sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Remédio

Para desanuviar uma sexta-feira agreste e a adivinhar chuva, ficamos com uma companhia de nível superior interpretando uma música soberba.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Debates e conclusões

Pelo conteúdo e pela forma como hoje se têm processado as notícias nos canais de televisão que a elas se dedicam, parece que, logo à noite, se irá disputar uma grande final, que determinará quem vai levantar a taça, para gáudio dos espectadores delirantes que estarão sentados na bancada dos seus sofás. Ao vivo, muito provavelmente, apenas estarão as claques dos clubes envolvidos e os "técnicos" da operação.

Os treinadores de bancada têm passado o dia a antecipar o que vai acontecer, muitos deles já devidamente instalados no "campo", para não perderem pitada dos preliminares, da relva aos holofotes, ao ângulo ao assento.

Serei um dos que vão assistir ao debate entre António Costa e Rui Rio, que acontecerá às 20H30 no Teatro Capitólio, sem a presença de Vasco Santana, António Silva, Beatriz Costa ou Laura Alves, ausentes por força das circunstâncias, embora decerto exultantes por verem um teatro que tantas vezes foi deles ser palco duma peça deste calibre. Haverá transmissão em directo pelos três canais generalistas - RTP 1, SIC e TVI, para que a audiência de alguma telenovela não fique prejudicada pelo acontecimento.

O espectáculo terá a duração estimada de 90 minutos, tempo normal de um jogo de futebol. Os árbitros serão três jornalistas, um de cada canal, que decerto não regatearão esforços no sentido de se presenciar um desafio equilibrado e sem faltas. Mais à frente ou mais atrás, estará atenta ao que se irá passar uma quantidade enorme de comentadores, sabedores, os quais se encarregarão não do rescaldo do acontecido mas do esmiuçamento do que não foi dito pelos dois protagonistas. As cabeças pensantes e muito iluminadas determinarão o que foi e o que devia ter sido dito, o texto da peça, a táctica do desafio, a estratégia da batalha.

Já estou a imaginar a programação dos canais noticiosos do cabo, logo após o apito final, a cingir-se à tarefa ciclópica de ouvir gente importante e opiniosa, analisando o jogo e antevendo o resultado que os detentores do verdadeiro poder determinarão no próximo dia 30.

A ver vamos ... 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Remoinhos

Por este rio acima encontram-se escolhos, pedras, águas revoltas, cachoeiras, pegos, charcas, canas e troncos, pescadores furtivos, outros encartados, num percurso que leva até à foz, onde o rio por vezes espraia, noutras encurta. Fica claro que a nossa influência e o nosso comportamento não são determinantes, ajudam o trajecto, mas não o conseguem controlar totalmente.

Apesar disso, o caminho é e será sempre por este rio acima, nadando com vigor para ultrapassar os remoinhos da vida e usufruir do peixinho fresco que ela, por vezes, também oferece.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Mudanças

Hoje, dia em que me dediquei à actividade social de conviver com três amigos muito chegados ainda que afastados, num almoço que não foi lauto na quantidade, por opção própria, mas foi grandioso em conversas, recordações, futuro, crise, opinião, tudo o que está presente quando nos encontramos, assim que é dado "o tiro de partida".

A porcaria do bicho tem tirado a possibilidade do convívio, do diálogo, de ver, de abraçar, criando sensações estranhas e dificuldades no reconhecimento e resumindo tudo às redes ditas sociais e às notícias, sempre de última hora. 

Um dos convivas, dizia-me, a dada altura:

- Já reparaste que as conversas de agora são, na sua maioria, réplicas do que ouvem na televisão? Parece que cada vez há menos gente a pensar e a ter ideias ...

Retorqui:

- Se calhar somos nós que já não entendemos os novos tempos, que elaboramos muito, talvez demais ...

E é capaz de ser!  A velocidade da vida de hoje é supersónica, mesmo em teletrabalho. A vertigem do dedo no telemóvel faz com que as notícias sejam como a pescada: antes de o ser já o era.

