quarta-feira, 24 de março de 2021

Primavera

O meu amigo ADS partilha comigo muitas coisas, de entre as quais algumas subtraídas desse grande armazém arquivador que é a Internet. A boa música faz muitas vezes parte dessas partilhas e eu, de tão habituado que já vou estando a esses mimos, cometo muitas vezes a indelicadeza de nem ops agradecer.

Ontem recebi uma animação da Primavera, de António Vivaldi, que muito me agradou. Entrei no arquivo, encontrei várias, mas não há amor como o primeiro ...

Aqui fica, para meu deleite e de todos os que apreciam boa música, acompanhado de expressivos desenhos "falantes".

terça-feira, 23 de março de 2021

Vícios

O café mantém-se "postigado" e a ida não é uma aventura embora ofereça sempre algumas curiosidades, impensáveis há uma ano. Já poucos se lembrarão, mas a entrada nos cafés era completamente livre e havia sempre clientes e conversas com fartura.

Estavam seis pessoas na fila, ainda que pouco passasse das 13 horas (os velhos refeiçoam cedo). Alguma impaciência na espera que o gong desse sinal de entrada. Dos seis, apenas dois beberam café. Os outros quatro procuraram a fortuna, adquirindo raspadinhas que a Santa Casa oferece, pagando, claro. A ansiedade era grande e a prática, via-se, imensa: já cá fora, na mão esquerda o segredo do papel ou o papel do segredo; na direita, a moeda que talvez descubra a sorte.

Ninguém voltou à fila, seguindo o seu caminho sem quaisquer manifestações de júbilo. Verdade se diga que também não me pareceu que ficassem muito desgostosos. Já devem estar habituados a que a sorte não os bafeje.

Amanhã voltarão e eu terei, de novo, companhia distanciada, como convém, e a fila a determinar a entrada para o café do "postigo". 

segunda-feira, 22 de março de 2021

Tempo

Já não lembro com precisão quando foi e porque foi, mas tive o primeiro relógio bastante novo. Talvez doze ou treze anos, o que, na época, era um grande privilégio. Foi oferta do meu pai, por certo para premiar algum feito escolar que devo ter realizado e mereceu a recompensa.

Nunca mais deixei de usar relógio, primeiro no braço esquerdo e aí por volta dos 18 anos, no braço direito, por me parecer mais fácil de consultar. Já passaram pelos meus braços muitos exemplares, desde os que exigiam corda manual, diária, aos que o balanço do braço mantinha "vivos", aos mais recentes, sofisticados e impiedosamente certos, desde que a pilha estivesse em condições, situação que se resolvia com uma simples ida ao relojoeiro, para substituir.

Esse instrumento arcaico chamado relógio foi substituído no passado dia 19, Dia do Pai ou dos Pais, como parece ser chique dizer agora. Os meus netos ofereceram-me um monitor de actividade física. Não é um relógio, mas dá as horas de todo o mundo; tem calendário perpétuo, que sabe quais são os meses de 30 e os de 31 e não tem dúvidas sobre quando o Fevereiro tem 29 dias; conta todos os passos que dou e transforma-os em distância, sem necessidade de agrimensor; mostra as pulsações e diz-me quantas horas dormi e destas, quantas foram de sono profundo; analisa o stress diário e ainda deve fazer mais coisas, que irei descobrindo. De tudo faz estatísticas e elabora gráficos. Se eu pretender, até me avisa quando o telefone toca ... sem o Matos Maia, claro, que esse era do antigamente!

E lembrar-me eu que o meu avô usava um "cebola" no bolso do colete, preso num botão do mesmo por uma corrente de "prata" e que o polegar e o indicador muito labutavam naquela carrapeta para o manter "vivo".

domingo, 21 de março de 2021

Primavera dominical

Dia da Árvore, Dia da Poesia e um dia de sol, lindo, e com pouco vento. Um passeio matinal, uns trabalhos em casa, umas páginas lidas de um dos (muitos) livros que ambicionam ser lidos, os olhos passados por alguns jornais. Paragem mais cuidada no P2 do Público e na habitual crónica de Carmen Garcia, com o título "O meu pai esteve na guerra" que, como sempre, vale a pena ser lida, pela objectividade, pela clareza e, sobretudo, pela sensibilidade que a autora coloca nos seus textos.

