segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Diálogo surreal

- Vou-me embora. Estou farto!

- Tem calma. Espera mais um pouco. O tempo que já levas por aqui não te ensinou que "as cadelas apressadas parem os filhos cegos"?

- Lérias. Sempre os ditados populares na ponta da língua para justificar tudo e nada.

- Claro. Há sempre um adequado a cada situação, por mais inverosímil que possa parecer.

- Eu que, como a grande maioria, sou "achista", acho que deves permanecer mais um pouco. Afinal de contas, "assinaste" contrato até à meia-noite de amanhã e, por aqui, os contratos são para cumprir ... pelo menos para alguns.

- Acredito que haja sinceridade nesse pedido e que não te importes de me aturar mais um pouco. Mas olha que há por aí muita gentinha a querer ver-me pelas costas e a desejar ardentemente que o meu substituto traga maravilhas para todos.

- Volto a dizer-te: tem calma e não fiques deprimido. Afinal de contas, sabes bem que "vozes de burro não chegam ao céu" e que, sempre, "atrás de mim virá quem de mim bom fará".

Estamos todos à espera que 2025 traga paz na Ucrânia e na Palestina, no Sudão, em Moçambique, e em todos os sítios onde a "lei da bala" impera. E que, no seu bornal, o Novo Ano traga o remédio para acabar com a miséria e a fome e termine com a exibição do luxo e da riqueza da forma ofensiva que tem vindo a verificar-se.

Lérias! Sabemos todos que nada disto acontecerá em 2025. Mas ... "a fé é a última coisa que se perde" e, bem lá no fundo, todos desejamos que o Novo Ano seja ... o melhor possível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Martelos

O telhado ia sendo feito, a pouco e pouco, devagar, com todo o cuidado. Estar lá em cima sem qualquer protecção (o tempo dos capacetes e dos outros cuidados ainda não tinha chegado), exigia todas as cautelas, apesar da experiência ser grande e de ser "apenas" o sótão de uma casa térrea.

As vigas principais já tinham sido colocadas e a tarefa, agora, era pregar as ripas que viriam a ser o suporte principal das telhas. Trabalho delicado, exigente e rigoroso. Não podia haver falhas, que as telhas não eram maleáveis.

O servente tinha pavor do mestre pedreiro, mas tentava não o demonstrar. Procurava cumprir todas as ordens, sem manifestar qualquer desagrado, muito menos fazer comentários. Podia sair-lhe caro e manter o emprego era essencial para a sobrevivência.

- O "Jaquim" é o servente que eu gosto. Faz o que lhe digo e nunca abre a boca. Respeitinho.

Os pregos utilizados nas ripas eram bem mais pequenos do que aqueles que tinham servido para pregar as vigas. Os martelos utilizados por pedreiro e servente eram os mesmos e bem grandes. O cuidado para acertar na cabeça do prego e não na dos dedos era mais do que necessário, era imperioso. A cabeça dos dedos sofria e a dos pregos torcia-se, impedindo que eles cumprissem a função.

- Ó "Jaquim", tem tento no trabalho. Mais vale acertares nos dedos do que torceres os pregos. Olha que são caros!

A observação do mestre não teve qualquer resposta, como era uso mas, apesar da atenção, primeiro prego martelado, primeiro torcido.

- Eu avisei-te, "Jaquim". Dá atenção ao trabalho, com a cabeça bem assente e sem pensares no resto.

O segundo teve a mesma sorte e o mestre pedreiro não resistiu:

- Vai buscar uma pá ...

O "Jaquim", cumpridor, desceu a escada e dirigiu-se à arrecadação. Agarrou na primeira pá que encontrou e subiu a escada.

- Aqui tem, senhor João.

- És mesmo parvo. Então tu achas que se pode martelar um prego com uma pá?

Lá poder não pode mas, às vezes, até dava um jeitão e os dedos não se queixavam.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura. 
É outra vez a vida que começa 
Aberta de inocência e de frescura. 

Cipreste frio, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa. 
Venha o sol que vier, tem mais altura
O sonho que se veja e que se meça. 

Claro como a verdade - diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou. 

