terça-feira, 22 de setembro de 2020

Devaneios

Era um ás
aquele rapaz
inteligente, sagaz.
Nunca ficava p'ra trás.
De verbo, sempre mordaz,
perspicaz,
capaz,
audaz.

Índio de alcunha,
de nome era Cunha.
Sapatos não punha
e exibia a unha
como testemunha.

Na fisga era o rei
e inda hoje não sei
como acertava tão bem.
Teria aprendido com a mãe?
No berlinde, campeão
na bilharda, um leão
E o melhor, no pião!

E porque me lembrei eu disto?
Não estava nada previsto!

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Palavras bonitas ...

 NÓS

Foi quando em dois Verões, seguidamente, a Febre 
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo)
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na "city", que desterros!
(...)
Cesário Verde
O Livro de Cesário Verde
Editorial Minerva

PS - Cesário Verde nasceu em 1855 e morreu em 1886

domingo, 20 de setembro de 2020

A transformação do café

O mundo, como sempre tem acontecido, está a transformar-se e os olhos, velhos, já têm alguma dificuldade em enxergar todos os pormenores dessa transformação.

Desde que me conheço enquanto "gente grande" que bebo café, nos cafés.

- Vamos beber uma bica?

E, ao final do dia, eram tantas que nem valia a pena fazer a contabilidade. Nos últimos anos, o medo e a conversa do "faz mal" produziram a redução para a meia dúzia diária, não mais. A entrada em "férias definitivas" reduziu o número para metade e dessas, normalmente, duas são caseiras que o "café é muito bom". A ida ao café depois do almoço mantém vivo o ritual de tantos anos mas, ou eu me engano muito, ou irá terminar em breve. As bicas eram, quase sempre, tomadas ao balcão, sem açúcar, em dois ou três goles, que o tempo não era coisa que abundasse. Raramente me sentava à mesa, não por qualquer preconceito mas por não me dar prazer nenhum. Sabia-me bem estar encostado ao balcão e ver o manípulo a ser cheio de café retirado do moinho, a chávena a sair do topo da máquina, quentinha, e, finalmente, o líquido a encher apenas até ao meio, como ainda hoje gosto.

O Corona alterou este ritual e obrigou-me a sentar na mesa, aguardando, se for caso disso, a vaga devida. E vou-me sentindo dinossauro ou peixe fora de água. Com a pandemia, o perfil da clientela vai-se alterando e o dono arrepiou caminho porque, se continuasse na senda de só a vender cafés, sandes e bolos, tinha os dias contados. A pouco e pouco, o "meu" café caminha para um moderno restaurante, com pratos rápidos e leves, saladas e massas, pizzas e hamburgueres. O cliente tradicional como eu vai rareando. 

Continuo a ser extremamente bem atendido e a sentir que querem continuar a ver-me por lá. Nunca preciso de pedir o café e até o Expresso me vem parar às mãos sem ser solicitado, mas ... cada vez são mais raros os clientes do café!

sábado, 19 de setembro de 2020

Melros

Como já por aqui ficou mais ou menos expresso, gosto muito de melros. Devem ter sido dos primeiros pássaros de que aprendi o nome, e a reconhecer pela aparência e pelo seu canto variado e sonoro. No tempo em que se ia aos ninhos - nos dias de hoje, frase sacrílega e socialmente inaceitável - os de melro eram dos mais difíceis de encontrar e raramente se conseguia detectá-los com crias. Passe a imodéstia da mistura, Miguel Torga refere-se a eles bastas vezes na sua obra e, em particular, em A Vindima.

Hoje, os melros invadiram as cidades, os parques, as ruas, os jardins, as habitações, numa convivência sem sustos, quase sugerindo que sempre por aqui habitaram e comportando-se como verdadeiros conhecedores do terreno.

Talvez por isso, aparecem com frequência alguns "melros" de duas pernas, que espalham a sua "esperteza" fazendo-nos de parvos a cada momento. Nestes, também o canto é sonoro, variado, muitas vezes estridente. Voam alto, protegem-se bem, compram disfarces e companhias, raramente se lhes vê o "ninho".

E não se pode exterminá-los? Pode, mas é necessário provar, em várias instâncias, que os "cabritos" não caíram do céu nem nasceram por geração espontânea. E isso é muito mais difícil do que detectar um ninho de melro verdadeiro.

Dos verdadeiros, eu quero que se continuem a deliciar (e a deliciar-me) no jardim, ainda que isso implique partilhar ginjas, morangos e mirtilos antes mesmo de amadurecerem. 

Quanto aos "passarões", gostava de os presentear com uma gaiola grande, onde poderiam conviver todos , em festa contínua, sem champagne nem caviar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Jardim

No passado dia 6, aqui, mostrei que uma velha técnica de tecelagem, conhecida e bem dominada cá pela casa, estava a ser utilizada e desenvolvida para um novo projecto a instalar no jardim, ou melhor, no alpendre de acesso à garagem.

