domingo, 18 de julho de 2021

Tempo

Mais uma pausa na praia. O Santo que coordena o tempo oestino não quer que nos habituemos ao ócio e não nos disponibiliza céu azul e temperaturas agradáveis todos os dias e lá saberá porquê. É matéria que merece um rigoroso inquérito por parte das autoridades competentes, uma vez que não é justo que sejamos sempre sacrificados e o Santo poderá estar a exorbitar das suas competências.

Ontem, a temperatura estava agradável mas o Sol esteve escondido toda a manhã. Deve ter adivinhado que iria haver greve nos aeroportos e não arriscou viajar. Manteve-se (e mantém-se) escondidinho atrás das nuvens, deixando escapar o aviso de que por lá irá permanecer por tempo indeterminado.

A manhã de hoje avisava que era preferível não contribuir para o buraco do ozono e ficar por aqui, sem consumir gasolina, que está cara, nem correr o risco de fazer um passeio "à senhora da asneira".

- Não vale a pena arriscar. Vêem-se daqui as nuvens e deve estar vento de sobra.

De acordo com as informações disponíveis nas novas tecnologias, o céu está nublado, a temperatura talvez chegue aos 20º e o vento sopra do Norte, a vinte quilómetros à hora e, pontualmente, com algumas rajadas mais fortes.

Se a rotina determinasse que amanhã seria dia de trabalho, teria arriscado e lá estaria, mesmo sem evidenciar a peitaça. Porém, como as férias continuam, não vale a pena ser masoquista. Melhores dias virão, no Verão que há-de chegar. Todos verão que vai ser assim (eu o determino), sem trocadilhos e com muito calorzinho, como é costume por estas bandas ... tão certo, tão certo, como eu me chamar Antímio!

sábado, 17 de julho de 2021

Responsabilidade

Os pequenos apontamentos que por aqui vou deixando e que, desde que o coronavírus nos veio visitar, têm sido diários, são apenas isso: apontamentos, despretensiosos, com opiniões próprias ou transcrevendo alheias com as quais concordo, gostos, pequenas reflexões, sem qualquer outro intuito que não o de deixar expresso o meu comentário sobre os mais diversos assuntos.

Já passaram mais de 15 anos sobre o primeiro post (15 de Maio de 2006) e, por vezes, sorrio ao ler o que escrevi em tempos idos. Até hoje, ainda não me arrependi de nada mas, se isso vier a acontecer, cá estarei a "dar a mão à palmatória" e a penitenciar-me pelo erro cometido. Foi assim que aprendi e foi sempre dessa forma que me comportei. Se havia responsabilidades, se tinha acontecido erro, não havia outro remédio senão assumir, solicitando as desculpas devidas.

Por isso, "chateiam-me" as pessoas que procuram sempre bodes expiatórios, que nunca cometem erros e, se alguma coisa correu mal, nunca têm nem um niquinho de culpa, por mais importante e influente que seja o cargo que desempenham. Da política ao futebol, dos empresários aos bancos, dos jornais às televisões, o que não falta por aí são exemplos de descaramento e lata.

E conseguem fazer dos outros parvos, sem se rirem ou corarem. Não ficarão na história e, se daqui a alguns anos, alguém se lembrar de os relembrar, será apenas para lembrar que gente dessa nem vale a pena falar e muito menos lembrar. A "lembradura" foi repetida de propósito!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Dúvida

Uma mosca sem valor
pousa, com a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

António Aleixo

O coronavírus parece a mosca do Aleixo. Pousa em todo o lado, não escolhe casa ou barraca, palácio ou gaiola, e, por mais "insecticida" que se lhe deite, não abandona o campo nem acaba o jogo. 

Com calor ou frio, o céu carregado de nuvens ou azulinho celeste, a chuva caindo ou o vento soprando, por cá se vai mantendo sem ter sido convidado, sem bilhete ou passaporte, molestando diariamente milhares de pessoas, levando algumas (felizmente bem menos do que no auge) e mantendo toda a gente em alerta forçado, preocupada, receosa de fazer isto ou aquilo, de ir ali ou além, de andar ou ficar parado.

E nem a praia traz a tranquilidade que é necessária e merecida e à qual o dia, lindo, convidaria. O distanciamento social, as conversas ao largo, as toalhas afastadas, os jogos ausentes, grupinhos de dois ou três miúdos, não mais, barracas para alugar, pouca gente no banho, e não é só por a água estar fria. Mas, antes de tudo isso:

- A máscara?

- Ficou no carro!

