quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Careca

Mais uma ida ao barbeiro, ou melhor, à Barber Shop, para o corte regular que os cabelos necessitam. Agora, com a marcação antecipada, até o tempo de espera desapareceu. A cadeira, desinfectada, como ele faz questão de referir, aguarda-me.

- É o costume, claro.

A pergunta já tem muitos anos, a resposta é sempre sim, o trabalho é cada vez mais reduzido. A careca, que o espelho estrategicamente suportado pela mão do barbeiro projecta no frontal, é cada vez maior. O que falta naquela área já devia dar lugar a desconto ...

- Hoje não falamos do nosso Benfica. Já estamos quase como os de Alvalade: para o ano é que é!

As máscaras de um e outro não permitem que a conversa flua com naturalidade. Torna-se fastidiosa, cansativa, as palavras têm dificuldade em sair, parece até que as ideias se atropelam e optam por se esconderem nos interstícios do cérebro, com o medo a reduzir-lhes o discernimento.

- Tantos infectados ... eu já me convenci que, mais dia menos dia, me vai calhar. A lidar com tanta gente ...

- Pois ...

- Ainda ontem cortei o cabelo a um cliente, que tem 74 anos, e já apanhou duas vezes. Desta segunda, segundo ele, foi parecido com uma gripe, mas da primeira viu-se aflito. E já tinha as vacinas todas.

Serviço terminado. Regresso a casa, seguindo o conselho/solução da "bióloga" do vídeo que o meu amigo ADS me enviou.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Fisgada

A vida tinha-lhe sido madrasta, a comissão na guerra colonial agravara a situação, a solidão fizera o resto.  

"Batia" mal e ninguém lhe dedicava um mínimo de atenção.

- Está maluco. Não lhe ligues.

A doença foi-se agravando, começaram a surgir actos de violência, destruições sem qualquer razão, comportamentos não tolerados pela sociedade. Foi internado. Passou meses no hospital psiquiátrico e fez progressos notórios. Delicado e dedicado, fazia o que lhe ordenavam, sem resmunguices nem trombas.

Toda a gente elogiava o seu comportamento e, sempre que lhe era dirigida palavra, os seus olhos brilhavam de gratidão. A rotina do hospital estava assumida, o seu horizonte era curto e a ambição, pouca, morria por ali. Sentia-se bem. Os passeios pelo jardim deliciavam-no, a satisfação na execução das tarefas era visível, as saudades da vida anterior não existiam. Talvez nem se lembrasse dela, se a tivera.

Os relatórios médicos registavam os progressos e, como era previsível, um dia foi chamado ao director. Podia dar lugar a outro, que as vagas eram poucas e as necessidades, muitas.

- Estamos muito satisfeitos consigo e queremos dar-lhe alta.

- Ó senhor doutor, eu estou tão bem aqui ...

- Só queremos saber o que vai fazer quando sair.

Pensou, meditou durante uns minutos que pareceram, ao médico, uma eternidade.

- Vou arranjar uma fisgazinha e vou aos pássaros.

O médico não apreciou a resposta e mandou-o regressar à enfermaria e às rotinas. Satisfez-lhe o desejo encoberto. Passado um mês, nova tentativa.

- Já pensou melhor? O que pensa fazer se sair daqui?

O "se" da pergunta já revelava incerteza, insegurança e dúvida sobre a resposta que iria ser obtida, e também sobre o estado mental do doente.

- Vou arranjar uma fisga e vou aos pássaros.

Antes que o caldo entornasse, o médico, ríspido, ordenou-lhe a retirada. Passou mais de um ano. A rotina manteve-se. O comportamento irrepreensível. As conversas com nexo. Tudo normal, como se os neurónios estivessem na cabeça de um motor que o mecânico alisou e pôs como nova.

- Já pensou bem naquilo que vai fazer quando daqui sair?

- Já sim, senhor doutor. Vou arranjar uma mulher ...

- Boa! E para quê?

- Para namorar e depois casar com ela.

- Muito bem! E o que faz na noite do casamento?

Seguiu-se a descrição, exaustiva, do caminho até ao quarto, da cerimoniosa cena do despir de toda a fatiota, sublimada pela retirada das cuecas. O médico, já com alguma excitação, não resistiu e interrompeu:

- E depois?

- Ainda não pensei muito bem mas, se calhar, tiro o elástico das cuecas, faço uma fisgazinha e vou aos pássaros.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Organização e método

Terminei, há pouco, uma conversa telefónica com uma senhora muito simpática (podia ser um senhor mas, neste caso, pela voz, era mesmo uma senhora) que não me resolveu o problema mas evidenciou uma organização incrível e perfeita.

