quinta-feira, 5 de março de 2026

ALA

ALA já cá não está.

Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.

Do primeiro ...

"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"

Memória de elefante
António Lobo Antunes
Dom Quixote (1979)

... até ao último:

"(...) A minha vida antes de conhecer o senhor está quase toda no fundo da barragem que engoliu a vila, olho para cima e encontro um céu de água, talvez sobre ele exista um outro, não sei, porque à noite vagas constelações de luzes trémulas e uma manchazita mil vezes reflectida que pode ser a lua, às vezes presa na sombra de uma árvore vejo o que parece ser o meu pai, o que parece ser o meu avô, o que parecem ser os afogados do poço que subiram lá do fundo numa lentidão ensonada
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos 
 às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
a lamber a mortalha do cigarro entre os estalos dos móveis enquanto o senhor
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
a claridade esverdeada e as coisas menos nítidas, mas um baloiço sem dúvida e a mão dele a pensar, que é aquilo que os dedos fazem devagarinho quando coçam a orelha, o coxo, sempre a transportar o móvel pesadíssimo de si mesmo, sentava-se às vezes num degrau, ao lado da maçada do próprio corpo, a soprar as bolhinhas do cansaço pela boca aberta, se por acaso o senhor o olhasse agora, da sua cadeira, dava logo com ele, não é o gordo a enrolar o cigarro, esse é o mau pai, é o outro mais pequeno, magrinho, a ver os milhafres ao longe que a água da barragem não dissolveu ainda, o advogado para mim, deitado na cama, com um braço em cima dos olhos, no hotelzito onde a gente se concontrava
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"

O tamanho do mundo
António Lobo Antunes
Dom Quixote (2022) 

Sem comentários: