Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 25 de setembro de 2010
Fim de semana
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Música portuguesa
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Livros (lidos ou em vias disso)
Começou o corte dos cachos das videiras que, em Abril deste ano, no Douro, ainda nem sequer abrolhavam. O ritual de antigamente está hoje em desuso, exigindo-se a quem vindima um cuidado carinhoso com as uvas, para que o corte acrescente qualidade ao vinho que há-de resultar da cozedura do mosto.
Hoje cruzei-me com várias carrinhas que transportavam pessoas para as vindimas e, quando cheguei, fui à estante procurar Torga, lido há anos, mas a quem se volta sempre com prazer.
" (...) Encosta espraiada de cepas a olhar o rio ao fundo e o céu lá no alto, a Cavadinha, com o nome em letras garrafais no arco de ferro que encima o largo portão da entrada, é o mimo das quintas. Uma alta ramada dá sombra ao caminho varrido que liga a estrada à residência, sólida construção sobranceira às várias dependências que a rodeiam: os lagares, os armazéns e a cozinha do pessoal. Casas caiadas de branco, telhado e tudo, como as de Penaguião, quando neva. Uma brancura para enganar o coração de quem vem.
A cal, porém, não chegava até à cardenha onde dormiam os vindimadores. Longe do terreiro, sobradada de palha e dividida em dois por uma meia parede que teias de aranha prolongavam até ao telhado, de um lado amontoavam-se as mulheres, do outro ressonavam os homens e as crianças, quando, depois de um dia de corte, de cestos e de lagar, caíam como tordos no chão.
- Onde se começa? - quis saber o Eusébio, ao deitar, numa curiosidade de boi pela molhelha.
- Na encosta do buxo, disse-me o tio Seara.
Dançado o último fandango, esgotado o reportório das cantigas, a tarde caíra sonolenta sobre as léguas do caminho. E agora, antes de se entregar inteiro a um repouso de morte, o corpo necessitava de conhecer em que sítio se iniciava a vida quando viesse a ressurreição.
- Aperte mais o rabo, tia Joana! - gritou de cá o Jerónimo, a um ruído suspeito do outro lado.
- Eu ainda não estou tão lassa como cuidas, ó alma do diabo! Fala ali com a Carminda ...
Um impudor de convívio chegado, de intimidade de paredes sem reboco e sem remate no tecto, rasgava o véu que cada natureza, principalmente se era feminina, trazia à volta de si. Velhas e novas, virgens e casadas, homens e meninos, olhavam-se descompostos e naturais, numa ironia tolerante.
- Ó tia Virgínia, que tal é o colchão?
- É-é-é ... bô-ô-ô ...
- E você, tia Angélica, reza a coroa?
- A minha alma já está no céu, só de vos aturar ...
- Fartei-me de uvas! - gabava-se o Chico, entoirido. - Até me dói a barriga ...
- Se te apertar, não me sujes ... Vai lá fora!
- Há pulgas, aqui! - gritou a Carminda.
- Queres que tas vá coçar?
Nenhum dito regressava sem troco, nenhuma intenção ficava por entender. (...)"
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Graffiti
Em Outubro de 2007, os Couple Coffee estiveram nas Caldas, num tributo a José Afonso organizado pelo Teatro da Rainha, apresentando um trabalho de excelente qualidade intitulado Co'as tamanquinhas do Zeca.
Recentemente, Luanda Cozetti, a voz do grupo, gravou uma das músicas do album Graffiti, de Júlio Pereira. O disco é fantástico e reúne as vozes de Sara Tavares, Dulce Pontes, Olga Cerpa, Mariza Liz, Nancy Vieira, Manuela Azevedo, Maria João, Sofia Vitória, Filipa Pais e Luanda Cozetti, numa edição cuidada e muito bonita.
Não é fácil escolher entre tanta gente de nível, mas a música minha preferida é esta aguarela da lusofonia denominada "É um dia, é um dia não".
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Palavras bonitas
Para o meu filho, que hoje faz 29 anos.
À CHEGADA DOS DIAS GRANDES
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
sábado, 28 de agosto de 2010
Fogos e alertas
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Quotidiano
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Palavras bonitas
AI SILVINA, AI SILVININHA
Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.
A doce voz de Silvinaé como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.
- Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?
- Não me apetece cantar
e muito menos para ti.Eu sou nova, tu és velho,já não és homem para mim.- Não me tentes, Silvininha,que eu já não te olho a direito.Sou como um ladrão escondidona azinhaga do teu peito.
- A azinhaga do meu peitocorre entre duas colinas.O ladrão do meu amortem pé leve e pernas finas.- Canta, canta, Silvininha,uma canção só para mim.Dar-te-ei um lençol de estrelas,uma enxerga de alecrim.
- Deixa o teu corpo estendidoà terra que o há-de comer.A tua cama é de pinho,teus lençóis de entristecer.- Canta, canta, Silvininha,como se fosse para mim.Dar-te-ei um escorpião de oirocom um aguilhão de marfim.
- Não quero o teu escorpião,nem de ouro nem de prata.Quero o meu amor trigueiroque é firme e não se desata.- Pois não cantes, Silvininha,se é essa a tua vontade.Canto eu, mesmo assim velho,que o cantar não tem idade.
Hás-de tu ser morta e fria,cem anos se passarão,já de ti ninguém se lembranem de quem te pôs a mão.Mas sempre há-de haver quem canteos versos desta canção:Ai Silvina, ai Silvininha,Amor do meu coração.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Regresso
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Palavras bonitas
FICAM AS SOMBRAS ...Não. Não podeis levar tudo.Não. Não podeis levar tudo.Depois do corpo,E da alma,E do nome,E da terra da própria sepultura,Fica a memória de uma criaturaQue viveu,E sofreu,E amou,E cantou,E nunca se dobrouà dura tirania que a venceu.
Fica dentro de vós a consciênciaDe que ali onde o mundo é mais vazioHavia um homem.E sabeis que se comemOs frutos acres da recordação ...
Fantasmas invisíveis que atormentamO sono leve dos que se alimentamDa liberdade de qualquer irmão.
domingo, 8 de agosto de 2010
Férias
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Recordar António Feio

domingo, 1 de agosto de 2010
Palavras bonitas
DIA DE ANOS
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse ...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado ...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os anos,
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
Mas os anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
Férias
Logo a seguir, o lado oposto exprime o seu optimismo e salienta, contentíssimo, que ainda faltam mais duas.
Quando e se me apetecer, volto aqui ...
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Palavras bonitas
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,Ao luar e ao sonho, na estrada deserta.Sózinho guio, guio quase devagar, e um poucoMe parece, ou me forço um pouco para que me pareça,Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,Sempre, sempre, sempre,Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ...Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo o mundo!Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!



