Em dia de S. MartinhoVai à adega e prova o vinho!
Mas é melhor teres cuidado,
O piso pode estar molhado!
Será que o piso molha o cuidadoOu o "D" foi mal colocado?
Aviso colocado no parque de estacionamento da Praça 5 de Outubro
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Em dia de S. MartinhoVai à adega e prova o vinho!
Mas é melhor teres cuidado,
O piso pode estar molhado!
Será que o piso molha o cuidadoOu o "D" foi mal colocado?
Aviso colocado no parque de estacionamento da Praça 5 de Outubro
Vai com frequência ao supermercado, sempre munido da lista das necessidades e preocupado com os preços, aos quais presta a melhor atenção que consegue. A vida está cara e não há lugar para luxos.
Não sendo uma tarefa que adore, o Carlinhos procura desempenhá-la com a maior eficiência, atento às novidades, às promoções, à qualidade do que compra. Respeita as regras, lê os rótulos, sempre atento ao que ouve e ao que vê, tentando ficar a par do que aparece de novo e errar o menos possível.
Depois dos iogurtes, do pão e da uva, da manteiga e dos pistachos (guloseima a que se arroga ter direito), passou pela secção de charcutaria, para comprar o queijo fresco, de que gosta bastante e é muito bom naquele supermercado. Tirou a senha de atendimento. Aguardava a sua vez e os olhos foram passando pelos produtos expostos, da mortadela ao chourição, dos torresmos às salsichas. Uma peça de fiambre, enorme e intacta, despertou-lhe a atenção, não só pela dimensão como pela etiqueta, também ela enorme, que a peça exibia:
Fiambre da perna extra
Ficou intrigado. Parecia fiambre normal, feito de forma normal, proveniente de porco normal. Mas, por vezes, as aparências iludem. Perna extra? Querem ver que, com estas modernices todas, alguém da Web Summit tem uma empresa unicórnio que consegue produzir porcos com cinco pernas e que a extra dá uma melhor qualidade ao fiambre ou tem maior e melhor produção? Esteve à beira de perguntar, mas encolheu-se na sua timidez habitual.
Recebeu o queijo, ainda comprou pasta de dentes e cominhos e lá foi à sua vida, depois de pagar a conta, beneficiando dos descontos dados pelo cartão. No caminho encontrou um amigo e passou-lhe as suas dúvidas.
- És parvo ou quê? Isso é a qualidade do fiambre, que é extra, não é a perna ...
Sempre a aprender, concluiu para si e rumou a casa.
Não me canso de dizer, por aqui e em todo o lado, que adoro a forma como António Lobo Antunes escreve, que o considero o melhor escritor português vivo e um dos maiores de sempre.
Faltando livro novo, julgo, a editora D. Quixote publicou um novo livro onde reúne 164 crónicas já publicadas nos cinco volumes anteriores às mesmas dedicados e 9 inéditas. O livro tem prefácio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Muito embora a minha preferência vá para os romances, as crónicas são, também, excelentes. Dispõem bem, são escritas com um gosto e uma leveza "do outro mundo", lêem-se de uma penada e versam sempre temas que mexem connosco. Para além disto tudo, são escritas de forma sublime.
Recordações da casa amarela
(não desesperem que os barulhos vêm a seguir)
(uma desgraça nunca vem só)
(assim sucessivamente era uma das suas expressões favoritas)
como quem crava pregos na parede à martelada.
(o Senhor André era a criatura com mais pêlo no nariz que imaginar se pode, e eu supunha que em lugar de miolos possuía no interior do crânio um piaçaba que não parava de crescer)
e após a sua colheita de cerdas que ele lançava com desprezo para o chão esfregando o indicador no polegar, ordenava ao Nicolau
(o Nicolau era ruivo: existe sempre um ruivo em cada turma)
O objectivo era marcar a escritura de habilitação de herdeiros, que já andava há mais de um ano para ser concretizada. As orientações sobre a pandemia sugeriam/determinavam que todos os assuntos não urgentes fossem adiados, por razões sanitárias e porque uma parte dos funcionários estava em teletrabalho e muitos outros em tele.
A melhoria das condições e o regresso à quase normalidade fez tomar a decisão de ir tratar do assunto. "Bicha" à porta, indicações dadas pelo voluntarismo de quem chegou primeiro e aguarda.
