obrigações sorteadas. A espada caiu sobre as duas cabeças ...

- Vocês sabem muito bem ... o cliente tem sempre razão e a responsabilidade é toda vossa.

Nesse dia, cerca de um quarto do ordenado mensal de cada um dos "malandros" distraídos foi parar à conta do senhor H. que, naturalmente, nunca agradeceu nem isso fazia parte do seu vocabulário.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(..) Ao terceiro dia os símbolos foram depostos em Elvas.

Durante a tarde de sábado as forças militares deitaram por terra o que ainda restava do regime recentemente derrubado. Muitas foram as pessoas que se juntaram na Praça D. Sancho II para assistir à  retirada da placa da fachada da sede da PIDE/DGS. Houve ovações aos militares e vivas a um Portugal livre. Antes disso, no interior do edifício, inventariou-se o espólio existente.

No Largo de São Martinho, a tarefa repetiu-se. Também o edifício da Legião Portuguesa viu ser retirada da fachada a placa que a mencionava, como se nunca tivesse existido ou quisesse esquecer-se a sua existência.

Na noite anterior a Praça D. Sancho II tinha sido pequena para receber todos os que quiseram dar largas à sua satisfação, à esperança adiada de ver cair o regime, de poder sonhar um Portugal diferente. Os jovens eram os mais entusiastas, mas havia homens e mulheres de todas as idades e credos, militares e civis, sob a égide da antiga Sé, vigia perene. Traziam cartazes e faixas onde se podia ler agradecimentos às Forças Armadas e palavras de insulto ao fascismo.

- Em vez de ódio e dor, queremos paz e amor.

- Viva M.F.A. 

- Viva Portugal.

Abril
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2024)

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A brincar ...

 ... se dizem coisas sérias, quando se tem capacidade!

Se mais não houvera, o Expresso valeria sempre pela arte de António.