sábado, 16 de maio de 2020

Ilusão

E quando tudo indicava que as notícias continuariam a ser sobre o coronavírus, o planalto e o confinamento, a taxa de letalidade e a abertura das praias, eis que a visita à fábrica dos automóveis altera tudo, cai não cai, fica não fica, vai não vai, tem razão não tem, toda a gente sabia, ninguém sabia, aprovaram e não leram, votaram sim e queriam votar não, estava no papel, qual papel, o papel ... mas ninguém leu!
E Centeno foi treinador de futebol, de bestial a besta num minuto: os treinadores de bancada opinaram, o pequeno mundo agitou-se, as mesas redondas tentaram a quadratura, os prognósticos sucederam-se, era tudo evidente e já se esperava, claro como a água, só não via quem não queria ou era cego, o vírus eclipsou-se num instante.
A noite é boa conselheira, mesmo antes de dormir.
Foi um equívoco, um pequeno lapso, falta de informação atempada, tinha de ser, o prazo acabava no dia seguinte, toda a gente sabia, estava escrito no Orçamento, aprovado e promulgado, uma falha de informação, a auditoria é outra coisa, não invalida o compromisso, está tudo resolvido!
E eu sou parvo, ou quê?, como dizia Zé Mário Branco.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dia da Cidade

Dia da Cidade, sem concerto na Avenida da Independência, sem fogo de artifício no edifício da Câmara, sem cerimónias de condecoração de personalidades, sem abertura, simbólica, do Hospital Termal e sem inaugurações oficiais. 
E ainda por cima com chuva!
A Rainha teve direito a umas florzinhas e houve música online, mas não é a mesma coisa.
Talvez para o ano, se o Corona não se adaptar à humidade caldense e se for embora, deixando-nos em paz.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Vou escrevinhando umas historietas que deixam por aqui relatos de situações acontecidas, inventam factos ou deturpam-nos, exagerando ou minimizando, ou ainda porque sim, porque me apetece ou me dá gozo.

Escrever é outra coisa, completamente diferente e deliciosa, só acessível a alguns, privilegiados, que dominam as palavras e as situações, e as tornam tão belas que dá vontade de não parar de ler.

Aqui fica um exemplo:

(...) Molhou a pena e escreveu na capa: Tratado da Semeação das Hortaliças.

Curioso, pensou olhando as letras: Tratado da Semeação das Hortaliças. Mas logo, mordiscando distraidamente a ponta da caneta, riscou Hortaliças e escreveu Legumes. E depois de algum tempo riscou Legumes e reescreveu: Hortaliças. E, pensando melhor, riscou Semeação e escreveu: Plantação. Para também riscar Plantação e voltar a escrever: Semeação.

O título, mesmo só provisório, não o satisfazia, reflectiu segurando a folha em posição vertical para poder olhar de mais longe. Hesitava antes de mais entre Semeação e Plantação, porque nenhum dos termos lhe parecia suficientemente abrangente. Grão e feijão, por exemplo, semeavam-se, batata e couve plantavam-se. Duvidava, assim, se seria legítimo usar para todos a palavra Semeação, e hesitava também entre Hortaliças e Legumes. Não eram evidentemente sinónimos, mas, para além do facto de o título ter de se adaptar perfeitamente ao assunto, a sua escolha dependia também de razões fónicas. Deste modo, preferia por um lado hortaliças, porque o i lhe parecia mais sonoro do que o u, mas por outro lado legumes era um termo que lhe parecia mais culto e adequado, hortaliças soava-lhe coloquial e quotidiano, qualquer camponesa sabia o que eram hortaliças porque todos os dias as deitava na panela, mas não tinha a menor noção do que seriam legumes. A escolha era assim entre um termo sonoro e eufónico, mas de sentido comezinho, e um termo mais elevado mas triste, legumes parecia-lhe uma palavra em tom menor, vizinha da negrura, e acabando em escuridão completa.