- Ligou para XXX. Se pretende informações sobre a sua conta, marque 1; se pretende informações sobre facturação, marque 2; se pretende apoio técnico, marque 3; se pretende ser atendido pelo operador, marque 9.

Opção escolhida, música no ouvido, roufenha sem ser desagradável.

- A sua chamada encontra-se em lista de espera. Por favor, aguarde.

Com uma interlocutora tão educada e gentil, ninguém tem coragem para desligar. Aguardemos, então.

- Encontra-se à espera há cerca de dois minutos. Se pretender, podemos ligar-lhe de volta. Para que isso aconteça, marque 8.

Acedo à sugestão. Marcado o 8, de novo a voz simpática.

- Indique o número de telefone para o qual lhe devemos ligar.

Para quem sabe de cor e ainda tem alguma capacidade de dedilhar, digitar nove números é tarefa de somenos.

 - Indique o período em que o devemos contactar. Se pretende logo que possível, marque 1; se prefere que o contacto se efectue amanhã, marque 2.

Marquei 1, satisfeitíssimo com o atendimento simpático, personalizado, educado e eficiente. Todas as hipóteses de resolução do problema foram contempladas e mencionadas.

Estou a aguardar o contacto, que será efectuado logo que possível, tenho a certeza. Quando? Não faço a menor ideia, mas não deve faltar muito.

Pelo sim, pelo não, sentei-me e aguardo serenamente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Balanço 2021

Noutros tempos esta era a altura para olhar custos e proveitos, activo e passivo, cumprimento de objectivos, início da preparação para o parto das reuniões que analisariam com rigor os números, os quais, mesmo atingidos, seriam sempre insuficientes e o "filho" nado poderia ter sido muito melhor.

"Este ano temos de crescer mais, já sabem! Aproveitem o balanço. Vai ser fácil! Na próxima semana terão os números definitivos."

Era a vida, por vezes a esgotar a paciência e a trazer à ponta da língua uma vontade louca de os mandar a todos àquela parte.

Agora, o balanço é uma brincadeira sobre as leituras do ano, em formato livro. As outras, dos jornais e revistas, não têm por aqui cabimento. Neste balanço, não há análise aos números, não foram fixados objectivos, nem há reunião de apreciação. Há alguns custos, que já se diluíram e provam a sensatez do ditado: "dinheiro gasto não faz falta a ninguém". Na antítese, os proveitos são de tal forma significativos que nem se conseguem contabilizar.



domingo, 2 de janeiro de 2022

Progresso

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"
Lavoisier (1743-1794)

O alho francês ocupava uma extensão bem grande, talvez um hectare, se não mais. Foi plantado à máquina, depois de o terreno ter sido preparado, estrumado e canalizado, talvez há uns três, quatro meses, não consigo precisar e não vou perguntar ao dono. É perfeitamente irrelevante para o meu estado de espírito, não aumenta a minha (pouca) sapiência, nem contribui para que a minha personalidade seja mais vincada. Apesar disso, vi-o crescer, sempre alinhado nas faixas que a plantação lhe determinou, fazendo os tubos da rega serem "engolidos" pela sua desenvoltura.

No Natal parecia já estar em condições de ser colhido e cumprir a função para que estava destinado. Não aconteceu. Na semana seguinte, um tractor, uma camioneta, duas pessoas, várias caixas e, num ápice, colheita efectuada.

Se as coisas funcionam como se imagina, deve ter-se seguido a ida para o armazém, a lavagem para retirar a terra, a embalagem e o caminho para o supermercado. A vista do passeante não alcança estes pormenores mas conclui que, num instante, quatro braços e duas máquinas fizeram o trabalho que, em tempos idos, exigiria muitas mãos e muitos dias.

Falso! Nesse tempo, o alho francês não fazia parte dos produtos agrícolas nacionais.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Ano Novo

O mar enrola na areia,
ninguém sabe o que ele diz.
Bate na areia, desmaia,
porque se sente feliz!
 
Não há alteração. O novo ano, afinal, não trouxe nada de novo. 
Tudo permanece igual e bonito, como  sempre. Até o tempo fez questão de transmitir, na sua linguagem clara de voz omnipotente:

- Contem comigo. Vou ser melhor, podem ter a certeza. Ofereço azul e temperatura amena ... nos dias em que não carregar o céu de cinzento, abrir as portas ao vento e der ordens para que lágrimas fortes ou meiguinhas caiam nesta terra abençoada.

O Baleal mantém-se lá ao longe, talvez à distância de uma vintena de quilómetros junto à costa. As Berlengas estão no sítio do ocaso, onde gostam de morar para usufruírem da beleza do sol a esconder-se, enrolando-se na noite.

