sexta-feira, 28 de abril de 2023

Futuro

António Gedeão escreveu na sua "Pedra Filosofal" que o sonho comanda a vida e sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança. 

Abril abriu as portas ao sonho, criou expectativas para um futuro melhor, um homem novo, uma vida digna, uma abertura ao mundo, o derrubar de muros, o acesso ao saber, a visão crítica, a opinião sem rodeios nem receios.

O tempo vai esmorecendo a cor do céu, tornando o azul cada dia mais cinzento, trazendo à tona o se da dúvida, a incerteza da onda, a ambiguidade da água que cai sem cuidar da existência do chapéu de chuva. 

Por muito que os dias passados influenciem e determinem o pensamento, parece ser fácil e correcto concluir que vivemos tempos novos como, quase de certeza, sempre aconteceu e isso não impediu, antes facilitou, a evolução do mundo e a sua melhoria indiscutível.

Espreitando pela janela do pessimismo, vemos a guerra, a inteligência artificial, a miséria de uns e a opulência de outros, as alarvidades dos doutos sabedores do óbvio, as eternas cabeças que tentam controlar e impôr o correcto, o bom, o moral, o devido. E que ambicionam uma sociedade acrítica, onde eles apareçam como únicos sabedores e salvadores.

Fechando essa janela e abrindo a porta do futuro, deparamos com gente de elevado nível, contestária nas ideias e com pensamento próprio, sem medo de exibir as suas diferenças, desenvolvendo o seu saber e não se encolhendo nas suas opiniões. O mundo será deles, por muito que custe aos que sobem o escadote e partem os degraus para tentar evitar que outros cheguem. Por muito que barafustem e pateiem, falem e gritem, não conseguirão manter o equilíbrio instável que a sofreguidão lhes dá e lhes irá provocar uma queda estrondosa. 

O sonho comanda a vida!

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Retorno

O caminho do blogue já vai longo - começou no dia 15 de Maio de 2006 - e, com maior ou menor esforço, mais ou menos qualidade, tem mantido uma existência regular, com opiniões, estórias, críticas, evidências e muitas outras tentativas de ser claro, o que quase nunca acontece, por deficiência intrínseca do autor.

Nos primeiros anos, postava-se sem quaisquer obrigações de o fazer diariamente, antes escrevendo apenas quando apetecia e parecia haver qualquer coisa interessante para registar. A pandemia alterou tudo na nossa vida e também no blogue. Desde 16 de Março de 2020 e até hoje, todos os dias apareceu por aqui alguma coisa, melhor ou pior, com mais ou menos interesse, uma parte significativa até perfeitamente dispensável e sem qualquer conteúdo.

Curiosamente, reparei agora, as duas datas estão relacionadas com a cidade: o começo aconteceu no dia 15 de Maio, feriado das Caldas e Dia da Cidade e a escrita diária iniciou-se em 16 de Março, data na qual se comemora a tentativa de golpe que antecedeu o glorioso 25 de Abril.

A pandemia, felizmente, já nos deixou e chegou a altura de voltar aos primórdios. O blogue não vai encerrar mas o "castigo" de o ler diariamente acaba. O trabalho, o lazer, o turismo, a pressa de fazer o que ainda não foi feito, despertam vontades, acicatam ideias, trazem ocupações que tolhem compromissos, que a idade dispensa e a vontade não quer. Talvez vão surgindo coisas bem mais interessantes e menos maçadoras. Nunca se sabe!

Tem muito mais piada a surpresa!

terça-feira, 25 de abril de 2023

Liberdade

A minha amiga Liberdade e eu próprio festejamos o aniversário na mesma data. E é hoje! Eu levo uns bons anos a mais, tive o privilégio de a ver nascer e de participar nos seus primeiros passos, choros e sonhos, acalentando com ela a esperança de ver o sol nascer para todos e que o dia fosse o inicial, inteiro e limpo de um futuro risonho e próspero.

O tempo passou e em ambos parece estar a deixar marcas. Para mim, não será de estranhar que os 71 tenham trazido algumas maleitas, incómodos, com dor aqui, com dor ali, com cor acolá, o costume. Nela, bem mais nova, é que é preocupante. Ainda nem chegou aos cinquenta e todos os dias se notam os efeitos que algumas ervas daninhas lhe vão causando, parecendo até, em algumas situações, que há quem queira o regresso daquela agricultura de antanho, com as enxadas na mão, a fome e o medo do "vizinho" que pode bufar sem ninguém notar ou saber. 

Causa algum incómodo ouvir e ver gente que já nasceu nos dias claros a pretender dar lições e a clamar sem conhecimento e, pior, sem educação. Pensando bem, nem merecem ser escutados.

