sábado, 4 de setembro de 2021

Diferente

Nas conversas à beira de água, na Foz do Arelho, ouve-se constantemente a referência à excepcionalidade do tempo e das condições do mar, às quais não se está habituado e que apenas costumam ocorrer num ou dois dias seguidos e muito de vez em quando.

Mesmo os "não clientes" são sensíveis e gostam!

- Costumo ir para a Lagoa, mas esta semana não saí daqui ...

Neste ano já tinham surgido dias excelentes, alternados, sempre a confirmar a regra de que não há, seguidos, dois bons na Foz. A excepção está a acontecer em 2021 e já há mais de uma semana que os dias e o mar se mantêm divinais.

Parece que até circulam, de acordo com as informações de hoje, opiniões de "achistas" nas redes sociais, de que isto se deverá às alterações climáticas.

- Esperem-lhe pela pancada ... afirmam, convictos.

Talvez tenham razão e um dia destes o mar não autorize mais do que pôr o pé, aplique o "corte" no tornozelo, obrigue a colocar o "tapume" para aguentar a nortada e até determine o recurso à camisolinha, para evitar a constipação.

Tudo é possível mas, enquanto ele deixar e quiser, aproveitemos a sua bondade e gozemos a festa, porque, assim, nem no Algarve.

Hoje, de acordo com os termómetros das aplicações disponíveis, a temperatura da água era de dezanove graus. Verdade ou não, parecia banho de imersão!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) "- Não te faço uma vénia porque acabei de me sentar, Carlinho. E a Maria Luísa? Sempre nas suas visitas aos pobres? Como pode manter essa expressão de paz, paralelamente às visitas regulares aos bairros da lata, aos bairros da fome? Não fica com os olhos pesados, com a alma pesada, das coisas que vê?

- Com as minhas visitas aos pobres passa-se o mesmo que com o livro do Miguel - não são coisas de que se fale.

- Bem, eu nunca me entregaria a essa caridade ordenada, pautada, - percebe com certeza que não estou a ofendê-la, que a estimo e que a acho muito boa - mas que ataco essa caridade das segundas, quartas e sextas, como ela é praticada pelas beatas que a rodeiam. Eu nunca poderia fazê-lo, mas, se o fizesse, se a minha vida fosse dirigida para esses caminhos, parece-me que nunca mais teria coragem de comprar um vestido de seda natural, como o seu, ou de jantar num bom restaurante, e mais uma enfiada de coisas.

<<Bravo, Silvana, aí saltas tu com a tua sede de Absoluto, eu bem dizia ...>>

<<Esta rapariga parece desencabrestada. Quem diria, com aqueles ares de seresma ... O Leonardo, já lhe cheirava a esturro.>>

- Vêem? Esta é a Silvana. Onde entra agita logo a atmosfera. Parece um vendaval! Um furacão. Um ciclone. Silvana é bonito nome para ciclone. Os americanos ainda não se lembraram. (...)"

Viver com os outros
Isabel da Nóbrega
Portugália (1965)

Nota: Isabel na Nóbrega morreu ontem, aos 96 anos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Feira do Livro

Entre o lanche, adiantado, e o jantar, atrasado, uma saltada a Lisboa para que a ausência do ano passado não se repetisse este ano, apesar dos receios das multidões, que se mantêm bem vivos.

Muitos livros, muita gente, não muito calor, máscaras e gel desinfectante, um papel no bolso que, afinal, não serviu para nada. Nenhum dos adquiridos estava na lista, mas isso não belisca nem um bocadinho o prazer de, partindo do monumento ao 25 de Abril, de José Cutileiro, descer até ao Marquês e voltar a subir, sempre rodeado de livros e de gente com eles na mão ou no saco.

Para o ano, voltarei a ser parte, "se a tanto me ajudar o engenho e arte."

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Palavras bonitas

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

Nota: O meu filho, invejoso, entra hoje na "casa dos enta", "moradia" onde já está a irmã há algum tempo. Não se diz quanto, porque nunca se deve revelar a idade das senhoras. Esta entrada significa que, dos que me restam, já só os netos permanecem lá fora!

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Guerra

Saiu ontem o último avião de Cabul e a descolagem foi saudada, pelos actuais detentores do poder, com tiros para o ar e declarações referindo o início da independência do Afeganistão e um futuro risonho para todos, até para as mulheres.

