quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Uma editora nova, um autor desconhecido e a vontade, sempre presente, de desvendar e ser surpreendido. Comprei dois livros, de autores diferentes e a editora ainda me ofereceu um terceiro, de um outro escritor que também não conhecia.

Os contos que estão a ser lidos a grande velocidade são uma delícia e a prova provada de que o português é uma língua maravilhosa e não tem fim. Já perdi a conta às palavras que nunca tinha lido ou ouvido e para as quais foi inevitável o recurso ao dicionário.

"(...) No Bodo do Espírito Santo, manhã cedo, Calistra foi para a cozinha e preparou um cento daquelas maravilhantes guloseimas. Queria que todas as irmãs também fossem contagiadas por aquela paixão que o pastor lhe despertara.

Aparelharam-se as mesas no refeitório para receber os doces e as confeiteiras rivais. De um lado ficava a comitiva do Mosteiro de Estevães e diante o Convento de Sant'Ana. Nos topos as respectivas madres. Pouco depois, a irmã Francelina e a irmã Calistra começaram a colocar sobre a mesa as suas culinárias engenhosidades, cobertas com panos da mais fina cambraia, para que os olhos não começassem cobiçosos a sua avaliação.

Por fim, quando as travessas foram destapadas, logo as presentes perceberam a avultada diferença existente entre as iguarias apresentadas a julgamento. Irmã Francelina ostentava vários pudins de ovos, firmes, luzidios e morenos, com um tamanho superior aos pequenos, frágeis e modestos doces da irmã Calistra. Logo ali principiaram os alvitres e, olhando para Calistra, a madre Ermelinda carregou o sobrolho, revelando a desilusão e o desagrado que aquele cenário de hecatombe lhe provocava.

As irmãs de ambas as trincheiras deram início à gulosa contenda, degustando à vez um e outro pitéu e, todas à uma, renderam-se aos humildes e enjeitados doces de Calistra. Faltava, porém, o veredicto da abadessa de Estevães que, em êxtase, se deliciava a cada pequena dentada, lambisqueira,  entregue de corpo e alma ao culinário engenho de Calistra. Sumo pecado. 

Quando finalmente ditou a sua sentença ouviram-se vivas ao génio da irmã confeiteira de Sant'Ana. Conquistara a palma, pertenciam-lhe os louros.

- Como foi baptizado este pequeno prodígio?- questionou a abadessa do Mosteiro de Estevães. - Por muitos anos que viva nunca irei esquecer.

Calistra não o crismara ainda, não pensara nisso. Só o belo pastor tinha lugar no seu pensamento. 

- Brisas - disse, soluçando. - Brisas do Lis.

E assim, de um amor nunca declarado, nasceu esta especialidade culinária de Leiria, para benção do nosso corpo e leveza do espírito." 

O caminho do burro
Paulo Moreiras
Visgarolho (2021)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Dúvida

Um pequeno sinal de humidade, apenas umas pintas acastanhadas ao cimo da parede, junto ao tecto. Há qualquer coisa lá fora, no telhado, que está a provocar isto e só pode ser o jacarandá. Está enorme, bem acima da casa e, nesta altura, solta umas folhinhas pequeninas que tudo tapam, da calçada aos canteiros de flores, e que devem encher o algeroz onde os olhos não vêem e a vassoura não chega.

É bem provável que a água da chuva, não de hoje que está um dia de sol lindo, por lá estabeleça uma pasta, que entope e impede que cumpra a função que lhe foi dada com a instalação que, apesar dos anos, tem todo o aspecto de estar ali para as curvas.

Noutros tempos subiria ao telhado, iria verificar e desentupir, se fosse necessário. Agora, já não dou oportunidade às alturas de me causarem vertigens nem aos pés de escorregarem nas telhas. Era o que faltava. São tarefas demasiado fáceis para a minha condição de veterano e que poderiam macular a minha veia de alpinista, se porventura algo acontecesse ou o trabalho não resultasse em pleno.