Além disso, embora Semeação fosse um termo em uso, registado como tal em todos os dicionários (como acabara de se dar ao trabalho de verificar), parecia-lhe ter um belo sabor refinado e arcaico, o que lhe agradava plenamente, pois uma palavra com sabor adequava-se bem a um título onde logo a seguir se mencionava algo comestível.(...)

(...) Melhor seria, nesse caso: Manual, até porque sugeria o manusear, o uso das mãos, o que se ajustava na perfeição a uma obra que versava o trabalho manual, campestre. Mas, por outro lado, Manual lembrava um livro escolar, e tinha uma conotação dogmática e algo simplista que profundamente lhe desagradava.

Poderia ainda adoptar Registo, mas logo rejeitou o termo por demasiado sucinto. Registo era um assentamento, a notificação de um facto, como um nascimento ou um óbito. O que o levava de novo ao ponto de partida, e o fazia reconsiderar Tratado. Que talvez se pudesse entender no sentido literal e modesto de coisa tratada - era um aspecto que teria de investigar com mais cuidado.

Mas no fundo - verificou de repente com um arrepio de angústia - tudo isso não eram outra vez as armadilhas das palavras? (...)

A casa da cabeça de cavalo

quarta-feira, 13 de maio de 2020

O velho e a nova

Quando procurava um livro na estante do meu escritório, daqueles que não estão catalogados em ficheiro mas que eu sei que se encontram algures, "tropecei" com "Eu faço parte desta história", livro editado pela Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, por ocasião dos 50 anos da inauguração do edifício, que aconteceu em Outubro de 1964 e na qual participei. Lembrei-me que tinha escrito um texto para esse livro e fui relê-lo. Resolvi respigá-lo para aqui porque, não sei bem porquê, me lembrei hoje dos meus tempos de escola.

O VELHO E A NOVA

Um velho edifício, tábuas dos degraus da escada já muito gastas, janelas a rangerem quando abriam, ou a deixarem gretas onde cabia pelo menos um lápis, quando fechavam.
No barracão que servia de ginásio, chovia tal como acontecia na sala 4 do primeiro andar, onde duas turmas tinham aulas de Desenho, num espaço dividido por (vários) biombos. Das janelas do meu lado - o esquerdo - tinha-se uma panorâmica excelente do parque de jogos e, não raro, o afiar do lápis permitia apreciar os "grandes" a jogarem voleibol e andebol, únicos desportos que as aulas de Ginástica contemplavam. Os campos eram marcados com um sarrafo de madeira, de cerca de meio metro, que abria um sulco no saibro. Em dia de jogos importantes - Comércio versus Indústria, por exemplo - o sulco era avivado com cal branca, permitindo que as marcações fossem visíveis para atletas e espectadores.
De Outubro de 1962 a Julho de 1964, a velha Escola do Chafariz das Cinco Bicas marcou o miúdo pouco vivido que ali entrou aos 10 anos, após três anos de Primária e um exame de admissão, que aferiu e atestou a "qualidade" e a "competência" para prosseguir os estudos.

O ano lectivo de 1964/1965 trouxe as alterações que se ansiavam, da mudança de voz ao início do Curso que daria a "ferramenta" para a vida, dos primeiros amores à admissão nas conversas e nos jogos com os "maiores" e, sublime, uma Escola nova!
Os exíguos campos de saibro deram lugar a amplos recintos alcatroados, com equipamentos fixos e marcações a tinta. O ginásio, esse, era um luxo: cordas, muitas, que saíam das paredes laterais ("cobertas" de espaldares) e permitiam subir "até lá acima"; plintos, trampolins, rede de voleibol, "chão" de madeira envernizada e, luxo dos luxos, chuveiros individuais para o banho retemperador e higiénico. 
"Dez minutos para despir, tomar banho e vestir", gritava o Professor, "coscuvilhando" cada espaço para verificar se o sabão, azul e branco ou clarim, era devidamente aplicado.
Laboratórios, Salas com moderno mobiliário, Bar, Papelaria, uma Cantina espaçosa, com mesas para quatro alunos, onde, por vezes, se sentavam alguns professores e ... espaço, espaço, espaço, muito espaço.
O corredor enorme, coberto, junto às casas de banho (também elas extraordinariamente espaçosas quando comparadas com o que tínhamos antes), e que ligava a "casa da mocidade" à porta da entrada masculina, tinha (tem) uns bancos de pedra que serviam de balizas para grandes futeboladas, muitas vezes com uma pedrinha redonda a servir de bola!
Ainda se jogará assim?

