quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Orçamento

Passa, não passa, talvez sim, talvez não, pode haver crise ou não. Sim ou não, eis a questão.

Marcelo, avisa, Costa, adverte, Jerónimo, lembra, Catarina, ralha, Francisco, diz não e Rio, nem pensar. Há ainda mais uns quantos actores, mas limitados à esquerda baixa e a umas entradas fugazes na peça. São meros figurantes que ficam em rodapé no cartaz.

Já tínhamos saudades destas cavaqueiras amenas, que nos transmitem segurança e paz de espírito, e nos mobilizam para encarar o futuro com tranquilidade e esperança. Todos temos consciência que o nosso dia a dia depende do acerto das previsões orçamentadas, tal como se tem verificado nos anos passados, e desde sempre.

Se tivesse paciência e tempo, coisas que me vão faltando cada vez mais, talvez um dia destes me desse ao trabalho, ciclópico, de comparar os valores orçamentados e os efectivamente verificados. O mais provável era o resultado dar uma tese de licenciatura, que poderia vir a ser complementada com um doutoramento subordinado ao tema "Causas e consequências dos falhanços verificados".

Há dias em que o cérebro não funciona direito e só divaga. Será do calor?

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Cá vamos indo ...

O céu mantém-se limpo e a temperatura faz inveja a muitos dias de Verão cá do cantinho oestino, que nunca é pródigo em calor intenso e onde não se diz: está cá uma brasa!

A caminhada na manhã de hoje trouxe o suor à testa, evidenciando não a dureza do ritmo, antes a temperatura alta e ausência do vento habitual, que conhecemos tão bem e que adoramos. Apesar disso, as conversas fluíram e resolveram-se muitos assuntos, com as certezas do costume. 

A vida de quem já não está de férias vai voltando à correria normal e a casa deixou de ser, felizmente para uns e o contrário para outros, o local de trabalho que a pandemia implantou; os autarcas eleitos vão tomando posse e espera-se muito da sua prometida genica e empenhamento; a selecção de Portugal deu ontem cinco ao Luxemburgo, em jogo que nem deu para sentir os nervos costumeiros; os números da pandemia diminuem mas os mais pessimistas, entre os quais me incluo, ainda se mantêm preocupados; o vulcão das Canárias já não abre telejornais mas continua a semear desgraça na ilha; o orçamento do Estado foi apresentado, abre todos os noticiários e dá o mote para todos os cenários, apesar de a grande maioria não entender nada daqueles números enormes e complexos que, afinal, não passam de previsões. E se?

Paulatinamente, tudo regressa ao ramerrame e o Natal já está aí à porta. A empresa das iluminações já levanta tubos, estende arames, monta arcos na cidade, para lembrar o consumo e a tão necessária recuperação da economia.

Preocupante, apenas um pequeno facto: parece que os quadros de Rendeiro, dos quais a "Rendeira" é fiel depositária, podem afinal ser falsos e não valerem nada. É uma grande chatice para o homem, que fez a compra e foi enganado, para o falsário, que incorre num crime muito grave e para os credores, que contavam com aquela fortuna e, afinal, a pólvora deu mijarete. 

Com tantos problemas, como há-de a justiça ser célere.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Palavras bonitas

DESOBEDIÊNCIA

Por vezes vejo
Lilith
com sua saia de lã

e casaco de retrós

ou um vestido de noite
todo coberto de nós
que desata um por um

Por vezes vejo
Lilith
pé ante pé no porvir

desobedecendo
... a sorrir

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote(2018)

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Tarefas

- Os carros precisam de ser lavados ...

Antes que o calor aperte (parece Agosto), balde na mão, cheio de água misturada com o material indicado para fazer espuma, esponja e demais apetrechos necessários, tocou à limpeza.

- Mas porque se sujam os carros? E qual a necessidade de serem lavados? 

- Lá estás tu com desculpas e argumentações da treta. O branco está quase preto e o cinzento para lá caminha.

Ficam sempre na garagem, cada vez andam menos, já era tempo de se bastarem a si próprios e se lavarem sozinhos. É o que eu faço todos os dias e sou muito mais velho. Por mais alto que pense, eles não ouvem nem querem saber.

Aqueles mosquitos que são "atropelados" e ficam no capot e na chapa de matrícula são difíceis de tirar. E as jantes, principalmente as da frente, estão negras daquele pó que os calços de travão vão soltando e a elas se cola. 

Que trabalheira! Com tantos sítios para lavar carros espalhados pela cidade, estes tinham de escolher o meu quintal para o banho imprescindível.

