sábado, 8 de agosto de 2020

Inveja

Muitas vezes dou comigo a pensar como deve ser difícil pensar, descobrir, discernir, e concluo que são tarefas só ao alcance de uma meia dúzia de sapientes filósofos, cientistas e outros que conseguem analisar, com discernimento, o passado e o presente e projectar o futuro, e sobre essa sua capacidade falam com uma humildade e uma reserva que enternece.
E concluo sempre que, por mais esforço que faça, por mais atento que esteja, por mais livros que leia, cumpre-se sempre a máxima aprendida há mais de quarenta anos com um professor no ISCAL - "quanto mais sei, maior é a minha ignorância."
E por este caminho vou andando, sempre com a certeza de que, embora o saber não ocupe lugar, o material é tão vasto que, afinal, não há capacidade para o absorver na totalidade nem disso nos aproximarmos.
Incapacidade minha. Todos os dias tropeço com gente que tudo sabe, não tem a mais pequena dúvida, detém a solução ideal para o mais ínfimo ou para o maior problema e extravasa a sua "sapiência", dissertando sobre os males do mundo, a economia, a ciência, a arte e até o dia a dia, sem peias, dúvidas ou cuidados.
Fico invejoso, mesmo sabendo que a inveja é um pecado mortal.
Como é possível esta gente saber tanto de tudo e eu saber tão pouco de pouco mais que nada?
Concluo: devo ter sido muito relapso nestes anos todos que já levo ...

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Dúvida

Qual das três maravilhas é a melhor?
  1. O Porto descrito na letra de Carlos Tê?
  2. A música e a voz de Rui Veloso?
  3. A arte de Carlos Paredes?

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O teatro e a vida

Ontem, uma explosão de nitrato de amónio, seja lá o que isso for para além do adubo que eu pensava conhecer,  destruiu o porto da capital do Líbano - Beirute - causando mais de uma centena de mortos (ao que se sabe) e milhares de feridos. A destruição, que vimos nas imagens televisivas que nos chegam, atestam a dimensão da tragédia que, ao vivo e para os libaneses deverá ser muito pior do que sequer imaginamos.

Hoje, passam 75 anos do dia em que o avião Enola Gay despejou a bomba atómica Little Boy sobre a cidade japonesa de Hiroshima, provocando milhares de mortos, inocentes, e abrindo as portas para o final da II Grande Guerra.

Ontem, soube da morte do actor e encenador Juvenal Garcês, que, em conjunto com Mário Viegas, fundou a Companhia Teatral do Chiado. Conheci-o, pessoalmente, em Maio de 1997, aquando da apresentação nos Pimpões de "As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos".

Hoje, partiu Fernanda Lapa, que não conheci pessoalmente, mas que me habituei a gostar, e a respeitar, como actriz e encenadora, e "mulher de armas".

Os dias têm sempre histórias para contar, boas, más, assim-assim, mas é assim a vida.

Amanhã será outro dia e, como sempre, alguém se há-de encarregar de registar, para a história, o que dela for digno e merecer permanecer para os vindouros.

E, com tudo isto, já passaram seis meses sem assistir a um qualquer espectáculo de teatro ao vivo. Maldito Covid!

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Teimosia

Mais uma manhã de sonho!
Sonha-se com céu azul, ausência de vento, mar límpido, e uma temperatura que não precisa de ser parecida com a que a Protecção Civil indica para justificar os alertas (30º), enfim, uma saborosa manhã de praia.
Mas a Foz é desmancha-prazeres. Não gosta de planeamento, de antecipação, da monotonia de verão que acontece em qualquer praia algarvia.
Nada disso! 
Inclemente para quem gosta das manhãs, fecha-se, esconde o mar, borrifa os cabelos, obriga à camisola e, por mais vontade que haja, teima em não permitir veleidades. Quando lhe apetece e se lhe apetece, vai abrindo lá por volta do meio-dia.
Neste Agosto, que já leva cinco dias, ainda não ofereceu uma manhã de jeito.
Mas, porém, todavia, contudo, como um teimoso nunca teima sozinho, amanhã volto lá, pela manhã, só para a contrariar.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Escrita diferente.