Daqui a pouco, alguém que bem sabe e sobe, galgará o telhado, analisará o conteúdo, limpará o algeroz e resolverá o problema, espero. Não à borla, claro. Mas que importância têm meia dúzia de euros ou algumas dezenas, quando comparadas com o alívio do trabalho realizado e do problema resolvido.

E se mandasse cortar o jacarandá?

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Magnólia

Antes de ser instalada no jardim vivia num vaso, apertado, que parecia não reunir o mínimo de condições para crescer e desenvolver-se, sem interferências externas. O problema foi percebido e procurou-se com afinco a melhor solução.

Apesar de o Carlinhos já ter demonstrado que a lógica não existe, parecia que a solução era dar-lhe uma nova vida, com vistas largas e companhia a condizer. Perfilhando o princípio de que vale mais tomar dez decisões ainda que nove sejam erradas a não tomar nenhuma, a magnólia saltou do vaso, instalou-se no relvado, num espaço arejado, novo e que, até ali, nunca tinha sido usado para aquele fim.

No início deu sinais de melhoria evidente, parecia querer e conseguir um futuro diferente, ser bonita e capaz de cumprir a função de alegrar as hostes e tornar mais aprazível o jardim. Foi sol de pouca dura ...

Depressa voltou ao marasmo, sem se perceber a razão que a levou a isso. Naturalmente que há sempre razões que a razão desconhece, ainda para mais quando envolvem plantas e jardins.

- Deve ter sido o calor do Verão. Talvez seja como algumas pessoas quando apanham sol na moleirinha ...

- E o Outono parece que agravou. Outubro então foi terrível ...

Está a chegar mais uma Primavera e, apesar de haver indícios de que a situação não irá evoluir, ainda assim permanece viva a esperança que a magnólia recupere e possa trazer alegria e flores ao jardim.

Dizem as pessoas entendidas em jardins que o dia 30 é a chave!

 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Santo Antão

O monte é bastante alto, quase tanto como a torre de menagem do castelo de Óbidos que, sobranceiro, o olha com algum desprezo durante todo o ano e se rende à sua importância no dia de hoje. No cimo existe uma pequena capela, dedicada a Santo Antão, protector dos animais.

A 17 de Janeiro muita gente sobe o monte, para pedir e/ou agradecer ao Santo as benesses ou milagres que lhe foram proporcionados ou que anseia desfrutar, ou simplesmente para se deliciar com o chouriço assado e as pingas que o acompanham.

O casal, de pequenos agricultores, fazia a caminhada anual pela vertente da encosta e, lá em cima, assentava arraiais junto a uma pedra que protegesse a fogueira do vento norte e permitisse a assadura sem problemas do chouriço caseiro, embrulhado em prata para não se queimar. Enquanto o marido providenciava a lenha para a fogueira, a mulher arrumava o espaço, montava as duas cadeiras que lhes tinham feito companhia pelo monte acima e iriam oferecer-lhes o conforto imprescindível para saborear o petisco. 

Assim que o homem começava a acender a fogueira, a mulher dirigia-se à capela para depositar as miniaturas do porco ou da vaca, ou dos dois, feitas de cera, lembrando ou prevenindo as doenças que tinham vindo ou podiam vir.

- Eu não acredito em nada disso, mas é melhor ires lá dar isso ao Santo. Não custa nada ...

Promessa cumprida, chouriço comido, vinho bebido, o sol a pôr-se, dia terminado, regresso a casa pelo monte abaixo, com muito cuidado não vão as pernas trair o equilíbrio e os corpos chegarem lá abaixo sem ninguém os conseguir parar. Hoje seria o dia da romaria do Santo Antão e, mais coisa menos coisa, aconteceria algo parecido com isto.

