Retirados da estante, abertos "ao calhas", deles surgem sempre surpresas vindas de quem retratou um mundo simultaneamente belo e perverso. E são apenas pequenos exemplos!
as manhãs começam logo com a morte das mães,ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,todas as luzes da terra abertas em cima delas,e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,e tudo brilha na mesma,brilha cegamenteServidõesHerberto HelderAssírio & Alvim (2013)NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!<<Ninguém se mexa! Mãos ao ar!>> disse o histéricoe frívolo homenzinho com mais medoda arma que empunhava que de nós.<<Mãos ao ar!>>, repetiu para convencer-se.Mas ninguém se mexeu, como ele queria ...Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,escaqueirou o espelho biseladoque tinha as Boas-Festas da gerênciaescritas a sabão. Todos baixámos,medrosos, a cabeça. Se era um louco,melhor deixá-lo. (O barman escondera-sepor detrás do balcão). Ali estivemosum ror de medo, até que o rabiosovirou a arma à boca e disparou.Tomai lá do O'Neill!Alexandre O'NeillCírculo de Leitores (1986)UM DIAUm dia, mortos, gastos, voltaremosA viver livres como os animaisE mesmo tão cansados floriremosIrmãos vivos do mar e dos pinhais.O vento levará os mil cansaçosDos gestos agitados, irreais,E há-de voltar aos nossos membros lassosA leve rapidez dos animais.Só então poderemos caminharAtravés do mistério que se embalaNo verde dos pinhais, na voz do mar,E em nós germinará a sua fala.Dia do MarSophia de Mello Breyner AndresenCaminho (2005)
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