sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

1939/1945 ou 2022?

"(...) Ao sair do sepulcro sentiu uma dor lancinante no ombro esquerdo. Tinha o osso deslocado e uma ferida muito feia, provocada pelas pedras que lhe haviam aberto um buraco na parte superior do braço onde cabia a ponta de um dedo. Doía-lhe muito, mas sempre resistira bem às pancadas. Lazlo, que tinha sobrevivido ao bombardeamento por pura sorte sem a colaboração dos intestinos nem a intervenção de uma viga salvadora, ligou-lhe a ferida conforme pôde e foram à procura dos enfermeiros. Não os encontraram. Poucos eram os sobreviventes e, entre eles, nenhum oficial. O ordenança do comandante disse-lhe que na última vez que o viu ele estava reunido com os outros chefes em volta de uma mesa, no único quarto que mantinha o tecto. Tinha-lhe mandado trazer cigarros e aquele pedido salvara-lhe a vida. Quando voltou, com dois cigarros russos que tinha roubado a um sargento, encontrou apenas um túmulo de pedra gigantesco, sem qualquer indício de vida sepultada. O privilégio de viverem sob um tecto tinha exterminado os oficiais num instante.

Num posto de socorro improvisado junto das ruínas de um hospital, um médico encaixou o osso de Adrián, tratou-lhe da ferida e enfaixou-lhe o braço ao peito. Enquanto o instruía sobre como o manter o melhor possível, Lazlo entrou no edifício e regressou com duas aspirinas que conseguira requisitar de pistola em punho. O médico não teceu comentários sobre o procedimento. Aconselhou Adrián a tomar só uma e a guardar a outra para mais tarde, recomendando-lhes que voltassem para o quartel à espera de novas ordens. Quando regressaram ao palácio, já entardecia. Durante todo o dia só tinham comido uns pedaços de pão conseguidos à força, impondo-se a uma multidão que assaltava as ruínas de uma padaria, mas até nisso foram afortunados porque os companheiros jejuaram todo o dia.(...)"

Os doentes do Doutor García
Almudena Grandes

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Ditos

Não me apetece escrever sobre o vírus, nem sobre a guerra, muito menos sobre o Benfica, onde parece haver mais minas do que no leste da Ucrânia, sem que se vislumbrem batedores com capacidade suficiente para as detectarem.

Também não me apetece falar sobre o lindo dia de sol que Fevereiro nos ofereceu hoje, para juntarmos a mais uns quantos com que nos tem brindado. Parece estar a lembrar-nos que o Verão está quase a chegar e que o Carnaval, este ano adiado para Março mas que lhe pertence por direito próprio, nos vai trazer algumas matrafonas, zés pereiras e máscaras lúdicas, ainda que sem desfiles.

As outras máscaras vão perdendo protagonismo, dando lugar à carranca que muitos têm trazido escondida. Paira no ar a convicção de que tudo se está a compôr e que os dias bons, sem problemas, chegarão a breve trecho.

Não sou pessimista e, por isso, também acredito que não irá ser preciso refazer esta saga de castigo que quase todos cumprimos. As excepções foram meia dúzia de "iluminados" que hão-de ficar registados na história escrita naquele papel que foi açambarcado no início da pandemia.

Mas ... há sempre um mas, que acentua a dúvida: na minha idade, dizem, tudo o que vem é para ficar e o que vai ... já não volta.

Espero que quem manda nisto determine que, no que à pandemia diz respeito, se cumpra apenas a segunda parte do ditado.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Anseios

A pandemia, finalmente, parece ter cumprido a determinação do Presidente da República, transformando-se em endemia, embora com um atraso que devia ser punido. Mas deixemos isso para a justiça, que se encarregará de, em tempo útil, como é costume, determinar a pena que lhe deve ser aplicada ou a absolvição que lhe for devida.

Deixou por cá estragos bastantes para ser recordada como um período bem difícil para todos, velhos e novos, estragos esses que se manterão bem vivos na memória. Foram dois anos de confrontação diária com uma realidade que era desconhecida de toda a gente, que obrigou a alterar procedimentos, contactos, vivências, formas de trabalhar, ritmos. Muitos são os que já cá não estão para recordar o sofrimento e inúmeros aqueles a quem foram deixadas marcas físicas e psicológicas que tardarão a desaparecer.

Confirmando-se, como se espera, estas boas notícias, deseja-se que o conflito latente, que parece iminente e é notícia premente, não se concretize. Que a Rússia não invada a Ucrânia, que a Nato deite água e não gasolina, que os diplomatas façam (bem) o seu trabalho, que as fábricas de material de guerra se reconvertam ou diminuam a produção, que haja juízo nas cabeças de quem detém o poder. 

Sabendo de antemão que o lirismo não resolve nada, era bom que quem detém o poder se lembrasse que apenas o exerce, ou devia exercer, em nome e para o bem de todos.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O tempo e os livros

Ao contrário da grande maioria dos portugueses, de acordo com os resultados de um inquérito promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e recentemente divulgado, leio todos os dias e todos os dias confirmo que não vou ter tempo para ler tudo o que tenho em casa, mais aquilo que já saiu e não adquiri, mais o que irá ser editado e não deveria ser perdido, mais ainda o que existe de bom e que desconheço.

Para agravar ainda mais, há livros que demoram a ler, por mais esforçado que se seja. E, para complicar ainda mais, o cérebro já não aceita ler dois ou três em simultâneo, como acontecia antigamente. Ler um livro de 750 páginas, como tem o que agora me acompanha - Os doentes do Doutor Garcia, de Almudena Grandes - não é possível em dois ou três dias, pelo menos para mim.