A minha amiga Liberdade há-de sobreviver a toda essa gentalha e eu espero continuar a acompanhá-la, para meu bem, dela e de todos os que por cá continuarem.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Prémio Camões

Chico Buarque recebe hoje o Prémio Camões, que lhe foi atribuído em 2019 e cujo diploma não obteve a assinatura do "boneco" que estava Presidente do Brasil. Chico era um estorvo para o regabofe que o tal e os que o acompanhavam pretendiam levar a cabo.

São do romance "Estorvo" as palavras que se seguem e que aprovam Chico Buarque também como um grande escritor, a par do músico excepcional que é.

"(...) Fazia tempo que não vinha aqui de noite, e quando vi à distância a nova iluminação do condomínio, pensei que fosse uma filmagem. Um aparato de holofotes azula os paralelepípedos, devassa as árvores por baixo das copas e ofusca a vista de quem chega. Não localizo o vigia que pede para eu me identificar. É mais um vigia, são várias vozes que repetem o meu nome como um eco na guarita. A resposta também chega em série, e tenho que ouvir "não consta da lista", "não consta da lista", "não consta da lista". Depois ouço uma risada que vai e volta, e uma cigarra emaranha-se nos meus cabelos. Não sei de que lista estão falando, só quero deixar uma mala na casa 16, e devo ter algum problema porque as vozes vão-se alterando. Perguntam o que trago naquela mala, e antes que eu possa responder, uma silhueta arranca a alça da minha mão. Apesar do tranco, fico agradecido; a mala encontrou seu destino e estou afinal solto dela. Penso que estou solto de tudo, que a cidade me espera, mas quando ensaio a retirada, umas garras penetram meu braço e arrastam-me de volta ao foco de luz. Um camarada de jaquetão bege vem-me abraçar, depois desce as mãos pelas minhas costas, apalpa as minhas nádegas, virilhas, coxas, atrás do joelho, e está revistando meu tornozelo quando chega um carro grande e preto com vidros fumés. Abre-se um centímetro na janela da frente, e o homem que está na direcção fala um nome comprido de mulher. A guarita acha que está bom e acciona o portão electrónico, mas o carro não dá a partida. Uma voz de mulher pergunta se não quero subir. Procuro a mulher no clarão da guarita, mas a voz vem da treva do fundo do carro preto. Todos os vigias baixam da guarita para atender à voz, falam "positivo madame", em seguida o chauffeur sai do carro e abre a porta de trás para eu entrar.(...)"  

Estorvo
Chico Buarque
Publicações Dom Quixote (1991)

domingo, 23 de abril de 2023

Dia Mundial do Livro

Há muitos anos que, diariamente, comemoro o livro como objecto essencial para o meu bem-estar. Pouco ou muito, todos os dias leio (n)um livro e disso retiro sempre prazer, mesmo quando acontece a leitura não me ser agradável. Raramente coloco um livro de lado sem chegar ao fim.

Não atribuo grande importância às comemorações do dia disto e daquilo, que são, na maior parte das vezes, meras acções de marketing destinadas a promover o gasto, mesmo que o objecto acabe por não ser consumido. O importante é comprar!

O livro é um caso especial. Pela importância que teve, tem e irá continuar a ter no desenvolvimento do saber e por parecer que se encontra em vias de extinção e a ser cada vez mais decorativo e menos folheado. O livro é, como definiu António Lobo Antunes, "o ouvido que se encosta à terra para escutar o mundo". 

Os meus continuam por aqui, amontoados e a ocuparem cada vez mais espaço, obrigando a retirar os da frente para alcançar os escondidos lá atrás, e a ter um cuidado extremo na "catalogação", para que seja possível saber onde param. A lógica da arrumação ajuda mas é a base de dados que garante a descoberta sempre que necessário.

E para quê, perguntam os mais novos. Hoje lêem-se livros no PC, no tablet e até no telemóvel, sem peso a segurar e a transportar e sem ocupação de espaço em casa.


sábado, 22 de abril de 2023

Flores murchas


De acordo com a informação prestada pelo autor - o meu amigo ADS - a flor tem grandes dificuldades em abrir as pétalas, fazendo-o apenas por volta do meio-dia. Talvez seja a demonstração do mal que causam as grandes noitadas, alimentadas por grandes comezainas e melhores beberragens. O que é estranho é isto acontecer na capital e a flor conseguir dormir toda a manhã, com aquele ruído ensurdecedor que a cidade emite bem antes de o sol raiar.

Até aqui, tudo dentro da normalidade a que está sujeita uma desgraçada de uma bela flor, que tem de viver naquela confusão de gente, trânsito, poluição. Todavia, consta, aqui pela província, que a coitada da flor também sofre muito com os "sabores" de Itália que perpassaram recentemente pela Luz e por Alvalade e lhe trouxeram muita preguiça. Ou será desgosto?

