sábado, 27 de agosto de 2022

Técnica de vendas

A ânsia e a necessidade de aparecerem estão a tornar, por vontade própria, a vida privada das ditas celebridades uma porta escancarada a tudo o que fazem, nos locais mais exóticos e nas poses mais ousadas.

As redes ditas sociais vieram trazer à superfície aquilo que, antes, só os que tinham acesso às revistas da fofoquice ou aos programas cor de rosa  das televisões podiam ver. Hoje, essas revistas e esses programas têm a vida facilitada, limitando-se a espreitar as páginas de cada uma das celebridades e a delas retirarem um manancial de fotos, ditos, exibições, poses, revelações, mais do que suficientes para encher páginas e páginas de futilidades.

- Ontem a Cristina Ferreira veio às Caldas ver os D.A.M.A. Publicou uma fotografia no Instagram, junto à Loja do Cara**o.

Como bom curioso, fui à procura e encontrei a fotografia da senhora, sem a identificação da loja, por falso pudor ou pela necessidade de não desviar atenções. O objectivo era fazer publicidade às sapatilhas que trazia calçadas e que, pelos vistos, pertencem à sua nova colecção. Lembrei-me, sem esforço, de uma brincadeira pseudo-publicitária com que, há longos anos, jovens atrevidos brincavam.

"Comprem, meninas, comprem, meias da Casa Baona, que vão das pontas dos pés até às bordas da ... comprem, meninas, comprem!"

Para ser politicamente correcto, actualizar o dito e adequá-lo à foto, a legenda deveria ser:

Comprem, meninas e meninos
Ténis da Cristina Ferreira
São brancos, pretos, mui finos 
E tornam a marcha foleira!

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Lixos

As garrafas de cerveja, vazias, os maços de tabaco, vazios, as embalagens de iogurtes, vazias, os jornais, poucos, os excrementos dos animais, muitos, as "beatas" dos cigarros, muitas, o papel pardo que embrulhou a sandes, o saco de plástico já utilizado, a caixa de cartão onde vinha o brinquedo, a máscara utilizada, o guardanapo de papel que serviu para limpar os beiços ou qualquer outra parte, tudo isto faz parte da paisagem usufruída por quem ousa andar pela cidade sem ser de carro.

Se se perguntar a todos e a cada um, ninguém acha normal e todos referirão, até, que nunca o fazem. E o raio do lixo aparece, talvez caído do céu aos trambolhões ou deixado por algum ET distraído e com pressa de regressar ao seu planeta. Até na praia, onde toda a gente anda descalça, felizmente não por necessidade mas apenas pelo prazer de pisar a areia e sentir a água, o lixo está sempre presente. A garrafa enorme, que o pescador levou para lhe fazer companhia e que dela se "esqueceu", a caixa dos anzóis que já não os tem e, por isso, se deita fora, o saco que levou a marmita e algum resto dela, se o mar o não levou. Tudo se encontra, sem sequer procurar muito.

Continua a não existir respeito pelos outros e pelo espaço que é de todos. A carapuça é para quem a enfia, mas talvez se justifique espalhar cartazes à laia de sinais de trânsito, bem visíveis, com a mensagem:

Eduque-se. Não seja PORCO. Leve o lixo consigo e coloque-o no caixote.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Há partes da nossa história que, ao invés de serem escondidas, deveriam ser divulgadas, estudadas e bem difundidas por toda a gente, para que todos pudéssemos aprender cedo que há um reverso e que, enquanto povo, temos muitas coisas que nos orgulham mas também temos muitas outras que nos envergonham e delas não nos devemos esquecer.

O volfrâmio, a escravatura, o colonialismo, a crendice, os massacres, a miséria, a subserviência, o poder, a vontade de o ter e a forma de o exercer, causam sobressalto na leitura e vontade de chegar depressa ao fim, digerindo muito bem o que vai ficando contado, num misto de ficção e realidade e com um domínio incrível da forma.

"(...) Foi quando chegaram dois novos reclusos. O jipe estacionara perto da vala e Pedro olhou de soslaio enquanto descarregava as pedras. Conhecia um deles. Era o mulato Toni. O respeitado zelador da Câmara Municipal. Pedro seguia na direcção da pedreira e ouvia os berros e as ameaças do costume. O vocabulário a reduzir-se a categorias simples. A repetições. Começava a ser sempre o mesmo. Dia após dia. Meu filho da puta. Fuba. Cabrão de merda. Esvaziar o mar. Ó-aí-tu-ó-artista. Massapão. Confessar. Britar pedras. Encher as tinas. Secção. Bate-pá, que o gajo fala. É só assinar esta declaração.