Não aconteceu e o ano passado sucedeu o mesmo. Talvez para o ano ...

domingo, 16 de janeiro de 2022

Burros

Se não fosse a baixa temperatura que se faz sentir, poderia dizer-se que a Primavera estava a chegar, trazendo as flores, o sol, a luz do dia até mais tarde, o prenúncio do Verão e dos banhos de mar, enfim, um sinal de que esta "coisa" que nos acompanha há dois anos poderia estar a tirar bilhete para apanhar algum transporte que a levasse para nenhures, onde se afogasse, sem hipóteses de alguém lhe deitar a mão.

Nada disso. Os números continuam altíssimos e, apesar da dita benignidade da actual variante, os que partem não podem nem são irrelevantes. Apesar de tudo isto, continuam a ter peso os que negam as evidências, que se apresentam como heróis da liberdade e paladinos do discurso do "contra", e que, digo eu sem qualquer base científica, são daqueles que, à mínima dorzita, correm a mata-cavalos para a primeira porta de urgência hospitalar que lhes apareça pela frente, ou de lado, tanto faz.

E não têm um pingo de vergonha de se exibirem, como aquele rapazinho que é só o melhor jogador mundial de ténis da actualidade e deve ter imaginado (ou alguém lhe soprou) que isso do cumprimento das regras é só para os outros, estando as pessoas importantes acima dessas minudências.

Para esta gente, lembro-me sempre de uma frase de uma antiga professora da minha escola:

"Ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés" 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Malabarismos

Numa época em que toda a gente faz contas, apresenta cálculos, clarifica custos, refere receitas, tudo suportado por uma enorme certeza de coisa nenhuma, veio-me à ideia um episódio dos muitos que vivi na minha longa (e já esquecida) carreira profissional.

O homem apresentava-se como empreendedor cheio de experiência, com negócios de sucesso em vários países da Europa e trazia consigo um estudo económico para suportar a certeza de que não só o investimento previsto era altamente rentável como importantíssimo para a economia nacional. O banco não correria qualquer risco e seria um parceiro a lucrar imenso com a participação. Só tinha que aprovar o crédito e esperar pela rentabilidade e pelo impacto positivo que um financiamento deste calibre teria na sociedade.

- Com a sua experiência, saberá que não há investimentos de risco zero e também percebe que o banco tem de analisar muito bem o que pretende. Não estamos a falar de trocos e o dinheiro é dos clientes que em nós confiam.

-  Claro que compreendo. Mas, ao ler o estudo económico, verá todas as suas dúvidas esclarecidas.

O crédito destinava-se a financiar a construção de um restaurante "completamente diferente do que existe por aí", a cerca de dez quilómetros da cidade, numa zona despovoada, onde já nem sequer existia agricultura de subsistência. Mas isso era de somenos ...

Se tivesse qualidade, as pessoas iriam. Era referido na introdução do estudo: "pretende-se construir um restaurante único, que desperte a curiosidade, capriche na comida e seja pólo de atracção para a região e para o país."

Analisada a longa dissertação que instruía e fundamentava o pedido de crédito e os números que lhe davam suporte, nova conversa com o empreendedor.

- Gostava de perceber como é que o senhor conseguirá, numa sala de 100 lugares, servir 400 refeições por dia, 365 dias por ano.

- Simples: rodamos a lotação duas vezes em cada refeição.

Fiquei esclarecido. O crédito não foi autorizado e o local ainda hoje está disponível para qualquer empreendedor com vistas largas.

A matemática é uma ciência exacta e, em cenários, proporciona brincadeiras até à exaustão.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Remédio

Para desanuviar uma sexta-feira agreste e a adivinhar chuva, ficamos com uma companhia de nível superior interpretando uma música soberba.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Debates e conclusões

Pelo conteúdo e pela forma como hoje se têm processado as notícias nos canais de televisão que a elas se dedicam, parece que, logo à noite, se irá disputar uma grande final, que determinará quem vai levantar a taça, para gáudio dos espectadores delirantes que estarão sentados na bancada dos seus sofás. Ao vivo, muito provavelmente, apenas estarão as claques dos clubes envolvidos e os "técnicos" da operação.

