quarta-feira, 31 de março de 2021

Vida(s)

Não sei, em concreto, onde vive. Ali para os lados do quartel, mas ao certo, certo, não consigo dizer. O antigo "bairro da lata", como era conhecido nos anos sessenta do século passado, é hoje o Bairro de S. Cristovão. Já não tem barracas, as ruas estão alcatroadas e têm nome, e está agora a sofrer uma intervenção municipal que tornará a sua entrada mais atraente para os que lá vivem e para os que por lá passam. Bem perto do Bairro fica o pinhal, antigo, onde fiz algumas simulações de combate quando a instrução militar me passou pelo corpo. Um pouco mais à frente (ou antes, dependendo do sentido), a ESAD, que aproveitou as instalações do antigo Hospital de Santo Isidoro, recuperou-as e ampliou-as, e fez uma escola de artes, hoje pólo conceituado e atractivo para muitos jovens artistas, que todos os anos trazem à cidade a sua irreverência e a sua especificidade de intervir. 

Quase me perdi em divagações, quando o que pretendia era escrever duas linhas sobre ela. Terá quarenta, cinquenta anos, talvez menos. Mais não, que se assim acontecesse, atiraria para a minha geração e estaria no "arquivo". Tem problemas, visíveis, de álcool e outras adições, traz sempre um saco às costas, com um conteúdo que desconheço e nem faço a menor ideia qual seja. Já a encontrei sentada no estacionamento do supermercado, a dormitar e quase de certeza a sonhar. Hoje vinha andando, meia trôpega, com os olhos a quase saírem das órbitas e a olharem, perdidos, o infinito. A pele, acobreada, tem rugas bem marcadas do "castigo" que carrega. O corpo não é gingão mas abana como se a ventania o fustigasse sempre. Terá família? Recusará ajuda? Como sobrevive?

Lembro-me disso sempre que a vejo. E que faço? Nada! "Alguém" tem obrigação ... 

terça-feira, 30 de março de 2021

Encomenda

A compra foi feita há quase um mês. No correio electrónico de confirmação era dito que, face às circunstâncias que se vivem, a entrega só aconteceria no dia 30 de Março, entre as oito e as catorze horas. Sem problema, disse para mim. As obras vão demorar algum tempo e, nessa altura, ainda estarão a decorrer. A aplicação da placa é das últimas coisas a fazer.

Há três dias, uma mensagem confirmou a entrega entre as oito e as catorze, referindo que "em caso de ausência poderá ser cobrado valor para novo agendamento". Sem problema, pensei de novo. Nesta fase, não há obrigações que não possam ser alteradas ou adiadas, isto se existirem. Haverá alguém em casa, para evitar novo agendamento.

A manhã corre, sem novidades a não ser a do sol, que se esqueceu de aparecer. Deve ter ficado em casa a aguardar alguma encomenda ... Findo o almoço, o "postigo" chama para o café. Não hão-de chegar nestes dez minutos ... O telefone toca. Um número esquisito, começado por 300. Atendo uma senhora, com um português do Brasil bem acentuado.

- É o sinhô Orlando? Vou graváre a chamada.

- Sim, sou eu. E quem é a senhora? Vai gravar o quê?

- É sobre sua encomenda. Não vai chegá na hora, mas vamo entregá até às dezesseis. Pode sê?

- Sim, claro. Obrigado. 

- Obrigado nois.

Ainda aguardo, mas deve estar a chegar. Uma organização destas não falha! 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Quotidiano

Como toda a gente, não tenho um passado imaculado e fiz muitas asneiras, algumas que recordo, muitas outras que caíram no arquivo impenetrável por vontade própria, auto-defesa ou mesmo esquecimento puro. Ainda hoje, com todo o saber da experiência feito, é raro o dia que não cometa erros, faça coisas indevidas ou das quais me arrependo mais tarde. 

Por isso, cada vez tenho mais dificuldade em suportar os que se consideram infalíveis, têm sempre a solução na ponta da língua e, cúmulo, dominam todos os temas. E também aqueles que, perante a evidência do erro cometido, procuram os argumentos mais incríveis que o justifiquem e lhe dêem, até, credibilidade. E ainda aqueles outros que, do alto da sua "sapiência", tentam mostrar à saciedade e à sociedade que a "divina providência" lhes facultou os recursos, únicos, para "pregarem" a forma e o conteúdo da vida dos outros, como se só a cabeça deles funcionasse e apenas os seus olhos vissem as cores do quotidiano, do passado e do futuro.