E o mar? Bem, o mar tem a espuma do costume e a cor de sempre, que os meus olhos nunca conseguem determinar se é verde azulado ou azul esverdeado. A dúvida é resultado do mau funcionamento dos meus olhos, não do oceano que é atlântico e sublime.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Adeus

Como todos os meus antecessores, vou embora hoje e, estou convicto, ninguém terá saudades minhas. Aqueles poucos segundos que antecederão o meu eclipse servirão para toda a gente fazer votos de que o meu substituto - 2022 - seja bem melhor do que eu e traga só coisas boas (como se isso fosse possível).

Já cá não estarei para ver, mas também espero que a história venha a registar sensíveis melhorias em 2022, quando o comparar comigo. Eu próprio, no ano passado, trazia a missão e havia registado os inúmeros pedidos para fazer esquecer 2020. Não consegui e disso me penitencio, ainda que a culpa não me possa ser atribuída. Se algum poder me restar, o que duvido, vou mobilizar toda a minha competência, e experiência, para eliminar o malfadado "bicho", tentando contribuir para que um normal, ainda que novo, se reinstale.

Também procurarei, noutras áreas, exercer a minha influência discreta, tentando que o Rendeiro seja presente à justiça, que o Salgado melhore do Alzheimer e seja julgado, que as mulheres do Afeganistão deixem de ser perseguidas, que a Rússia não invada a Ucrânia, que o Mediterrâneo deixe de ser cemitério e volte à sua condição de mar, que os húngaros, os turcos, os bielorussos e os brasileiros se livrem daquela gentalha que neles manda, e que aconteçam muitas outras coisas que tornem o mundo mais justo.

Espero ainda conseguir ver o resultado das eleições provocadas no meu tempo e que irão ter lugar já sobre a égide do meu sucessor e não ouvir lamentações pelo sucedido, principalmente da boca de quem nelas apostou. Não tenho a menor ideia do que vai acontecer no Benfica, agora que deixou de haver Jesus na sua época e no resto do ano, mas o futebol todos os dias surpreende.

Estou louco!? No final do dia de hoje acaba-se tudo. À meia-noite já cantará outro galo e eu vou ficar na prateleira dourada dos anos passados, à espera que os historiadores me contem, descrevendo bem o que foi a minha vida em 365 dias de forte agitação e desventura. Tenho consciência que passo ao meu sucessor um mundo muito complicado, cheio de escolhos e contradições, com as pessoas, egoístas, a nem olharem para o chão que pisam.

O vosso impotente mas dedicado
2021

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Pensamentos

Passarinhos ...

da charneca, da casa, da rua, do país, do mundo, onde cada vez é mais difícil viver sem pensar: virão melhores dias? Virão pois!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Cautelas

Os números sobem vertiginosamente e, apesar de os internamentos serem bastante inferiores aos do ano passado pela mesma altura, os alertas dos especialistas são inúmeros e o colapso do SNS, ao que se ouve, uma hipótese bastante provável.

As cautelas voltaram, as desconfianças também, que o medo é que guarda a vinha. 

Se o bom senso imperar, antevê-se um final de ano sossegado, sem grandes jantaradas nem festas bem animadas, com as passas a servirem para pedir uma dúzia de vezes que isto tudo termine em breve, se possível logo no início de 2022.

Os "especialistas" cá de casa já reuniram em plenário e decidiram que vão permanecer resguardados nesta rua sossegada, com pouco trânsito, sem aglomerações e com vizinhos tranquilos. 

Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém!

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Informação

Estou deliciado!

Vi, em directo, a chegada de Jorge Jesus a casa, após a sua saída de treinador de futebol do Benfica. E com pormenores:

1. A câmara filmou o carro e a casa, colocando em destaque uma porta existente no final da rampa de acesso à garagem, pormenor decisivo para que a notícia seja entendida;

2. O repórter referiu que JJ deveria ter estado em contacto com alguém da sua residência, uma vez que os portões se abriram antes mesmo de o carro estar a eles encostado.

3. Não foi possível confirmar se o contacto teria sido efectuado através do telefone "mãos livres", se o carro está dotado de algum "anão" que abre o portão à distância ou se, tão simples, o homem tem um comando para abrir. 

4.  Para grande tristeza de todos, Jorge Jesus não prestou qualquer declaração e era muito importante que o tivesse feito. Esclareceria a abertura do portão e também a utilidade daquela porta, existente lá no fundo da rampa de acesso à garagem. Também seria fundamental saber a razão pela qual a porta da garagem está escondida e não pode ser avistada pelo ângulo da câmara.

Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. Jesus já não é treinador do Benfica e o mundo vai mudar sem que ninguém dê por isso.

As equipas de investigação irão agora tentar descobrir o mais importante do imbróglio, porque é fundamental para a história. Quem terá tomado a iniciativa da separação: Jorge Jesus ou o SLB?

Não perca os próximos episódios ...