sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio

18.09.1939 - 10.09.2021

Partiu hoje mais um "cravo" de Abril. Já restam poucos.

Quando a História se escrever, longe dos interesses mesquinhos e do momento, o seu nome aparecerá com letra grande, mas, ainda assim, não tão grande que retrate de forma completa o que ele foi.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Traição

Merecida ... depois das vicissitudes dos últimos dias, hoje a Foz não me viu, para deixar claro o meu desagrado e também o meu veemente protesto. Não é correcto o seu procedimento e temos de lavrar a nossa indignação, perante comportamento tão feio para com gente que se mantém fiel há longos anos.

Mão amiga (CPC) fez-me chegar uma foto, com comentários sobre a maravilha do tempo que por lá estava, as óptimas condições do mar e da temperatura, a beleza do passeio às rochas, despertando a inveja e motivando o arrependimento. 

Em vão! A manhã foi passada à beira do Atlântico, um pouco mais para sul, e foi óptima, sem fantasmas de dragados ou água suja, muito menos a sua realidade. Pelo contrário: duma boa banhoca na Supertubos, com o areal quase deserto e o mar "de gritos", um salto para Peniche de Cima e Cova da Alfarroba, com muitas escolas de surf e bastantes alunos estrangeiros a usufruírem de aulas num cenário idílico. 

Grandes banhos, com água a vinte graus, ondas sem força e necessidade de percorrer mais de cinquenta metros para um mergulho de jeito nas ondas fraquinhas, como convém aos idosos. 

Para culminar, almoço no Baleal, numa esplanada catita, com o distanciamento devido. Na hora da sobremesa, dois clientes abriram a boca de espanto perante a informação de que o peixe, fresco, já tinha acabado. Paciência, viessem mais cedo! Não é às três que se almoça.

Amanhã dar-se-á o regresso à Foz, com a esperança de que a água esteja limpa e os dragados sossegados.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

"Crime e castigo" *

No dia de hoje mas do ano em que nasci (1952), foi publicado pela primeira vez "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Associei esta efeméride que, como será óbvio, li nas notícias porque dela não fazia a menor ideia, ao que soube hoje na Foz e não veio nas notícias.

Logo pela manhã, teimoso, fui ver como estava o mar, apesar de os serviços da meteorologia avisarem que talvez chovesse e não ter qualquer esperança de encontrar água em condições de tomar um bom banho. À chegada, ao avistar o Gronho, a boca abriu de espanto: não havia sinais de dragados e o mar, embora ainda não regressado ao normal, parecia bastante melhor do que nos dois dias anteriores. 

Conclusão lógica e imediata: os protestos chegaram aos ouvidos de quem manda e os trabalhos foram suspensos. Uma ida até às rochas confirmou que a água límpida estava a regressar e que uma nova maré cheia talvez fizesse o milagre. 

A caminhada até à aberta e dois dedos de conversa com o pescador habitual, que conhece o mar como poucos e antecipa sempre as atitudes e as vontades dele, permitiu perceber que a conclusão tinha sido precipitada e pôs tudo em pratos limpos.

- Ontem, por volta da uma da tarde, aquilo "trambolhou" tudo. Meteram-se com ele ... escavou por baixo, tirou a areia toda e a peça que atira a porcaria "trambolhou". Talvez sirva de aviso para porem aquilo a despejar lá mais para dentro, onde as marés e as correntes sejam mais fortes. Até os peixes fogem daquela barria, que lhes entra nas guelras e os sufoca.

Conclusão bem mais acertada: quem se mete com o mar, leva!

* Romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1866.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Construção

Passam hoje 199 anos da independência do Brasil e o grande país (ainda) está longe de se ter construído.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Desilusão

- Esperem-lhe pela pancada ...

E a pancada chegou.

Não a que os arautos do tempo anunciavam, mas outra, bem mais aborrecida e preocupante, e que não era esperada. Ou era?

A APA teria efectuado todos os testes e anunciado, (assim se dizia) que os dragados não trariam qualquer problema ao mar da Foz, não só pela distância a que iriam ser lançados, como pelo facto, determinante, de as correntes serem sempre de Norte para Sul. 

Hoje, à chegada, deparou-se-nos um espectáculo deprimente. Aquela água límpida, transparente, azul esverdeada ou verde azulada, nunca sei, que estamos habituados a ver e a desfrutar, tinha sido conspurcada e o que se via, bem até lá ao fundo, era uma grande mancha acinzentada, e a rebentação passara da alvura normal para um castanho nojento.

Uma manhã para esquecer e os desejos de que as marés vivas, a Lua ou qualquer outro poder "sobrenatural" alterem depressa a situação, levem a porcaria para bem longe e nos devolvam a Foz nas condições que sempre nos foram oferecidas.

Antes estivesse a chover!

domingo, 5 de setembro de 2021

Desilusão

- Logo não te esqueças de ver a SIC. O programa do César Mourão vai ser nas Caldas.

Habitualmente, o botão da SIC generalista não é premido e, mesmo em zapping, passo por lá como "cão por vinha vindimada". Não é preconceito nem "armar ao pingarelho", mas é muito raro lá permanecer.

A curiosidade e a necessidade de poder mandar uns bitaites com conhecimento de causa, obrigou a não esquecer a recomendação e por lá me mantive até ao fim, com grande esforço, diga-se.

