terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Em casa ...

Quase 47 anos passados sobre esse dia memorável em que completei 22 anos, continuamos a ser um povo, no mínimo, esquisito. Não gostamos do rigor, contrariamos porque sim, desenrascamos tudo sem planear nada, achamos que, havendo um alicate, um martelo ou um prego à mão, tudo se resolve, incluindo a educação e o respeito pelo outro. O outro é, aliás, sempre qualquer coisa de estranho, cheio de defeitos, que subiu à custa de cunhas ou na horizontal, um ser muito pior do que nós, que criticamos quando estamos longe e reverenciamos se estamos junto.

Pediram-nos para ficar em casa. Arranjamos forma de ignorar esse pedido, com habilidades de contorno, excepções por dá cá aquela palha, razões que a razão devia desconhecer. Não pensamos no outro e achamos que a nós, imunes, nada nos tocará. Não respeitamos e clamamos pela intervenção da polícia, que não actua sobre aqueles energúmenos que contrariam as ordens. 

Entretanto, surgem do "céu" os arautos do país "certinho", do "naquele tempo é que era" e outras "venturices" que deviam envergonhar quem tem dez réis de testa e (ainda) memória. 

A todos custa! De certeza que, a quem já sofreu na pele, custará muito mais. Se podemos evitar, porque não fazê-lo. E se ainda há papel higiénico, para quê comprar mais? Gosto tanto do mar, apetecia-me muito passear na areia e ouvi-lo rebentar com estrondo, como estará a acontecer agora. Quando puder, regresso e ele está lá, à minha espera, sempre solícito e fresquinho.

Está muito frio! Fiquemos em casa e deixem a polícia sossegada. Eles também podem apanhar o "bicho". Se continuarmos a não olhar, não ver e não reparar, um dia destes ainda chega ... a polícia de choque de má memória para nos pôr na linha.

Eu dispenso! 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Não me canso de bradar a inutilidade do Acordo Ortográfico e já por aqui deixei opiniões, muito mais acertivas e valiosas do que a minha, que justificam a ineficácia dessa tentativa de obrigar milhões de pessoas tão diversas a grafar e a exprimir da mesma maneira uma língua tão rica na sua diversidade como é o português.

Estou a ler um livro (como sempre) de um autor brasileiro - Luiz Ruffato - que não conhecia e que (d)escreve, desta forma preciosa e obrigando-me a recorrer muitas vezes ao Dicionário Houaiss, uma viagem de táxi em S. Paulo. 

(...) 41. Táxi 

O doutor tem algum itinerário de preferência? Não? Então vamos pelo caminho mais rápido. Que não é o mais curto, o senhor sabe. Aqui em S. Paulo nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido. A essa hora ... cinco e quinze ... a essa hora a cidade já está parando ... as marginais, as ruas paralelas, as alamedas, as ruas, as vielas, tudo, tudo entupido de carros e buzinas. Sabe que uma vez sonhei que a cidade parou? Parou mesmo, totalmente. Um engarrafamento imenso, um congestionamento-monstro, como nunca antes visto, e ninguém conseguia andar um centímetro que fosse ... Parece coisa de cinema, não é não? Pois eu gosto. Gosto muito de assistir filme. Mas prefiro os antigos. De vez em quando reprisa um na televisão. Tinha uns atores danados de bons, Tyrone Power, Burt Lancaster ... O meu preferido é o Victor Mature, conhece? Ele fazia o papel de Maciste, lembra? Era bom mesmo ... Tem um retrato dele na parede da sala lá de casa. Bom, não é retrato, é uma fotografia de revista que a patroa recortou e mandou emoldurar. O senhor entende como é mulher ... Ela sabia que eu era fã do Victor Mature e então pensou em me agradar ... Me deu no aniversário ... bastantes anos já. Pendurou na parede da sala ... E eu lá tenho coragem de tirar? Tenho nada. O senhor teria? Uma vez, inclusive, eu estava sozinho em casa, joguei o retrato no chão, o vidro espatifou, falei que tinha sido ventania, ela acreditou, pensei que tinha livrado dele. Mas não é que na semana seguinte lá estava ele pendurado na parede, novinho em folha, o doutor acredita? Ela acha que me agrada, fazer o quê? As minhas filhas quando eram adolescentes - agora estão todas casadas, e bem casadas, graças a deus - morriam de vergonha do retrato. Pai, que coisa mais brega!, elas falavam. As amigas perguntavam se era algum parente, Quem é o gato?, indagavam. Acabei concordando, uma coisa ridícula! Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor!, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor!, daqui a pouco elas vão embora de casa, ficamos só nós dois, velhos, você gosta do retrato, ele vai ficar lá ... Bom, resultado: se o senhor um dia der o ar da graça lá em casa, vai ver o Victor Mature pendurado na parede da sala! E olha que a gente tem um cachorro, um fox terrier, que o filho-da-mãe não deixava pedra sobre pedra, entrava correndo pela porta da sala e saía voando pela porta da cozinha, o rabo estabanado derrubando tudo, vaso de flor, xaxim de samambaia, crianças relienta, até uma lata de biscoito dinamarquês vazia, que ficava em cima do armário, o diabo conseguiu deitar ao chão, amassar. A velha amofinou, porque aquilo servia de cofre ... Consertadeira de roupa, escondia lá o dinheirinho proveniente do alinhavo de uma barra-italiana, da pregação de botão numa camisa, do pence de uma calça, do cerzido de uma rasgo ... Mas, o doutor acredita? (...)

