Portugal - 2 / Alemanha - 4
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 19 de junho de 2021
sexta-feira, 18 de junho de 2021
EURO 2020
Decorre até ao próximo dia 11 de Julho o Campeonato Europeu de Futebol que, neste ano especial, também contém, ele próprio, algumas especificidades. Desde logo, realizar-se em ano ímpar, mantendo a designação Euro 2020, por a pandemia ter impedido a sua concretização no ano que lhe estava destinado. Não me recordo de alguma vez isto ter acontecido, mas o malfadado coronavírus tem transtornado tudo, até o futebol.
A minha memória, que já não é grande coisa se é que alguma vez foi, também não alcança qualquer outro Europeu que tivesse lugar em tantos países. São onze ao todo - Alemanha, Azerbaijão, Dinamarca, Escócia, Espanha, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Roménia e Rússia - e que os jogos privilegiassem uns países em detrimento de outros. De facto, na fase de grupos, Alemanha, Dinamarca, Espanha, Holanda e Inglaterra, disputam os três jogos nos respectivos países, apoiados pelos seus adeptos e sem necessidade de deslocações. Há ainda três outros - Escócia, Hungria e Rússia - que também jogam em "casa", embora apenas por duas vezes. Os restantes quinze, entre os quais Portugal, jogam fora do seu país e, ainda por cima, disputam dois jogos numa cidade e o outro num outro país.
Claro que a pandemia é a responsável por tudo isto e a UEFA garante que a competição será disputada em perfeitas condições de igualdade para todas as equipas, uma vez que, sem qualquer excepção, todos iniciarão os jogos com onze jogadores.
Assim, não há quaisquer dúvidas sobre as condições iguais para todas e, se porventura elas surgirem, o VAR estará a postos para tudo esclarecer.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
Conversas e siglas
As conversas são como as cerejas, lembro-me sempre e bem. Nos tempos de escola e nos delas, aproveitávamos um qualquer furo para dar uma fugida à praça, ali a não mais de duzentos metros, e, descendo, tirávamos uma de cada banca, sob o olhar risonho e cúmplice das vendedeiras. Vinham sempre três ou quatro e, no final, quase enchiam o bolso.
Neste fim-de-semana, uma conversa de circunstância a propósito de pacotes de açúcar, relembrou variadíssimas coisas do "antigamente" que, para os mais jovens, terão proximidade à "idade da pedra".
- E os pacotes da SEMPA, lembram-se? E o que queria dizer SEMPA?
- Salazar Envia Militares para Angola. E, ao contrário, Angola Precisa de Militares Enviados por Salazar.
- E ainda falta um ... Só Esta Mxxxx Para Adoçar.
Risada geral, perante a brejeirice do dito e a ignorância do mesmo por muitos.
Lembrei-me de muitas outras siglas cujo significado era alterado, à boca pequena. Havia expressões que os ouvidos sensíveis não toleravam.
PVT significava, oficialmente, Polícia de Viação e Trânsito, mas o meu pai ensinou-me, muito novo, que também podia ser Provadores de Vinho Tinto. Talvez fosse mais adequado e ele conhecia muitos ...
FNPT era a sigla de Federação Nacional dos Produtores de Trigo, instituição governamental que centralizava o armazenamento do cereal produzido para, depois, o vender aos que o moíam. As más línguas diziam que seria melhor chamar-lhe Fome No País Todo.
Quando se estranhava alguém "ao alto", a pergunta surgia:
- O que faz aquele?
- Trabalha na SAPEC.
A SAPEC era uma grande empresa de minas, adubos e outros produtos para a agricultura. A resposta informava os curiosos que aquele "braço de trabalho" executava a função não nela mas sim na Sociedade Anónima de Polidores de Esquinas e Calçadas ou, circunscrevendo à região, na Sociedade Anónima de Polidores de Esquinas das Caldas.
Há muitas mais, mas hoje ficamos por aqui, não vá aparecer alguém a querer saber o que significava GNR.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
Condução de risco
Um fim de tarde outonal, regado por uma violenta chuvada que apanhou toda a gente de surpresa. A estrada, larga, de paralelo granítico hoje em dia já raro, não convidava a velocidades e muito menos a travadelas bruscas. As primeiras chuvas após o Verão são sempre traiçoeiras e oferecem dissabores quando menos se espera. Todo o cuidado é pouco e uma distracção pode ser a "morte do artista".
Os recrutas saíam em magote do quartel, ávidos do aproveitamento de um pouco de sol discreto que havia surgido e da vida "civil" que a cidade oferecia. Era a rotina diária, quando não havia instrução nocturna. Um passeio antes do recolher, comer qualquer coisa diferente do rancho, ouvir outras vozes, conhecer a terra e apreciar as beldades.
