ALA já cá não está.
Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.
Do primeiro ...
"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos
às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"
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