domingo, 29 de maio de 2022

Enxertia

Pró enxerto ter futuro
E atingir a qualidade,
O vinho tem de ser puro,
Bom, e em quantidade.

A enxertia, na vinha, era uma actividade complexa e difícil de arranjar quem a executasse a contento. Havia poucos enxertadores e, para além de serem bem pagos, era necessário reservar a sua contratação com muita antecedência. Toda a gente queria o trabalho para a mesma altura e não era possível atender a todos. 

O bacelo, Richter de preferência que era o que melhor se adaptava ao clima da região, era plantado num ano e só no seguinte recebia a enxertia com a casta pretendida, fosse ela Moscatel, Fernão Pires, Trincadeiro, Malvasia ou outra qualquer. A equipa de enxertadores era constituída, normalmente, por quatro trabalhadores que se iam revezando na preparação dos garfos, no corte do bacelo, na incisão do mesmo e na finalização com a atadura de junco. Apenas a preparação dos garfos era feita em posição normal, enquanto as outras exigiam o andar curvado bem lá em baixo, junto à terra. Daí a rotação ser fundamental, para que houvesse algum descanso do trabalho mais duro e as tarefas corressem melhor. Ao tempo não havia hérnias discais. Quando muito, doíam os "quadrizes".

As navalhas utilizadas estavam sempre bem afiadas e eram autênticas lâminas. O garfo era aparado de um lado e do outro, com uma delicadeza digna de registo, e iria entrar na incisão do bacelo, bem juntinho, para que a seiva se começasse a misturar de imediato. Dizia-se que o garfo tinha de ser bem molhado na boca do enxertador e que, nela, deveria sempre existir uma pinga de vinho bom. Era a garantia para que a enxertia pegasse.

O junco atava de forma bem forte a junção, havia quem pintasse com cal branca ou alcatrão, e, se tudo corresse bem, a cepa daria um cachito no ano seguinte e iniciaria o seu período fértil por muitos e bons anos. Se corresse mal, o cacho que surgiria era "americano" e o bacelo seria retanchado. Ao fim de dois ou três anos já não se notaria que o retanchado era mais novo do que os outros.

Agora, o bacelo já é enraizado com a enxertia feita e sai direitinho para a vinha. A avaliar pelo que se vê por aí, há muita procura e o negócio floresce.

sábado, 28 de maio de 2022

E o papel?

Ler jornais é saber mais! Será? A cada dia que passa menos gente lê jornais e mesmo aqueles que dizem que lêem, a maior parte apenas lhe passa os olhos, em diagonal. Metade das notícias já estão ultrapassadas, a outra metade caminha vertiginosamente para essa situação e as redes sociais já fizeram os comentários, desmentidos e actualizações. Os canais de televisão encarregaram-se de repisar tudo e mais um par de botas, acrescentando pormenores e conclusões.

Os jornais de referência (o que será isto?) mantêm informação online, actualizando-a ao minuto e tornando dispensável e ultrapassada a edição em papel. Só alguns teimosos, com tendência para acabar, insistem no hábito de comprar jornais como antigamente. E, apesar disso, estou convicto que a grande maioria desses teimosos, eu incluído, também já faz a tal leitura na diagonal, que o tempo é cada vez mais curto e o que era, já foi.

Será bom? Será mau? Não vale a pena perder muito tempo com a dúvida nem julgar que eu estou certo (no meu tempo é que era bom) e todos os outros, principalmente esses novatos que não percebem nada da vida, estão errados. O desfile militar em que toda a gente segue com o passo trocado e um só - eu, claro - marcha com o passo certo, é a alegoria que clarifica a resistência à mudança e a (in)capacidade de entender que a experiência dos anos, não sendo de desprezar, não actualiza nem desenvolve, e contribui pouco ou nada para que o amanhã seja diferente.

E se chove? ... ouve-se o Kissinger que, do alto dos seus 99 anos, tem a solução mágica para a guerra da Ucrânia.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Antigamente ...

Há 35 anos, em Viena, num estádio que já não existe, um jovem de 35 anos (coincidência) que nem sequer era ou é adepto do Futebol Clube do Porto, assistiu, deliciado, à vitória na final da Taça dos Campeões Europeus de futebol, perante o fortíssimo Bayern de Munique. 

