domingo, 13 de setembro de 2020

Quotidiano

Hoje é domingo e apetece-me descansar. Tenho esse direito, consagrado na Constituição da República e no direito consuetudinário.

Já dei cotoveladas aos meus netos mais velhos, dei uns encontrões ao mar da Foz, que estava zangado e a anunciar que o fim da estação se aproxima, li, ou melhor, passei os olhos pelos títulos dos jornais de hoje; galguei mais umas boas páginas do A Leste do Paraíso (são mais de 700), ainda vou ler o caderno de economia e a revista do Expresso, ouvi os números, assustadores, do vírus, vi a etapa da volta à França em bicicleta, com as habituais paisagens maravilhosas e mais de uma centena de valentes a subir, a subir, a subir que nunca mais acabava e até cansava ... o sofá.

Pouco mais devo fazer hoje, a não ser repetir o ler, ouvir música, espreitar a televisão e alimentar-me, pormenor fundamental para estar em boas condições físicas, que esta "profissão" é muito exigente.

Já me esquecia: ainda tenho de preparar-me para a semana de trabalho que aí vem, solidarizando-me com todos aqueles que recomeçam a azáfama de laborar e de levar os filhos à escola, o que não é nada fácil.

Esta rotina cansa muito ... e "isto não é gozar com quem trabalha".

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...)     - Um ninho! - gritou alguém.

E Guiomar, que passava, voltou-se.

- Onde está? - perguntou, alarmada.

- Aqui, menina ... Quer ver? Olhe que lindo!

Dois braços roliços de moçoila afastaram as vides ramalhudas e mostraram num torcegão da cepa, seguro entre duas varas, o manhuço de raízes, gravetos e terra.

- É de melro. Que lindeza!

O Chico pôs a cesta no chão, e largou desenfreado pela valeira fora.

- Onde vais? - berrou o Gustavo, que estava à espera que lhe enchesse o vindimeiro.

- Ia ver ... - disse o rapaz, estacado.

Guiomar tinha-se aproximado curiosa, e o Gustavo deu licença ao petiz para colaborar no interesse da patroa.

- Anda lá, então.

A espreitar por entre as duas, o pequeno confirmou:

- É de melro, é ... Mas já voaram, bô!...

Na sua voz havia ao mesmo tempo pena e contentamento.

- Tem um ovo ... - notou timidamente Guiomar.

- Não saiu ... Se calhar o pássaro enjeitou ...

Os braços da montanhesa, vivos de sangue, continuavam a afastar a rama. Pálida, Guiomar fixava o ninho onde o ovo pintalgado jazia. O Chico perdera todo o entusiasmo.

- Costumam ficar muitos assim? - quis saber ela.

- É conforme ...

- Tão bem forradinho que ele está! ... - elogiava a vindimadeira.

- É com penas ... - esclareceu o rapaz.-Tem de ser. É o lençol que a mãe põe na cama dos filhos ... nascem nuzinhos em pêlo ...

Um gelo mortal cobria o coração desiludido de Guiomar. (...)"

Vindima
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1997)

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Realeza

Lá do alto o horizonte não tinha limites. O rio corria mansamente no vale, as flores brancas da esteva mesclavam o verde das encostas, um ou outro castanheiro mostrava a sua classe e o seu esplendor, meia dúzia de pinheiros, mansos, também se destacavam e ofereciam sombra nos dias de calor tórrido, as hortas eram tratadas com esmero por aqueles que dependiam delas para a sua mesa, a água cuidava da frescura e do sabor das couves, dos nabos, do feijão, das abóboras, das alfaces, dos tomates, dos pimentos, poucos, que são arredios na produção. Os repolhos, quando deles chegava o tempo, eram reis da horta mas a couve-flor, para os poucos que nela se aventuravam, era ainda mais rica.

Os apicultores colocavam as suas colmeias nos, poucos, socalcos que o monte lhes oferecia. A experiência tinha-lhes ensinado que não deviam ser colocadas nem no sopé nem no cume. Como em quase tudo, no meio reside a virtude e os socalcos garantiam a protecção necessária às inclemências do tempo e ao vandalismo humano.

Entre todas as obreiras que laboravam nos enxames, uma se destacava pela capacidade de trabalho, pela velocidade de voo e, sobretudo, por ser sempre a primeira a chegar ao pólen de cada flor. Via longe e essa era a sua grande vantagem. As outras, também obreiras de condição, vaticinavam-lhe um futuro brilhante, quiçá até a possibilidade de, um dia, substituir a rainha da colmeia.

A abelha rezingava sempre que disso lhe falavam. Conhecia bem as suas limitações e impossibilidades.