Para quem está longe, desconhece a cultura e a história do povo, tem acesso apenas às notícias difundidas no ocidente, parece que toda aquela gente estará à beira de um precipício, onde abundará a fome, a injustiça, a exploração, a desigualdade. E tudo isto arrepia e faz pensar.

Ouvem-se rumores de interesses "opiáceos", de tráfico de drogas, de conselhos russos e opiniões chinesas, de aproveitamentos turcos e divergências entre os países da União Europeia. E os americanos referem as influências diplomáticas que estarão a mover para garantir que, todos os que queiram, possam sair do país.

Mesmo admitindo que os esforços diplomáticos dão frutos, sairão todos os que querem ou apenas os que podem?

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Setembro e as obras

As obras que, há meses, acontecem nesta zona, quase fizeram desaparecer o sossego. O trânsito tornou-se complicado, com alterações de sentidos, umas sinalizadas, outras por livre arbítrio, e a rua passou a ser utilizada como estacionamento por residentes noutros locais.

Como era previsível, os trabalhos estão a chegar ao fim e tudo indica que deverão ser dados como concluídos aí por meados de Setembro (porque será). Deverão ter a inauguração com a pompa que merecem e relatos, vibrantes, na comunicação social do burgo.

Ontem, o acesso ao portão da Casa não foi fácil. Um carro desconhecido, atravessado, ocupava metade da rua, apenas possibilitando a entrada por o veículo utilizado ser o "micro-ondas". Se fosse o outro, teria ficado na rua, ou melhor, noutra rua, que nesta não havia qualquer espaço.

Meia dúzia de imprecações contra o desconhecido que não tinha consciência nem respeito pelos outros e, decisão tomada, um papel com a mensagem reclamativa, a dar conta dos inconvenientes causados,  pendurada na escova do limpa-brisas.

Hoje, bem cedo, a rega do jardim, que o Oeste tem tido um tempo que quase parece algarvio. De repente, a voz, desconhecida, fez-se ouvir da janela do primeiro andar fronteiro:

- Desculpe. O carro é meu, mas só o deixei assim porque avariou. Não trabalha. O senhor do reboque prometeu vir retirá-lo hoje, de manhã. Estou à espera. Deve estar a chegar.

Coitada. Veio de visita à amiga, o carro avariou e ainda teve de pedir desculpa a um "maduro" que lhe escreveu uma missiva não muito agradável. Há horas de sorte ...

No regresso da praia, o acesso estava desimpedido e o carro tinha ido embora.

Venha Setembro, depressa! 

domingo, 29 de agosto de 2021

Pró-memória

Ontem, deixei aqui uma breve referência à exposição de Ai Weiwei, ilustrada com duas fotos de um fotógrafo incipiente e inapto.

A grandeza, a beleza e a eloquência da exposição permanecem ainda na retina e na mente, como há bastante tempo não acontecia. O meu amigo ADS, que foi uma das pessoas que fizeram o favor de me acompanhar na visita, brindou-me com uma série de fotografias "à séria", tiradas por quem sabe e tem dedo. Com a devida vénia e sem pagamento de direitos de autor, aqui fica uma colecção de "retratos", encerrados com duas fotografias do Tejo visto do "telhado" do MAAT

Lisboa é uma cidade linda e estava, como de costume, com uma luz "do outro mundo".
























sábado, 28 de agosto de 2021

Lisboa

Um opíparo almoço, na companhia e na comida, ali para os lados de Carnide, com o estádio do "glorioso", imponente, a servir de fundo protector.

Dia em cheio, com uns pingos de chuva a suavizar o calor, e uma brisa ligeira, que corria de vez em quando para refrescar os corpos, mal habituados ao traje de circunstância que as circunstâncias determinaram usar.

Com a conversa em dia, estórias e histórias, picantes e saudáveis, tão diferentes quanto interessantes, os participantes rumaram à beira Tejo, com destino à Cordoaria Nacional. Aqui, o objectivo era ver a Rapture, exposição imensa de obras do artista chinês Ai Weiwei. 