Um conjunto de histórias com História, com vida, com sentido.

Curtas quase todas, algumas curtíssimas, de uma frase apenas, todas de longo alcance.

Novas visões e novas maneiras de contar a vida "aos outros, a nós mesmos, e àqueles que vêm depois de nós".

"Trabalha como empregado de balcão numa perfumaria dentro de uma loja-armazém. É quase sempre um dos primeiros a chegar à grande superfície. Antes dele, só os seguranças encarregados de abrir as portas e os senhores da limpeza responsáveis por deixar tudo brilhante a cada dia. Entra no armazém ajeitando ainda a gravata, depois sobe quatro lanços de escadas rolantes. Vai quase imóvel nas escadas, tirando todo o partido daquele mecanismo que levanta os corpos sem que os corpos se esforcem. Do alto do mecanismo ele observa tudo, e tudo lhe parece visto desde o Evereste. Quando chega ao balcão que lhe compete, retira os óculos por um momento. Limpá-los com um pano de seda é como sentar-se no pico da montanha, meditando sobre todo o esforço mental, visual e sentimental que requereu aquela subida."

Flecha
Matilde Campilho

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Parafuso

O parafuso caiu. Desapareceu. A tesoura funciona, mas não corta bem. É preciso encontrá-lo. 
Procura-se e não se consegue descortiná-lo. Mistério. Evaporou-se, mas para onde? Não há buracos.
Vamos ver se, ali nas caixas, há algum que sirva.
Entre dezenas de parafusos nas caixas não há um único igual ou sequer parecido.
Vamos à loja, tradicional, que nos hipermercados é uma confusão. Só é preciso um e eles assim não vendem.
O conhecimento da loja data de há muitos, muitos, anos. Conheci o avô, já de cabelos brancos, depois o filho e agora o neto, um "jovem" da minha idade. E lá estava o parafuso à minha espera. Simples. Mais tempo a cumprimentar e a dizer umas larachas que a obter o pretendido.
A tesoura já funciona e pode voltar a podar as plantas.
A falta que faz um parafuso!
E destes, ainda se podem comprar na loja ...

domingo, 2 de agosto de 2020

O pião das nicas

Numa época em que qualquer discurso, prosa ou exposição tem de ter expressões, de preferência inglesas, para armar ao pingarelho, dar um ar cultivado e sapiente, impressionante para quem pouco entende (fala muito bem inglês), apetece salientar que o português é uma língua muito rica, falada por muitos milhões de seres humanos, com variantes fantásticas e sempre com palavras e expressões para as situações mais díspares e surpreendentes.
Não é preciso desfolhar Aquilino ou Mia Couto, Jorge Amado ou Águalusa, Saramago ou Maria Teresa Horta, Eça ou Lobo Antunes. Mesmo nas coisas mais simples, como os versos de Carlos Paião, médico que a morte levou aos 30 anos (1988), a beleza e a diversidade estão bem patentes num retrato de galfarro portuga bem recheado para quem seja lascarino e observe bem.

O PIÃO DAS NICAS
Anda p'la vida à futrica
O estica larica, o mangas portuga
Fecha-se em copos e copas
Cafés e cachopas, trabuca e madruga
Galfarro afiambrado, pachola arremelgado
De grimpa levantada e garrafal
Amigo do amigo, farelo e muito umbigo
Vestiu-se e veio a pé pró arraial
 
Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de junho e a Restauração!
Viva até São Bento, se nos arranjar!
Muitos feriados para festejar!
 
Gosta de armar ao efeito
Baboso e com jeito pra ser bagalhudo
Mas na mulher do carteiro
Já manca o dinheiro, alfaces e é tudo!
Se ele anda com nerveco grazina dum caneco
Lá vai o lascarino pró granel
E faz as partes gagas, fosquinhas de aldiagas
Palrando até fazer grande aranzel
 
Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de junho e a Restauração!
Viva até São Bento, se nos arranjar!
Muitos feriados para festejar!
 