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpido país da fantasia
Que a nossa escuridão iluminou. 

Libertação 
Miguel Torga
Gráfica Coimbra 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ilusões

Se Fernando Pessoa escreveu que

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

seria interessante perceber as Berlengas que, no dia de Natal, fingiram aproximar-se da costa e dar a ilusão de que estavam mesmo ali, não à mão de semear, mas a meia dúzia de braçadas, a nadar.

São apenas ilusões e, amanhã, o mais provável é que as velhas ilhas e os seus companheiros Farilhões já só apareçam no horizonte de quem sabe que, por detrás da neblina, lá bem longe, elas permanecem descansadas.

Malhas que o império tece ou a confirmação de que o hoje só determina que o amanhã se verá.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal

A todos os que (ainda) vão perdendo algum do seu precioso tempo a espreitar o que por aqui vai aparecendo, votos de um excelente NATAL, com tudo o que pretendem e, especialmente - lugar comum - saúde e paz.

BOAS FESTAS

domingo, 22 de dezembro de 2024

Livros lidos (ou em vias disso)

Podia ser um texto sobre a actualidade, a época natalícia, as desigualdades, o sofrimento, as diferenças, tudo o que a nossa imaginação queira. Nada disso! Apenas um excerto de um capítulo de um livro deliciosamente bem escrito.

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(...)
XXVI
O Volframista

Coisas que ainda se passarão: guerra, corrida ao volfrâmio, o dinheiro que isso traz. Bem jogado naquelas mesas - legais e ilegais. O Volframista começou por procurar as ilegais. Vinha sozinho, sério, um lenço branco no bolso esquerdo do casaco do fato. Depois começou a trazer uma mulher, de saia reta pelo joelho, algumas transparências, cabelo a la garçonne, exigindo que se sentasse a seu lado. Fumava por uma boquilha, a com o cabelo de rapaz. Ele era um novo-rico do volfrâmio, ou tungsténio, garampilheiro a vender a quem guerreava. Corrigindo: a quem mandava os outros matarem-se, sentados em poltronas confortáveis, as mangas da camisa imaculadas. O torturador também lê poesia. Vender-lhes o mineral fazia enriquecer muito rápido.

Dele contavam-se coisas medonhas. Que apostaria tudo na mesa, até a virgindade da filha. Já o tinha sugerido, quando vinha sozinho. E todo aquele monte de dinheiro a crescer, e nada para o parar - as cagadelas caíam à sua frente, nunca em cima de si. Não era preciso salto de fé, só assegurar a boa posição na corrida ao ouro negro. Com um bom número de mortes dos trabalhadores por silicose, pulmões feitos pedra. Havia que continuar a explorar o volfrâmio.

Qu'é isso?

Descoberto pelos irmãos Don Fausto e Juan José Delhuyar em 1783.

Elemento químico metálico (símbolo: W).

Número atómico 74.

Massa atómica 183,85.

Cor pardacenta, quase preta.

Densidade de 19,3 g/cm3.

Funde a cerca de 3419 ºC.

Uma merda pra fazerem armas, munições ou coisa co valha.

O tambor que o mar é ao bater na rocha. Falam do Volframista na praia, tratando das redes. Recordando pela centésima vez o que lhes disse o homem.

Sou como vocês, vou sempre ao leme.

Que leme, homem? Estes barcos não têm leme. (...)

Faina
Marta Pais Oliveira
Gradiva (2024)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Realidade ou ficção

Havendo informação sem censura (até quando?), vamos sabendo o que se passa no país, e no mundo, e podemos, por nós próprios, aquilatar a licitude e a verdade dos factos, fazendo a nossa análise sem recorrer aos "analistas" que todos os dias nos "invadem" a casa sem pedir autorização.

Ontem vimos um filme de "cowboys", rodado na Rua do Benformoso, no qual os "cowboys" encostam os "índios" à parede, de mãos bem levantadas e pernas bem abertas, para que a revista decorra com a pompa securitária que o "povo" reclama. Encontraram uma faca ...