À tarde já Toni se integrava nos trabalhos. Pedro cumprimentou-o quando o viu subir na primeira viagem a caminho da pedreira. O zelador da Câmara respondeu com um sorriso. 

E então chegou um carro com o Governador e Xavier Sarmiento. O chofer numa corridinha a abrir as portas para que o senhor Governador da Província e o chefe-geral das milícias não tivessem de dar-se à maçada de puxar um manípulo. Xavier de bengalim.

Ficaram os três a falar em voz baixa e a fazer gestos na direcção da fila de homens que continuava a descer como se fosse um corpo único. O chofer, depois, aproximou-se a olhar uns e outros. Andava numa passada cadenciada e estudada de soldado recruta e tinha divisas de sargento a lustrar nos ombros. A farda assentava-lhe mal. Arranjada à pressa. Mas dava-lhe uma identidade nova, e ele caminhava de cabeça muito erguida e de peito de fora como se fosse já uma outra pessoa, e não o Almeida, o subserviente, sempre às ordens da senhora e das meninas da Roça Bragança, quando a senhora ou as meninas precisavam de motorista para ir à cidade ou de passeio às praias do Sul.

Pedro abrandara ligeiramente o passo na fila a olhar o sargento-chofer e a procurar perceber se havia relação entre a chegada do jipe com dois novos reclusos e a chegada do automóvel com a comitiva do motorista-Almeida transformado em sargento das milícias.

O certo é que desapareceram em direcção ao armazém, e durante algum tempo retomou-se a anormalidade já corrente nos trabalhos da secção de transportar pedras à cabeça para encher as valas. Até que o grupo do Governador apareceu de novo a olhar ao longe, e o subserviente-Almeida se aproximou, e os guardas iniciaram um movimento harmonioso e disciplinado de ordem unida a chicotear reclusos.

- É aquele. (...)"

As pessoas invisíveis
José Carlos Barros
Leya (2022)

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eternidade?

Seis meses decorridos e "tudo na mesma, como a lesma".

A guerra, que a Rússia promoveu ao invadir a Ucrânia, continua sem sinais de acabar. Nem as perspectivas de abrandamento surgem e muito menos aparecem ideias que possam levar aos caminhos da paz.

Tudo tende para infinito, como na matemática, e não há ninguém que levante a voz e diga:

- Basta!

Até quando os interesses se sobreporão às dificuldades das gentes que sofrem na pele e aos que irão, ou já estão, a sentir o peso na carteira?

terça-feira, 23 de agosto de 2022

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Serventia

Não era um pedreiro qualquer, muito menos um trolha daqueles que sujam muito e fazem mal. Era conhecido pela perfeição com que executava todos os trabalhos e pela capacidade em arranjar soluções, mesmo nos casos bicudos. Também eram parte intrínseca dele o mau feitio, a ausência de um sorriso, o semblante sempre fechado e carregado, e a exigência de ter sempre um servente a seu lado. Recusava trabalhar sozinho e era ele que escolhia o acompanhante.

Falava baixo e devagar, com momentos em que as palavras eram sussurradas, numa momice exclusiva e impossível de entender. A perfeição com que executava tudo o que lhe era pedido superava os atributos negativos, que fazia gala em exibir, sabendo que só recorriam a ele quando mais ninguém era capaz. Era bom no que fazia, e sabia-o. Quando era preciso, havia que aturá-lo mais as suas exigências.

Daquela vez foi-lhe pedido que arranjasse um bocado de parede junto à porta principal, caído em consequência de uma manobra mal calculada do tractorista, quando se aprestava para recolher um monte de folhas no pátio da entrada. Era fundamental que o trabalho fosse feito depressa e bem e, para isso, havia pouco quem. Era necessário impedir a todo o custo que o patrão, quando regressasse, se apercebesse do que tinha acontecido. Só o João conseguiria ...

- Quero o Joaquim comigo!

Sem discussão, foi-lhe feita a vontade. Pediu também um banco para se sentar, dado que o trabalho era a nível baixo e já lhe custava dobrar-se. O Joaquim cirandava de um lado para o outro, cumprindo as suas ordens, secas e claras.

- Cimento ... areia ... água ... esponja ... pincel ...

Tudo o que era necessário para a perfeição da obra tinha de aparecer mal ele abria a boca. Numa das deslocações, o Joaquim demorou mais um pouco e 

- Ó Joaquim ... Joaquim (mais alto) ... Joaquim (um berro)

- Diga, senhor João.

- Dá-me ali aquela colher.