Volto atrás e digo para os meus botões: até na praia, bolas! Quando é qu'isto acaba?

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Autárquicas

As eleições autárquicas estão à porta e a azáfama é grande. A necessidade de mostrar, de se dar a conhecer, de aparecer e ser visto, de inaugurar obra mesmo insignificante, faz parte do quotidiano de todos, ansiosos que os eleitores os adorem e lhes concedam a "benção" de os apoiarem, de preferência com notícia partilhada nas redes sociais e nos jornais da "santa terrinha".

E ideias? E projectos? E ser diferente? E ambição de mudar? Nada disto parece estar na primeira linha, tudo ou quase tudo se resumindo a um "dizes tu, respondo eu", como se a "farinha" fosse igual e o "saco" semelhante. Será?

Agora que a idade acentua a propensão para a calma, a crítica e a análise (presunção e água benta, cada um toma a que quer), fico olhando, vendo e ouvindo os candidatos e, se de alguns já não tinha qualquer esperança em algo de novo, outros cheiram a mofo, outros há que me parecia (parece) poderem trazer algo de diferente.

Ainda vão a tempo! Deixem-se de tricas com e sobre o poder instalado, que pretende manter-se igual a si próprio. Tragam ideias novas, futuro, esperança, vontade, diferença, perspectiva, balanço, coragem, e digam isso sem peias nem medos. Não abram portas ao passado e apresentem novos modelos, que a hora é de mudança.

Não se submetam aos cânones do malfadado politicamente correcto. Disso já temos que chegue e estamos todos fartos!

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Ciclismo

Sentado na cadeira frente ao televisor, canso-me sem me mexer e fico tenso sem sair do lugar. 

A RTP2 transmite, em directo, mais uma etapa do Tour de France, que hoje atravessa os Pireneus. Sempre que me é possível, assisto. E pasmo. Como é possível aguentar tanto e ainda conseguir sorrir.

Quando descem, fazem-no a velocidades vertiginosas que, neste ano, já várias vezes passaram os 100 quilómetros à hora. Se sobem, as montanhas parecem nunca mais acabar, o frio deve ser terrível e as bicicletas quase que param, apenas empurradas pelos "motores" daqueles ases do pedal, e do guiador, e dos travões, e da coragem, e do sangue-frio, ... e que às vezes dão quedas (este ano já foram várias) que fazem doer a quem está bem longe e nada tem a ver com aquilo.

Há dois portugueses no pelotão - Ruben Guerreiro e Rui Costa - e todos os dias se vêem várias bandeiras do nosso país, agitadas por compatriotas que vivem por toda a França. As paisagens que as câmaras nos exibem valem, só por si, o tempo "perdido" a olhar para o televisor. O ciclismo é sempre um grande espectáculo que, na televisão, ainda se torna mais belo.

Nota: Passam hoje 232 anos da tomada da Bastilha, acontecimento que abriu as portas à Revolução Francesa. Saíram dela as palavras que são (ou deveriam ser) a essência e o quotidiano da humanidade: Liberté, Egalité, Fraternité.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Objectividade

O exame corria às mil maravilhas e o examinador estava perplexo com a qualidade evidenciada pelo candidato. A prova do Código da Estrada tinha sido irrepreensível, sem uma única falha - 20 Valores. Quer nos sinais quer nas regras, o Carlinhos tinha demonstrado dominar toda a matéria, ultrapassando sem qualquer dificuldade as perguntas armadilhadas que a prova continha.

Convém dizer que, na carteira do Carlinhos já estava arrumada, há três anos, a carta de ligeiros, tirada com a emancipação paterna, aos 18 anos. Agora era o passo para profissional a sério. Obter a carta de pesados e de serviço público de autocarros era um objectivo que, alcançado, alteraria a sua vida de forma drástica e permitir-lhe-ia escolher entre conduzir camiões por essa Europa fora ou então autocarros, quiçá de luxo. Qualquer uma das hipóteses abriria novos horizontes, outros países, outras gentes, tudo o que lhe balançava na cabeça há muito tempo.

As provas de condução, mesmo quando guiou o camião com reboque, não podiam ter corrido melhor. Carlinhos era um condutor exímio, ponderado, cauteloso, seguro. Tinha deixado o engenheiro examinador de boca aberta e completamente rendido à destreza do jovem.