Noutros tempos, naquela mesma rua, passava a rusga e a "ramona" levava toda a gente - homens e mulheres - para o Governo Civil, onde os esperava uma noite para mais tarde recordar. Ficavam os proxenetas que, à época, o calão apelidava de chulos. Estes mantinham excelentes relações com a autoridade e sabiam que o negócio prosseguiria no dia seguinte. Ontem não foram para o Governo Civil (já não existe) mas os "índios" foram bem avisados (em que língua?) e enxovalhados. E os proxenetas?

Andaremos à nora ou os alcatruzes estão a recuperar águas de antanho?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Palavras bonitas

QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve ... que fazer?

Melhor será calar, pois que dizer
nem no sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer ...

Ó nono verso por que vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo primeiro dediquei uma hora.

Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo ...

Tomai lá do O'Neill
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Língua

Concluo, muitas vezes, que estaria na hora de voltar às aulas de Português, se a saudosa Doutora Elvira pudesse voltar a ministrá-las e a reforçar-me, se necessário fosse, o gosto pela língua, do vocabulário à ficção, da leitura de prosa ou de poesia e, sobretudo, dos cuidados a ter com a escrita e com a fala.

- Se não há certezas, não escrevam nem digam. Vão procurar saber a forma correcta antes de dizerem ou escreverem asneiras.

Procurei seguir sempre o sábio conselho.

Hoje fui, uma vez mais, surpreendido com a minha ignorância. De acordo com a Sic Notícias, um autocarro sem condutor desgovernou-se e albarroou um táxi que se encontrava estacionado junto à Gare do Oriente. Do albarroamento não resultaram quaisquer (vá lá, não foram quaisqueres) vítimas, estando já em curso um rigoroso inquérito por parte da empresa proprietária do autocarro, para apuramento dos motivos e das responsabilidades do albarroamento. Durante os dois ou três minutos em que o jornalista esteve de microfone na mão, várias vezes abalroou a língua que devia dominar em pleno. Da segunda vez que interveio, repetiu a proeza.

Tudo isto trouxe-me à memória um velho treinador de futebol que, tal como a minha dilecta professora, já cá não está para confirmar.

- Ó menino, não inventes! Joga só o que sabes!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Numa tarde do mês de Março de 1955, quando se preparava para servir o chá, a menina Fabre surpreendeu as suas alunas numa grande conversa. Os estudantes do secundário estavam em greve havia uma semana, por causa de uma jovem que um professor humilhara. Ele acusara-a de ter escrito uma composição subversiva sobre o combate de Joana d'Arc contra os Ingleses e de ter aproveitado a disciplina de História para manifestar as suas amizades nacionalistas. Do andar de cima, chegava-lhes o riso dos trabalhadores que reparavam o telhado da menina Fabre e as raparigas não se contiveram e tentaram vê-los. A dona da casa serviu, à moda dos Marroquinos, com um gesto amplo e cerimonioso, o chá de menta em copos lascados. Aproximou-se de Selma.

- Venha comigo, menina, quero falar consigo.

Selma seguiu-a até à cozinha. Perguntou-se qual seria o motivo daquela conversa à parte. Teve vontade de dizer que se estava a borrifar para a política, que a sua cunhada era francesa, que não tomava o partido de ninguém, mas a menina Fabre sorriu-lhe e convidou-a a sentar-se a uma mesinha de madeira, na qual estava pousado um cesto com fruta coberta de mosquinhas. A menina Fabre esticou as pernas. Durante uns minutos, que pareceram infindáveis a Selma, perdeu-se na contemplação da buganvília que se espraiava, em enormes cachos malvas, sobre o muro ao fundo do jardim. Pegou num pêssego demasiado maduro, com a casca a descolar, e deparou com a polpa escura e mole.

- Soube que deixou de ir às aulas.

 Selma encolheu os ombros.

- Para quê? Não entendia nada.

- A menina é uma tonta. Sem estudos, não será ninguém na vida.

Selma ficou surpreendida. Nunca ouvira a menina Fabre exprimir-se daquela maneira, dar mostras de tamanha severidade junto de uma das adolescentes.

- É por causa de algum rapaz, é isso?

Selma corou e, se pudesse, teria fugido a sete pés e nunca mais a veriam naquela casa. As pernas começaram a tremer-lhe e a menina Fabre pousou uma mão no joelho dela.