Chorou por causa da seca, que a terra ficou viúva
Até correu seca e Meca, fartou-se de pedir chuva
A chuva quis-lhe agradar, banhou a terra as culturas
A água deu-lhe p'la barba a fome em farturas

Às vezes já nem petisca
A doença na isca é má pró vistaço
Os vinhos e os jaquinzinhos
São só descaminhos, vai dar ao esquinaço
És tu Pião das Nicas das bocas e das dicas
Que pegas nos calcantes e te vais
Adeus leão dos trouxas, chupado das carochas
Que foste no embrulho uma vez mais

Viva o Santo António, viva o São João!
Viva o 10 de junho e a Restauração!
Viva até São Bento, se nos arranjar!
Muitos feriados para festejar!

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A praça

A opção praia não pode ser equacionada. Há uma encomenda para chegar, com entrega prevista entre as 9 e as 19 horas. Com informação tão certeira e indicativa, era perfeitamente possível programar o dia todo sem correr riscos de estar ausente mas ... o melhor é estar por casa, para não defraudar quem informa tão minuciosamente.
Calculando que, até às 10 horas, não seria previsível a chegada, fomos à praça, não à tradicional, que encerrou "covidada" mas à solução, boa, que foi encontrada para satisfazer os vendedores e proporcionar as compras que os clientes tanto gostam de fazer.
De máscara aperrada, gel nas mãos e segurança a somar os entrados e a subtrair os saídos, percorremos as bancas do costume, escolhidas há muito. Pelo caminho, encontros com gente difícil de reconhecer à primeira e com quem, depois, se fala à distância, sem mão estendida, muito menos beijinhos. 
E como será isto depois, questionava-me uma amiga, que aproveitou para desabafar um pouco, coisa que , segundo ela, se está a tornar cada vez mais rara.

- Não vejo nada sem óculos. A máscara embacia-os e eu tiro os óculos, limpo, recoloco, embaciam, tiro, limpo, volto a colocar, voltam a embaciar, torno a limpar. 
Que chatice! Quase não saio de casa.

Alguém se abeira da banca e comenta, respeitando a distância marcada no chão.
- Estão caros os pêssegos.
E segue viagem, talvez na procura de mais baratos.
A dona da banca não resiste, comentando para dentro, de forma a que os que ali estão ouçam bem.
- Não querem lá ver a dona. Este ano há pouca fruta e os agricultores não vão ganhar nem para a despesa. Faça boa viagem.

Trazemos as meloas, o feijão verde, as cenouras, os pêssegos, as ameixas, brancas, a uva, tanta coisa para dois "gatos pingados". 
Também temos que ajudar! 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Verão

Há coisas na natureza que não coabitam em paz com o comum dos mortais e fazem pensar que, naturalmente, têm prazer em nos contrariar, exercendo o seu poder de forma discricionária e sem nos ouvir.
No Verão está estabelecido, não sei se por decreto celestial ou qualquer outra via, que o céu deve ser azul, o vento deve estar recolhido, a temperatura da água do mar deve ser agradável e não "cortar" os tornozelos, isto tudo de manhã até à noite, para permitir, democraticamente, que os que se levantam cedo e os que meditam nos lençóis até à hora do almoço, possam gozar dos mesmos direitos e usufruir da praia  que gostam sem preferências discriminatórias.
Não há respeito por quem gosta das manhãs abertas e coloridas de azul. 
Levanta-se uma pessoa toda lampeira e, entre duas espreguiçadelas, diz para consigo:
          - Hoje vai estar bom, cheira-me!
Aberta a janela, não cheira a nada. Vamos até lá, para confirmar.
As nuvens são muitas, a morrinha molha os cabelos e, mesmo espreitando com afinco, o mar nem sequer se vê.
Regresso ao cantinho. 
          - Já não vamos ter outro dia.
Mentira!
Após o almoço, as nuvens emigraram, o sol apareceu, o céu pintou-se de azul, celeste, e a imaginação informa que deve estar uma bela tarde de praia.
Não vou! Sou teimoso e, para castigo da natureza brincalhona e autoritária, fico-me com o azul do Danúbio e a musicalidade da água do rio.
Amanhã vou voltar, como o Verão exige.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Quotidiano

