sexta-feira, 30 de julho de 2021

Olga Prats

Partiu hoje, aos 82 anos. Fica, para ser lembrado, um pouco do muito que fez pela música.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Igualdade

O Conselho de Ministros de hoje determinou que as limitações impostas pela pandemia passem a vigorar em todo o país, acabando, assim, com a hierarquia dos concelhos e aplicando as regras a toda a população, independentemente do sítio onde as pessoas vivam ou estejam. Esta decisão merece destaque e aplauso, por indiciar que estamos no bom caminho e acabar com distinções que levaram a alguns pensamentos mais ou menos fracturantes.

Ainda que os números se mantenham elevados, tudo indica que, finalmente, nos encaminhamos para um regresso à normalidade, mesmo que essa normalidade necessite de aspas e seja diferente do que tínhamos.

Não é aqui o sítio próprio para pregações e muito menos há competências do "pregador" para tal. Continuemos a confiar em quem sabe e a fazer os "impossíveis" para cumprir, pela nossa liberdade e pela de todos os outros, sem a qual a nossa é perfeitamente irrelevante.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Memória

Não havia ninguém ao balcão e o tempo que mediava até chegar o próximo cliente era aproveitado para, na secretária, ir adiantando as contabilizações, os registos, as tarefas necessárias ao encerramento do dia que, naqueles tempos, era bem demorado e trabalhoso.

O casal aproximou-se do balcão, de braço dado e, mal levantei os olhos, tive a certeza de conhecer o homem, ainda que as dúvidas me assaltassem face à companhia. O atendimento esclareceu tudo.

- Venho pagar a prestação do nosso empréstimo e ... estou a conhecê-lo. Andou na escola das Caldas?

- Andei, sim, já há uns anitos ...

O aviso de pagamento já tinha confirmado o nome.

- Fui teu professor, não fui?, perguntou com um largo sorriso. 

- Foi sim ...

- Já não sou Padre. Agora dou aulas no Liceu Camões.

Ainda bem que esclareceu a dúvida que me tinha feito titubear na conversa. A partir daí, atendi-o sempre que lá se deslocava. Enquanto por lá estive, nunca quis ser atendido por outro, mesmo que isso implicasse algum tempo de espera. As conversas caíam invariavelmente nas recordações de ambos, mas a contabilização era sempre a favor dele.

O chefe, por vezes, arranjava forma de interromper, com medo que o trabalho "azedasse".

terça-feira, 27 de julho de 2021

Ventos

As férias de Julho estão quase no fim. Esta é a última semana e, como é costume, passará a correr e nem dará tempo ao Sol para se habituar a este ambiente oestino, quanto mais a instalar-se por cá. Para agravar a situação, o vento não preencheu em devido tempo o mapa previsto para as férias e, por isso, a escolha dos dias ficou na sua gestão directa, sem que ninguém tenha força para o impedir de aborrecer quem quer calma, paz, sossego, descanso e bom trato. Um regabofe ...

Conclui-se facilmente que já não há respeito pela legalidade, seja ela de direito ou consuetudinária. A Autoridade para as Condições de Trabalho também nada pode fazer para evitar a situação, por não ter meios suficientes e não ter actuação clarificada para, neste domínio, exercer o seu poder. É um vazio semelhante ao que tem acontecido em várias situações, das algemas do SEF aos mails das manifestações, do impedimento do DDT ir ao Tribunal, legalmente previsto, mas que não contempla a Sardenha, às exibições de filmes com os "homens sérios" como protagonistas. 

E tudo isto impede que o "sagrado" direito a férias de um trabalhador reformado seja exercido na plenitude, e o faz ser agredido por uma nortada apressada e fria, a qual, de acordo com quem sabe, se manterá pelo menos mais três dias.

À cautela e para prevenir qualquer incompreensão e um eventual despedimento sem justa causa nem causa justa, invoquei os motivos de força maior descritos (e também a intensidade) para solicitar o prolongamento das férias.

Está decidido. Vou por cá continuar em Agosto, quer o vento goste quer não!

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Livros

Não comungo do pessimismo evidenciado no filme que o meu amigo ADS fez o favor de me enviar. Todavia, tenho consciência de que o livro cada vez se senta a menos mesas e que, nalgumas, se instala apenas para ser visto, como bibelot sem préstimo ou utilidade.