O FCP, depois de ter estado a perder por 1-0, deu a volta ao resultado com um golo de calcanhar marcado por Madjer e ainda hoje, tantos anos passados, recordado pela alegria que deu às centenas de portugueses que estavam presentes, com o estádio quase cheio de alemães. Antes do jogo era visível a confiança dos adeptos do Bayern, completamente perdida assim que Juary marcou o segundo e deu a brilhante vitória à equipa treinada por Artur Jorge. Pinto da Costa já comandava os destinos do FCP.

Foi uma viagem inesquecível, com mais de 6.000 quilómetros percorridos por vários países da Europa, alguns dos quais já não existem. Hoje não teria coragem para repetir tal aventura, apenas e só porque tantos quilómetros deixariam uma pegada ecológica enorme ...

Só recordar isto deixa algum cansaço e talvez seja conveniente uma pausa para descanso. A ver vamos como se apresenta o dia de amanhã ...

quinta-feira, 26 de maio de 2022

ESPIGA

O serviço militar obrigatório implicava, na recruta, andar sempre fardado na rua, mesmo para quem tinha o privilégio de estar desarranchado, como era o caso deste escrevinhador, aquando da permanência, curta, no R.I.5.

A folha de cálculo do Excel ajudou-me a verificar que o Dia da Espiga, em 1973, foi a 31 de Maio, quarenta dias após o Domingo de Páscoa, como está determinado na "legislação" que regula estas datas festivas, seguramente muito mais antiga do que aquela que autoriza, nos USA, a venda indiscriminada de armas a qualquer pessoa. Enfim ... depois fazem memoriais a lembrar as vítimas.

Já não recordo os pormenores, mas lembro-me de ter combinado, com três camaradas do pelotão, a ida à Festa da Espiga que, na época, se realizava na Lagoa Parceira e era muito concorrida. A aldeia era relativamente perto da cidade. Hoje está quase ligada.

Fui a casa jantar, desfardei-me e, no velhinho Opel Olympia, lá fomos todos para a bailação da espiga. Os camaradas eram de longe, um de Mirandela, desse lembro-me, Preto de apelido, e os outros também eram da mesma zona, mas já não recordo de onde. Desde que o suplício tinha começado, a 26 de Abril, nenhum deles tinha ido a casa. Na época, de Bragança a Lisboa eram mesmo nove horas de distância, como cantaram os Xutos muitos anos depois. 

Dos quatro, apenas o condutor estava à civil, dando nas vistas pelo cabelo curtinho quando toda a juventude o usava bem comprido e por, nos intervalos das danças - esta série terminou, podem descansar - fazer companhia aos instruendos fardados. Era fácil deduzir que só lhe faltava a farda ...

O Jeep chegou, parou junto à festa e os quatro militares, com a braçadeira PM na manga e o capacete com a mesma indicação (não usavam boina em serviço) passaram os olhos pelas gentes que bailavam. Os instruendos ajeitaram a fatiota, colocaram a boina que estava no bolso e pararam a dança, pedindo desculpa ao par pelo incómodo, forçado pela presença indesejável dos "fiscais". O civil preparou-se para "bater a asa", pela "esquerda baixa". Deu a chave do "bólide" ao único que tinha carta, combinou o local de encontro na cidade e, "ala, que se faz tarde". Por atalhos e carreiros, campos e lameiros, foi num instante que chegou à cidade. Belos tempos, quando correr era fácil, mesmo por becos e vielas.

O carro, com os ocupantes bem uniformizados, chegou daí a algum tempo e sem quaisquer problemas. Os homens do jeep apenas tinham verificado as dispensas do recolher e mandado sair dali de imediato. Os três regressaram ao quartel, na entrada das 23 horas. O outro, felizardo, dormiu em casa. Voltou às sete da matina, como era costume quando não havia instrução nocturna. 

Nessa noite de Espiga até as papoilas murcharam ...

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Palavras bonitas

BALADA DA AMEIXA SECA

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

O mal do Ocidente - quem há que não o sinta? -
é não ter a tripa sempre limpa.