Mais um mês a chegar ao fim e a aproximar o final do ano. 
A rotina mantém-se e as alterações são nulas. Começam a surgir oportunidades para sair, espectáculos que não se perderiam, visitas que não deixariam de se fazer, convívios familiares e outros que fariam as delícias de toda a gente.
E surge sempre a pergunta ... E se? 
O melhor é ficar em casa, a ler, a ouvir música, a tratar das flores e a regar a relva. Até quando?

terça-feira, 28 de julho de 2020

Carta de condução

Há exactamente 50 anos recebi a autorização para, legalmente, conduzir qualquer viatura automóvel ligeira.
De manhã, bem cedo, o Carocha da escola de condução, conduzido pelo instrutor que mal me conhecia - só tive três aulas de condução das cinco que fui obrigado a adquirir - dirigiu-se a Santarém com os quatro alunos que, nesse dia, se iriam submeter a exame. 
No banco de trás, no meio de dois matulões e sentado quase no ar, ia um miúdo de 18 anos feitos três meses antes, acabado de emancipar por autorização notarial paterna. Naquela época, era-se maior aos 21 anos e só a emancipação paternal permitia o acesso à carta de condução (ou ao casamento) antes dessa idade. Aos 18 anos e para quem conduzia desde os 15 ensinado pelo pai, o convencimento de que o exame seriam favas contadas era verbalizado com alguma exuberância.
Na viagem, demorada pelas curvas da estrada nacional 114 e pela pouca velocidade do Carocha, a conversa foi sempre à volta da possibilidade de não serem realizados os exames previstos. 

- O Botas bateu a bota ontem, se calhar temos de cá voltar noutro dia, dizia o instrutor.
 
Mas houve. O Botas, afinal, nem na morte deu um feriadito.

Chegados ao jardim, estacionado o Carocha, ficámos a aguardar as novidades que o instrutor haveria de trazer dos seus contactos "oficiais".

- Vocês os três vão fazer exame com o Engenheiro "Fulano" e tu vais para o "Sicrano".
 
Já não recordo os nomes, mas tenho a ideia de o meu ser qualquer coisa Sereno.
Estava um calor de ananases ao contrário do tempo nas Caldas, como ainda hoje acontece.
Por volta do meio-dia, o Engenheiro chamou pelo meu nome.
 
- Onde está o carro?
- Anda um colega a fazer exame com ele. 
- Então vamos fazer o Código aqui.
 
Com os dois sentados num banco do jardim, à sombra de um arbusto agradável, o homem debitou as perguntas e o miúdo creditou as respostas.
- Estudaste bem!, comentou no fim.
 Finalmente, o "meu" carro chegou e o instrutor nem saiu do banco de trás.
Com algum nervoso miudinho mas cheio de certezas de que sabia muito daquilo, sentei-me ao volante e dei à chave.
- Vira à direita.
Cumprida a paragem no Stop, entrei na grande avenida e percorri a cidade, de acordo com as instruções que ia recebendo, subindo, descendo, arrumando entre dois, fazendo ponto de embraiagem, etc.
- Isso não anda mais? Tenho de ir almoçar!
- Então não anda! É só acelerar.
- Arruma, que está terminado.
 
Fomos almoçar todos, dividimos a despesa excluindo o instrutor e, a meio da tarde, soubemos os resultados: três tinham passado, mas havia um chumbo.
Convencido, não esperava que o chumbo me tivesse contemplado. E confirmou-se.
Regresso a casa, já com o dia a terminar e o papel provisório bem guardado no bolso.
- Então, passaste?, perguntou o meu pai. 
- Claro! Ou esperava outra coisa?, respondi, ufano. 
- Quem foi o Engenheiro?
- "Sicrano"
- Engraçado. Há mais de vinte anos, também foi ele que me fez o exame.