A instalação está pronta! Os cactos, que estavam cansados dos garrafões de plástico, estão a "delirar" com a sua nova "casa" e o resultado, que parece agradar a quem passa, é este:

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Passado(?)

Salgueiral, Coja, 23 de Dezembro de 1958

São muito pobres estas nossas aldeias sertanejas, onde a graça de Deus só chega por alturas da côngrua e a de César por alturas da décima. Mas gozam dum bem que nenhuma riqueza compra: a de serem imunes à solidão. Apesar de viverem desterradas do mundo, e fazerem parte de uma pátria de desterrados, dentro dos seus muros reina o convívio. A vida articula-se nelas de tal maneira, que a lepra do ensimesmamento não as pode contaminar. A velha que espreita à janela, o homem que sai de enxada às costas e a criança que solta o gado da loja são pedras indispensáveis dum jogo de muitos, figuras essenciais do mesmo retábulo, que nem separadas ficam sozinhas.

Diário VIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (3ªedição revista 1973)

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Tempos

Já lá vão seis meses, meio ano, cento e oitenta e três dias, de "escrita" ininterrupta no blogue.

Prometi a mim mesmo que o faria enquanto durasse a "guerra" que nos bateu à porta no início do mês da Primavera. Julgava eu, inocente, que, quando muito, duraria até o Verão chegar e que a água do mar lavaria tudo, até o vírus.

Enganei-me redondamente. E por isso me penitencio. Tenho vida (?) nova, acessórios novos, comportamento individual e social novo, tudo surpreendente e, afinal, imprevisível para quem já leva tantos anos. Por quanto tempo mais?

Não faço ideia e tenho dúvidas que alguém, mesmo muito dotado, o saiba. Vou procurar manter a rotina de por aqui me manter todos os dias, numa espécie de "diário catártico", enquanto a imaginação, a pachorra e a capacidade me forem dando "trunfos" para registar. Se o baralho se esgotar, acaba-se o jogo. 

Vou-me convencendo (presunção e água benta cada um toma a que quer) que talvez um dia alguém leia isto com um pouco de atenção e conclua que por aqui ficaram alguns registos interessantes sobre o dia a dia da "guerra" dos dias "coronados".

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Bocage

Nasceu a 15 de Setembro de 1765. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, ficou conhecido como o Elmano Sadino e ainda hoje é recordado por inúmeras anedotas que se lhe atribuem, com ou sem razão. Foi um excelente poeta. Deixou vasta obra, que se lê sempre com muito agrado. Por força da evolução natural dos tempos e dos tempos que já foram, talvez não seja recordada com a atenção que lhe seria devida.

Fica aqui o seu retrato, com a ressalva de que, quando o li pela primeira vez, a moral e os bons costumes da época determinavam que o último verso fosse "Num dia em que se achou mais pachorrento" e não aquilo que o poeta escreveu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento;
Inimigo de hipócritas e de frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.
Obras Escolhidas
Bocage
Círculo de Leitores (1985)

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Adágios

As notícias mais recentes lembraram-me, uma vez mais, um dos muitos ditados populares que a experiência de quem muito penou trouxe até aos nossos dias. Utilizando a ironia, a grande maioria dos adágios serve, como fato à medida, a alguma "gente" que por aí anda, emproada, quando deveria caminhar de olhos no chão, em busca da cela que, essa sim, era merecida.

"Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem."

domingo, 13 de setembro de 2020

Quotidiano

Hoje é domingo e apetece-me descansar. Tenho esse direito, consagrado na Constituição da República e no direito consuetudinário.

Já dei cotoveladas aos meus netos mais velhos, dei uns encontrões ao mar da Foz, que estava zangado e a anunciar que o fim da estação se aproxima, li, ou melhor, passei os olhos pelos títulos dos jornais de hoje; galguei mais umas boas páginas do A Leste do Paraíso (são mais de 700), ainda vou ler o caderno de economia e a revista do Expresso, ouvi os números, assustadores, do vírus, vi a etapa da volta à França em bicicleta, com as habituais paisagens maravilhosas e mais de uma centena de valentes a subir, a subir, a subir que nunca mais acabava e até cansava ... o sofá.

Pouco mais devo fazer hoje, a não ser repetir o ler, ouvir música, espreitar a televisão e alimentar-me, pormenor fundamental para estar em boas condições físicas, que esta "profissão" é muito exigente.

Já me esquecia: ainda tenho de preparar-me para a semana de trabalho que aí vem, solidarizando-me com todos aqueles que recomeçam a azáfama de laborar e de levar os filhos à escola, o que não é nada fácil.

Esta rotina cansa muito ... e "isto não é gozar com quem trabalha".