terça-feira, 22 de março de 2022

Água aberta

Raro é o dia em que não se comemora um qualquer acontecimento, uma efeméride, um aniversário, um nascimento, uma morte, qualquer coisa importante que está, ou deve estar, na memória das pessoas e fazer parte da cultura que têm de exibir, para que conste ...

Hoje é o Dia Mundial da Água e a "Aberta" foi aberta!

Não há fotografias que o comprovem, porque o S. Pedro, sempre do contra, não colaborou e mandou para o Oeste um dia sem sol, com vento desagradável e muito chuvoso. Claro que apesar das condições climatéricas não serem favoráveis, um fotógrafo de qualidade teria conseguido uma boa "chapa", talvez até ilustrada por um criativo céu azul obtido num qualquer fotoshop.

Assim e porque o fotógrafo é rasca, fica apenas a palavra, mais do que suficiente para garantir a todo o mundo que a ligação ao mar está restabelecida, ainda que as máquinas por lá continuem a torná-la mais larga e mais profunda, para que o seu desempenho seja melhorado e se evite que o "malandro" do mar não seja como o S. Pedro, e volte tudo à estaca zero.

Está quase a chegar o tempo de usufruir daquela maravilha, desde que o S. Pedro se porte bem e não baralhe tudo, como tem feito até aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Actualidade

A poesia tem a virtude de poder ser lida mil e uma vezes e trazer sempre novidade, mantendo-se actual.

COM CINCO LETRAS DE SANGUE

De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
uma poeta calou-se e acabou-se a canção.

De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.

Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
com cinco letras escreveu no chão: porquê?
Com cinco letras do seu próprio sangue.

30 Anos de Poesia
Manuel Alegre
Dom Quixote (1995)

domingo, 20 de março de 2022

Distância

Vieram visitas, lá de longe, do outro lado do Atlântico. 

Há mais de dois anos que não estávamos juntos e havia muito que contar sobre o período "sabático" que o vírus nos obrigou a cumprir. Foi um dia bom, curto para tanto que havia para dizer e desfrutar. 

Para evitar experiências idênticas, espera-se e deseja-se o regresso à normalidade, com saúde e em paz.

Assim o queiram, por um lado, o coronavírus, que não se vê mas sente-se, e, por outro, o micróbio Putin, para o qual a ciência ainda não encontrou um antibiótico que lhe trate da saúde.

sábado, 19 de março de 2022

Dia do Pai

Neste dia do pai, o meu faria 100 anos - um século -, se não tivesse partido.

TREVAS

Bato à porta da minha solidão,
E ninguém abre!
Na grande noite que me rodeou,
Quem vinha ao meu encontro, desviou
A direcção fraterna da ternura ...

Trevas - é o que ficou
Na concha de que fiz a sepultura.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Coimbra (1974)

sexta-feira, 18 de março de 2022

"Aberta"

As máquinas já se instalaram e a areia começou a ser removida, ainda que de forma lenta.

A abertura da "aberta" está marcada para o próximo dia 22, quando estiverem concluídos os trabalhos preliminares que estão a ser efectuados, e faltar apenas romper a ligação. O peso da água da lagoa fará o resto, levando uma boa corrente para o mar que, em maré vaza, a receberá, espera-se, de braços abertos. Será o reatar das relações de duas entidades que se toleram, convivendo juntas para sempre, ainda que, por vezes, pausem a ligação para recarregar baterias.

Depois, bem, depois, ver-se-á. Todos anseiam que o mar concorde e se disponibilize para a situação criada pela mão humana, contrariando a pausa decidida por quem detém o poder naqueles domínios.

Nem sempre assim acontece e o mar, já se sabe, é rei e senhor daquelas bandas e, por norma, gosta de contrariar quem o provoca.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Finalmente?

A avaliar pelos ecos que nos chegam, parece que estará em vias de se concretizar a "vacina" que acabará com a mortandade e com a destruição que a Rússia e o seu "dono" instalaram na Ucrânia, desde o passado dia 24 de Fevereiro. Já lá vão 24 dias! Tenho a sensação de que são ecos distorcidos e continuo bastante céptico em relação ao fim que se deseja, embora não tenha nenhum conhecimento que me permita fundamentar. Apenas me limito a ansiar que o meu cepticismo não vingue e que aquela selvajaria acabe "ontem".

Pelo que sei, habitarão na Ucrânia cerca de 44 milhões de pessoas, havendo mais alguns milhões de ucranianos espalhados por vários países, entre os quais Portugal. De acordo com as informações veiculadas pela ONU, mais de três milhões já abandonaram o país e haverá à volta de seis milhões que se encontram deslocados internamente. 

É muita gente, não haja dúvida! Mas é tão pouca quando comparada com a que se mantém nas suas terras, sabe-se lá em que condições e com que sofrimento. 