Faltava apenas a mecânica. Depois de ouvir explicação pormenorizada sobre o funcionamento dos motores, da cambota ao pistão, dos radiadores e injectores, da bomba de água e dos travões, da embraiagem à combustão, o examinador informou o candidato que o exame tinha terminado e que a sua aprovação seria por distinção, se isso estivesse previsto. No entanto e apenas por curiosidade, gostava de ouvir a explicação que ele daria para o funcionamento da caixa de velocidades. Que ficasse claro que isso não contava para a apreciação final, já efectuada, como lhe tinha acabado de dizer.

- Ó senhor engenheiro, não é fácil!

- Eu sei, mas tente. Não precisa de linguagem muito técnica. Seja objectivo, como foi no exame.

- Aí vai: uma mão cheia de carretos, que andam lá numa velocidade do caraças, se um gajo põe lá um dedo, lixa-se, fica sem ele! 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Escultura

Vento norte, zangado, soprando com força, obrigando os que levaram chapéu a estarem atentos, para que ele não levante voo. O céu com nuvens, a água fria, o mar revolto, tudo contribuindo para que se cumpra a máxima antiga: a Foz é uma praia tão boa, tão boa, mas tão boa, que até o Inverno cá vem passar o Verão.

E o "cão" de rocha adora, como a sua expressão evidencia, que tiritem à sua volta, para terem consciência dos sacrifícios que ele passa, a levar com tudo ele que nem uns calçõezitos tem para lhe afagar as pernas e as partes baixas, nomeadamente na maré alta.

- Mas ele nem pernas tem, como pode usar calções?

- Tens toda a razão. O vento até nos tira o discernimento. Que disparate!

O "cão" rocha ouviu e comentou, baixinho, apenas para os seus botões.

- Coitados. O vento tolhe-lhes os pensamentos e leva-os a comentarem sem pensar. Está muito na moda. Esquecem-se que estou aqui há séculos e foi esta a forma que encontrei para iludir a polícia dos costumes. Se eu estivesse aqui de pernas à mostra, de certeza que me tinham levado para Peniche ...

domingo, 11 de julho de 2021

Euro 2020

 


ITÁLIA - 4 / Inglaterra - 3

E, tal como há cinco anos, jogar em casa de nada adiantou.

sábado, 10 de julho de 2021

Memória

Havia tanta coisa para servir de tema hoje.

Não quero escrever sobre nada, nem mesmo sobre o vento que se fazia sentir na Foz.

Há cinco anos, exactamente neste dia, Portugal sagrou-se Campeão Europeu de Futebol e esse feito ninguém apagará da história. 

Para mim foi um dia inesquecível, com o coração no limite e as emoções à flor da pele.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Extrato, pequeno, da biografia de José Cardoso Pires, publicada recentemente e escrita de acordo com o malfadado novo acordo ortográfico. Apesar da minha (o)posição, a cópia abaixo respeita a ortografia constante da obra, que me tem sabido bem ler. Espero concluir em breve as 566 páginas e que o agrado actual se mantenha até ao fim.

(...) Naqueles anos, nos intervalos permitidos pelos empregos por que ia passando, tinha escrito vários contos. O grande desafio era encontrar quem os publicasse. O convívio com jovens artistas e o contacto com algumas pessoas do meio literário não eram garantia de publicação. Naquela altura, até autores consagrados tinham dificuldade em encontrar editor. Os livreiros e os responsáveis das editoras queixavam-se que o ano de 1947 tinha sido um dos piores de sempre para o setor. Em julho, a revista Vértice publicou um artigo sobre a crise do livro português com um diagnóstico sombrio. Os livros eram demasiado caros para a maioria da população que gostaria de os ler. A prioridade era pôr o pão na mesa. Alguns autores vendiam razoavelmente, mas quase todas <<ediçõezinhas de 3000 exemplares>> dormiam o <<sono eterno nas estantes das livrarias>>.

Nada ajudava. Nem a censura, com o risco de possíveis apreensões a pesarem nos cálculos dos editores, nem a elevada taxa de analfabetismo, a rondar os 45 por cento, muito superior à dos outros países europeus, nem o preço dos livros. Para que a publicação do seu livro não fosse apenas uma quimera, um aspirante a escritor precisava de um <<padrinho>>, alguém que caucionasse a qualidade da obra. Depois logo se via. Mas se mesmo com padrinho era difícil, sem padrinho era impossível. E sem livro, também. Porém, essa parte ficou resolvida em agosto, quando Cardoso Pires concluiu a primeira versão de um livro a que deu o título provisório de Areia Movediça. E já decidira a quem ia entregá-lo para uma primeira leitura.(...)

Integrado Marginal
Biografia de José Cardoso Pires
Bruno Vieira Amaral
Contraponto (2021)