Com seus altos valores, o Ocidente
dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:
dão melhores guerrilheiros do que nós.

Um saquitel de arroz, uma biciclet',
arma na bandoleira - e lá vai o viet.

<<Noss'povo>>, ao contrário, come o que apanha à mão.
Até parece fome de muita geração!

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.
Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,
<<Noss'povo>> já nada tem de marinheiro.

Sua tripa, represa, é trabalhosa.
Sua prosápia já só é má prosa.

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas
manda cortiça, vinho, diplomatas.

Espera contrapartidas: sol-e-vistas
é cartaz que atrai muitos turistas.

Mas com ameixa seca - coisa pouca! -
é que pode acordar sem amargos de boca.

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

Tomai lá do O'Neill
Alexandre O'Neill
Círculo de Leitores (1986)

terça-feira, 24 de maio de 2022

Contas trimestrais

Três meses são passados e "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes". A guerra entrou na rotina dos noticiários e de todos nós, sem que se vislumbrem sinais de o seu fim estar próximo.

Comentários daqui, opiniões de acolá, certezas hoje, negações amanhã, cálculos sobre baixas e destruições, propaganda para consumidor externo ou interno, tanto faz. Tudo marcha ao som das trombetas de novos avanços, recuperações, tomadas.

Na certa, haverá muita gente a ganhar com as descargas mortíferas de qualquer dos lados, os mísseis de uns terão mais pontaria que os dos outros, os soldados de um lado serão mais corajosos nas trincheiras, os do outro mais afoitos nos caminhos, uns são assim, outros assado.

Os grandes tratadistas de "economês" fazem previsões, de ciência certa, como sempre, sobre o que vai acontecer ao PIB, à inflação e aos juros, e de como o mundo (leia-se, o Zé) vai sofrer as consequências.

Os que ouvem os mísseis, sentem as balas por cima, vêem as suas casas, e as suas vidas, destruídas, pensarão:

- Que mal fiz eu?

Faz parte da história. Sempre foi assim, sentenciarão os sábios que tudo dominam.

- Ainda não estão reunidas condições para se iniciarem as conversas para a paz. Lá chegaremos, sem pressas ...

Por aqui, vamos estando bem. Até vamos ser beneficiários líquidos, como bem disse o nosso Marcelo, que sabe disto a potes, é uma inteligência superior e tem muita dificuldade em estar calado.

Valha-nos a Pedra Filosofal, de António Gedeão, cantada por Manuel Freire, garantindo que:

... sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança ...

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Sinas

Por muito mal que estejas, ali ao lado há sempre quem esteja pior.

Está por cá há vinte anos. Tinha chegado há pouco quando a conheci a procurar trabalho. Foi admitida na Associação que era (e é) a minha e por lá se mantém ainda. Nasceu na Ucrânia, tem o filho na guerra e dois netos e a nora refugiados na Polónia. 

Atingiu, recentemente, a idade da reforma. Foi à Segurança Social saber quanto lhe caberia e começou a fazer planos para o regresso ao convívio dos seus. A parca pensão que lhe informaram ir ser atribuída chegaria para viver lá com alguma dignidade. A guerra alterou todos os planos e trouxe sofrimento, muito, visível no acabrunhamento que mantém sempre. Para cúmulo, a carta que recebeu referia um valor de menos de metade do que lhe havia sido indicado. 

- Não percebe nada. Ajude mim, favor.

Tentei esclarecer e não foi fácil. Apesar dos anos, o vocabulário é curto e "provisória" era uma palavra desconhecida. A pensão é provisória até chegar um documento do seu país de origem, que permitirá o cálculo da pensão definitiva. Quando? Ninguém sabe.

Uma segunda carta informa que, daquele valor que é provisório, ainda lhe vão descontar, em seis prestações, uma verba que o Fundo de Desemprego lhe terá pago a mais. Ainda foi mais difícil de explicar. 

- Fui lá quando não pagaram ordenado. Passei fome. Comi pão duro com água muitos dias.

