sábado, 21 de março de 2026

A poesia e o mundo

Retirados da estante, abertos "ao calhas", deles surgem sempre surpresas vindas de quem retratou um mundo simultaneamente belo e perverso. E são apenas pequenos exemplos!

as manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis, 
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente

Servidões
Herberto Helder
Assírio & Alvim (2013) 

NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!

<<Ninguém se mexa! Mãos ao ar!>> disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
<<Mãos ao ar!>>, repetiu para convencer-se.

Mas ninguém se mexeu, como ele queria ...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas-Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos

um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.

Tomai lá do O'Neill!
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

UM DIA

Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

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