A colher tinha-lhe caído das mãos e estava ali, perfeitamente ao seu alcance. Apanhá-la era trabalho de servente!

domingo, 21 de agosto de 2022

Palavras bonitas

MULHER-POETISA

Pareces um mistério
intransponível

Alguém que se
esquivou 
ao seu preceito

Na recusa
de obedecer à vida

Ao quererem-te domada
e desse jeito
dócil  obediente  submissa

<<Impossível>> - respondeste
branda e esquiva

Sou mulher
Revoltosa
E poetisa

Poemas para Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2012)

sábado, 20 de agosto de 2022

Contrastes

Uma manhã de sonho, admitindo-se como verdade que se pode sonhar com o passado, estando bem acordado e com uma realidade visível e sentida.

Já se sabia (o saber da experiência feito) que a semana de mar calmo, céu azul e vento ausente servia apenas de engodo, e que viriam dias, muitos, para se sonhar, e recordar, essa dádiva tão fugaz.

Ontem o vento não deu sossego, o mar só deixou entrar na "aberta", mas o sol ainda nos veio visitar. Hoje até o astro-rei faltou. Céu cinzento, mar revolto, nem a camisola saiu do tronco. O "tapume" ainda foi colocado, a bola de Berlim comprada, umas dúzias de páginas lidas.

- Pode ser que abra ...

Um outro teimoso aproveitou para falar sobre a sua desdita, demonstrando que o trabalho pode, se não nos acautelamos, ser um modo quase de morte e não um modo de vida. 

- É preciso ter calma. Tudo se vai resolver ...

A palmadinha nas costas que soluciona todos os problemas, quando estes acontecem aos outros ...

- E, com isto tudo, já é meio dia e vinte e do sol, nem sombra!

Teimosos, amanhã voltarão. Há sempre a esperança de que o calor que grassa no país experimente vir até à Foz e dê tréguas aos fogos que o fustigam de lés a lés.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Recordações

Numa época em que os animais, e muito bem, são acarinhados e há muita gente a envidar esforços para que sejam respeitados, a memória fez "ressuscitar" um conjunto de quadras que constavam de um dos livros da instrução primária, talvez o da 4ª. classe. 

A "enciclopédia Net" esclareceu que o seu autor foi Pedro Diniz (1839?-1896) e que Antero de Quental o recolheu no seu Tesouro Poético da Infância, livro que não consta da biblioteca caseira mas que ainda é possível encontrar à venda.

E, em rima, se confirma e esclarece que o corvo crocita, a raposa regouga e alguns burros, não todos, zurram

                    VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                                        O pardal, daninho aos campos,
E cacareja a galinha;                                             Não aprendeu a cantar;
Os ternos pombos arrulham,                               Como os ratos e as doninhas,
Geme a rola inocentinha.                                      Apenas sabe chiar.

Muge a vaca, berra o touro;                                 O negro corvo crocita;
Grasna a rã, ruge o leão;                                      Zune o mosquito enfadonho;
O gato mia, uiva o lobo,                                       A serpente no deserto
Também uiva e ladra o cão.                                 Solta assobio medonho.

Relincha o nobre cavalo;                                      Chia a lebre; grasna o pato;
Os elefantes dão urros;                                         Ouvem-se os porcos grunhir;
A tímida ovelha bale;                                            Libando o suco das flores,
Zurrar é próprio dos burros.                                Costuma a abelha zumbir.

Regouga a sagaz raposa                                       Bramam os tigres, as onças;
(Bichinho muito matreiro);                                   Pia, pia o pintainho;
Nos ramos cantam as aves,                                  Cucurica e canta o galo;
Mas pia o mocho agoureiro.                                 Late e gane o cachorrinho.

Sabem as aves ligeiras                                          A vitelinha dá berros;
O canto seu variar;                                               O cordeirinho balidos
Fazem às vezes gorjeios,                                     O macaquinho dá guinchos;
Às vezes põem-se a chilrar.                                A criancinha, vagidos.

                                                A fala foi dada ao homem,
                                                Rei dos outros animais.
                                                Nos versos lidos acima,
                                                Se encontram, em pobre rima,
                                                As vozes dos principais.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Sapiência

Dragomir Knapic, um refugiado da então Jugoslávia a leccionar em Portugal, ensinou-me, há mais de meio século que "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". E este  pensamento acompanha-me desde então e mantêm-se sempre actual.

Hoje, ao continuar a Mocidade Portuguesa, de Jorge Calado, obra já aqui referida e cuja leitura se encontra quase, quase no fim, retive uma citação de uma peça de teatro escrita por William Shakespeare no final do século XVI ou no princípio do XVII, que não conhecia. A peça chama-se "Como lhe aprouver", tem uma personagem com o meu nome próprio, razão mais do que suficiente para figurar por aqui e tem esta frase deliciosa:

"Um tonto pensa que é sábio, e um sábio sabe que é tonto"

Está tudo dito!