Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 12 de junho de 2021
sexta-feira, 11 de junho de 2021
Tolices da língua
A sede do concelho ficava a cerca de légua e meia do lugar onde morava. Os caminhos para lá chegar não eram nada agradáveis de percorrer, íngremes, cheios de socalcos, com pedra solta e barro com fartura, consumiam sempre duas horas bem medidas, a andar bem, claro. Só lá se deslocava para pagar a décima da casa e das duas courelas que lhe tinham cabido em herança, ou para qualquer outro assunto oficial a que não conseguisse escapar. À cautela, fazia os possíveis por não ter problemas com as autoridades, fechando-se no seu casulo e nas terras que lhe garantiam o pão.
Agora não podia adiar mais. A filha tinha nascido em Janeiro e já íamos Março dentro. Meteu-se ao caminho, com uma saca de serapilheira dentro do saco que levava a tiracolo. A saca de capuz era essencial para prevenir o Março, marçagão.
Ainda não eram nove horas quando chegou junto à porta, fechada, do Registo Civil. Esperou, descansando da caminhada e aproveitando o sol que brilhava com intensidade. Talvez chovesse de tarde, para contrariar o ditado, mas a manhã estava linda. Um senhor assomou à porta, camisinha branca, gravatinha preta, colete com corrente de relógio e os manguitos de seda, também pretos, que davam distinção e prestígio à função.
- O que quer?, ouviu sem sequer ser antecedido de um bom dia, como sempre acontecia lá no lugar. Paciência, pensou, as pessoas importantes não perdem tempo com ninharias ...
- Venho dar a minha filha ao "registro" ...
- Quando nasceu?
- Faz hoje dois meses.
- Já devia ter vindo. Agora tem de pagar cem escudos de multa.
A cara de espanto deve ter comovido o funcionário.
- Há uma forma de não pagar a multa. Declara que a rapariga nasceu a 13 de Fevereiro e fica resolvido.
- 'tá bem. Se pode ser assim ...
- Como se chama a mãe?
- Maria da Visitação.
- E o pai?
- "Jaquim" Piedade.
- E a miúda?
- Sei lá ... olhe, "prante-lhe" Ana, que é o nome da avó.
Pagou o que lhe foi pedido, com gorjeta, e recebeu a ordem para voltar daí a quinze dias, a recolher a cédula.
Os anos passaram. A miúda fez-se mulher, com o suplício do registro sempre presente.
- Como se chama?
- Prantelhana da Visitação Piedade.
- Nome esquisito ... e quando nasceu?
- Parida a 13 de Janeiro, mas no papel consta 13 de Fevereiro de 1940.
quinta-feira, 10 de junho de 2021
Dia de Camões
José Mário Branco cantando um soneto de Camões, ao qual acrescentou um refrão para reforçar a ideia.
De manhã, aproveitando o feriado e porque já vamos com um terço de Junho cumprido, calcei os chinelos e fui até à Foz. O areal ainda se mantém com a sujidade do costume mas, lá ao fundo, na zona onde irão ser instaladas as barracas, uma máquina começa a endireitar a areia e a limpar as canas, os plásticos, as caixas de anzóis, as garrafas de cerveja, e muito outro lixo que continua a "nascer" na praia, seguramente de "geração espontânea".Passeio junto à Lagoa, a caminho do mar, aproveitando bem o ar puro que o vento transporta e sem ver o sol, que ainda dormita bem lá atrás das nuvens. Vem a onda, fraca, molha os pés, e ouve-se a voz do mar:
- Trouxeste o gin?
- Claro que não. Vinha dar um mergulho!
- Fizeste mal. Com este gelo que tenho dentro de mim, fazíamos um brinde ao Camões.
O melhor é continuar na areia, que o "frigorífico" está ligado no máximo ...
P.S. - Soube-se hoje que a Câmara Municipal de Lisboa "bufou" a Moscovo os dados pessoais dos organizadores de uma manifestação levada a cabo no passado dia 23 de Janeiro. Apesar das desculpas públicas de Fernando Medina e da atribuição das culpas à burocracia, custa muito ouvir que, quase 50 anos depois de 1974, ainda haja no país quem ache normal "entalar" alguém em nome da BURROcracia.
quarta-feira, 9 de junho de 2021
Livros lidos e lembranças
Talvez alguém tenha reparado na rapariga que viveu na Rua do Loreto, na paragem do 28. Não dizia coisa com coisa. Ele, o combatente, estacionava carros ruas abaixo, na António Maria Cardoso. Ter-se-ão cruzado ou não, terão conversado ou não, foram contemporâneos como duas árvores, dois cães vadios, dois actores, são contemporâneos. Ele andava sempre de manga curta, nunca tinha frio. Ela vestia uma longa saia, camisolas negras e rasgadas. Tapava-se com caixotes. Dormia à chuva. Quem sabe se notavam que mudávamos de passeio para os evitar, mudar de passeio no qual ia a nossa morte e não a sua.(...)
