terça-feira, 16 de março de 2021

Futuro

Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.

Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.


E ainda há quem diga "no meu tempo" ...

segunda-feira, 15 de março de 2021

Ao postigo

Postigo - s.m. 1. pequena porta secundária, aberta numa muralha, fortificação, etc. 2. janelinha em portas ou janelas, para se olhar quem bate, sem as abrir; espreitadeira. 3. m.q. Guiché 4. m.q. Portinhola ('de coche') 5. pequena janela 6. abertura no tampo dianteiro de tonel ou pipa (pelo qual se faz a limpeza) 7. mar Tampa com que se fecham vigias, gateiras, etc., em embarcações 8. mar m.q. Gateira ('abertura') etm. lat. posticum 'a parte posterior de uma edificação, porta dos fundos, porta escusa, quarto dos fundos, latrina, traseiro, nádegas'.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
2003

De acordo com as regras do confinamento, o café de hoje foi ao postigo, sem pecado e com chávena própria, que nos copos de papel o sabor é muito, muito diferente.

Uma maravilha ... e soube tão bem!

domingo, 14 de março de 2021

Sol

Um dia de sol tão bonito, a cheirar a Primavera, merece uma voz maravilhosa e uma música a condizer.

Razões que a razão desconhece fazem com que uma grande artista pareça "banida" dos holofotes e das rádios do seu (nosso) país, na certa por a sua qualidade não estar ao nível das piroseiras que, todos os dias, nos invadem a casa sem quaisquer escrúpulos.

O "Amor a Portugal", em cerca de cinco minutos, numa interpretação soberba de Dulce Pontes, acompanhada brilhantemente pela Banda da Armada.

sábado, 13 de março de 2021

(Des)Confinamento

Foi divulgado, pelo Primeiro-Ministro António Costa, o calendário que determina a forma como, se tudo correr bem, iremos voltar à vida (quase) normal. Aconteceu no final do dia de quinta-feira, deu origem a inúmeros comentários, apoios e críticas de quem sabe do assunto e disse-se até,  "malevolamente", que o Presidente da República teria aproveitado a viagem a Roma para não falar ao país e  se descartar da decisão, prevenindo a eventualidade de alguma coisa correr mal e haver necessidade de voltar atrás. António Costa chamaria a esses rumores pura especulação e Marcelo Rebelo de Sousa viria, mais tarde, garantir que tudo tinha sido combinado assim, para que o encontro com o Papa Francisco não saísse prejudicado e os quinze minutos de audiência fossem diminuídos.

Cá por mim, velho apressado, telefonei ao meu barbeiro no final do dia de ontem, para não o incomodar nos trabalhos de preparação da reabertura, que deveria estar a levar a cabo, criando as condições para segunda-feira.

- Vai reabrir na segunda, não é verdade?

- Claro! Finalmente ...

- Guarde uma hora para mim. O cabelo está enorme. Pode ser à sua escolha, não tenho preferência e a minha agenda tem o dia livre ...

- Só na quarta-feira. Segunda e terça já estão completas. E só pode ser às 17H30. Posso marcar? Já tenho outra chamada em espera.

- OK. Quarta-feira, às 17H30. Até lá.

Conclusão: o cabelo cresceu a muita gente e houve muitos mais apressados do que eu. Não devem ser só velhos!

sexta-feira, 12 de março de 2021

Dentista

De boca aberta, deitado na cadeira enervante da estomatologista, oiço a conversa que se vai desenrolando entre a técnica e a ajudante. São jovens e têm algumas recordações que me são familiares, criando-me a vontade de participar, mas não posso. A concentração e as alterações que o meu sistema nervoso produz assim que entro naquele consultório, impedem qualquer raciocínio ou frase, para além do "sim" ou do "não", do aceno, do esgar ou do gesto.

O rádio, sintonizado na Antena 2, emite um som meio esquisito, que desperta lembranças às conversadoras.

- Parece o amola-tesouras.

- A doutora lembra-se?

- Lembro-me bem. Era miúda e a minha mãe dava-lhe as facas para afiar.

- E o "pitrolino", recorda-se?

- Isso não. Nem sei o que é.

- Era o homem da carroça, que vendia o petróleo e o azeite, avulso.

- Já só me lembro do azeite engarrafado e petróleo acho que nem nunca vi ninguém comprar.

Silêncio. A concentração no dente é completa.

- Está quase. Deve estar cansado de ouvir estas conversas sem jeito nenhum.

A mão sai do cinto e faz sinal que não há cansaço. A médica continua a sua tarefa, fala dos discos de vinil que o pai ainda tem, diz que se habituou a ler livros digitais e já não quer o papel.

- Até comprei um "ipad" especial, um "kindle". É espectacular.

Acabou! Há que sair da cadeira, agradecer, pagar e desejar às duas a continuação de um bom dia. Mais uma vez, aquilo que para mim é ontem, afinal já nem faz parte do imaginário da grande maioria.

A ida ao dentista correu muito bem e volto lá na próxima semana, para acabar o tratamento ... e ouvir!

quinta-feira, 11 de março de 2021

Regresso ... ao futuro

É comum a muita gente o reivindicar da experiência, do passado, a excelência dos seus atributos e a obra que realizaram, em contraste com a "incapacidade" das gerações mais novas, que nada sabem do que custa a vida e não conseguem fazer nada de jeito.