Eles eram muitos cavalos
Luiz Ruffato
Tinta da China (2018)

domingo, 17 de janeiro de 2021

Netos

Ontem, no contacto telefónico de final do dia, com direito a imagem e tudo, elogiei o neto II por um desenho que tinha visto na véspera e sobre o qual ainda não tinha tido oportunidade de lhe manifestar a minha opinião. 

- E o neto I também tem qualquer coisa para contar, que vais gostar, de certeza.

- Diz já, neto grande!

- O professor de Português mandou fazer um trabalho sobre um livro que já tivéssemos lido ...

- E  qual foi o teu?

- Ensaio sobre a cegueira.

Fará 15 anos em Julho. Nada todos os dias mais de 2 horas (agora está confinado) e tem provas quase todas as semanas. Usa o telemóvel, o tablet e o computador com a ligeireza normal dos da sua geração e sobre isso esclarece o avô, quando necessário. Já leu Saramago e o trabalho feito mereceu os maiores elogios do professor. 

Tudo normal! Não percebo porque hei-de ficar babado ... e comovido. Deve ser por ser dia de Santo Antão! 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Incompatibilidades

Habitualmente, as compras online correm bem. As pessoas dos CTT e das transportadoras são simpáticas, a maioria já por aqui passou várias vezes e conhece bem a rua e a casa. Desta vez não foi assim e as obras que decorrem aqui à volta, deixando-nos quase prisioneiros e obrigados a circular em sentido contrário, com a sinalização tapada (quando está) com um plástico preto, foram as grandes culpadas. Elas e alguma falta de senso ou de prática, não sei bem.

Na quinta-feira surgiu a primeira mensagem, dando conta que, entre as 15H15 e as 15H45 estariam a concretizar a entrega. Até aqui, tudo normal e costumeiro. A anormalidade começa a desenhar-se depois de passar a hora prevista e nada. Já quase no final do dia, uma nova mensagem transmitia que não tinha sido possível efectuar a entrega. Um telefonema e, depois de várias digitações, a última das quais o número da encomenda com quase vinte dígitos, surge uma voz simpática informando que, devido às obras circundantes, o nosso carro não conseguiu chegar à morada indicada.

- E porque não ligaram? Eu teria ido ao sítio onde o homem se encontrava e recolhia a encomenda.

- Habitualmente não telefonamos, mas vou anotar e amanhã, se o nosso funcionário não conseguir chegar até si, telefona-lhe.

No dia seguinte, sexta-feira, a cena repetiu-se: mensagem a informar que, entre as 17H45 e as 18H30 estariam à minha porta. De novo, carrinha nem vê-la. Novo telefonema e, depois das "mil e uma" digitações, a mesma conversa.