A ginjeira está em flor, bonita como são todas as flores, e até a abelha se aproveita disso. Os melros, visita assídua do quintal, já devem "lamber o bico" pelas ginjas que hão-de nascer e que irão saborear em primeira mão.

nada pode ser mais complexo que um poema

organismo superlativo absoluto vivo,

apenas com palavras,

apenas com palavras despropositadas,

movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,

nada mais do que isso,

música,

e o silêncio por ela fora 

Servidões
Herberto Helder
Assírio & Alvim (2013)

sábado, 20 de março de 2021

Vocabulário

Sou "cliente" do blogue Duas ou três coisas, que o embaixador Francisco Seixas da Costa mantém com informações diárias, quase todas de excelente gosto e conteúdo. Ontem deparei-me com um conjunto de vocábulos, muitos deles que nunca tinha ouvido, publicados no jornal brasileiro Folha de S. Paulo, por Mariliz Pereira Jorge. O objectivo foi, julgo, encontrar palavras para definir aquele que preside ao país de Chico Buarque, de Machado de Assis, de Jorge Amado, de João Cabral de Melo Neto, de Clarice Linspector, de Caetano Veloso, de Maria Bethânia e tantos outros. 

"Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha.Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda. Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jacodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Boçal. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível. Mentecapto. Demónio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjecto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona. Execrável. Infando. Nefando. Abominável. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista. Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão- Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga. Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-carácter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Boçal. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês. Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi-roído. Genocida."

O português é uma língua riquíssima: tantas palavras para designar um parvalhão!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Dia do Pai

O meu pai dizia. com frequência que:

- É bom chegar a velho mas não é bom ser velho.

Tinha toda a razão, acrescento eu. Faria hoje 99 anos.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Devaneios assertivos

Da sabedoria popular:

Bem prega Frei Tomás. Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz

Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita

Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo

Cão que ladra não morde

Livrar de cão que não ladra e de homem que não fala

Fui à minha vizinha, envergonhei-me. Vim para casa, remediei-me

Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal

No poupar é que está o ganho

Quem muito dorme pouco aprende

Quem vê caras não vê corações

De Peter Drucker:

Gerir é fazer certas as coisas; liderar é fazer as coisas certas

quarta-feira, 17 de março de 2021

Barber Shop

A caminho do barbeiro, não encontro ninguém conhecido. Passam por mim meia dúzia de pessoas, bem mais novas e apressadas. No parque de estacionamento havia lugares "à fartazana". A actividade da cidade ainda está muito longe do normal. Muitas lojas do pequeno comércio ainda permanecem fechadas e isso causa algum desconforto ao passar, lembrando o Fulano, o Sicrano, o Beltrano que, à vista, estão "mortos".

O meu amigo C. está a funcionar "ao postigo" e falou comigo à porta. Ninguém entra para comprar nem para dois dedos de conversa. Estávamos nisto, enquanto eu aguardava a minha hora marcada e o barbeiro despachava o freguês anterior e desinfectava tudo, quando apareceu um cliente. Queria ver canas de pesca, embora a actividade de pescador amador ainda esteja interdita.

- Tem alguma ideia?, perguntou o C.

- Queria ver ...

- Não pode entrar. A polícia passa muitas vezes e, se estiver lá dentro, aplica-me uma multa. Vou trazendo para aqui, para ver se gosta ...

O barbeiro, que fica em frente da loja do C., chamou-me. Estava na hora de me sentar na cadeira e de cortar a guedelha.

Já mais leve, voltei à conversa com o C.

- Vendeste a cana ao homem?

- Não. Talvez volte quando a pesca voltar a ser permitida. Hoje até nem foi muito mau. Vendi um saco, entreguei quatro cofres (para as armas) e tive algumas promessas...

O dia está a acabar. As poucas pessoas que (ainda) andam na rua, vão recolhendo à casinha. Espera-se um amanhã melhor, mas não vai ser fácil ... 

terça-feira, 16 de março de 2021

Futuro

Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.

Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.


E ainda há quem diga "no meu tempo" ...

segunda-feira, 15 de março de 2021

Ao postigo

Postigo - s.m. 1. pequena porta secundária, aberta numa muralha, fortificação, etc. 2. janelinha em portas ou janelas, para se olhar quem bate, sem as abrir; espreitadeira. 3. m.q. Guiché 4. m.q. Portinhola ('de coche') 5. pequena janela 6. abertura no tampo dianteiro de tonel ou pipa (pelo qual se faz a limpeza) 7. mar Tampa com que se fecham vigias, gateiras, etc., em embarcações 8. mar m.q. Gateira ('abertura') etm. lat. posticum 'a parte posterior de uma edificação, porta dos fundos, porta escusa, quarto dos fundos, latrina, traseiro, nádegas'.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
2003

De acordo com as regras do confinamento, o café de hoje foi ao postigo, sem pecado e com chávena própria, que nos copos de papel o sabor é muito, muito diferente.

Uma maravilha ... e soube tão bem!