Os treinadores de bancada têm passado o dia a antecipar o que vai acontecer, muitos deles já devidamente instalados no "campo", para não perderem pitada dos preliminares, da relva aos holofotes, ao ângulo ao assento.

Serei um dos que vão assistir ao debate entre António Costa e Rui Rio, que acontecerá às 20H30 no Teatro Capitólio, sem a presença de Vasco Santana, António Silva, Beatriz Costa ou Laura Alves, ausentes por força das circunstâncias, embora decerto exultantes por verem um teatro que tantas vezes foi deles ser palco duma peça deste calibre. Haverá transmissão em directo pelos três canais generalistas - RTP 1, SIC e TVI, para que a audiência de alguma telenovela não fique prejudicada pelo acontecimento.

O espectáculo terá a duração estimada de 90 minutos, tempo normal de um jogo de futebol. Os árbitros serão três jornalistas, um de cada canal, que decerto não regatearão esforços no sentido de se presenciar um desafio equilibrado e sem faltas. Mais à frente ou mais atrás, estará atenta ao que se irá passar uma quantidade enorme de comentadores, sabedores, os quais se encarregarão não do rescaldo do acontecido mas do esmiuçamento do que não foi dito pelos dois protagonistas. As cabeças pensantes e muito iluminadas determinarão o que foi e o que devia ter sido dito, o texto da peça, a táctica do desafio, a estratégia da batalha.

Já estou a imaginar a programação dos canais noticiosos do cabo, logo após o apito final, a cingir-se à tarefa ciclópica de ouvir gente importante e opiniosa, analisando o jogo e antevendo o resultado que os detentores do verdadeiro poder determinarão no próximo dia 30.

A ver vamos ... 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Remoinhos

Por este rio acima encontram-se escolhos, pedras, águas revoltas, cachoeiras, pegos, charcas, canas e troncos, pescadores furtivos, outros encartados, num percurso que leva até à foz, onde o rio por vezes espraia, noutras encurta. Fica claro que a nossa influência e o nosso comportamento não são determinantes, ajudam o trajecto, mas não o conseguem controlar totalmente.

Apesar disso, o caminho é e será sempre por este rio acima, nadando com vigor para ultrapassar os remoinhos da vida e usufruir do peixinho fresco que ela, por vezes, também oferece.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Mudanças

Hoje, dia em que me dediquei à actividade social de conviver com três amigos muito chegados ainda que afastados, num almoço que não foi lauto na quantidade, por opção própria, mas foi grandioso em conversas, recordações, futuro, crise, opinião, tudo o que está presente quando nos encontramos, assim que é dado "o tiro de partida".

A porcaria do bicho tem tirado a possibilidade do convívio, do diálogo, de ver, de abraçar, criando sensações estranhas e dificuldades no reconhecimento e resumindo tudo às redes ditas sociais e às notícias, sempre de última hora. 

Um dos convivas, dizia-me, a dada altura:

- Já reparaste que as conversas de agora são, na sua maioria, réplicas do que ouvem na televisão? Parece que cada vez há menos gente a pensar e a ter ideias ...

Retorqui:

- Se calhar somos nós que já não entendemos os novos tempos, que elaboramos muito, talvez demais ...

E é capaz de ser!  A velocidade da vida de hoje é supersónica, mesmo em teletrabalho. A vertigem do dedo no telemóvel faz com que as notícias sejam como a pescada: antes de o ser já o era.

No regresso, o encontro com um outro amigo que, mascarado, não foi reconhecido e teve a inversa também verdadeira. Queria tratar de um assunto com um dos convivas e, deste, ouvi:

- Estás bom, Zé V.?

Como é possível não nos havermos reconhecido mutuamente? Lá nos justificámos, com a desculpa da máscara e do tempo passado desde a última vez em que nos tínhamos encontrado.

- Há mais de dois anos que não nos víamos ...

Era verdade, mas em circunstâncias normais e noutros tempos, a cinquenta metros já estaríamos a levantar a mão um para o outro.

Mudou tudo!