- Mas a sua colega, ontem, disse-me que me telefonariam se não conseguissem cá chegar.

- Não tenho aqui nada. Talvez se tenha esquecido ...Vou tomar nota, mas agora só na segunda.

O diálogo tornou-se mais ríspido. Tudo indicava que, uma vez mais, era para "calar o freguês" e depois logo se veria. Desliguei, não sem antes transmitir à D. Manuela o meu desagrado e a certeza de que, se a encomenda não fosse entregue na próxima segunda-feira, apresentaria reclamação na empresa de transporte e na vendedora.

Hoje, logo pela manhã e quando regressava de uma voltinha ao quarteirão, surge uma carrinha branca que pára em frente ao portão e se dirige à campainha. Adivinhei logo ...

- Desculpe o que aconteceu. O rapazinho não conhece a volta e não foi capaz de chegar aqui. Tive de cá vir eu.

- Mas, agora, eu só o esperava na segunda-feira. Nem mensagem mandou ...

- Pois ... mas assim fica já feito e o senhor descansado.

É o resultado destas malfadadas obras que, tal como o "bicho", não há meio de nos largarem. Ainda bem que o carro não sai da garagem ...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Troca de letras

Era baixo, muito gordinho, sem jeito para nada que o obrigasse a mexer-se e com pouca queda para as actividades escolares. O massacre dos colegas era constante, por vezes com uma crueldade que hoje não se entende como era possível. Nos jogos, o berlinde, a bilharda ou a bola eram brincadeiras a que nunca se associava, restando-lhe o jogo do botão e, mesmo esse, muito poucas vezes. Já quase adulto dedicou-se ao atletismo e conseguiu alguns resultados regionalmente interessantes no lançamento do peso. Força tinha ele com fartura, desde pequeno mas nunca a utilizava contra os que lhe moíam a cabeça.

Tinha dificuldade com os "érres" e não conseguia dizer os "guês", que trocava por "dês".

Um dia, com toda a aula concentrada no estudo, levantou-se e, de dedo apontado à janela, gritou, à sua maneira:

- Senhora, senhora, há fogo, fogo, n'A-dos-Negros.

Houve gargalhada geral, a professora zangou-se e ele, coitado, ficou vermelho de vergonha. Hoje, consegue dizer os "guês" na perfeição, não dando lugar a confusões.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Confinamento

A partir da meia-noite de hoje, as saídas vão ser reduzidas ao mínimo indispensável e efectuadas com a máxima brevidade. O jardim, os livros, a música e alguma televisão garantirão o entretenimento, cabendo ao S. Pedro assegurar que o tempo ajudará e não trará mais cinzentismo do que aquele que já temos de suportar. Para evitar problemas legais, estou a ponderar comprar uma trela e passear, de manhã e à noite, um cão imaginário, garantindo, assim, que umas voltinhas em redor da casa não me tornam um relapso.

Já cansa! Mesmo aqueles que, como eu, acham que a vida - a nossa e a dos outros - é o bem mais precioso a preservar, têm de garantir todos os dias uma dose de paciência, de forma a que as horas passem sem deixar saudades mas também sem causar moléstia.

Entretanto o frio já diminuiu alguma coisa e o casaco de hoje saiu do armário de onde não se escapava há algum tempo. Longe estava eu de imaginar que, afinal, o coitado já não saía à rua há mais de dez meses e sofreu todo este tempo de clausura sem um queixume. Pus a mão no bolso e encontrei a prova irrefutável do tempo que fiz sofrer o desgraçado. Valha-nos que nesse dia de anos da minha irmã, ele acompanhou-a a um excelente espectáculo dado pelo Rodrigo Leão, no CCC. Desde essa noite, espectáculos nunca mais.

Até quando?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Melros

Quem, como eu, os conhece desde a infância, não estranha o seu comportamento esquivo, na procura dos seus interesses, mesmo atropelando os de todos os outros. Muito mais espertos que os pardais, os melros movimentam-se pela calada, escondem-se na vegetação, voam para longe quando lhes cheira a esturro e só cantam quando têm garantida audiência e se encontram bem protegidos. 