Nunca vivi, felizmente, na paragem do 28 da Rua do Loreto, mas utilizei-a muitas, muitas vezes. Morava na Damasceno Monteiro e trabalhava no Largo do Calhariz. O 28 era o transporte que utilizava, por ser o mais barato e o que me punha no trabalho e em casa, sem transbordos nem grandes distâncias a pé.
Logo pela manhã, subia até ao Largo da Graça, cumprimentando a vizinhança, tomava a bica na Parreirinha e aguardava a chegada do amarelo, que subia a Voz do Operário tilintando a avisar o perigo que representava a sua enorme velocidade. Mal parava, o guarda-freio mudava a alavanca da, até aí, frente, para a traseira, que passava, agora, a ser a frente, enquanto o "pica" alterava as meias-portas, fixando as ripas no lado contrário e libertando as do lado que, em seguida, seriam utilizadas. Depois, um deles rodava o letreiro enquanto o outro, cá fora, indicava quando os Prazeres substituíam a Graça no visor electrónico.
Tudo gostoso, como diria, sorrindo, qualquer brasileiro. Ter prazeres e graça de seguida não é nada fácil, mas é salutar.
Os utilizadores normais, que tinham bilhete, entravam pela porta da frente e sairiam pela traseira, quando chegasse ao seu destino, fosse ele Prazeres ou qualquer outro. Usufruíam, nessas inolvidáveis viagens, de um transporte não poluente e beneficiavam do ar condicionado ao tempo que fazia cá fora, sem alterações que contribuíssem para alguma incómoda constipação ou gripe. A chuva entrava pelas meias-portas como "cão por vinha vindimada", molhando o piso, os bancos, a manga do casaco do guarda-freio e até o seu boné. O "pica" encolhia-se no corredor, sabendo que, lá mais abaixo, no final da Calçada de S. Vicente, teria de saltar e, com a ferramenta adequada, fazer a mudança da agulha. Ansiava que a chuva apanhasse outro eléctrico até este lá chegar!
Os penduras utilizavam os confortáveis lugares na parte de fora, lá atrás, nas portas fechadas, nos estribos, bem encostadinhos ao amarelo, não fosse a parede, distraída, roçar as suas costas e tirar-lhes a pintura. E saltavam em andamento, com uma agilidade que deixava o pica sempre a meio da frase
- Sai ... daí.
Já lá não estavam!
As coisas que a gente se lembra por associação de ideias.
terça-feira, 8 de junho de 2021
Dia Mundial dos Oceanos
As aventuras do Vasco - não é o meu neto, mas podia ser - para garantir que há futuro.
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Palavras bonitas
A mim não roubaram que a não trocariaporque eu nada tinha. por coisa nenhuma;Mas roubaram tudo que filhas assimà minha vizinha. havia só uma.Vejam os senhores: Pois hoje um ladrãoRoubaram-lhe a ela Que há muito a miravaa filha mais grácil, entrava-lhe em casaa filha mais bela. p'ra sempre a levava.Nem na sua casa, E a minha vizinhanem na freguesia, dona de solaressequer no concelho, e de longas terrasmelhor não havia. com rios e pomares,Prendada, bonita ... e de jóias rarasE, depois, uns modos que ninguém mais tinha,de matar a gente, ei-la num instantede prender a todos. pobrinha... pobrinha...Dizia a vizinha (Tem pomares ainda,que era o seu tesoiro; tem jóias, tem oiro ...que valia mais Mas de que lhe servemque a prata e que o oiro; sem o seu tesoiro?)- Vizinha e senhora,não me queira mal!Se há ladrões felizes,sou o mais felizque há em Portugal.
domingo, 6 de junho de 2021
Pinhal
Manso, como convém a quem se quer instalar sem perturbações nem constrangimentos, o pinheiro cresce arredondado, na companhia de outros iguais ou com diferenças muito ténues. Não dá nas vistas, é apenas mais um do conjunto que, ao longe, forma uma bonita e vistosa mancha verde, convidativa, repleta de sinais de unanimidade, guardada pelo moinho, vigilante, que lá do cimo tudo controla e mantém na linha.