Sina(i)s dos tempos ...

domingo, 25 de julho de 2021

O negro e o verde



Morreu hoje Otelo Saraiva de Carvalho (1939-2021), o homem que comandou as operações em 25 de Abril de 1974.

sábado, 24 de julho de 2021

Palavras bonitas

CATILINA

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
à luz crepuscular do meu instinto

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr'além do nó de angústia mais convulso.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Impressão ... digital

Em meados dos anos setenta do século passado, a actividade bancária e as pessoas que dela usufruíam não tinham nada a ver com a realidade de hoje. O dinheiro real circulava de mão em mão, uns com muito outros com pouco, como sempre. O cheque dava os primeiros passos para a universalização e era um meio de pagamento quase só usado pelas empresas, para efectuarem parte das suas liquidações, nomeadamente a fornecedores de outras bandas. O crédito em conta dos ordenados viria muito mais tarde e demorou bastante tempo a ser utilizado por toda a gente. Os funcionários públicos recebiam os seus vencimentos, em dinheiro vivo, nos respectivos serviços ou nas tesourarias de finanças.

Na Praça da República existiam apenas três agências bancárias (hoje parece que regredimos e voltaram, por enquanto, a existir de novo três): a do Banco de Portugal, que não estava aberta ao público e servia quase só para alimentar de dinheiro as instituições que dele careciam ou para receber em depósito o excesso de tesouraria de alguma; a Caixa Geral de Depósitos, virada para a poupança particular e para o crédito às entidades públicas, às grandes empresas e ao crédito bonificado à habitação, que dava os primeiros passos; e ainda o Banco Português do Atlântico, dedicado fundamentalmente às empresas, pequenas e médias e ao pequeno comércio. Havia mais três agências, noutros locais da cidade, e dois ou três correspondentes bancários, que quase só serviam de "caixa de correio" das letras que vinham à cobrança.

José, assim chamado para poupar no espaço, tinha vendido uns eucaliptos e o comprador passara-lhe um cheque para o respectivo pagamento. Indagou onde poderia transformar aquele papel em notas úteis e lá foi até ao BPA.

- Assine aqui.

Não sabia uma letra do tamanho de um comboio e, envergonhado, confessou-o.

- Não há problema. Tiramos-lhe a impressão digital.

Veio a caixa de madeira, com tampo de pedra, foi colocada a tinta, preta, alisada como rolo de borracha.

- Dê cá o dedo.

Rodou-se da esquerda para a direita e a "fotografia" do indicador direito foi colocada no verso daquele papel que, por estranho que parecesse, valia três contos de réis. O empregado anotou, na frente do cheque e em tamanho grande, o número da chapa que lhe atribuiu.

- Agora vá ali à caixa.

José subiu a Praça, entrou na Caixa, sentou-se e aguardou. Demora tanto! Se calhar estão a fazer as notas, pensou. Um dos empregados estranhou a presença daquele homem, ali sentado há tanto tempo. 

- Está à espera de alguém?

- Não. Estou a aguardar que me chamem para receber, respondeu, exibindo a chapa do BPA.

Desfez-se o equívoco, José desceu a Praça e entrou de novo na agência do Atlântico.

- Em vez de vir receber, foi passear?

- O seu colega mandou-me ir à caixa e eu fui ... lá acima.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Sonhos

Uma noite destas, em que o sono tardou a chegar ou já ia a fugir, o Carlinhos veio visitar-me. Queria conversa e não parecia particularmente bem disposto.

- Estou chateado contigo!

- Bolas, que mal te fiz eu? Porto-me sempre tão bem, que às vezes até me estranho.

- Pois, mas não não cumpres o que prometes e isso é muito feio.

Não percebi o remoque, mas eram visíveis as "trombas". Esperei, calmamente, que surgisse mais alguma palavra que clarificasse o assunto que o toldava. Não tardou muito ...

- Autorizei-te, e desafiei-te, a utilizares o meu nome e as minhas "estórias" e esperava que cumprisses essa missão com mais assiduidade. Ainda só vi dois textos e isso magoou-me muito. É pouco para uma pessoa tão famosa e vivida como eu sou, e que tem tanto para contar e ser dado a saber ao mundo.

Embatuquei. Era verdade e a verdade, por vezes, é muito difícil de aceitar e mais ainda de justificar. 

- Tu sabes bem que nunca me esqueço de ti, mas surgem outros temas, a oportunidade passa ou é adiada para "manhã". As tuas "estórias" têm de ser cuidadosamente contadas.