Quando isto me acontece e me surgem estes seres sobredotados a indicarem o caminho, o "computador" apela à memória e traz à tona o Cântico Negro, de José Régio:

(...) Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.

domingo, 28 de março de 2021

Livros lidos (ou em vias disso)

Chegou na quarta-feira passada, com a assinatura do autor, prémio por ter sido adquirido em pré-venda. Passou à frente dos que estão na fila por a chegada ter coincidido com o final de Tahirir, de Alexandra Lucas Coelho, e por o autor ser um dos meus preferidos da actual geração de escritores portugueses.

Está a justificar a ultrapassagem. É uma biografia romanceada de Rui Nabeiro, o homem de Campo Maior que hoje completa 90 anos. 

(...) Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena ainda estava esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas. O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos de cozinha.

E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar o chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era nesse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta desse gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. (...)

Almoço de Domingo
José Luís Peixoto
Quetzal (2021)

sábado, 27 de março de 2021

Dia Mundial do Teatro

Comemora-se hoje o Dia Mundial do Teatro apenas com as peças trazidas para o ecran, que funcionam por não ser possível outra usufruição. Sabe a sopa sem sal ou a torrada sem manteiga, mas é o possível. Há vários espectáculos que podem ser vistos a preços simbólicos e alguns, até, de forma gratuita. 

Mas o teatro precisa de público, do apagar das luzes, da entrada em cena, dos aplausos, do regresso dos actores ao palco, já "despidos". Hoje não pode haver nada disso. Acalenta-se a esperança de poder estar para breve o regresso ao teatro ao vivo, em sala ou em espaço aberto.

Para assinalar a data, fica um extracto da Farsa de Inês Pereira, escrita em 1523 por Gil Vicente, por muitos considerado o pai do teatro português. A grafia segue o acordo ortográfico da época e o conteúdo mantém a actualidade possível.

(...) Escudeiro

Antes que mais diga agora,
Deos vos salve, fresca rosa,
E vos dê por minha esposa,
Por molher e por senhora;
Que bem vejo
Nesse ar, nesse despejo,
Mui graciosa donzella,
Que vós sois, minha alma, aquella
Que eu busco e que desejo.

Obrou bem a natureza
Em vos dar tal condição,
Que amais a descrição
Muito mais que a riqueza.
Bem parece
Que a descrição merece
Gozar vossa fermosura,
Que he tal que da ventura
Outra tal não s'acontece.

Senhora, eu me contento
Recebervos como estais;
Se vós não vos contentais,
O vosso contentamento
Póde falecer no mais.
(...)
Autos e Farsas
Gil Vicente
Colecção dirigida por Vasco da Graça Moura

sexta-feira, 26 de março de 2021

Atrás do tempo, tempo vem

Chega ao fim mais uma semana. A Páscoa está à porta, sem festas nem ajuntamentos, que as notícias chegadas "lá de fora" não são nada animadoras e o exemplo do Natal ainda está bem fresco na memória.

A caminhada não se afigura com fim à vista. Tem mais semelhanças a um percurso circular, sem meta marcada, do que à maratona sempre referida, mas da qual todos desconhecem a distância a percorrer.

Passado mais de um ano, continuamos a assistir a uma infinidade de opiniões, algumas com nexo, outras perfeitamente dispensáveis, por vazias de conteúdo ou por mais não serem do que tentativas de colocar "egos" em bicos de pés, procurando agarrar o "céu" a que nunca pensaram chegar. 

Tudo isto acontece, realçado pelo vigor frenético dos títulos e "apimentado" com imagens constantes da seringa a picar o braço e da zaragatoa a invadir o nariz.

Valha-nos a certeza de que o tempo não pára e o Verão está quase a chegar ...

quinta-feira, 25 de março de 2021

Liberdade escurecida

O sol já deverá estar a esconder-se no mar da Foz do Arelho, naquele movimento de luz alaranjada (não confundir com laranjinha) que, para quem sabe de fotografia, proporciona imagens lindíssimas. 

Como a partir da meia noite já não se poderá transitar entre concelhos, estou com algum receio que ele não arranje documento justificativo e, amanhã, não apareça e a escuridão nos atinja a todos. Claro que não vai acontecer, apesar das minhas dúvidas. O sol preocupa-se com todos nós, sabe da nossa necessidade de vitamina D, apesar da ocupação que carrega de andar lá nos céus noite e dia atrás da lua, como diz a cantiga. Ele anseia que as nuvens não o toldem, se ajustem e afastem, deixando-nos o azul e o quentinho, que bem merecemos, se nos portarmos bem.