No final da tarefa, o sol já apertava e ajudava a secar aquelas duas viaturas que, de imundas, passaram a duas "beldades" limpinhas. Já "ganhei" vinte euros, pelo menos!

domingo, 10 de outubro de 2021

Multibanco

Parece estar provado que os sonhos fazem parte das noites de cada um e que, na maior parte das vezes, as pessoas têm uma vaga ideia de terem sonhado, faltam pormenores à descrição lembrada, não há jeito nem lógica no que se recorda.

Fico contente por não fugir à regra e de sonhar e também não me recordar, com um mínimo de consistência, da composição elaborada durante a noite bem dormida.

Desta vez não foi assim: estava junto a uma ATM e nem tinha sido preciso colocar o cartão, quanto mais digitar o código e aguardar vendo o boneco; a máquina despejava-me um montão de notas, todas de 10 Euros, e não havia mãos a medir nem velocidade para acompanhar aquele ritmo incessante. Desisti. As notas eram tantas, tantas, que os bolsos não chegavam para as guardar e havia pessoas a aguardar que me despachasse.

Um lampejo de inteligência, difuso, lembrou-me: estou a correr riscos sem necessidade. São notas de 10, muita parra e pouca uva, ainda aparece um polícia e, ou me deixo prender, ou fujo para o Belize, para acompanhar o Rendeiro. Não quero ... e abandonei o local, deixando lá as notas, sem verificar se o "anão" da máquina as tinha recolhido.

Já bem acordado, disse para mim: sonho mais estúpido, como são todos, afinal. Ainda para mais, eu já nem uso cartão multibanco para levantar a massa. O telemóvel trata disso e é muito mais simples.

sábado, 9 de outubro de 2021

Outono

O Outono a chegar.

Conclusão tirada não porque o tempo esteja agreste, a ventania se não suporte ou as bátegas nos encharquem, mesmo de gabardina e umbrela.

Nada disso! A um sábado de manhã, com o sol meio envergonhado mas uma temperatura bem agradável, não havia ninguém a passear no areal da Foz, apesar da maré vazia, enorme, e com altura inferior a um metro, nada comum neste mar.

Os pescadores do costume, uns a dar banho à minhoca, outros "catando" polvos nas rochas, com um equilíbrio instável de fazer inveja a quem já tem tremeliques. A água, quase morna, também contrariando o que é hábito, a nortada ausente e pessoas a desfrutarem de toda esta beleza, népia.

Os "cãezinhos-rocha" espreitavam e devem ter ficado desiludidos por não terem público a apreciá-los, eles a quem este mar raramente dá a oportunidade de aparecerem tão fogosos aos olhos de quem por ali passa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Graça

Adorava contar estórias. E contava-as com humor, fazendo rir todos quantos o ouviam, mesmo quando a graça das ditas era pouca ou nenhuma. A sua eloquência, a postura teatral, o gesticular constante e adequado, tornavam a anedota mais boçal num discurso de prender atenções, como se dele dependesse o futuro do mundo.

Invejava-o, mesmo sabendo que a inveja é um pecado mortal. Aquilo que se podia contar em um/dois minutos, estendia-se, demorando, divagando, pormenorizando, acrescentando, misturando, de tal forma que, mesmo ouvida pela enésima vez, a estória surgia sempre nova.

Formou-se em Direito, deixou o Banco, nunca mais o vi, perdi-lhe o rasto, ao tempo ainda não tinham chegado os facilitadores telemóveis. Voltou à sua Braga natal e por lá deverá continuar a contar estórias, divagando na defesa ou na acusação, convencendo os juízes da sua razão e da dos seus constituintes.

Continuo a ouvir (e a contar) anedotas, adoçando a estória, dando voltas palavrosas e intermináveis, pintando cenários, acrescentando figuras ... mas falta sempre algo.

Há coisas que não se aprendem nem se estudam, nascem.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Caminhos

- Despistado

Quase nunca acerta no melhor caminho. Raramente o percurso mais rápido é descortinado e, muitas vezes, só a meio da viagem se apercebe de que, afinal, podia, e devia, ter escolhido outro.

Liga o "piloto automático" e confia nas suas capacidades de decisão improvisada e no conhecimento que detém há tanto, tanto tempo. Afinal, não há rua nenhuma da cidade que não conheça, e bem. Para quê estar a perder tempo com análises e planeamentos? De repente ...

- Mas não era por aqui ...

E lá desaparece mais um litro de gasolina, que está tão cara, diga-se de passagem, porque a volta, agora, será muito maior para chegar ao destino. 