Que tristeza! Até tenho uma boa ideia do actor, humorista e apresentador, mas ontem, talvez por deficiente trabalho de retaguarda, foi mau de mais para se assemelhar a verdadeiro. Quem conhece a cidade, ficou triste e quem pensava cá vir, deve ter desistido de imediato.

Reduzir as Caldas a meia dúzia de bonecos fálicos e a uns doces com o mesmo formato, misturando Bordallo Pinheiro com a bonecada, é o mesmo que comparar a Estrada da Beira com a beira da estrada ou o bife à milanesa com o bife em cima da mesa. Tudo foi escolhido a dedo para ocupar uma parte do horário nobre com um conteúdo vazio, da piada fácil e do palavrão velado ou explícito. Os entrevistados, todos "brilhantes", fizeram jus à categoria do programa e confirmaram que não há nada melhor para uma conversa subir de interesse do que a fazer descer de nível.

Poderiam ter resumido as charlas a cinco minutos, já era muito, e dedicado o resto do tempo ao que ainda existe de interessante na cidade.

E não é pouco, apesar do desleixo e da ignorância.

sábado, 4 de setembro de 2021

Diferente

Nas conversas à beira de água, na Foz do Arelho, ouve-se constantemente a referência à excepcionalidade do tempo e das condições do mar, às quais não se está habituado e que apenas costumam ocorrer num ou dois dias seguidos e muito de vez em quando.

Mesmo os "não clientes" são sensíveis e gostam!

- Costumo ir para a Lagoa, mas esta semana não saí daqui ...

Neste ano já tinham surgido dias excelentes, alternados, sempre a confirmar a regra de que não há, seguidos, dois bons na Foz. A excepção está a acontecer em 2021 e já há mais de uma semana que os dias e o mar se mantêm divinais.

Parece que até circulam, de acordo com as informações de hoje, opiniões de "achistas" nas redes sociais, de que isto se deverá às alterações climáticas.

- Esperem-lhe pela pancada ... afirmam, convictos.

Talvez tenham razão e um dia destes o mar não autorize mais do que pôr o pé, aplique o "corte" no tornozelo, obrigue a colocar o "tapume" para aguentar a nortada e até determine o recurso à camisolinha, para evitar a constipação.

Tudo é possível mas, enquanto ele deixar e quiser, aproveitemos a sua bondade e gozemos a festa, porque, assim, nem no Algarve.

Hoje, de acordo com os termómetros das aplicações disponíveis, a temperatura da água era de dezanove graus. Verdade ou não, parecia banho de imersão!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) "- Não te faço uma vénia porque acabei de me sentar, Carlinho. E a Maria Luísa? Sempre nas suas visitas aos pobres? Como pode manter essa expressão de paz, paralelamente às visitas regulares aos bairros da lata, aos bairros da fome? Não fica com os olhos pesados, com a alma pesada, das coisas que vê?

- Com as minhas visitas aos pobres passa-se o mesmo que com o livro do Miguel - não são coisas de que se fale.

- Bem, eu nunca me entregaria a essa caridade ordenada, pautada, - percebe com certeza que não estou a ofendê-la, que a estimo e que a acho muito boa - mas que ataco essa caridade das segundas, quartas e sextas, como ela é praticada pelas beatas que a rodeiam. Eu nunca poderia fazê-lo, mas, se o fizesse, se a minha vida fosse dirigida para esses caminhos, parece-me que nunca mais teria coragem de comprar um vestido de seda natural, como o seu, ou de jantar num bom restaurante, e mais uma enfiada de coisas.

<<Bravo, Silvana, aí saltas tu com a tua sede de Absoluto, eu bem dizia ...>>

<<Esta rapariga parece desencabrestada. Quem diria, com aqueles ares de seresma ... O Leonardo, já lhe cheirava a esturro.>>

- Vêem? Esta é a Silvana. Onde entra agita logo a atmosfera. Parece um vendaval! Um furacão. Um ciclone. Silvana é bonito nome para ciclone. Os americanos ainda não se lembraram. (...)"

Viver com os outros
Isabel da Nóbrega
Portugália (1965)

Nota: Isabel na Nóbrega morreu ontem, aos 96 anos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Feira do Livro

Entre o lanche, adiantado, e o jantar, atrasado, uma saltada a Lisboa para que a ausência do ano passado não se repetisse este ano, apesar dos receios das multidões, que se mantêm bem vivos.

Muitos livros, muita gente, não muito calor, máscaras e gel desinfectante, um papel no bolso que, afinal, não serviu para nada. Nenhum dos adquiridos estava na lista, mas isso não belisca nem um bocadinho o prazer de, partindo do monumento ao 25 de Abril, de José Cutileiro, descer até ao Marquês e voltar a subir, sempre rodeado de livros e de gente com eles na mão ou no saco.

Para o ano, voltarei a ser parte, "se a tanto me ajudar o engenho e arte."

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Palavras bonitas

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

Nota: O meu filho, invejoso, entra hoje na "casa dos enta", "moradia" onde já está a irmã há algum tempo. Não se diz quanto, porque nunca se deve revelar a idade das senhoras. Esta entrada significa que, dos que me restam, já só os netos permanecem lá fora!