A História há-de encarregar-se de adjectivar os autores desta vergonha, mas isso não trará nada de importante para quem o sofreu nem lhes servirá de consolo.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Coragem

A "idade" que o blogue leva faz com que muitos assuntos, acontecimentos, peripécias, já por aqui tenham feito escala, numa viagem qualquer, e por isso exige atenção para que se não perca muito tempo com os tratados anteriormente, evitando-se repetições sempre algo maçadoras.

O 16 de Março de 1974 foi um dia importante para o (meu) Regimento de Infantaria 5 (actualmente Escola de Sargentos do Exército), para a cidade, para o país e para todos aqueles que nele se envolveram. Não teve o sucesso que se desejava, talvez por uma deficiente planificação e uma apressada corrida, mas serviu para alertar os mais distraídos de que alguma coisa andava no ar, fazendo transparecer a  disponibilidade militar para pôr fim à ditadura.

Como sempre, a pressa é inimiga da perfeição e a saída das Caldas rumo a Lisboa não surtiu o efeito desejado. Apesar disso, é importante que a data não seja esquecida, muito menos omitida, para que a memória permaneça e seja possível trazer ao conhecimento das gerações mais novas o que se passou e quão difícil era, naquela época, dar um passo tão importante.

Era preciso muita coragem para correr os riscos implícitos e que todos bem conheciam.

terça-feira, 15 de março de 2022

Racionar / Racionalizar

- Sabes que é muito difícil mandar dinheiro para Moçambique e demora muito tempo ...

A conversa foi ouvida sem querer, numa ida, rápida, a um supermercado, que já tem racionamento de óleo alimentar. Não vende mais de quatro embalagens a cada cliente e refere isso mesmo no aviso, grande, afixado na prateleira, bem à altura dos olhos para que todos o vejam e ninguém o ignore: "informa-mos os nossos clientes...". Tendo em conta que, por aqui, habitam muitos estrangeiros, fiquei com pena que o aviso não estivesse também em língua inglesa. Abrangia mais gente e talvez não tivesse erro tão clamoroso. Embirrações de velho ...

Voltando à conversa telefónica: a senhora justificava-se perante alguém que, estando em Moçambique, deveria estar bem precisado e ainda não tinha recebido o enviado, apesar do tempo decorrido. 

- Tu não fazes ideia. Não é fácil e, disseram-me logo, demora muito tempo.

Moçambique não tem, que se saiba, a rede Swift bloqueada, mas o "carcanhol" ainda deve estar a percorrer o Atlântico, dobrará o Cabo das Tormentas e só depois iniciará a subida do Índico. 

Para quem vive com as transferências imediatas à mão de semear, custa a entender. Mas é assim. O mundo está longe de ser perfeito e ainda mais de ser idêntico em todas as latitudes.

"Tenha-mos" a consciência disso e não "entre-mos" em modo do salve-se quem puder. 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Utopia

Tanto que há para fazer e, mal se olha para o lado, o tempo já passou, é quase noite e a luz esmorece tal como acontecia às candeias antigas, quando o azeite se gastava.

Apesar desta velocidade, não há pressa em acabar com o flagelo que estalou no dia 24 do mês passado e não parece ter fim à vista, a não ser para aqueles que já descansam na vala. Será que aquela gentalha conseguiria articular meia dúzia de palavras se fosse colocada frente a frente com todos aqueles que, com filhos ao colo, são forçados a fugir em busca de um pouco de paz e sossego? Certamente que não, até porque, na maioria dos casos, a coragem só existe bem sentada na poltrona e com as costas guardadas, porque quem manda aqui sou eu e eu sei muito bem o que é melhor para todos.

domingo, 13 de março de 2022

Contrariar

O encerramento da ligação do mar à Lagoa já vai na segunda semana. Não aconteceu por decreto governamental, intervenção do Presidente da República, da Câmara ou do Ambiente, e sim por determinação do "Rei Atlântico", cujo reinado acontece, por aquelas bandas, de forma absoluta e autocrática, como alguns humanos ainda persistem em fazer.

O trabalho de desassoreamento, que vem acontecendo desde Setembro do ano passado, era tido como a salvação da Lagoa, que iria garantir não só a vida de todas as espécies que nela habitam ou que a visitam, como também a permanência da ligação ao mar, que garante a renovação das águas e a sua oxigenação permanente.

Tudo isto não sofre qualquer contestação e tinha/tem o apoio de todos os que gostam da zona, única no país, que garante a subsistência de muita gente e satisfaz gastronomicamente muita outra. Foi tudo estudado ao pormenor, das máquinas a usar à época dos trabalhos mas ... não conversaram atempada e cerimoniosamente com o mar. Toda a gente sabe que ele é dos que gostam de contrariar e determina a sua acção sem passar cartão a ninguém. Resultado: a "aberta" está fechada e aguarda-se a chegada das máquinas que a hão-de reabrir.

Era engraçado que o "Rei", do contra, fizesse, ele próprio, esse trabalho antes de as máquinas chegarem!