- Julga que não compreendo? Provavelmente pensa que nunca estive apaixonada.

<<Faz com que ela se cale. Faz com que ela me deixe ir embora>>, pensou Selma, mas a velha continuou, roçando os dedos na sua cruz de marfim, que, de tanto ser acariciada, estava lustrosa.

- Hoje está apaixonada e é maravilhoso. Acredita em tudo o que os rapazes lhe dizem. Está convencida de que isso vai durar e que eles vão gostar sempre tanto de si como gostam agora. Comparado com isso, os estudos não têm importância. Mas a menina não sabe nada da vida! Um dia, se sacrificar tudo por eles, vai ficar sem nada e dependente dos mais pequenos gestos deles. Dependente da boa disposição e afecto dos homens, à mercê da brutalidade deles. Acredite que devia pensar no seu futuro e estudar. Os tempos mudaram. Não tem de abraçar o mesmo destino que o da sua mãe. Pode vir a ser alguém, advogada, professora, enfermeira. Ou até aviadora! Não ouviu falar daquela rapariga, a Touria Chaoui, que conseguiu o brevet de piloto com apenas dezasseis anos? A menina pode ser quem quiser, desde que faça por isso. E nunca, nunca pedirá dinheiro a um homem. (...)"

O país dos outros
Leïla Slimani
Alfaguara (2021)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Se ...

E se, de repente, houvesse paz no mundo?

E se, de chofre, os pobres ficassem remediados?

E se, bruscamente, passasse a haver respeito por todos?

E se, sem pressas, toda a gente chegasse a tempo?

E se, sem falsos pudores nem nomenclaturas de ocasião, todos fossem livres?

E se, ostensivamente, desaparecessem os preconceitos?

E se ... te calasses no teu cantinho e te deixasses de parvoeiras sem nexo?

domingo, 8 de dezembro de 2024

Manhã fria

O João não está nada Feliz e tem muita pena de A Canária ter ficado tão tremida.

Paciência. Estava muito vento, frio, e a habilidade é pouca!



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Londres era, então, uma das maiores cidades do mundo: no dealbar do século XIX, tinha cerca de um milhão de habitantes e, no final desse mesmo século, quase sete milhões. Os muitos milhares de cavalos que eram utilizados como transporte levariam à grande crise do estrume, The Great Manure Crisis, em 1894, ameaçando soterrar Londres em bosta (cerca de meio milhão de quilogramas por dia) e urina (57 000 litros por dia). O problema haveria de tomar proporções tão graves, que um jornal, publicado nesse momento de crise, vaticinava que em cinquenta anos todas as ruas de Londres estariam cobertas por uma camada de estrume com três metros de altura. O presságio não se cumpriu, pois apareceram outras formas de transporte para substituir o cavalo. Todas elas, incluindo o automóvel, acabaram por ter consequências globais bem mais graves do que o estrume.

Num mercado de rua, Fuegia estendeu a mão, apanhou uma maçã e trincou-a. O vendedor gritou com ela. Nenhum dos três fueguinos compreendia exactamente o que se passava, de onde vinham aqueles gritos, pois nunca incorporaram completamente a noção de que a comida só era acessível em determinadas condições, muitas vezes em troca de dinheiro, fazendo uso dos tais botões brilhantes. Para eles, uma pessoa poderia ter, como propriedade individual, um cesto ou uma arma - não no sentido que damos à propriedade, mas por uso directo ou constante usufruto -, mas não poderia ser dono da comida. A comida pertence a todos. A quem pertence um guanaco, senão a Watawineiwa, que dá vida a todos os seres? Quem criou o guanaco? Uma pessoa pode fazer armas, roupas, cestos, são suas, mas as frutas das árvores, bem como as próprias árvores - ou as estrelas ou a chuva ou os albatrozes -, não podem pertencer a ninguém senão a Watawineiwa, que dá vida a tudo.

Londres era um mundo realmente diferente. Não o compreendiam, e não eram compreendidos.

Nenhum dos três fueguinos tinha palavras para dizer <<exército>> ou <<polícia>>. (...)"

O que a chama iluminou
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2024)