No regresso, o encontro com um outro amigo que, mascarado, não foi reconhecido e teve a inversa também verdadeira. Queria tratar de um assunto com um dos convivas e, deste, ouvi:

- Estás bom, Zé V.?

Como é possível não nos havermos reconhecido mutuamente? Lá nos justificámos, com a desculpa da máscara e do tempo passado desde a última vez em que nos tínhamos encontrado.

- Há mais de dois anos que não nos víamos ...

Era verdade, mas em circunstâncias normais e noutros tempos, a cinquenta metros já estaríamos a levantar a mão um para o outro.

Mudou tudo!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

O impulso tido e aqui referido deu-se em boa hora. Valeu a pena ler um relato de viagens romanceado, do século XIX, de autor pouco referenciado, que escrevia maravilhosamente.

"(...)Pois este?! Este é o padre <<galopino>> e chamam-lhe assim porque passa o seu tempo todo a galopar, a correr por todos os sítios onde há jantar de bodas ou enterro, e oferecendo-se para dizer missa barata contanto que vá depois para a mesa. À noite está ele sempre à porta de algum botequim ou ao pé do correio com outros amigalhaços de igual feição, indagando o que há de novo a respeito de consórcios e de exéquias, e perguntando à sua gente:

- Então amanhã que patuscada temos?

E aquele, aquele?! Isso é que é um reinadio. Não há vivalma que o não conheça, e ele também paga na mesma moeda ao género humano porque conhece toda a gente. É quem preside nas reuniões dos padres da província, que vão à cidade tratar dos seus negócios, e quem agenceia que eles jantam nalguma casa conhecida onde se coma bem. É a alma de uma função, este reverendo! Aquilo tem graça às pilhas, e fala pelos cotovelos. Sabe tudo. É um regalo ouvi-lo discorrer a respeito da lotaria, dos sonhos que teve a noite passada, dos números maus e dos números bons, e de muitas outras coisas não menos edificantes. Até já de uma vez quis fundar uma academia cabalística, que tratasse de elevar o livro dos sonhos à altura dos progressos da ciência!...

A mim explicou-me isto tudo um homem com quem eu me encontrava frequentemente a jantar na casa de pasto <<Isola bella>>, e dizendo-lhe eu pasmado:

- Como sabe o senhor tanta coisa a respeito dos padres?

- Não adivinha! - respondeu-me ele.

- Não.

- É que eu mesmo, que lhe estou falando, também já fui padre!

- Ah! 

Uma coisa, em todo o caso, têm eles de bom, que é não se oporem a que cada um ame à sua vontade. Podem repreender tudo, mas não consta que acusassem nunca o amor.(...)" 

Do Chiado a Veneza
Júlio César Machado
Tinta da China - 2021- Edição original - 1867 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Presunção

É raro tratar o meu neto Gil pelo nome próprio. O cumprimento, sempre efusivo, é antecedido de "olha o meu neto Grande" e ele sorri, delicado e, julgo, deliciado. E é grande por ser o mais velho dos quatro, já ser maior do que o avô e por ser um excelente aluno, um óptimo atleta e uma pessoa excepcional. 

Não fica bem estar a dizer isto mas quem confessa a verdade não merece castigo e presunção e água benta, cada um toma a que quer.

Nesta altura, o meu neto deverá estar a fazer o percurso de Málaga até ao Jamor, dentro de uma carrinha da Federação Portuguesa de Natação, que o levou na quinta-feira passada até Espanha. Pela primeira vez, o meu neto Grande foi representar o país, integrado na Selecção Nacional de Natação da sua categoria (Pré-Júnior). Foi o corolário de um trabalho diário, difícil, agravado pelas vicissitudes da pandemia e o prémio para uma dedicação sem limites.

É um fim-de-semana que se deseja ver repetido no futuro e que lhe ficará na memória para sempre. O avô adora vê-lo nadar, mas só em treinos ou em vídeo. Em competição, ao vivo, ele sabe bem que a emoção me trairia e dispensa-me.