- Se é registo predial, entra a seguir a mim ...
Quem assim falou era da "arte". Tinha várias pastas na mão, carregadas de documentos, na certa muito preciosos. Ia-se entretendo a jogar no telemóvel, até que saiu um homem e lhe deu indicação para entrar. O palpite estava certo. Era da "arte". Demorou por lá mais de uma hora. Os assuntos eram muitos e deviam ser complicados. Mais de duas horas depois da chegada, surgiu a indicação para penetrar. Finalmente ...
Na pasta improvisada ia a certidão do registo predial, a caderneta predial, a certidão de óbito e o comprovativo do imposto de selo, tudo obtido nos serviços respectivos, via Internet.
- O documento do imposto de selo não está assinado.
- Obtive-o na página das Finanças, na minha área pessoal.
- Pois ... mas tem de ser assinado. Vá às Finanças, para eles assinarem.
É perto e bom caminho.
- Venho da Conservatória. Eles dizem que este documento tem de ser assinado aqui.
- Pois ... mas nós não assinamos documentos da Net. Tem de ser uma certidão ...
A certidão foi feita no momento e o seu custo liquidado, como é óbvio. Capeava o documento igual ao que tinha sido apresentado, mas tinha assinatura, garantida pelo selo branco, que não precisa de tinta e é a chancela da autenticidade.
A escritura foi marcada. Agora já não falta o papel assinado ...
Eram tio e sobrinho, donos de considerável fortuna em terras situadas em concelhos diferentes, e viviam a cerca de trinta quilómetros um do outro. Para a época era uma distância significativa, embora não fosse essa a causa de não se verem e falarem há vários anos. Uma zanga enorme, sobre negócios, tinha dado origem a esse afastamento e ambos sabiam que seria muito difícil eliminá-lo. A teimosia era uma qualidade que ambos cultivavam com denodo.
Os anos passaram e o tio, já viúvo e velho, sem filhos e apenas com aquele sobrinho como família, sentiu a saúde a ir embora e o fim a aproximar-se. Resolveu quebrar o orgulho e, à falta de telemóvel ou sequer telefone, chamou um servo e disse-lhe:
- Vais à quinta do meu sobrinho e dizes-lhe que eu quero e preciso de falar com ele. Com urgência.
O homem aparelhou o burro e fez-se à estrada. O caminho era longo, o recado importante e o tempo urgia. Chegou à quinta por volta da hora do almoço, do senhor, claro, que ele tinha levado um bom naco de pão e um bocado de chouriço, num saquinho de pano onde "morava" a garrafinha que o patrão tinha enchido do seu tonel particular. A tarefa era delicada e mereceu atenção especial de quem ordenava.
Depois de dizer ao criado de fora, que o recebeu, quem era e ao que vinha, aguardou um bom bocado no largo fronteiro à porta de entrada, até que viu surgir o sobrinho. Vinha com cara de poucos amigos e, sem demoras, despejou a frase, sem sequer responder com uma pequena saudação à retirada do boné e ao cumprimento reverencial:
- Diz lá ao senhor meu tio que é tão longe daqui lá como de lá aqui.
No dia seguinte, o tio deslocou-se ao tabelião da vila e fez testamento a favor do seu feitor.
Marcelo Rebelo de Sousa confirmou o que já tinha antecipado e marcou as eleições para 30 de Janeiro de 2022. Nesta decisão está implícita a dissolução da Assembleia da República, faltando apenas a divulgação da data em que isso acontecerá. Os deputados estão, neste momento, a prazo incerto, sem saberem quando deixarão de receber o ordenado. Deve ser uma angústia profunda, que poderá levar alguns à depressão e a terem dificuldades no final do mês para liquidarem os compromissos.
"É preciso que mude alguma coisa nem que seja para que tudo fique na mesma"
PSD e CDS vão aproveitar estes tempos para tentarem arrumar a casa, muito embora seja uma tarefa ciclópica e para a qual não parece existir mão-de-obra suficiente em número e muito menos em qualidade. PCP e BE ainda estão a digerir a "refeição" e a desejar ardentemente que o tempo "lave" o acontecido e limpe a memória. O PS anseia que o desgaste natural de seis anos de poder, com "cabritadas" várias e "habilidades" desnecessárias, não aleije muito e permita continuar as tarefas normais e as que a "bazuca" proporcionará. Os outros contam pouco, se não chegarem surpresas de última hora.