A condutora deve ter ficado perturbada com tantos e tão garbosos jovens. O travão, as mãos ou o destino levaram a viatura a galgar o passeio e a colher sete militares. Poderiam ter sido setenta. Por sorte, foram apenas sete e nenhum em estado grave. Veio o Oficial-Dia, o Sargento da Guarda, o Comandante da Instrução e, claro, a PSP, para além da ambulância, que recolheu os feridos para a enfermaria.
Ninguém tinha dúvidas de que a culpa era da incúria da senhora. A tropa levantou o auto, a polícia instruiu o processo. Passados vários meses, o Tribunal marcou a audiência. Meia dúzia de testemunhas atestaram a normal excelência da condução da senhora, o Delegado pediu que fosse feita justiça, o causídico da defesa levantou-se e desenvolveu a sua tese em busca da absolvição da ré. A sua eloquência mostrou, à saciedade e à sociedade que o acidente apenas tinha acontecido exactamente por "acidente acidental" e nunca por inépcia da condutora. Talvez alguma deficiência técnica da viatura, algum obstáculo na estrada, qualquer coisa de imprevisível que não foi possível descortinar naquele momento. Todavia, de uma coisa não havia dúvidas: tinha sido a destreza e o sangue-frio da condutora a evitar uma tragédia. Aquele magote de instruendos, saídos do quartel sem os cuidados necessários e num tropel inconcebível, teria sido dizimado não fosse a perícia da mulher que estava ao volante.
A absolvição pedida foi sancionada pelo Juiz, por não ter sido possível provar, em julgamento, negligência, insensatez ou culpabilidade. Na leitura da sentença, o Juiz não se esqueceu de recomendar à senhora que, ao passar pelo quartel, se não distraísse com a paisagem.
terça-feira, 15 de junho de 2021
EURO 2020
Com sofrimento, mas o primeiro já cá canta. E as fontes da nossa utopia enchem-se de esperança.
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Sebastião
Preto, pêlo lustroso, cauda a abanar, olhos atentos ao que vai acontecendo à sua volta. Anda e ciranda, chamando a atenção e reivindicando as honras da casa. Quatro patas, orelhas meio caídas, nem o chamamento da dona, acompanhado de petisco visível, o afasta das visitas.
- Este cão ... está com medo da trovoada.
E não era para desprezar. Os relâmpagos iluminavam o céu e sucediam-se a um ritmo frenético. O Sebastião, encolhido, procurava o apoio das nossas pernas e dizia, lá na sua língua:
- Deixem-me ficar aqui. Não faço mal a ninguém, lá fora chove muito e eu tenho medo da luz.
Os clientes do hotel manifestaram agrado e carinho pela presença do animal, e a gerente ficou menos constrangida e não o pressionou mais.
- Adora estar cá dentro e quando vêm clientes novos, fica curioso e não arreda pé. Por vezes, afasta-se e pode estar três ou quatro horas sem aparecer. Mas volta sempre ...
Certo dia, um habitante fazia a sua caminhada e o Sebastião, preocupado, por certo, com a sua segurança, seguiu-o a alguma distância. Percorridos três ou quatro quilómetros, o homem chegou a casa e só então reparou que o cão o tinha acompanhado até ali. Conhecia-o bem e sabia onde morava. Já não lhe apetecia caminhar mais e resolveu pegar no carro, oferecendo um lugar ao Sebastião e trazendo-o de volta ao hotel. Aí chegado, abriu a porta do carro e o Sebastião, agradecido, saiu. Já estava nos seus terrenos e ficou por ali, a desfrutar mais um pouco de ar puro, sem pressa da hora de recolher. Alguém, de passagem, presenciou a cena e concluiu, de imediato, tratar-se de abandono de animal. Daí a telefonar para a GNR, comunicando o "crime" e a matrícula do carro do "insensível" ser humano foi um instante, talvez até usando o telemóvel ao volante.
As autoridades vieram de imediato e encontraram o Sebastião ainda na rua. Confirmava-se o "crime" denunciado e era urgente contactar o "criminoso". A matrícula transmitida permitiu chegar-lhe depressa e ouvir a surpresa do homem, contando o que tinha acontecido.
Satisfeito com a duração do recreio e da actividade física, o Sebastião aproveitou a nesga da porta e instalou-se no "quarto" que lhe pertence e de onde esteve prestes a ser arredado, por uma denúncia anónima, apressada ... mas politicamente correcta.
domingo, 13 de junho de 2021
Livros (lidos ou em vias disso)
(...) Manhãs, dias, tardes, noites, madrugadas, dias, semanas, meses, anos. O Língua e o padrinho iam e vinham. Um ensinava, outro aprendia. O que havia para ser dito era dito, o que não, observando bem, também estava dito à sua maneira. Não só o padrinho e a madrinha, mas toda a gente entendeu que o menino era reservado, firme, de poucos lamentos e de poucas respostas. Ele assumiu a sua condição de escravo com uma altivez inédita na plantação. Se cá veio para, assim inteiro e tão menino, é porque quis. Isto pensava toda a gente. E esse quis não era vontade, era coragem. De modo que todas as perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nunca dizem e nunca dirão.
