sábado, 3 de setembro de 2022

Sonhos

Li, ouvi, ou sonhei que Mário Laginha e Pedro Burmester estão a preparar um espectáculo a dois, apenas com músicas de Bernardo Sassetti.

Vou estar atento e tentar não perder. Infelizmente, a três nunca mais será possível. Ficam os registos para recordar sempre.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Comboios

Caminhamos a alta velocidade para o final do ano e nem sequer utilizamos o TGV de que tanto se fala e nunca mais cá chega.

Continuamos a ter as ronceiras automotoras como as que, há quase meio século, me serviam de meio de transporte daqui para a capital e de lá para cá, só aos fins de semana e não em todos. As viagens, num e noutro sentido, eram agradáveis. Permitiam sempre pôr um pouco do sono em dia (ou em noite), sentado ou deitado, consoante a disponibilidade do banco. O "pica" surgia na carruagem após uma das muitas paragens, em todas as estações e apeadeiros, e, se era simpático, seguia em frente e não perturbava o sonho do dorminhoco. Se não o era ... abanava com força o ombro e o bocadinho de papel era subtraído ao bolso e entregue quase sem que os olhos se abrissem. Depois, era aguardar pelo túnel do Rossio ou pela chegada às Caldas. Na época, duas horas de sono, mesmo que solto, eram muito importantes.

Ouve-se dizer que é desta! A linha do Oeste irá ser completamente remodelada, electrificada e, dentro de dois anos, permitirá que uma ida a Lisboa se faça em pouco mais de uma hora, confortavelmente sentado e sem as pernas encolhidas. Nessa altura, a procura deverá impedir que haja gente deitada no banco, mas compensará.

A ver vamos! 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Espelho

Pela manhã, quando o dia ainda nem tinha percorrido um terço do que lhe estava destinado, já o "homem do espelho" ali se instalava, preparado para, como é costume, me questionar acerca da barba, dos cabelos brancos, das rugas, da cara de caso em razão da noite mal dormida, dos planos para as tarefas do dia, tudo o que lhe vem à cabeça e despeja sobre mim, sem preceito nem respeito, enquanto a cara é ensaboada e antes de a lâmina começar a (des)fazer a barba.

Surpresa! Hoje não foi assim, porque toda a regra tem excepção, sabe-se há tempos infinitos.

- Não vale a pena gastar "latim" a dizer-te que estás velho. Toda a gente vê e tu melhor que ninguém. Lembro-te apenas, para a eventualidade de te teres esquecido, que o teu filho faz hoje anos e que, até para ele, o tempo passou num instante.

Estava eu, meio aparvalhado às voltas com a espuma de barbear, à espera que surgisse do lado de lá alguma coisa nova, uma ideia genial, uma descoberta providencial, qualquer coisa que me diminuísse a santa ignorância e ele sai-se com aquela vulgaridade.

- Que novidade ... Isso sei eu há quarenta e um anos e não preciso que me lembres! 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A acabar ... ou talvez não

Agosto está a chegar ao fim e o mar quer deixar claro que é ele quem manda e não vale a pena perder tempo a espreitar o boletim meteorológico ou as aplicações que tudo mostram, quando as câmaras estão a funcionar, o que não acontece já há alguns dias com a da Foz. Dizem que está assim ou vai estar assado, que estará nublado e com boas abertas, com a temperatura a descer e nortada forte, havendo até possibilidades de alguns chuviscos. Tretas!

Chega-se lá e nada do que estava previsto está a acontecer. O mar está chão, corre apenas uma pequena brisa, a água tem uma temperatura óptima (para quem está habituado ao gelo), que delicia os veraneantes, bem menos do que na passada semana. Bandeira verde, a contribuir para a estatística e a contradizer aqueles que dizem que a Foz só tem duas cores: amarelo e vermelha.

- Tem cuidado. Sem dares por isso, foste arrastado um bom bocado para o lado da aberta.

Há-de haver sempre um defeito ... 

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Saúde

Fazer frente aos interesses corporativos instalados acaba sempre da mesma maneira. Via-se, e sabia-se, que era uma questão de tempo.

Marta Temido demitiu-se esta madrugada da função de Ministra da Saúde, tomando a decisão há muito reclamada por opinion makers e por gente que trabalha tanto, mas tanto, e ainda consegue comentar tudo e um par de botas a qualquer momento, fazendo parecer que esse "trabalho" lhe ocupou muito do seu sagrado tempo e lhe vai custar recuperar a perda. É claro que esse sacrifício é pela boa causa de esclarecer o "Zé" que, coitado, continua a precisar de quem o eduque, mastigando-lhe a comida para lhe evitar o trabalho de pensar, acessível apenas a uma meia dúzia de dotados.