terça-feira, 12 de maio de 2020

Fanfarrão

Chegava sempre a grande velocidade e arrumava o carro com uma espécie de pião, fazendo chiar os pneus. A porta do automóvel era fechada com estrondo, para que toda a gente olhasse a "bomba". Não havia meia dúzia na cidade e, daquela cor, era único.
Falava pelos cotovelos e antes de obter resposta já engatilhava outra pergunta.
- O patrão ainda não desceu?
- E a senhora também não?
- Quem me tira o café?
- E os bolos já chegaram?
- Vou eu tirar, que ainda sai melhor. A Máquina conhece-me.
Entretanto, já estava atrás do balcão, de volta da máquina, italiana, para lhe sacar o café da manhã. O bolo de arroz no prato, de papel tirado e pronto a ser comido.
Sentava-se à mesa, deliciado, a aguardar a chegada de um dos patrões, para pôr a conversa em dia. Se tardavam, ei-lo a fazer o percurso inverso e, no caminho, a fazer a pergunta ao abastecedor, sem esperar a resposta.
- Já cá esteve alguns dos meus carros hoje? Atende-os bem, olha que eu sou um grande cliente e pago-te o ordenado.
Abria a porta do bólide, amarelo claro, fechava com estrondo e voltava, fanfarrão, de peito aberto e olhar penetrante, como se quisesse despir todos e adivinhar-lhe os pensamentos.
Tinha, pelo menos, um ódio de estimação. Dizia-se que tinham sido grandes amigos, mas agora nem se podiam ver. Coisas de saias ...

O outro tinha um carro da mesma marca, preto. Era discreto, entrava e saía sem qualquer exuberância. Se o vislumbrava, dava meia volta e voltava passado um bom bocado.
O carro preto estava estacionado, a aguardar a vez de entrar na estação de serviço para lubrificar, mudar o óleo e lavar, lavagem completa, interna e externa. Seria um serviço demorado, mas o dono só o viria buscar no final do dia e trouxera-o bem cedo. Podia-se ir fazendo, nos intervalos em que não houvesse outros clientes.
Pouco passava das nove, o bólide amarelo entrou na rodovia, rodopiou chiando e ... com estrondo, bateu na traseira do preto.
Alarme geral. E agora?
Branco, nervoso, dirigiu-se ao patrão que, alertado pelo barulho, tinha assomado à janela do primeiro andar.
- E agora? Distraí-me e tinha logo de ser neste ...
Bem perto havia um bate-chapa e o pintor também não era longe. O patrão conhecia-os bem e, daí a pouco, estavam os "médicos" de volta da "doença".
- Eu pago tudo. Não lhe digam nada!
Durante algum tempo não houve velocidades nem chiadelas de pneus e a altivez desvaneceu-se bastante. 
Depois, as fanfarronices voltaram. O tempo lava tudo ... 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Quotidiano

Hoje foi um dia em que a imaginação andou arredia e o tempo foi pouco para as tarefas tidas. 
Apenas para que a quarentena não fique com pena de não ter qualquer registo, aqui fica a Primavera em música, com a esperança de que o Corona nos deixe ir à praia assim que o Verão chegar e que os   constrangimentos sejam mínimos.

domingo, 10 de maio de 2020

Nogueira

As primeiras laranjas, enormes, sumarentas, surgiam nas suas mãos. E exibi-as com um orgulho e uma ironia de fazer inveja a qualquer "santo".
- Querias? São da minha nogueira ...

Ainda as nêsperas não tinham chegado ao lugar de venda, já ele as trazia, amarelinhas, sem qualquer marca de míldio, e mostrava os seus dotes de atirador, arremessando os respectivos caroços a uma distância considerável.
- Querias? São da minha nogueira ...