Naquele tempo, tudo demorava a mudar. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quotidiano

Chegou o Outono ao Oeste.
Não deve ter vindo de comboio. A linha que o serve permanece há cinquenta anos a aguardar actualização e não permitiria tal rapidez e antecipação ao calendário.
De avião também não era possível. O Covid cancelou quase todos os voos e não há aeroporto onde aterrar.
Mas chegou! Talvez de burro ou de caleche, a cavalo ou mesmo a pé, quem sabe.
Enquanto o resto do país está em alerta máximo para tentar diminuir o flagelo dos fogos florestais, por aqui o dia está cinzento, com uma humidade acentuada, uma morrinha para refrescar a cabeça e a nortada do costume, embora nos limites de velocidade estabelecidos para os aglomerados urbanos. Não excede os 30 Km/hora.
A praia ficou adiada para amanhã.
Qual é a pressa? Hoje ainda é só segunda-feira.

domingo, 26 de julho de 2020

Dia dos avós

Premissa: uma imagem vale mais que mil palavras.

Conclusão: Para duas imagens como estas é matematicamente impossível quantificar o número de palavras que elas valem.




















sábado, 25 de julho de 2020

Futuro

"Somos um país de muitos eus e poucos nós. E temos eus muito insuflados."
António Costa Silva
Entrevista ao Expresso

E não se pode exterminá-los?
Foram sempre meia dúzia de "eus" que determinaram o rumo, organizaram o barco e, no fim, se locupletaram com a mais-valia resultante. E os exemplos são muitos e bem conhecidos.
A opinião pública é condicionada por uns poucos, velhos na idade e na opinião. São sempre os mesmos que aparecem nas televisões e nos jornais, com as mesmas ideias sobre tudo e sobre nada, comentadores do óbvio, críticos de tudo o que aparece e não tenha sido por eles parido, da erva daninha à vivência no céu, enxameando a comunicação social, saltando de um  jornal para outro, de uma televisão para a seguinte e desta para a outra e ainda mais outra. São advogados célebres, economistas fecundos, gestores infalíveis, capazes de prever tudo e o seu contrário, do crescimento do PIB à taxa de desemprego, das exportações à capacidade industrial, do tempo ao vento que soprará, da cor das calças à sola dos sapatos, da vírgula do decreto ao decreto da vírgula.
E mantêm-se no ar, falando de cátedra, sem contraditório e "apenas" como opinadores.
Raro é ouvir-se a opinião de quem é novo, tem o futuro à frente e a genica para o enfrentar. Apesar de haver tanta sapiência sobre futebol, continua a haver muita gente que quer, a todo o custo, manter-se na equipa principal, mesmo que as pernas já impeçam ou, pelo menos, dificultem a corrida.
O futuro passa pelos novos talentos, pelos que não têm o "eu" insuflado, que têm a humildade de estudar antes de afirmar, dos que se colocam em dúvida sistemática, dos que têm capacidade para entender que estão longe de saber tudo e que só o reconhecimento da ignorância permite dar passos em frente.
O plano de António Costa Silva até pode saber a pouco, ser redutor, mas, como o ovo de Colombo, foi escrito e divulgado, mexendo com os egos instalados e com os que estão a preparar as espingardas para a abertura da caça ao "cacau".

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Rotina

A rotina não se altera!
Claro. Se é rotina não tem alteração. Por isso é que é rotina. Se assim não fosse, seria qualquer outra coisa, mas rotina não era pela certa.
E não se alterando, a rotina é inalterável e, em consequência, não se altera.
Com alguma imaginação, talvez se conseguisse alterá-la mas, mal isso acontecesse, a rotina deixava de o ser e passava a ser outra coisa.
Quem diria: tão simples e tão complicado, tão rotineiro.
Hoje fiz a barba. Não escapei à rotina.
Mas ouvi esta bela interpretação e, imaginem, fugi com ela à rotina.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Salpas

De acordo com a informação da Capitania de Peniche, da Net e do meu amigo ADS, foram as salpas que deram à costa ontem na Foz do Arelho. A minha filha confirmou.
Não vi nenhuma!