E portar bem significa usufruir vibrantemente da nossa liberdade, cuidando sempre de a domar para que não prejudique nem colida com a dos outros.

De acordo com as notícias, ontem foi dia de escuridão completa no Tribunal de Odemira. Um julgamento foi adiado porque o pacóvio que presidia queria toda a gente sem máscara, por achar que o uso da dita lhe violava a liberdade. Felizmente, parece que já alguém se impôs e mandou a figurinha para casa aprender os ditâmes da função que lhe estava cometida.

Talvez ainda vá a tempo de fazer a quarta classe de adultos, para que não se diga que o analfabeto conseguiu chegar a juiz ...

quarta-feira, 24 de março de 2021

Primavera

O meu amigo ADS partilha comigo muitas coisas, de entre as quais algumas subtraídas desse grande armazém arquivador que é a Internet. A boa música faz muitas vezes parte dessas partilhas e eu, de tão habituado que já vou estando a esses mimos, cometo muitas vezes a indelicadeza de nem ops agradecer.

Ontem recebi uma animação da Primavera, de António Vivaldi, que muito me agradou. Entrei no arquivo, encontrei várias, mas não há amor como o primeiro ...

Aqui fica, para meu deleite e de todos os que apreciam boa música, acompanhado de expressivos desenhos "falantes".

terça-feira, 23 de março de 2021

Vícios

O café mantém-se "postigado" e a ida não é uma aventura embora ofereça sempre algumas curiosidades, impensáveis há uma ano. Já poucos se lembrarão, mas a entrada nos cafés era completamente livre e havia sempre clientes e conversas com fartura.

Estavam seis pessoas na fila, ainda que pouco passasse das 13 horas (os velhos refeiçoam cedo). Alguma impaciência na espera que o gong desse sinal de entrada. Dos seis, apenas dois beberam café. Os outros quatro procuraram a fortuna, adquirindo raspadinhas que a Santa Casa oferece, pagando, claro. A ansiedade era grande e a prática, via-se, imensa: já cá fora, na mão esquerda o segredo do papel ou o papel do segredo; na direita, a moeda que talvez descubra a sorte.

Ninguém voltou à fila, seguindo o seu caminho sem quaisquer manifestações de júbilo. Verdade se diga que também não me pareceu que ficassem muito desgostosos. Já devem estar habituados a que a sorte não os bafeje.

Amanhã voltarão e eu terei, de novo, companhia distanciada, como convém, e a fila a determinar a entrada para o café do "postigo". 

segunda-feira, 22 de março de 2021

Tempo

Já não lembro com precisão quando foi e porque foi, mas tive o primeiro relógio bastante novo. Talvez doze ou treze anos, o que, na época, era um grande privilégio. Foi oferta do meu pai, por certo para premiar algum feito escolar que devo ter realizado e mereceu a recompensa.

Nunca mais deixei de usar relógio, primeiro no braço esquerdo e aí por volta dos 18 anos, no braço direito, por me parecer mais fácil de consultar. Já passaram pelos meus braços muitos exemplares, desde os que exigiam corda manual, diária, aos que o balanço do braço mantinha "vivos", aos mais recentes, sofisticados e impiedosamente certos, desde que a pilha estivesse em condições, situação que se resolvia com uma simples ida ao relojoeiro, para substituir.

Esse instrumento arcaico chamado relógio foi substituído no passado dia 19, Dia do Pai ou dos Pais, como parece ser chique dizer agora. Os meus netos ofereceram-me um monitor de actividade física. Não é um relógio, mas dá as horas de todo o mundo; tem calendário perpétuo, que sabe quais são os meses de 30 e os de 31 e não tem dúvidas sobre quando o Fevereiro tem 29 dias; conta todos os passos que dou e transforma-os em distância, sem necessidade de agrimensor; mostra as pulsações e diz-me quantas horas dormi e destas, quantas foram de sono profundo; analisa o stress diário e ainda deve fazer mais coisas, que irei descobrindo. De tudo faz estatísticas e elabora gráficos. Se eu pretender, até me avisa quando o telefone toca ... sem o Matos Maia, claro, que esse era do antigamente!

E lembrar-me eu que o meu avô usava um "cebola" no bolso do colete, preso num botão do mesmo por uma corrente de "prata" e que o polegar e o indicador muito labutavam naquela carrapeta para o manter "vivo".