Conclusão: o tamanho da pilha aumenta, e mantém-se a mania de comprar. O espaço ocupado na secretária já é significativo. Podia colocá-los nas prateleiras (onde as vagas são exíguas) e ter a lista à mão, para os ir buscar quando chegasse a sua vez, mas não era a mesma coisa. Assim, vou conversando com eles, transmitindo-lhes a justificação, que aceitam humildemente e sem qualquer contestação:

- A seguir és tu

E por vezes não é, porque outro se insinuou e foi escolhido primeiro.

- Há-de chegar a tua vez, descansa

A pilha vai aumentando e o tempo ... diminuindo. A vontade, essa, mantém-se firme e concretiza-se enquanto os olhos o forem permitindo. Às vezes choram. Não quero perceber se estão emocionados com o que lêem, ou se é mesmo cansaço. Ah! E sempre em papel. Manusear o livro faz parte do ritual para o (tentar) compreender.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Pimpões

Os Pimpões comemoram hoje oitenta e quatro anos de actividade ininterrupta, em prol da instrução e recreio, como está bem explícito na sua designação. Durante toda esta caminhada, a Associação tem sabido adaptar-se sempre às novas necessidades dos seus sócios, continuando a desenvolver actividades importantes e necessariamente diferentes daquelas com que se iniciou.

Hoje já não há educação de adultos nem teatro para ocupação dos tempos livres, nem bailes que divertissem quem tão poucos motivos tinha para isso. A natação e o basquetebol são as grandes áreas no desporto, e a escola de dança o referencial na cultura.

Fui dirigente daquela casa durante cerca de 15 anos, dos melhores que recordo da minha vida. Deixei lá bastante de mim, julgo, mas aprendi muito mais. Do teatro à música, da pintura ao bailado, da gestão às relações humanas, do desporto à diversão. Conheci muita gente, alguns sem o mínimo de interesse enquanto pessoas, bastantes que recordo muito e bem. 

Foi lá que os meus filhos aprenderam a nadar, muito bem, diga-se, para que conste. A filha fez competição federada, o filho preferiu outra modalidade. Os netos também por lá andam, em busca da perfeição natatória. Dois deles já competem e o mais velho tem conseguido óptimos resultados, culminados com a chamada à selecção nacional da sua categoria.

Ainda hoje é nos Pimpões que vou dando as minhas braçadas, para tentar evitar um mais rápido anquilosamento do físico. Logo à noite, estarei a assistir à festa de aniversário, com o maior prazer.

Longa vida a uma Associação tão antiga e tão dinâmica, e os votos de que se mantenha sempre em actualização permanente, sem subserviências nem sobrancerias.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Diminutivos carinhosos

- Aqui mora o senhor Chiquinho S..

Chiquinho?! Era um velho que ali morava, com a mulher. Já várias vezes o tinha visto, muito embora não estivesse por ali há muito tempo. 

- Esteve na América muitos anos, tem lá os filhos e os netos e voltou agora para gozar cá a reforma.

Era a conversa dos que tudo sabiam, que acrescentavam terem os filhos por lá uma boa vida e que o velho recebia, todos os meses, uma "bruta reforma".

- Todos os meses o carteiro lhe entrega um cheque vindo de lá. Deve ser bem gordo.

Chiquinho? Como é possível? Os "inhos" estão reservados às crianças e não a todas. Há alguns, como o Agostinho, amigo do Carlinhos, que os tem por toda a vida, mas são excepções. Chiquinho? Um homem com aquela idade? Ainda se fosse "menino Chiquinho", como alguns a quem o sangue garantia serem meninos toda a vida. Mas "senhor Chiquinho"? Não se compreendia ...

Por vezes, havia temporadas de dois, três meses, que na casa não havia vivalma.

- Foram ver os filhos e os netos, diziam os entendidos que tudo sabiam. 

E devia ser verdade. Iam recordar tempos idos, agora sem obrigações, como convém a quem já passou o tempo de obrar. Chegou o Verão e a casa permaneceu fechada. Não tardou a chegar a notícia dos sabedores:

- Já morreu o senhor Chiquinho S.. Tinha lá o seu feitio mas, no fundo, no fundo, até nem era mau diabo. Por lá ficou, se calhar contra a vontade dele.

Teve sorte! Nasceu Chiquinho e foi-o até morrer.

Passei por lá há pouco. A casa já não é a mesma e do Chiquinho S. só se lembrarão alguns velhos. Mas porque me lembrei eu disto?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Quotidiano

Hoje foi dia de música, muita música ... nem por sombras da qualidade desta. Mas, muitas vezes, ouve-se aquilo que não se quer, seja música ou discursos ocos!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Será desta?

Parece que sim!

A porta do regresso à vida normal está entreaberta e, de acordo com quem sabe disto, vai abrir-se completamente dentro de pouco tempo. Não escancarar-se, que as correntes de ar são perigosas e podem pôr em risco os móveis, os vidros e tudo o que não esteja devidamente protegido.

Todavia, e porque apenas nos jogos se regressa à casa de partida, a memória retratará muito bem como era, o cérebro terá capacidade para rebobinar a fita ou para pôr a orquestra a tocar a partitura desde o início, mas nada será como dantes porque "ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio".

O rio está longe de ser o mesmo (tem chovido pouco) e as pessoas também já se alteraram, ainda que a aparência possa ser idêntica. O tempo, essa coisa indescritível que todos os dias anda sem que possamos ter sobre ela qualquer controlo, deixa marcas difíceis de esquecer e de apagar e traz novidades, alterações, comportamentos sempre diferentes.

De acordo com os especialistas, talvez se esteja agora a aproximar a endemia, anunciada pelo Presidente da República há bastante tempo e que, tudo parece indicar, será a prenda que o Verão nos trará, juntamente com os mergulhos no mar da Foz. 

A ver vamos!