Manhãs que passaram
Cada criatura tem a sua hora do dia e da noite. Mesmo com a Lua e com o Sol isso acontece. Também há peixes que dormem de dia e há plantas que acordam de madrugada. Há pássaros que cantam com o sol e há arco-íris de estrelas. A hora das crianças é a do nascer do dia. Sentem um sono pesado e uma ansiedade de se levantar que não sabem o que fazer. Era nessa hora que havia mais trabalho para os escravos. O Língua rezava com o padrinho e a madrinha e ficava à espera da primeira conversa da manhã. (...)
Mário Lúcio Sousa
D.Quixote (2015)
sábado, 12 de junho de 2021
sexta-feira, 11 de junho de 2021
Tolices da língua
A sede do concelho ficava a cerca de légua e meia do lugar onde morava. Os caminhos para lá chegar não eram nada agradáveis de percorrer, íngremes, cheios de socalcos, com pedra solta e barro com fartura, consumiam sempre duas horas bem medidas, a andar bem, claro. Só lá se deslocava para pagar a décima da casa e das duas courelas que lhe tinham cabido em herança, ou para qualquer outro assunto oficial a que não conseguisse escapar. À cautela, fazia os possíveis por não ter problemas com as autoridades, fechando-se no seu casulo e nas terras que lhe garantiam o pão.
Agora não podia adiar mais. A filha tinha nascido em Janeiro e já íamos Março dentro. Meteu-se ao caminho, com uma saca de serapilheira dentro do saco que levava a tiracolo. A saca de capuz era essencial para prevenir o Março, marçagão.
Ainda não eram nove horas quando chegou junto à porta, fechada, do Registo Civil. Esperou, descansando da caminhada e aproveitando o sol que brilhava com intensidade. Talvez chovesse de tarde, para contrariar o ditado, mas a manhã estava linda. Um senhor assomou à porta, camisinha branca, gravatinha preta, colete com corrente de relógio e os manguitos de seda, também pretos, que davam distinção e prestígio à função.
- O que quer?, ouviu sem sequer ser antecedido de um bom dia, como sempre acontecia lá no lugar. Paciência, pensou, as pessoas importantes não perdem tempo com ninharias ...
- Venho dar a minha filha ao "registro" ...
- Quando nasceu?
- Faz hoje dois meses.
- Já devia ter vindo. Agora tem de pagar cem escudos de multa.
A cara de espanto deve ter comovido o funcionário.
- Há uma forma de não pagar a multa. Declara que a rapariga nasceu a 13 de Fevereiro e fica resolvido.
- 'tá bem. Se pode ser assim ...
- Como se chama a mãe?
- Maria da Visitação.
- E o pai?
- "Jaquim" Piedade.
- E a miúda?
- Sei lá ... olhe, "prante-lhe" Ana, que é o nome da avó.
Pagou o que lhe foi pedido, com gorjeta, e recebeu a ordem para voltar daí a quinze dias, a recolher a cédula.
Os anos passaram. A miúda fez-se mulher, com o suplício do registro sempre presente.
- Como se chama?
- Prantelhana da Visitação Piedade.
- Nome esquisito ... e quando nasceu?
- Parida a 13 de Janeiro, mas no papel consta 13 de Fevereiro de 1940.
quinta-feira, 10 de junho de 2021
Dia de Camões
José Mário Branco cantando um soneto de Camões, ao qual acrescentou um refrão para reforçar a ideia.
De manhã, aproveitando o feriado e porque já vamos com um terço de Junho cumprido, calcei os chinelos e fui até à Foz. O areal ainda se mantém com a sujidade do costume mas, lá ao fundo, na zona onde irão ser instaladas as barracas, uma máquina começa a endireitar a areia e a limpar as canas, os plásticos, as caixas de anzóis, as garrafas de cerveja, e muito outro lixo que continua a "nascer" na praia, seguramente de "geração espontânea".Passeio junto à Lagoa, a caminho do mar, aproveitando bem o ar puro que o vento transporta e sem ver o sol, que ainda dormita bem lá atrás das nuvens. Vem a onda, fraca, molha os pés, e ouve-se a voz do mar:
- Trouxeste o gin?
- Claro que não. Vinha dar um mergulho!
- Fizeste mal. Com este gelo que tenho dentro de mim, fazíamos um brinde ao Camões.
O melhor é continuar na areia, que o "frigorífico" está ligado no máximo ...
P.S. - Soube-se hoje que a Câmara Municipal de Lisboa "bufou" a Moscovo os dados pessoais dos organizadores de uma manifestação levada a cabo no passado dia 23 de Janeiro. Apesar das desculpas públicas de Fernando Medina e da atribuição das culpas à burocracia, custa muito ouvir que, quase 50 anos depois de 1974, ainda haja no país quem ache normal "entalar" alguém em nome da BURROcracia.