- Quero o acordo cancelado. Pretendo estar na ribalta, ser "primeira página", ter destaque, ser comentado. Se não podes ou não queres dar-me isso, vou procurar outro ou outros que estejam disponíveis. Quero estar na primeira fila, sempre. Acho que mereço mais do que muita "estrela" que por aí circula nas redes e se pavoneia nos jornais.

Convencido, pensei para mim. Devia voltar-lhe as costas ou mandá-lo àquela parte. Era o que merecia.

- A decisão é tua. Para compromissos desses, comigo não contas. Não gosto de ser condicionado por ninguém. Queres restringir a minha liberdade e obrigar-me a ser teu escriba, e eu não estou para isso.

Ficou pensativo e abismado. Não estava à espera e o ego sentiu-se. "Enfiou-se".

- E digo-te mais: conheço muitas "estórias" tuas mas, como bem sabes, uma grande parte não merece nem pode ser publicada. A linguagem e as actividades não são compatíveis com a divulgação pública. Às vezes até a restrita é difícil e é preciso escolher os ouvintes. Acresce que o vernáculo e os comentários jocosos sobre tudo, das religiões à política, não se ajustam a um sítio que se pretende preze a moral e os bons costumes, e mantenha a bitola com algum nível. Há quem diga que, quando a conversa desce de nível, sobe de interesse, mas eu não estou para aí virado.

- Ora, ora! Deixa-te desses pruridos infantis. Nem pareces deste tempo. A língua quer-se desabrida e sem peias, tipo bronco, bué da fixe. Não querem lá ver o cota ... 

Acordei. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Numa vila sertaneja e tradicionalista como Trigais, por meados do século XX, não eram de esperar comportamentos de modernidade no interior das famílias, como por exemplo essa coisa de os filhos tratarem os pais por tu. Nada de americanices. Os pais são para ser tratados com respeito.

A família de Feliciano era uma família típica do meio. Ou seja, constituída por um pai que chefiava, ralhava, marcava rumos e garantia o sustento da família; uma mãe que se encarregava das tarefas domésticas, nas quais estava incluída a educação dos filhos; um filho e uma filha que reverenciavam e obedeciam aos pais.

Delfim Carvalhais, o pai, timoneiro da barca, passava o melhor do dia na loja a aviar a clientela, a pesar quilos de arroz na balança marca A. Pessoa, a partir o bacalhau às postas numa guilhotina própria para isso, a conferir a contabilidade rudimentar, a encomendar aos fabricantes produtos em falta, a aturar caixeiros-viajantes tagarelas, e às vezes, quando a freguesia rareava e o ócio se instalava, a dormitar ou a cismar na morte da bezerra, sentado do lado de dentro do balcão, com um rádio de pilhas roufenho, permanentemente sintonizado na Emissora Nacional, a despejar música e propaganda assolapada do regime. Se era Inverno, punha os pés sobre o estrado da braseira. Umas vezes por outras, ao cair da tarde, depois de fechadas as repartições públicas, apareciam três ou quatro compinchas desocupados e armava-se nas traseiras da loja uma mesa clandestina de abafa ou sete-e-meio, interrompido para Delfim atender algum freguês que entrasse. 

Nas férias escolares, Delfim gostava de levar o filho para a loja, esperançado em, dessa forma, despertar nele o gosto pelo comércio, porque seria o comércio, se outras oportunidades não surgissem, que lhe asseguraria um futuro desafogado. Quando o filho era já mais crescidinho, começou a encarregá-lo de tarefas proporcionadas à sua idade, força e entendimento, e no fim recompensava-o com meia dúzia de rebuçados peitorais.

A filha não, não a levava para a loja. Delfim tinha ideias muito arreigadas sobre o que pode e não pode fazer uma rapariga, o que parece bem e o que parece mal, e os perigos a que se expunha toda a mulher que não se guiasse por estes sábios preceitos. E tratava de separar devidamente as águas, isto é, as ocupações dos filhos. Por isso, Carlota ficava com a mãe em casa e instruía-se nas tarefas domésticas, ajudando a passar a ferro ou a cerzir alguma peça de roupa a precisar de conserto. E assim ia adquirindo as competências que devem exornar uma boa dona de casa. (...)

Feliciano
A.M.Pires Cabral
Tinta da China (MMXXI)