sábado, 25 de dezembro de 2021

Animação de Natal

O Natal de 2021 está no fim. 

Saíram as visitas, fechou-se o portão, arrumou-se a sala, baixaram-se os estores, abriu-se a porta da rotina diária, que voltará amanhã.

O Natal irá regressar no próximo ano e espera-se que tudo se tenha composto até Dezembro voltar ao nosso calendário.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Bom Natal!

Com a devida vénia e sem autorização do autor, transcrevo a crónica de Miguel Esteves Cardoso, publicada hoje no Público.

"Ao fazer as compras para o Natal, parei diante da garrafa do meu vinagre preferido e olhei para os outros vinagres, para aqueles que não estava a levar e, sobretudo, para aqueles que de bom grado levaria, caso não houvesse o vinagre que eu queria.

Havia dois ou três. Depois olhei para os azeites. E para os vinhos. E para os queijos. E para os pães. Estão muito melhores do que eram há 50 anos. E não são só um ou dois que é preciso perseguir - ou conhecer alguém ou pagar os olhos da cara.

Uma das desvantagens de se ser conservador é que se atrai uma catrefa de reaccionários, que querem companhia para cantar o fado do "antigamente é que era bom".

Mas o que é que era bom antigamente? A saúde? A educação? A liberdade? O prestígio de Portugal no mundo? A fome?

Não é só a escolha de vinhos. Mesmo os vinhos piores, se fossem comparados com os piores de antigamente, seriam bons. Os piores vinhos de agora podem não ter qualidades, mas, em contrapartida, quase não têm defeitos.

Nos vinhos e nos azeites, tal como nas casas de banho em geral, há uma limpeza e uma higiene que antes não havia. E essa higiene não é só uma questão de produtos químicos e de dinheiro: está cada vez mais nas atitudes de cada um.

É Natal. No meio dos discursos interesseiros da catástrofe e do mal-a-pior lembre-se de todas as coisas que melhoraram.

Até para os pobres. Até para os ricos.

É verdade que, sem queixas, ameaças e catastrofismos, nada melhora, nada teria melhorado. Mas bem que podíamos fazer um intervalo, quando deitamos o azeite sobre o bacalhau, puxamos de um bocado de pão e damos um golo de vinho.

Ainda falta muito? Claro que falta. Mas também não convém termos pressa para termos tudo.

O que interessa - e encoraja - é que já faltou mais.

Bom Natal!"

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Presépio

Havia sido decidido pelos mais velhos que o presépio seria o maior de sempre.

- Ali, junto ao altar, aproveitando a reentrância da parede.

O Prior concordou e incentivou os jovens adolescentes a fazerem o trabalho com toda a dedicação.

- Vai ser o maior e o mais bonito, tenho a certeza. Vocês são impecáveis.

Atribuíram-se as tarefas, decidiu-se a quem cabia ir apanhar o musgo, quem fazia a caminha do Menino Jesus, quem arranjava o papel de lustro para recortar a estrela que iluminaria o caminho dos Reis Magos. O acidentado do "terreno" ficaria a cargo do carpinteiro, não o de Belém, claro, mas um outro que tinha muito jeito para montagens e já se havia disponibilizado para a tarefa.

Os elementos a utilizar na decoração são os que fazem parte do espólio da igreja, talvez com o reforço de mais uns quantos prometidos por alguns fiéis. O espelho que garantirá a ilusão do lago também já está assegurado e é proporcional à dimensão de toda a estrutura. Os patinhos farão sucesso, reflectidos na "água".

Tudo planeado. Mãos à obra. Um projecto "profissional" executado por "artistas" dotados. Sucesso garantido. Mas, não há bela sem senão ...

Ao ser colocada na gruta, a lâmpada ficava a ver-se, por ser grande, quando o que se pretendia era que ela apenas iluminasse e não fosse vista.

- Tenho lá em casa uma pequena, com o mesmo casquilho. Vou buscar.

A nova lâmpada não deu luz.

- Não está fundida. Lá em casa dava. Deve ser do casquilho ...

 A chave busca pólos estava ali à mão. Foi só pegar-lhe e tentar levantar a patilha do fundo do casquilho. Um estrondo, fumo e todas as luzes apagadas.

- Queimaram-se os fusíveis. Um curto-circuito. Isto não é trabalho que se faça com a luz ligada. São novos ...

O mal estava feito. Alguém foi chamar o electricista para substituir os fusíveis e o casquilho, e tudo se resolveu. O presépio foi o maior e o mais bonito, como era previsível, dada a qualidade dos "artistas".