A Segurança Social só atende por marcação. Vou acompanhá-la lá, no início de Junho, sem grande esperança de conseguir solução. Se calhar, nem me deixam entrar!

domingo, 22 de maio de 2022

Milagre

O pão não se transformou em rosas, mas o milagre aconteceu na mesma. O Oeste, provinciano, recebeu rosas da capital (não capitalistas) que, vê-se logo, são de qualidade superior. Lisboa foi bafejada pela sorte. Por lá tudo é bom e bonito. E deve viver-se muito bem: se faltarem moedas, é só ir à Câmara!

Noutros tempos, a fotografia era tirada e havia que esperar até se tirarem outras. O rolo, de 12 ou 24, só ia para revelação quando estava completamente utilizado. Depois, bem depois era levá-lo à loja (havia uma, no início da Rua do Ouro, do lado direito de quem desce, onde trabalhava uma menina de Alcobaça) e aguardar que a revelação fosse efectuada e o envelope as trouxesse todas. Por vezes, nos mais amadores, acontecia que algumas ficavam estragadas, mas tinham de ser pagas na mesma. Agora é tudo num instante e à borla. 

O meu amigo ADS fotografou umas rosas "alfacinhas", "roubadas" nos jardins da zona onde fica o estádio do (outrora) "Glorioso" e zás, mail com elas, e eis que chegam, no mesmo instante em que "embarcam". Modernices ...






sexta-feira, 20 de maio de 2022

Miscelânea

E se, de repente, o tempo parasse? E alguém coligisse todo o nosso passado e o deixasse parado, sem qualquer hipótese de se emendar, burilar, substituir, omitir, clarificar? Devia ser uma frustação enorme, com muita gente a desesperar pela chegada do dia de amanhã, implorando a santos e santinhos para que isso acontecesse de forma rápida e, se possível, de noite. Apesar de não suceder e os dias passarem inexoravelmente uns a seguir aos outros, há pessoas que não se apercebem disso e continuam a viver, a pensar e a falar como se os automóveis ainda tivessem só três velocidades e a caixa das mesmas não fosse sincronizada.

Por força das Festas da Cidade, esta semana teve o seu início no domingo, com uma excelente participação dos habitantes e também de bastantes forasteiros que nos visitam regularmente e aproveitaram a circunstância para se familiarizarem com o que acontece por cá e com o pouco que vai mudando. Há muitos, muitos anos, a "boca pequena" dizia que eram as "festas do pau caiado", numa referência às bandeiras que eram empoleiradas nas varolas de eucaliptos caiadas de branco. Os pontos altos dessa época eram a abertura do Hospital Termal, a romagem à Rainha das gentes importantes, o desfile musicado dos Bombeiros e a largada de pombos. Desta vez, não houve o habitual concerto que sacudia os tímpanos e obrigava a um esforço grande das cordas vocais, mas aconteceram muitas e variadas organizações, numa tentativa, parece-me que conseguida, de agradar a muita gente. Nas cerimónias oficiais, o actual Presidente da Câmara criticou os antecessores de forma clara e objectiva, e caiu o "Carmo e a Trindade", com muita gente a achar que o momento era de salamaleques e de omissões. Talvez o fim de semana lhes proporcione um bom mergulho na Foz e a água fria lhes lave os neurónios.

Mas há mais vida para além das Caldas. Nesta semana, soubemos que o Primeiro-Ministro irá deslocar-se à Ucrânia, expressando a solidariedade de Portugal para com o país devastado pela invasão russa. A notícia não foi dada pela Agência Lusa, talvez ainda não refeita do ataque informático de que foi vítima. Marcelo Rebelo de Sousa, recordando as suas brilhantes competências de jornalista e comentador, substituiu os profissionais e o próprio António Costa, e deu a "cacha" não como segredo mas em plena conferência, para que nenhum jornal ou televisão se considerasse prejudicado. Há coisas que nunca esquecem ... 

A guerra mantém-se, com o rigor das balas e da destruição a terem bastante similitude com as notícias produzidas ou boatadas. Também o jornalismo atravessa uma fase muito difícil. 

Para culminar uma semana em grande, tudo indica que o coronavírus está longe de se eclipsar, contrariando, decerto por teimosia, todos aqueles que achavam ter pecado por tardio o regresso à normalidade, mesmo não tão normal como se desejaria.