Foram mais de duas horas de êxtase perante uma infinidade de obras, dos mais diversos materiais e tamanhos, todas com o propósito de salientar o que vai pelo mundo e a importância da fome, da guerra, da liberdade, nos dias de hoje. O tempo não deu para ver os inúmeros documentários exibidos nos muitos ecrans que enchem as paredes.

E, no final, a conclusão do costume: "quanto mais sei, maior é a minha ignorância".


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Nos últimos dias de Outubro, ainda fazia calor: o ar sabia a algas e a flores; e as senhoras que passavam sob o balcão de Anania vestiam de musseline e de tecidos leves. Afigurava-se-lhe encontrar-se num país encantado, e o ar balsâmico e enervante, e as comodidades novas do seu quarto, e as doçuras da nova vida, davam-lhe uma sensação de moleza e languidez. Foi invadido por uma espécie de sonolência voluptuosa: tudo lhe parecia belo e grande, e, ao recordar o lagar e as sujas figuras que nele se juntavam, perguntava a si próprio como pudera viver lá durante tanto tempo. A vida humilde dos seus próprios vizinhos continuava decerto o seu curso melancólico, enquanto aqui, nos cafés, resplandecente e, nas ruas luminosas, nas altas casas batidas pelo sol, pelo vento e pelo reflexo do mar, tudo era luz, alegria, poesia.

A chegada da primeira carta de Margherita aumentou a sua alegria de viver: era uma cartinha simples e terna, escrita numa grande folha de papel branco, numa letra redonda, quase masculina. Na verdade, Anania esperava uma carta azul, com uma flor metida num envelope; no primeiro instante, pareceu-lhe que Margherita quisera fazer-lhe sentir a sua superioridade e mostrar o desejo de o dominar; mas depois, pelas expressões simples e afectuosas da rapariga, que parecia continuar com aquela carta uma longa e ininterrupta correspondência, apercebeu-se de que ela o amava sinceramente, com ingenuidade e com força, e experimentou uma doçura inexprimível.

Ela escrevia:

Todas as noites fico longas horas à janela, e parece-me que tu vais passar de um momento para o outro, como costumavas fazer antes da tua partida. Entristece-me muito esta separação, mas consolo-me pensando que tu estudas e preparas o nosso futuro.

Depois indicava-lhe para onde deveria dirigir a resposta, e pedia-lhe o maior segredo, porque era natural que a família dela, se viesse a ter conhecimento do seu amor, o contrariasse.(...)" 

Cinzas
Grazia Deledda
Sibila Publicações (2018)

Nota: Excerto de um romance escrito em 1904, pela primeira escritora italiana galardoada com o Prémio Nobel da Literatura, em 1926.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Peixe-aranha

Há três dias seguidos que a Foz nos brinda com mar calmo, ausência de vento e água quentinha, a rondar os dezasseis graus, de acordo com as entidades que disso sabem. Parece o Algarve ... para quem está habituado a senti-la "cortar" os artelhos.

Começa-se a estranhar e a comentar que deve haver lapso do S. Pedro e que, "amanhã", já deveremos saudar o regresso ao velho normal do vento, nevoeiro, pouco sol e mar bruto. A ver vamos ...

Com esta situação meteorológica, até o peixe-aranha resolveu dar um ar da sua graça e passar por aqui, para que nos lembremos dele. Cobarde como é, estava escondido na areia, sem ninguém dar por ele, nem sequer a dona da Casa, que costuma estar atenta a tudo e ter um sexto sentido para os perigos.

- Ai que já fui mordida por um peixe-aranha.

Havia médico e enfermeira no grupo, o que garantia a eficácia do socorro, se tal fosse necessário.

- Tens de ir ao banheiro. Eles têm um spray e, depois, mergulhas o pé em água quente durante quinze minutos e passa.

Até o médico tem o vocabulário desactualizado. Agora banheiro só no português do Brasil, para designar o local onde se escrevem as "cartas ao António". Os técnicos que garantem a vigilância nas praias são nadadores-salvadores.

O Posto de Socorros fica longe das rochas e o caminho foi feito, com a pressa possível e o esgar próprio de quem tem dores agudas. Simpático, o nadador-salvador pôs em prática tudo o que tinha sido antecipado por quem "sabe da poda". O pé ficou novo ...

O peixe-aranha, entretanto, já deve ter tomado o caminho do Algarve, prevenindo o esperado arrefecimento da água na Foz.