Não é rainha quem quer mas sim quem nasceu rainha.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Liga das Nações

A selecção portuguesa de futebol amealhou seis pontos nos dois primeiros jogos da Liga das Nações 2021. 
Se no primeiro jogo, com o melhor do mundo ausente, a equipa realizou uma grande exibição e derrotou a Croácia por um resultado expressivo - 4-1 -, ontem, frente à Suécia, voltou a fazer uma boa exibição global, levada à perfeição por Cristiano Ronaldo, com dois "golaços" que ficarão para a história do futebol, não só por serem o 100º e o 101º de CR7 ao serviço da selecção, como pelo primor da execução que ambos mostram.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Novas tecnologias

Efectuar uma chamada telefónica para os serviços, complexos, de alguma grande empresa, entidade ou repartição, é um suplício.

As gravações são todas muito simpáticas, uma voz melodiosa cumprimenta-nos e, logo a seguir, "despeja" as instruções:

- Se pretende X, marque 1; Se pretende Y, marque 2; Se pretende Z, marque 3; Se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.

Escolhida a hipótese que parece ser a mais adequada à questão que suscitou o telefonema e sobre a qual se pretende esclarecimento, aguardam-se alguns momentos até aparecer uma voz, simpática, claro, que se identifica, nos cumprimenta e nos interroga sobre qual o assunto que nos levou ao contacto, "que, desde já, muito agradecemos".

Relatado o problema, de novo a voz melodiosa:

- Desculpe, mas esse assunto não é comigo. Vou ter que transferir a sua chamada para o departamento respectivo. Não desligue.

Música, muita, para que o tempo passe sem se notar.

- Boa tarde, fala F., em que posso ser útil?

Renova-se a cantilena, tentando que a exposição seja clara e que o interlocutor perceba. 

- Entendi perfeitamente mas, vai-me desculpar, o assunto não é comigo. Vou tentar ligar ao departamento respectivo. Espero que a chamada não caia. Pensando melhor: mande um "mail" para o endereço "tal" que, eu entretanto, falo com o colega para que se resolva de forma rápida.

O "mail" já lá está. E a resposta, quando virá? Aguardemos! 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

ABC da vaga

António concorreu e conseguiu ocupar a vaga posta a concurso. É hoje um distinto funcionário, querido pelos colegas e admirado pelo público.

Benjamim habituou-se desde cedo às vagas do oceano, ali mesmo à beira do qual viu a luz do dia. Mantém vivo o respeito pela sétima vaga e é hoje um surfista de sucesso.

Carlos viu um vaga-lume pela última vez há perto de cinquenta anos. Todos os anos compra o Pirilampo Mágico, para ajudar, e manter viva a chama que desapareceu.

A senhora do IPMA avisou que, nos próximos dias, haverá uma nova vaga de calor. A Protecção Civil alertou para o risco de uma vaga de incêndios e determinou que a vaga de piqueniques, tão habitual nesta altura do ano, seja proibida.

Uma vaga de bombeiros, viaturas e meios aéreos estará em estado de prontidão máxima, preparados para a vaga de sacrifícios que a sua nobre missão impõe.

Corona iniciou a sua primeira vaga em Março e, não contente com a vaga de problemas com que nos presenteou, prepara-se para nos oferecer uma segunda, sem ter evidenciado muito bem o final da primeira.

No mar alterado, as vagas surgem seguidas e muitas vezes não se consegue descortinar a diferença entre a primeira e a sétima.

No próximo século, uma vaga de cientistas e de historiadores dedicar-se-á a estudar as razões que motivaram uma vaga tão grande de infectados por um vírus que, nessa altura, não passará de um viruzeco.

domingo, 6 de setembro de 2020

Macramé

Técnica de tecelagem manual, conhecida e trabalhada desde, pelo menos, o século XIV.

Cá por casa também é velha conhecida. Desta vez está a surgir um novo projecto destinado ao jardim, com a execução a cerca de um terço, sempre sob o olhar atento dos herdeiros.

Até parece fácil ... para quem sabe.

sábado, 5 de setembro de 2020

Adágios

Num dia de almoço plebeu, no qual (quase) todos puxaram a brasa à sua sardinha, conviveram contando estórias, manjaram batatas, pimentos e tomates, tudo regado a contento e terminado com alguns "comprimidos" tomados à colherada e fundamentais para o progresso da diabetes, meia dúzia de ditados populares ilustradores da sabedoria da experiência.

Quem porfia mata caça

Grão a grão enche a galinha o papo

Quem muito manduca, pouco trabuca

Ovelha que berra, bocada que perde

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura

Quem tudo quer tudo perde 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Palavras bonitas

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse, é consuetudinário.

O sol nas noites e o luar nos dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)