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Alternativas

A altura não é favorável a grandes dissertações, nem a pequenas, quanto mais a insignificantes. Não adianta escrevinhar sobre isto, aquilo ou aqueloutro, sobre senhorios ou pinhos, fugas ou prisões, coronas, vacinas, testes ou confinamentos. 

É muito melhor ouvir música, da boa, de preferência.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Esperança

A época natalícia convida à paz, à solidariedade, ao entendimento, à diminuição das diferenças, à procura da sociedade mais justa e, se fosse possível, perfeita. Afinam sempre por este diapasão os votos que todos formulamos, com maior ou menor sinceridade. 

Infelizmente, os votos acabam por nunca se concretizar, mas nada impede, antes obriga, que mantenhamos viva a esperança de que um dia irá surgir a possibilidade de todos poderem fazer festas de Natal à sua escolha e em paz.


Carlos do Carmo faria hoje 82 anos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

BOAS FESTAS

Ainda não vai ser neste Natal que regressaremos à normalidade. Permanece viva a esperança de poder acontecer para o ano e isso, por si só, dar-nos-á a força para suportar a desdita que nos martiriza há quase dois anos.

Boas Festas a todos!

domingo, 19 de dezembro de 2021

sábado, 18 de dezembro de 2021

Pontaria

Para não fugir à normalidade, o cartoon de António no Expresso de hoje é mais eficaz e elucidativo do que um qualquer artigo ou comentário televisivo.

É muito feio ser invejoso, mas eu adoraria ter apenas um pequeníssimo jeito para desenhar e, nabo me confesso, nem de um risco direito sou capaz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Boné

Nos últimos dias andava pensativo, cabisbaixo, sem a alegria e a boa disposição do costume, sem paciência para ninguém e, muitas vezes, respondão. Alguma coisa o preocupava. E muito.

Era sempre o primeiro a chegar, ainda o sol não se havia levantado, e o último a sair, já com a lua a preparar-se para iluminar o caminho de regresso a casa. A sua preocupação era manter o jardim bonito, verdejante, florido, um brinquinho. Detestava ser chamado à atenção quando havia algo que corria menos bem, quando se excedia na poda de um arbusto ou um canteiro demorava mais tempo a florir.

Quem viria de noite para o jardim? Não em todas, é verdade, mas de dois em dois, de três em três dias apareciam pegadas no saibro, duas maiores e outras tantas um pouco mais pequenas, de dois caminhos diferentes mas com um destino comum: a casa da ferramenta.

- Aqui há gato, dizia. E gata também, pensava. 

Imaginava a enxerga da sesta a servir de cama e isso não era coisa que lhe agradasse. A vontade de descobrir convenceu-o. O cordão era resistente e escuro, e havia duas árvores em frente uma da outra, logo após a curva que iniciava a descida. Ao final da tarde, bem esticado, uma ponta atada a cada árvore, mais ou menos a dez centímetros do solo, o cordão ficou preparado para a armadilha nocturna. Assim fosse dia de "o gato vir às filhós", o que já não acontecia há quase uma semana.

Logo pela manhã verificou que tudo tinha corrido como planeado. Havia pegadas nos dois caminhos e um espaço enorme com o saibro revolvido e vestígios de mãos a arrojar por ele. O cordão partira-se mas cumprira a função, admitiu. A queda devia ter sido dolorosa para o viajante nocturno, mas havia passos marcados até à casa. Apesar da queda, a festa não devia ter ficado estragada.

- Bom dia. Este boné é seu?

- É meu, é. Perdi-o ontem. Onde o encontraste?

- Estava ali em baixo, no meio das heras.

A cara mostrava um pequeno raspão na testa e o homem tentava evitar que lhe vissem as mãos. Nada de grave, pensou.

A conversa ficou por ali. Ambos sabiam que há evidências que nem sequer vale a pena insinuar, quanto mais explicitar e que há lugares que não se devem visitar sem autorização.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Dúvida metódica

A rua tem o piso novo, lisinho e tão agradável que até os carros se deliciam, embora não comentem. Os passeios foram reformulados, alargados e levaram calçada nova, bem calafetada e óptima para o peão se deslocar com conforto e segurança. Os estacionamentos estão bem definidos e acabados também em calçada à portuguesa. 

Perante este cenário quase idílico se comparado com o anterior, o que fará este poste plantado no meio do espaço, sem se vislumbrar qualquer outra utilidade que não seja estorvar quem por ali estaciona.