- Se fosse no meu tempo ...

E ficam perorando por um passado que já foi e não voltará, por muito que lhes custe. Águas passadas não movem moinhos e ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio. O passado é importante para conhecermos a história, a sua evolução, os progressos realizados, e para aprendermos com os erros cometidos. Analisando assim, compreendemos que, se não houvesse arrojo e audácia (isto lembrou-me o arrojo, audácia e desprezo pela vida que se ouvia no "poço da morte" das feiras), ainda estaríamos na idade da pedra ou lá muito perto.

O tempo de fazer, de pular, de arriscar, passa depressa e não adianta que os mais velhos tentem condicionar o progresso do mundo com argumentos falaciosos de "eu fiz e fui o maior ... da minha rua". Os olhos evoluem e aquilo que viram há trinta anos já mudou, pelas deficiências visuais próprias do avançar da idade e porque, felizmente, outros surgiram com muito mais capacidade e muito melhor visão.

Até os automóveis caminham a passos largos para dispensarem os condutores! Ora eu, que tirei a carta há mais de meio século e decorei o código de trás para a frente e vice-versa, não quero crer que se possa conduzir sem a caixa de velocidades e, muito menos, sem colocar as mãos no volante ... Isso vai ser muito perigoso ... ou não!

quarta-feira, 10 de março de 2021

Vidas

- Não posso fazer muita força. Este dedo deve estar partido.

- E não foi ao médico?

- Não tenho tempo ... 

- Mas isso é perigoso, nunca mais cura e só piora.

- Um dia destes ... Há uns anos, estava a trabalhar na Áustria e caí. O braço esquerdo doeu-me muito, mas continuei. Passada uma semana, o braço estava inchado e não aguentava as dores. Fui ao hospital. O osso do pulso estava partido. Trataram-me, puseram uma tala e vim-me embora. No dia seguinte fui trabalhar. Era preciso!

Na maior parte das vezes, nem damos pelos sacrifícios dos outros e pelas dificuldades que têm para assegurar o dia a dia e os (poucos) proventos que auferem.

 - Tenho de trabalhar. Não sei fazer outra coisa e sempre assim foi, desde miúdo. Criei um filho sozinho, desde os seis meses. Ensinei-lhe cedo que temos de ser honestos e trabalhar para quem nos dá emprego e nos paga. 

Há muito tempo que não tinha esta experiência "auditiva". Aconteceu hoje e concluí, uma vez mais, que os meus problemas são ridículos quando comparados com situações destas. Apesar disto, está sempre bem disposto, com graça "malandreca" para aliviar a conversa.

terça-feira, 9 de março de 2021

Tributo

Neste dia, em 1841, estreou-se no Teatro alla Scala, de Milão, a ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi. Em 1959, na grande cidade de Nova Iorque, foi apresentada a boneca Barbie. Os dois acontecimentos são hoje registados na comunicação social, com o destaque devido e para que conste.

Uns bons anos passados, não num teatro nem num salão mas no Montepio Rainha D. Leonor, nesta cidade de "águas mornas", nasceu a minha filha. Foi um acontecimento muito mais importante e, apesar disso, não há um único jornal que lhe dedique uma linha. Coisa estranha? Claro que não!

A discrição é uma grande qualidade e a minha bióloga tem-na.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Chega?

O Campeonato Europeu de Atletismo em pista coberta, disputado na Polónia neste fim de semana, confirmou que já chega de blasfemar contra os migrantes, os de etnia ou pele diferente, o sexo forte e o sexo fraco, e muitos outros preconceitos que ainda por aí prevalecem.

Portugal trouxe 3 medalhas de ouro, duas conquistadas por mulheres e uma por um atleta do sexo masculino. Auriol Dongmo nasceu nos Camarões e conquistou o ouro no lançamento do peso feminino; Patrícia Mamona, que já nasceu em Portugal mas é filha de angolanos, trouxe a medalha mais importante do triplo salto feminino; finalmente, na prova masculina de triplo salto, o ouro foi conquistado por Pedro Pichardo, atleta que nasceu em Cuba e se naturalizou português.

Não foi por serem isto ou aquilo, pretos ou brancos, diferentes ou iguais, que a bandeira subiu no mastro e o hino nacional se ouviu em todo o mundo. Foi "apenas" porque foram os melhores.

Há lugar para todos e todos têm lugar, com o respeito e a tolerância a que qualquer um tem direito.

Chega de parvoíces!!!

domingo, 7 de março de 2021

Recordando ...

A minha primeira professora vive hoje um dia especial. 

Apesar de já ter comemorado muitos aniversários, este é o primeiro que festeja confinada e sem os rituais do costume. "Não quero que me comprem nada ... já não faço anos". 

Fui o seu primeiro aluno, vim ao mundo no mesmo sítio, fruto dos mesmos pais, apenas com três anos de atraso. Este tempo, hoje pequeno, foi o suficiente para que os seus dotes didácticos se fizessem sentir precocemente e determinassem a carreira que escolheu e foi a sua vida.