A transformação do lixo em arte e o macaco sai favorecido.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 16 de outubro de 2022
sábado, 15 de outubro de 2022
Livros (lidos ou em vias disso)
No dia em que Agustina completaria 100 anos, abre-se o armário, retira-se um dos vários livros dela que por lá descansam e, à sorte, surge isto:
- Tire lá a salva de prata que não é precisa. Quer dizer que o defeito é um condutor de felicidade?
- Exactamente. A perfeição não é erótica. É o erro que é erótico e não a beleza.
O doutor Horácio punha-se a pensar se Maria Rosa durante toda a vida de casada não estivera sempre informada das escapadelas do Nabasco que, afinal, não tinha necessidade de ter amantes. Os mandamentos não se destinam a promover a perfeição do homem, mas a medir as suas imperfeições, mais necessárias do que ímpias. "Será que ela viu isto?" - pensou o doutor, fazendo como de costume o gesto de acertar os óculos no nariz como para ter a certeza de que eles lá estavam.
Judite não reclamava por não acompanhar o marido e estabeleceu-se um acordo entre eles que agradou a todos: estavam casados, mas fora de certos compromissos que só convinham a uma linhagem, a um nome de família em permanência. Não faziam nem aceitavam convites juntos, não eram vistos ao mesmo tempo em lugares de recreio ou de cerimónia. Isto criava uma falta de cumplicidade que afinal lhes deixava a independência da vontade com respeito à sua própria diferença. Contudo, não ficava esclarecido se o casal se amava ou se experimentavam um conceito novo de matrimónio.
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
Jogos
Logo pela manhã, a ida ao café revela-se obrigatória, para ir comprar o Expresso, aproveitando-se a deslocação para a primeira bica. Durante muitos anos, essa tarefa era realizada ao sábado mas, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, a pandemia ou a concorrência - não faço ideia e não tenciono telefonar a Francisco Balsemão para saber - alteraram a saída para a sexta-feira. Não é melhor nem pior, é apenas diferente, pelo menos para quem, agora, tem os dias todos por sua conta. Sai o sábado à sexta-feira ...
No quiosque que o café mantém, num recanto junto à entrada, vendem-se jornais (cada vez menos), revistas (cor-de-rosa, as preferidas), isqueiros, tabaco de enrolar, mortalhas para o mesmo, cautelas de lotaria físicas e virtuais, registam-se totolotos, totobolas, euromilhões, e, imaginem só, raspadinhas. Pelo que me dizem, é a "mercadoria" que mais saída tem, procurada por gente de todas as idades e disponibilidades, desde o mais abonado àquele que, com alguma dificuldade, ainda consegue descortinar uma notita bem lá no fundo do bolso.
- Esta tem cinco euros. Troque por outra e dê-me mais duas das mesmas.
A nota de vinte foi colocada em cima do balcão e o empregado abre a registadora e prepara o troco. Se bem percebi, seriam dez euros.
- Deixe estar. Dê-me mais duas daquelas.
O dedo apontado definia as preferidas, diferentes das anteriores, mas seguramente das boas. Simples. Talvez até possa ter sido um excelente negócio. Quando saí, a raspagem executava-se com ansiedade, numa das mesas da esplanada. Fiquei sem saber se houve ou não prémio chorudo. Alguém ganhou, disso não tenho dúvidas.
A vida é um jogo ...
quinta-feira, 13 de outubro de 2022
Mea culpa
"Os peixes ouvem mas não falam; os homens ouvem pouco e falam muito."Padre António Vieira - Sermão de Santo António aos peixes
Marcelo Rebelo de Sousa, como bom leitor que sempre foi, deve ter lido este livro há muitos, muitos anos, ainda que, com a pressa que lhe é característica, passou pelo acima formulado como cão por vinha vindimada e não fixou a recomendação implícita.
Foi pena e agora já não é fácil mudar. Cumpriu-se o ditado de que "quem muito fala pouco acerta" e teve de fazer mea culpa na forma como comentou essa grande chatice que está na ordem do dia e que a Igreja não consegue digerir e muito menos explicar.
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
Lápis
Foi a primeira ferramenta de escrita que usei e isso talvez justifique o gosto que ainda se mantém em escrever a lápis. Sempre que necessito de escrevinhar algo, por curto que seja, a tentação é forte e, bastas vezes, o rascunho a lápis sobrepõe-se à tentação de digitar directamente no computador, ainda que haja alguma habilidade com o teclado (presunção e água benta ...).
Para além disto, o lápis sempre me acompanhou na leitura, servindo, em tempos, para anotações despertadas pelos conteúdos ou para comentários que, um dia, alguém lesse e achasse bem estúpidos. Estão por aí muitas provas, que não deixam esquecer essa fase. Agora já não comento nada, mas o lápis continua a acompanhar-me nas leituras.
A edição dos livros sofreu, julgo, transformações imensas no decorrer dos tempos e, ultimamente, deverá estar entregue aos programas informáticos que, automaticamente, se encarregam de efectuar as tarefas antes desempenhadas por aqueles senhores que liam e reliam as provas tipográficas, buscando a "gralha" que podia deitar um trabalho difícil para o lixo.
E é aqui que entra, de novo, o lápis: raro é o livro que não contém "gralhas" e erros ortográficos grosseiros, como os que detectei no livro cuja leitura está em curso: destinguem e caír.
