CANÇÃO DE EMBALAR
"Nada a fazer, minha rica. O menino dorme.
Tudo o mais acabou."
Mário de Sá-Carneiro
arranja-me bilhetes para o cinema mãe
quero ver a greta garbo no écran
descansar na ilusão daquele rosto frio
adormecer abraçado àquela imagem
arrenda-me uma casa na consolação
para passar férias com o livro do cesário
a melancolia da água mesmo à mão
para passar férias com a dor no coração
leva-me pão à boca mãe molhado em leite
pendura-me no varal da roupa branca
e para longe sopra este coração depressa ardido
depressa mãe sopra a cinza do meu peito
urgentemente peço que me acabes
que repitas o parto no sentido inverso
urgentemente peço que abras uma cova no teu corpo
para mim
e desce por favor a persiana traz-me gin
José Ricardo Nunes
Na linha divisória
Campo das Letras (2000)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
quarta-feira, 21 de março de 2018
segunda-feira, 19 de março de 2018
Palavras bonitas
(Para o meu pai, que faria hoje 96 anos)
Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)
PERSEVERANÇA
Abro o leque da sorte, e mostro o jogo.
Outro lance perdido!
Obras do mundo que eu não tenha erguido
Sobre o suor do corpo e da vontade,
Morrem-me assim nas mãos, num dolorido
Gesto de orgulho e de incapacidade.
Mas o fruto humilhante da falência
Tem um azedo gosto que me excita.
Se o destino se engana, ou se dormita
Na hora crucial do desafio,
Então é o mar que há-de encontrar no rio
O sal da terra em que não acredita.
Cântico do Homem
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)
sexta-feira, 2 de março de 2018
Mãe
Do lado de lá da ponte haverá flores bonitas ...
Se assim for, estarás a tratar do jardim, cuidando para que a primavera as floresça e traga cada dia mais encantos.
Sempre presente, apesar dos catorze anos que já lá vão.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Livros lidos (ou em vias disso)
(...) Só desviando a rota chegamos ao nosso destino.(...)
(...) ele sabia o que Cremilde fazia, ela sabia que ele sabia que ela sabia que ele sabia, e entre saberes e fazeres se comunicavam os dois. O silêncio marcava o respeito de Cremilde para com D. Aniceto; e em silêncio D. Aniceto aceitava as tisanas que a escrava lhe fazia na falta de médico na ilha.(...)
Maria Isabel Barreno
O Senhor das Ilhas
Caminho (1994)
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Netos
Faz hoje um ano deixei aqui um voto de grande confiança no futuro, registando o primeiro aniversário do meu neto mais novo.
Um ano volvido, o meu Miguel corre tudo, entende tudo, diz um não rotundo quando lhe parece que o querem obrigar a algo que não deseja, faz caretas de desagrado, olha de lado com um sorriso matreiro, enche a casa com a mãozita que nos chama para um desejo não alcançável sem ajuda.
"Fica a cepa a sonhar outra aventura ..." com a marcação distinta de ser sempre ele e a sua personalidade que, tudo o leva a crer, vai ser muito forte!
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Aprender ... sempre
Porque não pertenço à "multidão que, tendo caído no caldeirão, já sabe tudo de antemão", transcrevo, com a devida vénia, a admiração imensa e o respeito por quem sabe, a crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de ontem:
"Estamos todos a aprender a falar e a escrever português, excepto aquela abençoada multidão que, tendo caído no caldeirão, já sabe tudo de antemão. Sendo omnisciente, não precisa de dicionários ou de livros sobre língua portuguesa. Sendo jovem e despreocupada, basta-lhe a erudição monumental da Internet. Para quê esfoliar a pele dos dedos a folhear (ou, como eles dizem, a desfolhar) pesados cartapácios (eles dizem catrapázios), quando bastam duas carícias no teclado para esclarecer logo todas as dúvidas num dos magníficos dicionários digitais que até fazem o favor de validar os erros mais populares dos internautas?
Claro que já não se passa sem a Internet, mas é preciso cuidado. Já há um ditado e tudo: "Se queres aprender bom português, cinge-te ao Ciberdúvidas, ao Chove Chove e ao Hélder Guégués".
Foi no excelentíssimo Chove Chove, que tanta coisa boa me tem ensinado que soube do Dicionário de Erros Frequentes da Língua de Manuel Monteiro, publicado em 2015. Li-o de uma assentada, chocado com a quantidade de erros que me acompanhou (ou acompanharam?) à minha formidável idade, entendendo-se este último adjectivo como sinónimo de assustadora.
Se eu mandasse neste país, ofereceria um exemplar desta obra-prima da língua portuguesa a todos os portugueses com mais de 8 anos. Nunca um livro divertiu e ensinou tanto. É devastadoramente útil e urgente. É uma apaixonante e inteligente declaração de guerra à ignorância, à preguiça, à complacência e à estupidez.
Precisamos todos dele."
A começar por mim ...
domingo, 7 de janeiro de 2018
Balanço 2017
Apenas como resquício do passado e para cumprir a tradição aproveitando os recursos informáticos, fica o registo dos livros lidos em 2017, sempre com a esperança de despertar o interesse dos meus mais novos para as leituras que, em cada tempo, considerei valerem a pena.
O ano de 2017 já lá vai! O Presidente Marcelo está quase recuperado da operação à hérnia e vetou o "arranjinho" dos partidos; o Trump discute o tamanho do botão com o Kim Jong e conclui que o dele é maior do que o do coreano; a Comissão Europeia vai (agora) investigar o papel (pardo) vendido pelo BES; o Banco Popular já morreu e decorrem esta semana as cerimónias do seu enterro; o mar continuará a bater na rocha e a lixar o mexilhão.
Esqueçamos o que já lá vai, façamos votos para que o 2018 decorra sem sobressaltos de maior, que os olhos me continuem a permitir ler e que Portugal seja campeão do mundo na Rússia.
sábado, 6 de janeiro de 2018
Expresso
O "meu" Expresso faz hoje 45 anos e merece o destaque de um fiel leitor que, desde o primeiro número, repete um ritual todos os sábados que, nestes anos todos, não terá sido interrompido mais do que uma dezena de vezes.
Semanas melhores, outras nem tanto, o facto é que o Expresso conseguiu manter-me fiel à edição em papel e, desde há algum tempo, à digital diária.
Longa vida ao Expresso, com a qualidade e a liberdade que tem mantido até aqui.
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
A música ... por quem sabe
A Fundação Calouste Gulbenkian está a publicar, no Youtube, vídeos sobre os instrumentos da sua Orquestra.
Numa linguagem simples e de forma breve, estão a aparecer pequenas histórias ilustradas sobre, espero eu, cada um dos instrumentos que dela fazem parte. Até ao momento já estão 4 filmes sobre a trompa, a flauta, o clarinete e o fagote, sendo este último o que mais me fascinou - foi o primeiro que vi - e, por isso, aqui o deixo reproduzido.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
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