Apenas a água parecia estar turva e à superfície tinha uns "quadrados" boiando, meio estranhos e não habituais.
Hoje, a transparência tinha regressado e a única coisa que recordava o ontem eram estas "gelatinas", em pouca quantidade, que ficavam na areia quando a onda se ia embora.


Amanhã a Foz já deverá ser a mesma de sempre ... nevoeiro, vento, mar revolto, com temperatura a condizer com a tradição.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O novo "normal"

A manhã estava "fozeira", com o nevoeiro quase a impedir de se ver o mar. 
Maré baixa, sem vento, permitiu acabar o livro do momento e, de seguida, uma caminhada até às rochas, onde se esperava que o sol já desse um ar da sua graça e trouxesse a vontade de um bom mergulho.
Falso! A água tinha uns "quadrados" gelatinosos, que eliminavam a habitual transparência e lhe davam um aspecto sujo. Não ao banho!
Mal tinha iniciado o regresso, surge o nadador-salvador.
- Não vá à água. Não sabemos o que é isso e deram-nos ordem para, à cautela, interditarmos a praia.
Acabou-se, por hoje. "Trouxa" arrumada e regresso a casa mais cedo do que o previsto. 
Mas havia mais para acontecer.
No último degrau do primeiro lanço da escada, um homem cai. Dou um salto para tentar ajudá-lo.
- Não mexa nem se chegue, murmura uma voz avisada.
Mantida a distância, colaboro no diálogo com o homem.
- Sente-se bem? Está sozinho?
- A família está na praia, lá em baixo. E indica a Lagoa, lá ao longe. 
- E tem telemóvel?
- É melhor chamar o 112, diz alguém. 
Conseguiu sentar-se, sem ajuda mas com muita dificuldade. O braço esfolado, o joelho em sangue, uma aflição patente.
- Já tive cinco enfartes ... mas estou bem!
Consegue tirar o telemóvel do bolso e liga.
- Foi para a caixa postal.
Alguém chamou o nadador-salvador. Viu a tensão arterial, desinfectou as feridas, com todos os cuidados, das luvas à máscara, e com a distância possível. 
A Polícia Marítima foi para a praia da Lagoa, à procura dos familiares do homem que apenas queria conhecer mais um pouco da praia onde tinha vindo em passeio, ele que era do Porto.
Vim para casa, a pensar que já nem se pode auxiliar quem dá uma quedazita ...  
 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Juan Marsé

Descobri-o em 2012, após uma visita à Feira do Livro de Lisboa (este ano foi-se) e deixei aqui as razões da descoberta e as impressões do primeiro livro lido.
Depois de Rabos de Lagartixa, comprei e li todos os que já se encontravam ou foram sendo editados em Portugal.
Já não lerei mais, a não ser que apareça alguma obra póstuma.
Juan Marsé faleceu no sábado, dia 18 de Julho, na cidade de Barcelona, onde havia nascido em 8 de Janeiro de 1933.
Foi, é e continuará a ser um grande escritor e um dos espanhóis meus preferidos.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Netos

Encerra hoje o ciclo anual dos aniversários dos netos.
O Vasco, segundo na hierarquia da antiguidade, faz nove anos e já usa a ironia com subtileza e graça, causando sempre surpresa e espanto. Talvez o ser esquerdino contribua e ajude a sua capacidade de teatralizar as situações e surgir sempre diferente.
É um doce de meiguice, singeleza e modéstia.

          - Amanhã fazes nove anos. Estás quase um homem!
          - Pois. Quando fizer outros nove, já posso tirar a carta!

Apesar das restrições "covidianas", das dificuldades que não há meio de serem removidas, os meus netos dão-me anos de vida.
Por hoje, parabéns ao Vasco!