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Incertezas

A notícia sobre o seu desaparecimento foi reproduzida aqui, admitindo-se que o Fofinho, dado o tempo decorrido, já se tivesse fartado da má vida e regressado a casa.

Pelo que parece, assim não aconteceu. O Bairro tem cartazes colados em inúmeros sítios, ressaltando até uma segunda impressão, já sem o nome em escrita manual, para que se torne mais fácil a toda a gente, incluindo os pitosgas, entender a mensagem e colaborar na procura.

Pobre bichano. Deve estar sofrendo muito ou, pelo contrário, arranjou uma nova família de acolhimento que o apaparica de tal forma que já nem à rua vem, para não correr o risco de se cruzar com os antigos donos e regressar ao cativeiro.

Outra hipótese a equacionar será a possibilidade de o gatinho ter querido a sua alforria e ter apanhado o comboio para bem longe, onde ninguém o condicione nem obrigue, usufruindo da liberdade que lhe é intrínseca e que os humanos cerceiam quase sempre. 

As incertezas fazem parte do dia a dia de cada um de nós e tornam a vida muito menos sensaborona do que seria se tudo fosse claro e com resposta antecipada e um problema tão banal como o desaparecimento de um gato pode, afinal, colocar tantas alternativas e incertezas quantas a imaginação conseguir levar a cabo. 

E nem sequer foi consultada a Inteligência Artificial, que nos mostraria milhares de hipóteses, sem contudo fazer aparecer o Fofinho.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Birrinhas

Ainda não é desta. Marcelo mantém as suas dúvidas sobre a eutanásia e torna a devolver o diploma ao Parlamento, sem o promulgar. Refere algumas indicações de pormenor, retiradas da sua sábia cartola.

- Os meninos não fazem o ditado sem erros, como querem que vos dê positiva. Vou enviar informação escrita aos encarregados de educação.

Parece que as dúvidas constitucionais estão todas sanadas. Subsistem as existenciais e a vontade de marcar terreno. Os dias vão passando, dando razão aos que dizem que, no país, só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros, que nem o tempo consegue resolver.

O Governo, invejoso, não quer enviar o parecer jurídico à Comissão Parlamentar de Inquérito da TAP. Esse douto parecer, se existe, suportou a porta de saída da senhora CEO e, de acordo com outras opiniões ilustres, é fundamental para a análise da Comissão.

Sururu armado, com uns a dizerem que o menino se portou mal, outros a afirmarem que o menino não tem de indicar a matéria e os sítios onde estuda, devendo apenas responder às questões do teste.

Por este caminho, ainda chega ao poder alguém, escolhido por uma qualquer divindade, que tem as certezas absolutas sobre tudo e não admitirá discussão.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Figos

A figueira é uma árvore que se pode ver em todas as regiões do país, embora o seu fruto não tenha a mesma qualidade em todos os sítios. Há zonas onde o figo, seja moscatel ou pingo-de-mel, é doce, fresco, muito saboroso. Outras há em que é bem melhor saboreá-lo passado ou seco, para que as papilas gustativas não sofram nenhuma desilusão. 

Todos são produzidos por árvores que, tendo por particularidade a ausência de flor, desenvolvem o seu verde em cômoros, pequenos espaços, no meio de outras, com cereal semeado em volta, dispensando as habituais tarefas de cuidar, da poda à pulverização, do adubo ao remexer da terra. Estão lá e pronto. Cumprem a sua função de dar figos a quem deles gosta e de servir de poiso aos pássaros.

Na minha juventude, aprendia-se e dizia-se, quando acontecia uma qualquer queda, que se tinha plantado uma figueira no local onde se dera o trambolhão.

- Vai com atenção e vê lá se a figueira que aí plantaste já deu figos ...

Ontem, António Costa plantou uma figueira na visita que fez aos hipermercados, à procura do IVA 0%. Cedeu ao popularucho, ao chamamento das câmaras e dos microfones, aos mirones opinativos ou deslumbrados com a imagem, numa arruada perfeitamente escusada e que talvez se devesse ter estendido às mercearias de bairro. Seria a festa completa e a queda bem mais eloquente.

Daqui a uns tempos, alguém lhe irá perguntar se a figueira plantada já deu figos ou se a estrada está arranjada para dar passagem aos pretendentes sabões ...

terça-feira, 18 de abril de 2023

Palavras bonitas

Em 1995, numa incursão extemporânea pelas "teatrices", escrevi um texto, que foi levado à cena e se chamava "O julgamento do Zé". Abria com um poema de Joaquim Pessoa e hoje fui à procura do livro de onde o "roubei". Está desaparecido ou ausentou-se e não regressou.

Joaquim Pessoa também se ausentou ontem, aos 75 anos. Fica o registo de um poema, grande, muito bonito e assertivo.