Há já muita gente à espera, todos extremamente capazes de fazer bem melhor e mais rápido. António Costa não terá qualquer dificuldade em preencher o lugar e não será contestado, se estiver disponível para escolher alguém que marche ao som da banda e faça a vontade a quem disto sabe a potes e a quem coça sempre para dentro.

Da ex-Ministra da Saúde ficará, para alguns onde me incluo, a recordação da coragem, da dedicação e do empenho, postos na função e na resolução dos problemas gravíssimos que a saúde atravessava e a pandemia agravou. A mulher que mostrou ser forte, mesmo quando as lágrimas caíram.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Aritmética

No início acontecia de vez em quando. Duas, três vezes por semana, nunca até muito tarde e sem abuso de copos. A pouco e pouco, o que era excepção passou a rotina e, no final de cada dia de trabalho, ao primeiro copo com um colega seguiam-se muitos outros, com um companheiro de ocasião, um cliente já conhecido da tasca, um que vinha pela primeira vez e necessitava de ser incluído. Umas rodelas de chouriço, uma saladinha de polvo, uns bocadinhos de orelha com oregãos, uns tremocinhos, uns amendoins, e o copo sempre cheio.

A bebedeira não tardava e o regresso a casa acontecia cada vez mais tarde. O hábito de jantar foi desaparecendo, o de encontrar a mulher acordada também. A casa passou a ser apenas local de pernoita, e breve.

Naquela noite, chegou um pouco mais cedo e, como sempre, trôpego da carga. Dirigiu-se à cama e pareceu-lhe que o espaço vago era estreito para albergar o seu corpo meio torcido. Desconfiado, deitou-se.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, contou.

- Estou muito bêbedo ... dois meus e dois da minha mulher são quatro.

Saiu da cama. Arrastou-se até ao fundo e, agora com as mãos, contou de novo.

- Um, dois, três, quatro. Certo! Dois meus e dois da minha mulher.

Voltou a deitar-se e nova dúvida aritmética.

- Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Está mal! Bebi assim tanto?

Levantou-se de novo, arrastou-se até ao fundo da cama, segurou-se bem e contou de novo.

- Um, dois, três, quatro. Certíssimo! Dois meus e dois da minha mulher. Vou dormir que o meu mal é sono.

Acordou tarde e ficou surpreendido por não haver mais ninguém na cama. Chamou. Ninguém respondeu. Levantou-se, foi à cozinha, passou pela casa de banho, espreitou a sala, nem vivalma. A porta da rua estava aberta ... nunca mais teve dúvidas na contagem.

A partir daquela noite, passou a haver apenas dois pés na cama!

domingo, 28 de agosto de 2022

Gás

Não há gás para escrever. 

Com os aumentos que se diz estarem a chegar, é imperioso começar a poupá-lo, perseguindo o objectivo de o fazer chegar para as necessidades vitais, sem consumir uma grande fatia do rendimento mensal.

Espera-se, ansiosamente, que Costa e Marcelo se entendam e que regulem o que há a regular, e soltem o que é passível de soltura, de acordo com as leis em vigor, sejam elas do direito direito ou do que não está estabelecido em letra de forma mas toda a gente pratica.

Os gases ficarão eternamente agradecidos, com a consciência plena de que não têm vida fácil e lhes são colocadas muitas barreiras e impedimentos.

sábado, 27 de agosto de 2022

Técnica de vendas

A ânsia e a necessidade de aparecerem estão a tornar, por vontade própria, a vida privada das ditas celebridades uma porta escancarada a tudo o que fazem, nos locais mais exóticos e nas poses mais ousadas.

As redes ditas sociais vieram trazer à superfície aquilo que, antes, só os que tinham acesso às revistas da fofoquice ou aos programas cor de rosa  das televisões podiam ver. Hoje, essas revistas e esses programas têm a vida facilitada, limitando-se a espreitar as páginas de cada uma das celebridades e a delas retirarem um manancial de fotos, ditos, exibições, poses, revelações, mais do que suficientes para encher páginas e páginas de futilidades.

- Ontem a Cristina Ferreira veio às Caldas ver os D.A.M.A. Publicou uma fotografia no Instagram, junto à Loja do Cara**o.

Como bom curioso, fui à procura e encontrei a fotografia da senhora, sem a identificação da loja, por falso pudor ou pela necessidade de não desviar atenções. O objectivo era fazer publicidade às sapatilhas que trazia calçadas e que, pelos vistos, pertencem à sua nova colecção. Lembrei-me, sem esforço, de uma brincadeira pseudo-publicitária com que, há longos anos, jovens atrevidos brincavam.

"Comprem, meninas, comprem, meias da Casa Baona, que vão das pontas dos pés até às bordas da ... comprem, meninas, comprem!"

Para ser politicamente correcto, actualizar o dito e adequá-lo à foto, a legenda deveria ser:

Comprem, meninas e meninos
Ténis da Cristina Ferreira
São brancos, pretos, mui finos 
E tornam a marcha foleira!

