quinta-feira, 27 de maio de 2021

Contratos

Nas pequenas notícias de hoje surge a informação de que as letras miudinhas e o exíguo espaçamento entre linhas que, actualmente, se verificam nos contratos, irão ser objecto de proibição, a partir de 25 de Agosto deste ano.

Não é, ainda, o que seria ideal e correcto, mas é um passo importante. Aplicar-se-á, tomando por certa a informação difundida, aos contratos dos bancos, seguradoras, telecomunicações e quejandos. 

Todavia, é meu convencimento que o certo seria que os contratos genéricos, tal como os anúncios que passam nas rádios e televisões a velocidade superior à normal, deveriam ser pura e simplesmente banidos. As actividades económicas que usam (e abusam) destes documentos têm supervisão de autoridades independentes e deveriam ser estas entidades a aprovar o texto dos contratos genéricos, garantindo a justeza e a equidade dos mesmos. Da forma como está, os contratos são "leoninos", tendo sempre algo que, em caso de litígio, "entala" a parte mais fraca. Acresce que, desta forma, se contribuiria para a diminuição do desperdício de papel, limitando os contratos a uma simples página, da qual constariam as assinaturas e a menção ao contrato genérico que regularia a relação e que estaria sempre disponível para consulta, na página oficial do regulador.

Ficamos pelos mínimos, com a esperança que, daqui a algum tempo, se concretize uma mudança radical e justa.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Caminhadas conversadas

As conversas da caminhada das manhãs das quartas-feiras caem, inevitavelmente, em dois grandes temas absolutamente essenciais e de fino recorte: a actualidade e a antiguidade.

Na primeira, fala-se sobre política, economia, futebol, presente, futuro, o que vai ser disto, porque não se faz assim ou assado, parece que têm medo de tomar decisões, querem agradar a todos e não agradam a ninguém, estão preocupados apenas com o voto e tratam-nos como completos anormais; é uma vergonha o que se passa com os caloteiros, bens todos "ao fresco" e com aquela carinha de enjoados, vítimas da injustiça, da incompreensão e do escárnio das gentes que não conhecem quão difícil é a vida (todos invejam o vinho que eu bebo, ninguém inveja os trambolhões que dou), são uns ingratos que nem valorizam os sacrifícios que fizemos para criar postos de trabalho, os tribunais demoram anos, há sempre mais um recurso, um apelo, um erro e o tempo a passar, já não vamos ver a solução; claro que foi penalty, viu-se bem na repetição, o árbitro estava a dormir e o VAR deve ter medo, não foi nada, o guarda-redes nem lhe tocou, ele mandou-se para o chão, ainda a perna vinha longe e já se ouvia o grito, gosto é de ver jogos estrangeiros, não há nada disto, afinal o Conceição já não vai para Itália e o Jesus vai ficar, que o "orelhas" já disse e o que ele diz é uma escritura ... sempre.

Ainda te lembras da loja, na esquina, junto onde é hoje o ..., quem lá trabalhou muito tempo foi o pai de Fulano, esse trabalhava no banco da rua das montras, não, no banco era outro, pai do Beltrano, lançava os movimentos nas fichas, à mão, claro, o caixa era o senhor M., enorme, sempre de pé, contava a "massa" e as anedotas ao mesmo tempo, não havia computadores, o primeiro que apareceu foi o Spectrum, programámos a bandeira desfraldada, lembras-te, e a seguir veio o, já não me lembro da marca, tinha disquetes de 5 1/4", era muito mais rápido, depois, bem, depois já foram tantos, cada um melhor que o anterior e olha que ainda me lembro de ir ao INE ver um enorme, na cave, que funcionava com cartões perfurados, trabalhava lá o Q., eu devia ter treze anos, se contares isto agora aos netos, dizem que és do tempo da pedra lascada ...

- Finalmente! Já estávamos fartas de esperar. Põem-se na conversa e nós aqui, temos mais que fazer. Param por tudo e por nada e a gente que espere ...

A caminhada chegou ao fim e as reprimendas também. Cada um foi para o seu carrinho e seguiu a vidinha, que se faz tarde para o almoço. 

Para a semana há mais ... do mesmo. Velhos!!!

terça-feira, 25 de maio de 2021

Gavetas

As gavetas das secretárias são, por norma, um poço sem fundo. Podem estar a abarrotar mas cabe sempre mais um papel, que se guarda, na certeza de que não será necessário e com a convicção de que pode vir a ser preciso.

Ainda não foi tudo destruído, mas já "marchou" muito lixo! Surgiram recordações pessoais, profissionais, de amigos, engraçadas, tristes, umas que foi difícil lembrar, outras que abriram logo a porta da memória.

De entre os muitos papéis que vão permanecer até que alguém, mais corajoso, lhes dê o destino devido, surgiram uns versos de "pé quebrado", feitos em 1991, para integrarem uma revista levada à cena nos Pimpões. Já não recordava nada daquilo e, confesso, senti alguma nostalgia que os trinta anos passados trouxeram à tona.