Lá ao longe, do outro lado, o bravo que "em verde e oiro se agita" domina o horizonte, atento ao vento e ao que se passa em volta, balança, ondeia, barafusta, contraria, discorda, refila, contesta, grita, gesticula. Está isolado mas isso não o impede de sentir a injustiça do vento que o fustiga, do sol que o atinge em cheio, da ausência de chapéu que o proteja, da violência da chuva que o encharca do cocuruto às raízes. Mas resiste, resiste sempre, à espera que outros cresçam, o apanhem e acompanhem.
Um dia, quem sabe, talvez os mansos deixem de estar acomodados no sossego e os bravos se reproduzam e se tornem os suficientes para que o pinhal seja mais forte, do alto da sua razão.
sábado, 5 de junho de 2021
Livros
Ler é um acto que exercito, diariamente, há muitos, muitos anos. Poucas ou muitas, há sempre algumas páginas que preenchem o meu dia a dia e me desafiam. Também o vício de comprar me acompanha, não com a mesma regularidade, felizmente para a carteira. Ainda assim, já não conseguirei ler todos os livros que comigo habitam.
Há algum tempo - talvez um mês, por aí - participei num encontro via Meet, com pessoas das minhas relações mas não das que conhecem a casa e a frequentam. Era o tablet que servia de suporte à conversa e, a meio, surgiu no ecrã o aviso, vermelho, de que a bateria carecia de carregamento. No escritório, a única tomada livre estava longe e o carregador não lhe chegava.
Mudei de sala e, quando assentava novos arraiais, um dos participantes, mais perspicaz, atento ou curioso, comentou:
- Ena, pá, tantos livros. São verdadeiros?
Não imaginava que pudesse haver falsos mas, pelos vistos, será hoje possível apresentar um móvel a fazer de conta, para encher o "olho" da câmara e dar um ar importante. Respondi que sim, eram verdadeiros, e apenas uma parte dos que existiam cá em casa.
Apercebi-me dos sorrisos e arrependi-me de imediato. Há coisas que é preferível ignorar e não comentar.
sexta-feira, 4 de junho de 2021
Jardim
De novo a rega automática montada, para garantir que a gota abastece as plantas e as fortalece, sem a presença ou intervenção humana.
No início não queria funcionar. À primeira vista, tudo parecia em condições, não se descortinando qualquer falha no equipamento ou na montagem. Todavia, o sistema queixava-se de qualquer coisa estranha, que o incomodava e o fazia negar-se a funcionar bem.
O material tem sempre razão ... o filtro estava sujo da inactividade e, como não conseguia lavar-se sozinho, pedia ajuda.
Lavou-se, limpou-se, montou-se ... já se pode ir passear, que a vida das plantas fica garantida, mesmo que o S. Pedro, por excepção, envie muito calor para o Oeste.
quinta-feira, 3 de junho de 2021
Lagoa
Há tubos, bóias, jangadas, operários, uma draga em pedaços, a ser montada como se de um Lego se tratasse, uma azáfama grande, mesmo em dia santo. O tempo urge e é inclemente.
A curiosidade sobre o sítio onde irão ser despejadas as areias dragadas é grande mas, por enquanto, o local permanece no "segredo dos deuses" ou inacessível ao cidadão mal informado sobre os corredores do poder.
Nos últimos anos, a dragagem da Lagoa tem sido recorrente mas o assoreamento continua sem fim à vista. Os técnicos, que sabem disto a sério, dizem que não há cura definitiva e que apenas se consegue mitigar os danos inexoráveis do tempo; os conhecedores da Lagoa afirmam, com o saber empírico da experiência e do conhecimento diário daquelas águas, que a solução passa pela abertura de um canal profundo, da Aberta até ao Braço da Barrosa, para que o efeito das marés atinja toda a extensão da Lagoa.
A ver vamos! Este ano, uma vez mais, haverá constrangimentos para os habituais "clientes" da praia da Lagoa. A mim, que sou "cliente" fiel da do Mar, não me deverá fazer diferença. Egoísta!!!