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Lixos

As garrafas de cerveja, vazias, os maços de tabaco, vazios, as embalagens de iogurtes, vazias, os jornais, poucos, os excrementos dos animais, muitos, as "beatas" dos cigarros, muitas, o papel pardo que embrulhou a sandes, o saco de plástico já utilizado, a caixa de cartão onde vinha o brinquedo, a máscara utilizada, o guardanapo de papel que serviu para limpar os beiços ou qualquer outra parte, tudo isto faz parte da paisagem usufruída por quem ousa andar pela cidade sem ser de carro.

Se se perguntar a todos e a cada um, ninguém acha normal e todos referirão, até, que nunca o fazem. E o raio do lixo aparece, talvez caído do céu aos trambolhões ou deixado por algum ET distraído e com pressa de regressar ao seu planeta. Até na praia, onde toda a gente anda descalça, felizmente não por necessidade mas apenas pelo prazer de pisar a areia e sentir a água, o lixo está sempre presente. A garrafa enorme, que o pescador levou para lhe fazer companhia e que dela se "esqueceu", a caixa dos anzóis que já não os tem e, por isso, se deita fora, o saco que levou a marmita e algum resto dela, se o mar o não levou. Tudo se encontra, sem sequer procurar muito.

Continua a não existir respeito pelos outros e pelo espaço que é de todos. A carapuça é para quem a enfia, mas talvez se justifique espalhar cartazes à laia de sinais de trânsito, bem visíveis, com a mensagem:

Eduque-se. Não seja PORCO. Leve o lixo consigo e coloque-o no caixote.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Há partes da nossa história que, ao invés de serem escondidas, deveriam ser divulgadas, estudadas e bem difundidas por toda a gente, para que todos pudéssemos aprender cedo que há um reverso e que, enquanto povo, temos muitas coisas que nos orgulham mas também temos muitas outras que nos envergonham e delas não nos devemos esquecer.

O volfrâmio, a escravatura, o colonialismo, a crendice, os massacres, a miséria, a subserviência, o poder, a vontade de o ter e a forma de o exercer, causam sobressalto na leitura e vontade de chegar depressa ao fim, digerindo muito bem o que vai ficando contado, num misto de ficção e realidade e com um domínio incrível da forma.

"(...) Foi quando chegaram dois novos reclusos. O jipe estacionara perto da vala e Pedro olhou de soslaio enquanto descarregava as pedras. Conhecia um deles. Era o mulato Toni. O respeitado zelador da Câmara Municipal. Pedro seguia na direcção da pedreira e ouvia os berros e as ameaças do costume. O vocabulário a reduzir-se a categorias simples. A repetições. Começava a ser sempre o mesmo. Dia após dia. Meu filho da puta. Fuba. Cabrão de merda. Esvaziar o mar. Ó-aí-tu-ó-artista. Massapão. Confessar. Britar pedras. Encher as tinas. Secção. Bate-pá, que o gajo fala. É só assinar esta declaração.

À tarde já Toni se integrava nos trabalhos. Pedro cumprimentou-o quando o viu subir na primeira viagem a caminho da pedreira. O zelador da Câmara respondeu com um sorriso. 

E então chegou um carro com o Governador e Xavier Sarmiento. O chofer numa corridinha a abrir as portas para que o senhor Governador da Província e o chefe-geral das milícias não tivessem de dar-se à maçada de puxar um manípulo. Xavier de bengalim.

Ficaram os três a falar em voz baixa e a fazer gestos na direcção da fila de homens que continuava a descer como se fosse um corpo único. O chofer, depois, aproximou-se a olhar uns e outros. Andava numa passada cadenciada e estudada de soldado recruta e tinha divisas de sargento a lustrar nos ombros. A farda assentava-lhe mal. Arranjada à pressa. Mas dava-lhe uma identidade nova, e ele caminhava de cabeça muito erguida e de peito de fora como se fosse já uma outra pessoa, e não o Almeida, o subserviente, sempre às ordens da senhora e das meninas da Roça Bragança, quando a senhora ou as meninas precisavam de motorista para ir à cidade ou de passeio às praias do Sul.

Pedro abrandara ligeiramente o passo na fila a olhar o sargento-chofer e a procurar perceber se havia relação entre a chegada do jipe com dois novos reclusos e a chegada do automóvel com a comitiva do motorista-Almeida transformado em sargento das milícias.

O certo é que desapareceram em direcção ao armazém, e durante algum tempo retomou-se a anormalidade já corrente nos trabalhos da secção de transportar pedras à cabeça para encher as valas. Até que o grupo do Governador apareceu de novo a olhar ao longe, e o subserviente-Almeida se aproximou, e os guardas iniciaram um movimento harmonioso e disciplinado de ordem unida a chicotear reclusos.

- É aquele. (...)"

As pessoas invisíveis
José Carlos Barros
Leya (2022)