Habituei-me desde cedo a conhecer os melros que, com maior ou menor desfaçatez, me foram surgindo pela frente, sem dar às asas mas insinuando-se de forma subtil para, de uma forma que parecesse lícita, voarem até ao alvo pretendido. O importante, para esses melros era, e é, evitar a frontalidade, mesmo quando infringem todas as regras, nomeadamente aquelas pelas quais garantem reger-se.

Apesar de, como o cântaro, já ter ido tantas vezes à fonte, ainda dou por mim a perguntar porque razão determinado melro seguiu esta ou aquela estratégia, varrendo para debaixo da mesa princípios éticos que sempre apregoou, procurando soluções que sempre disse abominar e, apesar das evidências, ainda é capaz de colocar o seu angelical rosto de santinho, pretendendo fazer crer que não contam com ele para partir um prato, muito menos o guarda-louça.

Nestas ocasiões, apetece-me sempre puxar do adágio e dizer-lhe, em voz bem alta e sem receios, que confio muito que talvez vás à lã e venhas tosquiado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Viagens

Num dia em que a azia assentou arraiais lá para as bandas de Alvalade, após o Marítimo ter desfeito o sonho de vencer sempre, que o Presidente da República testou positivo ao "bicho" mas, entretanto, já fez mais duas zaragatoas e ambas deram negativo, e que se aproxima mais um período, longo, de "reclusão", o meu amigo ADS enviou-me um link a partir do qual é possível viajar por várias grandes e bonitas cidades do mundo, de Lisboa a Kiev, passando por Havana, Madrid, Los Angeles ou Londres.

Uma boa forma de passear, sem sair do lugar e sem gastar. Em completa segurança, escolhendo a velocidade da viatura sem preocupação com o consumo de combustível e sem que o trânsito nos exaspere. 

Não resisti a partilhar. Espero que ele me desculpe ...

 https://driveandlisten.herokuapp.com/

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Bom português

Com regularidade, presto atenção a uma rubrica que é transmitida logo pela manhã, nas emissões diárias da RTP1. Chama-se "Bom Português" e é o resultado de entrevistas de rua sobre a nossa língua, feitas pela jornalista Carla Trafaria.

No programa de hoje questionava-se a grafia de "caem", para indagar se levava, ou não, um "i" antes do "e". Como sempre, as dúvidas sobre a forma de escrever a língua que é nossa foram inúmeras, mesmo numa situação que, aos meus olhos, é tão simples. Fica-se com pena de quem não sabe nem tem a consciência da sua ignorância, tendo sempre presente que o "sabe tudo" ainda não nasceu e que admitir isso é o primeiro passo para aprender. Mas o microfone e a câmara exercem uma atracção irresistível para demasiada gente.

- Ó Inês, onde tás tu que nim tacho?

- Tou aqui imbaxo, sentada numa piltrona, com duas facadas no buxo que me deu o Pacheco.

- Ai o miseravel dos miseraveis, que lheide arrancar o coração

Era desta forma brincalhona que, na minha juventude, se glosava o drama de Pedro e Inês, vincando bem as palavras incorrectas e os erros de pronúncia. E a associação de ideias levou a lembrar-me disto, logo pela manhã, ao ouvir os entrevistados de Carla Trafaria. 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Santo Antão

Janeiro fora, cresce uma hora. E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Há dias, um meu condiscípulo que hoje se dedica à agricultura e tem como apêndice o negócio da lenha, dizia-me, confrontado com o facto de a pilha ter diminuído substancialmente em pouco tempo:

- Está no fim. A partir do Santo Antão já ninguém compra lenha.

O Santo Antão, conhecido como o Santo do chouriço, comemora-se por aqui a 17 de Janeiro, embora neste ano o corona já lhe tenha feito a folha, não o deixando festejar e muito menos ser festejado. Ficarão muitos entusiastas com a água, o vinho e água-pé no bico, não subirão ao monte e não se deliciarão com o dito bem assado, pelo menos nas fogueiras que, lá no cimo, sempre se atearam e que, neste ano, nem sequer um pauzinho provarão.

Se as certezas do AM corresponderem à realidade, já só teremos mais uma semana de frio.

É sempre bom ver o lado positivo das coisas!