- Parece impossível. É só dar à chave. Nem pensa ...

Há sempre vários caminhos para se atingir um objectivo. E vale a pena experimentar, ousar, tentar, inovar, perceber, procurando sempre o caminho crítico que há-de levar ao destino pretendido por cada um de nós e que varia sempre, até com o sol do dia ou o cinzento das nuvens.

O futuro está aí, à porta, e parece que os automóveis, um dia destes, já nem precisarão de chave quanto mais de ser conhecido o caminho. Um simples contacto biométrico, uma ordem sussurrada, e ei-lo a arrancar com rumo certo e determinado, sem falhas.

Talvez esteja para breve a sua chegada, a tempo, ainda, de corrigir todos os "nabos" que não cuidam do percurso antes de iniciarem a viagem e se deixam seduzir pelo improviso. Poupará tempo, evitará contratempos, não falhará, mas será sensaborão e não terá graça nenhuma.

É tão bom perceber que nos enganámos e que, afinal, o caminho não era bem por ali.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Esta "secção" costuma ser utilizada apenas para transcrever pequenos excertos de livros que se estão a ler, ou que foram terminados há pouco tempo, e ainda não tomaram o caminho para o seu lugar de descanso. Desta vez isso não acontece. Mas há uma razão, forte, para tal.

Ontem faleceu um, na minha modesta opinião, excelente escritor açoriano, relativamente pouco conhecido e cuja partida mereceu apenas umas referências de rodapé, indo, quem sabe, ao encontro da sua pouca propensão para a ribalta.

Na "estante" cá de casa há cinco livros de Cristóvão de Aguiar (08.09.1940-05.10.2021), lidos com bastante agrado em tempos idos. Para memória futura, ficam por aqui "meia dúzia" de linhas de MARILHA, livro editado em 2005, romanceando a vivência nos seus Açores. Podiam ser de Trasfega, Raiz comovida, Braço tatuado ou Miguel Torga - Um percurso partilhado, mas foram estas que saltaram na primeira abertura.

"(...) Auscultou-a com esmiuçado reparo. Palpou-lhe a barriga como se estivesse amassando um alguidar de pão. O doutor Virgínio de Medeiros. A cara atenta e franzida, fino de feições. E de repente a ruga funda, no início da testa, prolongando-lhe do lado esquerdo a cana do nariz, aprofundou-se ainda mais. Chamou o marido de parte, atrigado e portador de sinais visíveis de apoquentação. Mansamente foi-o informando que só para a operação. De corte urgente se tratava. Caso contrário, podia dizer adeus à mulher e mudar de estado. Só para os preparos da faquinha, eram mil patacas. Não contando com a aposentadoria no Hospital da Misericórdia da Ribeira Grande. Se ele dispusesse do dinheiro, muito que bem. Operava-se a mulher. Se o não tivesse, que fosse por ele ao sogro, ou que este ao menos se afiançasse pelo pagamento. Dentro de três semanas, o mais tardar um mês. Nele depositava toda a confiança. No sogro. Tratara-o quando caíra, desamparado, da armação do tecto de uma casa em construção. Ficaram amigos. Não sendo assim, que fosse com Deus bater a outra porta. Na dele não seria servido ...

Casados de fresco. Seis, sete meses. Castigo divino? Nunca se sabia. Mal a matar com os pais dela, sogros dele. Pedia-lhes a benção, segundo a lei vigente em Tronqueira e seu termo debruado de outras ilhas. E a mulher também. Às vezes nem resposta ouviam, de tal forma entredentes pronunciada. Deus te abençoe. (...)"

Marilha
Cristóvão de Aguiar
Dom Quixote (2005)

terça-feira, 5 de outubro de 2021

República

É fundamental, imperioso, obrigatório que, todos, façamos de Portugal uma República viva e que ela viva sem reisinhos, príncipes ou morgados, rainhas e princesas, fidalgos ou cortesãs.

Que sejamos corteses sem viver da e na corte, que as ruas e as avenidas possam ser sulcadas por todos, que o nome e a proveniência sejam os últimos identificadores das capacidades de cada um, que o mérito a todos distinga, sem cuidar da averiguação prévia da cor do sangue. 

Que respeitemos o outro e as suas opções, que não julguemos cada um em função daquilo que pensamos, que tenhamos sempre um país livre, aberto e plural, onde todos caibam e não haja atropelos, mesmo que alguns queiram condicionar o que a grande maioria pretende preservar. 

VIVA A REPÚBLICA!