Se à noite TV não vejo 
Já não durmo descansado
Saindo, embora, o bocejo
Eu nunca perco o ensejo
De mirar aquele quadrado.
Vivo contente e feliz
Pelo menos até pró ano
Vejo o primeiro do Moniz
E o dois do Adriano!

Quando chego, é a rodinha 
do Herman, que sensação!
Com sua amiga Rutinha
Lá vai ganhando a vidinha
e gozando, o malandrão!
Depois, para m'actualizar
As notícias eu escuto.
São formas do verbo armar
São artes de guerrear
E é mais gente de luto!

Há guerra lá para o leste
Há fome na parte sul
No Biafra foi a peste
Houve revolta a sueste
Só aqui é tudo azul!
Sim, porque cá no cantinho
De novo, nada acontece
Em S. Bento há Cavaquinho
O Mário está bem gordinho
E o Álvaro não envelhece!

Telejornal terminado
Preparo olho e ouvido
Pra um prato recheado
De tudo o que é enlatado
E nos vai ser impingido!
Mas o Cavaco que olha
Por mim e por toda a gente
Acaba de fazer a escolha:
(Quase qu'ia dando trolha)
Vai haver TV diferente!

Não há fome sem fartura
Diz o povo em sua crença
Houve bastante soltura
Combinações de postura
Chuchou no dedo o Proença!
E eu contente e feliz
Agradeço a decisão
Já não é só o Moniz
Vou ter também Balsemão!

Que Deus me salve e proteja
(Não, não me levem a mal)
Que reze pela Merdaleja
Pra na TV da Igreja
Poder ver o Pantanal!
Oh! Não estão bem aferidos 
Os alqueires da minha mona
Se o Império dos Sentidos
Pôs padres, bispos, cabidos
A andarem numa fona,
Queria eu, um mortal,
Ver na TV da Igreja
As brasas do Pantanal! 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Música

Os anos passam mas o que tem qualidade permanece, felizmente.

E como sabe bem ouvir, especialmente quando os dias amanhecem morrinhentos, ainda que estejamos no final de Maio. Isto anda tudo trocado ....

domingo, 23 de maio de 2021

Confusão

As noites de sábado eram as que não tinham relógio, permitindo alguns desvarios, por ser possível dormir a manhã na cama, no dia seguinte. Havia programa quase sempre combinado antecipadamente, para que todos estivessem preparados e o pudessem alterar livremente. Com alguns "cobres" na algibeira, poucos, mas suficientes para a gasolina e para beber uma cervejita ou duas, a noite era sempre um prodígio de sensações. Não havia muita escolha mas procurava-se uma aventura diferente e, tanto quanto possível, interessante para todos.

Dessa vez coube a Peniche ser distinguida com a presença do grupo. A ainda, nessa altura, vila, era um destino mais ou menos costumeiro, pelas diversões que a noite de lá proporcionava e pela qualidade dos camarões ou, em dia de festa, das sapateiras, que se podiam saborear, no Gaivota ou no Patriarca, "tascas" mais comuns para esses vadios.

O regresso já se deu a desoras, mas ainda longe do sol aparecer a iluminar os campos, situação que algumas vezes, poucas, aconteceu. A meio da viagem, um dos convivas sofreu o "ataque" da cerveja e pediu que o carro parasse, para libertar o líquido que lhe perturbava o bem-estar. Saltou a berma, para que o "assunto" tivesse alguma reserva e, logo de seguida, gritou:

- É um meloal!

- Apanha meia dúzia. Vou abrir a mala para os pores lá.

O frio da noite, tão comum no Oeste, de Verão e de Inverno, aconselhava o interior do carro. Aliviado, o companheiro apanhou quatro ou cinco melões ( ou seis ou sete, já não recordo) e colocou-os na mala do carro, tomando, de seguida, o seu lugar na viatura.

A viagem continuou até ao fim, sem quaisquer outros problemas ou necessidades.

No destino, a mala foi aberta para que cada um levasse um ou dois melões para sua casa, distribuindo-se, de forma equitativa, o produto do "rapinanço". Os candeeiros iluminavam bem o local da paragem e o conteúdo da mala saltou à vista de todos.

- Tens de ir ao médico da vista! São abóboras!

Imagino que o problema não foram os olhos e o mau funcionamento dos mesmos. Há líquidos que, bebidos em demasia, provocam a bexiga e, muitas vezes, algumas alucinações.

sábado, 22 de maio de 2021

Águias

A actualidade, a crítica, a arte de desenhar, da qual eu tenho tanta inveja (não sei fazer um risco direito), são bem mais elucidativas que mil palavras ditas ou escritas, e valem bem os 4,00 € que o Expresso custa.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Lirismo

Deram-me ganas de escrever sobre os direitos dos animais, que o PAN quer ver consagrados na Constituição da República; depois, pensei nas tragédias do Mediterrâneo, da Síria, da Palestina e de mais umas tantas que pululam por todo o mundo, sem direito a abordagem televisiva.