Os pêros encarnados eram comidos primeiro à dentada e depois descascados com a pequena navalha que trazia sempre no bolso. Aquele sumo, pela certa meio acre, fazia crescer água na boca ao mais insensível.
- Querias? São da minha nogueira ...

As maçãs reinetas, pardas, redondas e achatadas, apareciam nas suas mãos muito antes de se imaginar  já estarem maduras. E ele, guloso, deliciava-se a saboreá-las devagar, com requinte e exibição.
- Querias? São da minha nogueira ...

Até os figos, que estavam por ali à mão de todos, chegavam suculentos e muito antes de os vermos a abrir.
- Querias? São da minha nogueira ...

E a uva, Moscatel, também aparecia ainda antes de a Fernão Pires "vergar", exibida em cachos enormes e de bagos verde acastanhado, doces pela certa e a cada trincadela mais deliciosos.
- Querias? São da minha nogueira ...

Como é possível a nogueira dar todas as frutas, de tão boa qualidade e sempre antes do tempo?
Conversa que não se entendia, dúvida que permanecia, até um dia ...
Afinal era simples: conhecia todos os pomares e árvores da região e iniciava a colheita antes mesmo de os donos perceberem que já havia fruta madura ... 

sábado, 9 de maio de 2020

Quotidiano

Num sábado esquisito, com sol, vento, chuva e gatos aos gritos no quintal, lê-se e ouve-se música boa, como esta, e deseja-se que amanhã, domingo, o S. Pedro nos dispense a chuva, mesmo não  dando o tempo que convida a ida à praia.
Os resultados diários do corona parecem animadores mas, a ver vamos, como diz o cego.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Culinária

Era uma tia-avó, velha, que vivia na Avenida Defensores de Chaves, em Lisboa, há muitos anos. Tinha perdido o marido muito nova e permanecia viúva, sem filhos.
Vinha ao Oeste visitar os sobrinhos uma, duas vezes por ano, sempre com alguma altivez da capital para com os "coitados" que permaneciam na província.
Nesse ano veio passar a Páscoa e foi convidada para o almoço no Domingo da dita.
- Vê lá o que arranjas. Olha que ela não gosta de borrego.
- Não te preocupes. Alguma coisa se há-de arranjar.
Chegou o dia e, como era de bom tom, fomos todos festejar a sua entrada na nossa casa, dar-lhe as boas-vindas e receber o pacotinho de amêndoas, pequenino, com que nos brindou.
- Então que fizeste para o almoço? Espero que não te tenhas esquecido que não gosto de borrego.
- Claro que não, tia. Fiz um cabritinho, que espero esteja ao seu gosto.
O almoço correu bem, a tia comeu e bebeu e ninguém se desmanchou.
- O teu cabrito estava divinal. Gostei muitíssimo, obrigado.
Vieram as despedidas e, de novo, as referências elogiosas ao cabrito, com a indicação de, para a próxima vez
- Hás-de fazer de novo, gostei muito e quero repetir.

A minha mãe, que faz(fazia) hoje 97 anos, foi a cozinheira desta refeição e ensinou-nos que, afinal, o cabrito pode ser borrego e que, mesmo os mais convencidos, nunca sabem tudo.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Quotidiano

Tenho máscara, tenho viseira, tenho as obras prontas, o automático do portão de novo a funcionar, a relva, cortada, as rosas, lindas, os morangos, maduros, os gatos a continuarem a usar o wc verde sem qualquer autorização e sem um pingo de vergonha, os melros a espreitarem a ginjeira, ainda tão longe de avermelhar, as framboesas a darem mostras de quererem oferecer uma boa produção, as alfaces, viçosas, o limoeiro, carregado, os espinafres esperando que os colham para a "sopa dos meninos", o chuchu, a trepar, a glicínia a ostentar cachos roxos, os bordões de S. José verdíssimos e ainda longe da "hibernação" que irá ocorrer quando o calor apertar, os cactos, suspensos, a mirarem o ambiente, as strelitzias, maravilhosas, a rua, um sossego, e a casa ... vazia.