Parabéns, meu neto GRANDE. Foste ENORME!

sábado, 8 de janeiro de 2022

Palavras bonitas

GUERRA

Quando Francisco Charrua
chegou ao largo gritando:
- Eh! gente, estalou a guerra!
Zé Gaio de alvoroçado
pôs-se a bater o fandango.

Os outros só pelos olhos
falavam surpresa, esperança:
- Será agora? Talvez ...!
Mas Zé Gaio tinha a certeza:
estava a bater o fandango!...

Já lá vão dois anos passados.
Agora a telefonia
da venda, à esquina do largo,
informa todas as noites:
"Uma esquadrilha inimiga
bombardeou a cidade:
morreram trinta mulheres
e vinte e sete crianças."
Agora a telefonia
informa todas as noites,
dias, meses, anos ... noites:
"Morreram trinta mulheres
e vinte e sete crianças."

... E lá num canto do largo
coberto de noite e raiva,
Zé Gaio abriu a navalha.
Zé Gaio espetou a navalha
no grosso tronco da faia.

Lá num canto do largo.
A faia toda dobrada
- será do peso da noite
ou do vento da desgraça
que sai da telefonia?

Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Expresso - 49 anos

O primeiro número do Expresso saiu em 6 de Janeiro de 1973 e eu, quase no final dos vinte anos, comprei-o. Nessa altura ganhava uns tostões razoáveis (cerca de doze euros e meio mensais) e a mesada que me era dispensada já permitia alguns excessos. O jornal foi um deles, emancipação normal para quem lia o Jornal de Notícias desde o começo da junção das letras. E o vício manteve-se até hoje. Do formato enorme ao actual, a preto e branco ou a cores, sem saco, com saco de plástico ou de papel, tem sido companhia semanal nestes 49 anos. Já referi isso em vários textos aqui deixados e, neste tempo todo, devo ter falhado a compra meia dúzia de vezes. 

Há uns meses, talvez mesmo um ano, que o tempo agora voa mais rápido que o melro que visita o meu jardim todos os dias, recebi um telefonema propondo a assinatura digital, cheia de vantagens, permitia o acesso mais cedo e mais barato, em qualquer sítio e sem carregar o peso do papel. Até era mais verde , protegendo o ambiente. Respondi que, enquanto houvesse papel, era dessa forma que continuaria a ler, como fazia há tantos anos. Conservador! 

O interlocutor quis saber há quanto tempo.

- Desde o número um e olhe que falhei poucas vezes.

- Nem vale a pena continuar a conversa. Obrigado e muito boa tarde.

Nos últimos tempos, o Expresso permite-me aceder ao formato digital, com o código da Revista. Durante a semana vou espreitando, lendo qualquer coisa, desatento, que me falta o toque do papel e o exercício dos braços.

Esta semana o "meu" Expresso foi alvo de um ataque de piratas informáticos, que invadiram os servidores do jornal, da SIC e de outras empresas do grupo. É provável que os meus dados também tenham sido "raptados" pelos piratas e isso faz-me sentir importante, por terem perdido tempo e espaço comigo, que nada valho e estou quase fora de uso. Mas para quê? O que move aquela gente? As novas tecnologias são seguras? O desenvolvimento dos meios e a celeridade das notícias fazem "macaquinhos" na cabeça de muitos? A formatação das mentes é o objectivo? A liberdade assusta e há que a engavetar?

Não concordo com tudo o que sai no Expresso. O jornal tem tido, como todos nós, fases boas, outras nem tanto, algumas para esquecer. Todavia, tanto quanto me apercebo deste provinciano lugar oestino, a pluralidade e a liberdade dos "escrevinhadores" estão e estiveram sempre presentes, mesmo quando o lápis azul imperava e era difícil. 

Honra ao Expresso e à sua força para manter viva a chama, contra ventos, marés e ... piratas.

A edição de hoje vem tão bem feita!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Careca

Mais uma ida ao barbeiro, ou melhor, à Barber Shop, para o corte regular que os cabelos necessitam. Agora, com a marcação antecipada, até o tempo de espera desapareceu. A cadeira, desinfectada, como ele faz questão de referir, aguarda-me.

- É o costume, claro.