A seguir, o cérebro trouxe-me ao "écran" um caloteiro que, bem instalado lá pelo Brasil, se deu ao luxo de "gozar com quem trabalha". Senti-me nauseado, furibundo, arreliado, enervado, gozado, apalermado, aparvalhado, apatetado, e muitos outros adjectivos que surgiriam se continuasse.

Estás parvo ou quê? 

A resposta só pode ser "quê". Já não há parvoíce que me espante nem aldrabice que me comova ... e a culpa, claro, só pode ser minha.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Organização

Não fiz a guerra colonial, mas cumpri o serviço militar obrigatório, antes e depois do dia, sempre presente, em que completei 22 anos, e não mais esquecerei.

A experiência da "tropa" foi dura, algumas vezes deprimente, muitas outras "chata", incompreensível, idiota, principalmente nos três meses iniciais que me levaram a rebolar no monte, a agarrar o pinheiro com o alferes a gritar que era a Brigitte Bardot, a dar passos em frente na lagoa até a água chegar ao pescoço sem molhar a G-3, a correr no pórtico como se não houvesse amanhã, a passar na manilha com água até meio e teias de aranha no restante, sempre como a preocupação da salvaguarda da arma, a fazer e a ouvir discursos à lua durante uma noite inteira, a não poder sair do quartel por ter a barba mal feita, etc. etc..

Foi dura a recruta, a especialidade um pouco melhor, ambas com o fantasma da guerra sempre presente e a necessidade imperiosa de aplicação diária, para tentar que uma boa classificação impedisse a ida para a Guiné, anunciada pelo comandante na primeira "prédica" aos "maçaricos" formados na parada.

Depois, bem, depois foi diferente. A aprendizagem, o conhecimento próximo de muita gente boa (alguns com o nome na história), a organização na disciplina, o PIOL (planeamento, informação, organização e logística), que nunca mais esqueci e me ajudou muito na vida dita civil à qual, na maior parte das situações, falta tudo isso.

Cada vez que vejo o Almirante "das vacinas", dou por mim a recordar o que atrás ficou dito e muito, muito mais que guardo. É para fazer? Vamos a isso! Cada um sabe as funções, as atribuições, as tarefas, todos conhecem o objectivo e o caminho para lá chegar.

E é tão fácil! Só é preciso planear, informar, organizar e controlar.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Palavras bonitas

O FIDALGO E O LAVRADOR

É meia noute. No baile
Folga tudo e tudo dança.
Á mesm'hora o lavrador
No seu casebre descansa.

Uma hora. No palacio
Agora vae-se almoçar.
Na choupana o lavrador
Já terminou de jantar!

Dorme o fidalgo num leito
De pennas, sobressaltado.
Em taboas o lavrador
Repousa, mas socegado!

Poesia Completa
Mário de Sá-Carneiro
Tinta-da-China (MMXVII)

Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890 e faleceu em 26 de Abril de 1916.

Datou estes versos de 24 de Abril de 1903. Mudou muita coisa desde esse dia: a ortografia, o vocabulário, a vida ... mas ainda se mantêm muitas semelhanças. 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Tranquilidade

Hoje foi dia de ir ao "Baeta". O cabelo cresce, apesar da pandemia e, a partir de certa altura torna-se incomodativo, começa a enrolar-se, a custar a secar, enfim, a dizer, claramente, que está chegada a hora de voltar à tesoura do mestre, agora não da barbearia mas da Barber Shop, que apresenta na entrada a moderna rotativa led, azul e vermelha, indicando que está ao serviço de quem precisa.

Tempos houve em que a presença de vários clientes dava lugar à cavaqueira, aos comentários das notícias dos jornais, à anedota picante ou de salão, à piada política, ao tempo que "está que nem se percebe", aquelas coisas que os teimosos frequentadores se lembram bem e que o corona levou. Agora, não há jornais nem clientes. A conversa fica apenas no diálogo com o barbeiro, acompanhado do som de fundo do aparelho de televisão pendurado na parede. Falou-se do "nosso" Benfica (ele também pertence aos desiludidos deste ano) e da justeza do campeão, verde, como convém a um país que se pretende virado para a ecologia e para o crescimento sustentado.

Quando a conversa estava a esgotar e o cabelo quase cortado, o relógio da televisão marcou 17H00 e surgiu o noticiário, que repetiu, uma vez mais, a notícia do dia: os ingleses regressaram em força ao Algarve!

E, logo a seguir, o Ministro Cabrita tranquilizou as massas, numa exposição clara e assertiva para todos os deputados que foram hoje trabalhar à casa da democracia: os turistas vão ter de cumprir as regras impostas por Portugal, sob pena de ... levarem "tau-tau".

Fiquei tranquilo!