Não há qualquer drama por haver eleições. Dramático seria se voltássemos aos tempos em que não existiam ou eram meros simulacros, como era norma no antigamente. Espera-se que as "guerras" aqueçam e "piquem" para a deslocação às urnas todos aqueles que têm votado no partido Abstenção. Seria bom para todos, ganhadores e derrotados.
Depois ... ver-se-ão os resultados!
Um passeio junto ao Tejo, com visita à renovada estação fluvial do Terreiro do Paço, uma almoçarada num excelente restaurante junto a Santa Apolónia, um convívio com amigos e o último livro de Germano Almeida autografado pelo próprio, no final do repasto. Eis o resumo de um dia bem passado na capital, marcada pelo imenso trânsito e pelas longas filas para os autocarros. O Metro esteve de greve e assim permanecerá até ao final do dia, talvez para que todos os trabalhadores possam ouvir a comunicação ao país do PR, Marcelo Rebelo de Sousa.
Germano de Almeida, simpático como sempre, informou, sem tabus, que vai regressar dentro de dias a Cabo Verde e só voltará a Portugal lá para a Primavera de 2022. Talvez nessa altura traga notícias sobre um novo livro que, por enquanto, ainda nem em pensamento existe.
Havia a preocupação de separar todas as notas que se apresentassem deterioradas, escritas, borratadas, e de as retirar da circulação. Na maior parte das vezes os clientes nem se apercebiam desse trabalho, a não ser que o estado das mesmas fosse de tal maneira catastrófico que surgissem dúvidas sobre a sua valorização na totalidade pelo Banco de Portugal. Quando tal acontecia, a nota era contabilizada numa conta de transição e, posteriormente, o cliente seria ressarcido pelo montante atribuído pelo Banco de Portugal, normalmente valores entre os 50 e os 80 por cento, consoante a degradação.
Apareciam as situações mais díspares: rasgadas nas pontas, coladas com fita-cola, descoloridas pela acção das máquinas de lavar, cosidas com linha, com nódoas de óleo ou de azeite, com uma variedade imensa de frases, mensagens de amor, votos religiosos, preces e desejos.
Recordo, ainda hoje, uma quadra que deu brado, quando surgiu ao ser efectuada a recontagem de um maço de notas de 20 escudos. Tinha passado despercebida no recebimento do depósito, por a nota estar em excelente estado. A quadra estava escrita no branco da marca de água, com letra pequenina e bem desenhada. O poeta escreveu o seu desejo e pretendia que a nota servisse para o proclamar aos sete ventos:
" Vai-te, nota ingrata,Por esse mundo sem fim ...E diz às notas de milQue não se esqueçam de mim!
A nota não cumpriu a missão, mas o verso ficou bem guardado na memória.
Os melros são, desde sempre, o meu pássaro de eleição, como já por aqui referi várias vezes.
O preto das suas penas, o amarelo do bico, a forma como voam, a subtileza com que se deslocam no solo, o seu cantar, tudo me delicia. E esse prazer compensa o ódio que tenho aos que, indevidamente também chamados de melros, são oportunistas, vigaristas, crápulas e todos os adjectivos que cada um saiba para definir gente sem escrúpulos. Mas vamos ao que interessa ...
A oliveira está carregadinha de azeitonas, como nunca tinha acontecido. O dono não as apanha e o vento encarrega-se de as ir atirando para o chão, à medida que amadurecem. Os melros deliciam-se, primeiro a medo, depois e à medida que confirmam que o sossego permanece, a tranquilidade instala-se e o repasto acentua-se. Se se aproxima alguém, a pé ou de carro, levantam voo com o silvo característico do aviso para algum mais distraído.
Passado algum tempo, eles aí estão de volta ao "lagar", para continuar a festa. Lembro-me dos "ataques" que sofriam as bagas dos loureiros, mas às azeitonas nunca tinha visto e a satisfação é a mesma de sempre. Só me falta perceber se a azeitona é comida inteira ou se lhe retiram o caroço.
Até os melros que voam estão diferentes, ao contrário dos outros, que continuam iguais ou ainda mais refinados.