A pergunta já tem muitos anos, a resposta é sempre sim, o trabalho é cada vez mais reduzido. A careca, que o espelho estrategicamente suportado pela mão do barbeiro projecta no frontal, é cada vez maior. O que falta naquela área já devia dar lugar a desconto ...

- Hoje não falamos do nosso Benfica. Já estamos quase como os de Alvalade: para o ano é que é!

As máscaras de um e outro não permitem que a conversa flua com naturalidade. Torna-se fastidiosa, cansativa, as palavras têm dificuldade em sair, parece até que as ideias se atropelam e optam por se esconderem nos interstícios do cérebro, com o medo a reduzir-lhes o discernimento.

- Tantos infectados ... eu já me convenci que, mais dia menos dia, me vai calhar. A lidar com tanta gente ...

- Pois ...

- Ainda ontem cortei o cabelo a um cliente, que tem 74 anos, e já apanhou duas vezes. Desta segunda, segundo ele, foi parecido com uma gripe, mas da primeira viu-se aflito. E já tinha as vacinas todas.

Serviço terminado. Regresso a casa, seguindo o conselho/solução da "bióloga" do vídeo que o meu amigo ADS me enviou.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Fisgada

A vida tinha-lhe sido madrasta, a comissão na guerra colonial agravara a situação, a solidão fizera o resto.  

"Batia" mal e ninguém lhe dedicava um mínimo de atenção.

- Está maluco. Não lhe ligues.

A doença foi-se agravando, começaram a surgir actos de violência, destruições sem qualquer razão, comportamentos não tolerados pela sociedade. Foi internado. Passou meses no hospital psiquiátrico e fez progressos notórios. Delicado e dedicado, fazia o que lhe ordenavam, sem resmunguices nem trombas.

Toda a gente elogiava o seu comportamento e, sempre que lhe era dirigida palavra, os seus olhos brilhavam de gratidão. A rotina do hospital estava assumida, o seu horizonte era curto e a ambição, pouca, morria por ali. Sentia-se bem. Os passeios pelo jardim deliciavam-no, a satisfação na execução das tarefas era visível, as saudades da vida anterior não existiam. Talvez nem se lembrasse dela, se a tivera.

Os relatórios médicos registavam os progressos e, como era previsível, um dia foi chamado ao director. Podia dar lugar a outro, que as vagas eram poucas e as necessidades, muitas.

- Estamos muito satisfeitos consigo e queremos dar-lhe alta.

- Ó senhor doutor, eu estou tão bem aqui ...

- Só queremos saber o que vai fazer quando sair.

Pensou, meditou durante uns minutos que pareceram, ao médico, uma eternidade.

- Vou arranjar uma fisgazinha e vou aos pássaros.

O médico não apreciou a resposta e mandou-o regressar à enfermaria e às rotinas. Satisfez-lhe o desejo encoberto. Passado um mês, nova tentativa.

- Já pensou melhor? O que pensa fazer se sair daqui?

O "se" da pergunta já revelava incerteza, insegurança e dúvida sobre a resposta que iria ser obtida, e também sobre o estado mental do doente.

- Vou arranjar uma fisga e vou aos pássaros.

Antes que o caldo entornasse, o médico, ríspido, ordenou-lhe a retirada. Passou mais de um ano. A rotina manteve-se. O comportamento irrepreensível. As conversas com nexo. Tudo normal, como se os neurónios estivessem na cabeça de um motor que o mecânico alisou e pôs como nova.

- Já pensou bem naquilo que vai fazer quando daqui sair?

- Já sim, senhor doutor. Vou arranjar uma mulher ...

- Boa! E para quê?

- Para namorar e depois casar com ela.

- Muito bem! E o que faz na noite do casamento?

Seguiu-se a descrição, exaustiva, do caminho até ao quarto, da cerimoniosa cena do despir de toda a fatiota, sublimada pela retirada das cuecas. O médico, já com alguma excitação, não resistiu e interrompeu:

- E depois?

- Ainda não pensei muito bem mas, se calhar, tiro o elástico das cuecas, faço uma fisgazinha e vou aos pássaros.