O lápis, zangado e chato, assinala, corrige e sorri ...
terça-feira, 11 de outubro de 2022
Ossos
Há já algum tempo que não conversava com ele, entendendo-se, claro, que o bom dia, boa tarde não são sinónimos de conversa, quando por aí nos encontramos.
- Isto não anda nada bem. Agora, com esta idade, rebentei o menisco. Durante o tempo da bola nunca tive nada nos joelhos e agora, toma.
Um olhar, mesmo não muito concentrado, dava para perceber que havia mais qualquer coisa para contar.
- Já foi ao médico?
- Claro que sim. Fui ao ortopedista F...., fiz vários exames ordenados por ele e, no fim, disse-me que era melhor aproveitar e colocar um joelho novo.
Não imaginava ser possível substituir o joelho natural por um artificial, mas parece que é e, de acordo com o médico do meu interlocutor, até é fácil. Sempre a aprender ...
- Torci o nariz e disse-lhe: ó doutor, na minha idade? Porque não, respondeu. Fica como novo e até nem é caro. Aí à volta de 8.000 Eur e a coisa faz-se.
Estava satisfeito pelo desabafo mas era evidente o desconforto que a situação lhe causou.
- Disse-lhe que ia pensar e falar com a minha mulher. Quando cheguei à rua, mandei-o à m..... com todas as letras, mas sem som. Vou ao SNS tratar do menisco e o joelho novo fica para quando voltar a jogar à bola!!!
Rimos os dois, ainda que seja difícil compreender o negócio na saúde.
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
Orçamento
O documento com as previsões orçamentais para 2023 foi hoje entregue na Assembleia da República, cumprindo, à risca, o prazo legalmente fixado para o efeito. Ficou, assim, desvendado o segredo, com a entrega da pen onde se fixa tudo. Longe vão os tempos das inúmeras páginas em papel, que os recepcionistas tinham dificuldade em manusear. Também desaparece a ansiedade do Presidente da República a qual, na sua idade, não é nada recomendável. Evaporam-se as adivinhações que por aí proliferaram e as opiniões sobre o desconhecido que foram sendo emitidas.
Lá para Janeiro de 2024 já se terá uma ideia, mais ou menos clara, sobre se a "adivinhação" correspondeu à realidade ou se foram "palpites" que pouco se ajustaram à realidade. Essas eventuais divergências já não preocuparão ninguém e muito menos levarão a extensos comentários ou opiniões. Barco parado não faz viagem e, por essa altura, já estará em vigor o OGE para 2024, que terá dado a celeuma do costume em finais de Setembro, princípios de Outubro de 2023, e nos dias subsequentes.
Entretanto, as notícias de Leste não são nada animadoras e, aos olhos de quem, pelo menos por enquanto, está bem longe do conflito real, as nuvens adensam-se e a eminência de mais trovoada acentua-se.
Pergunta-se: as despesas que todos os países têm suportado estavam previstas e devidamente orçamentadas? Resposta: não sejas idiota. Podem sempre fazer-se orçamentos rectificativos, que legalizem os erros do prognóstico.
Há sempre um testo para uma panela. Clarinho como água!
domingo, 9 de outubro de 2022
Constatação
A visita de hoje ao Fólio, festival literário que se realiza na linda vila de Óbidos, confirmou a minha insignificância e permitiu verificar que qualquer semelhança entre a minha capacidade de pensar e de me exprimir com a de quem sabe nem sequer é mera coincidência: não existe mesmo.
A conversa do escritor Mia Couto com o psiquiatra José Gameiro, conduzida pela jornalista Sara Figueiredo Costa marcou bem a distância (era o tema) entre quem pensa bem, exterioriza melhor e sintetiza de forma magnífica, e os outros.
Depois disto, ainda houve tempo para ouvir uma parte de um outro colóquio com a cantora Rita Redshoes, o actor Pedro Lamares e o escritor Afonso Cruz, com a pergunta "Os criadores têm super poderes?" a servir de tema. A parte ouvida foi, também, muito interessante.
Há ainda muito para ver e ouvir no Festival, mas a tarde de hoje será difícil de superar.
sábado, 8 de outubro de 2022
Se ...
Se Jorge de Sena (1919-1978) ainda por cá andasse, não perderia a oportunidade para fazer poemas direccionados a algumas pessoas que, gaguejando, tentam mascarar e justificar o que se vai descobrindo, quando lhes cabe "apenas" a obrigação de fomentar o escrutínio dos factos e a sua punição.
De púrpura andas vestidoQue Roma te concedeupara que humilde defendaso direito dos humildesem Terras de Portugal.Ai cardeal, cardeal!Mas a mitra que te cobrenão te dói como os espinhosna cabeça do teu Mestre.Doem-te os cornos dos ricosdas terras de Portugal.Ai cardeal, cardeal
9 de Dezembro de 1956
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
Espanto
Merecerá um esgar de espanto ou apenas deve ser apelidado de parvoíce, meio estranha quando já está cumprido quase um quarto do século XXI? Talvez seja devido ao desenvolvimento das viagens espaciais, já acessíveis aos mortais bem endinheirados, ou à facilidade de contactos trazida pelos telemóveis e afins. Apesar de tudo, o espanto é generalizado, mesmo até para os incréus.
De acordo com as afirmações do chefe da igreja russa, Putin foi colocado no poder por determinação divina; do lado de lá do Atlântico, Bolsonaro reivindica para si a benção celeste e aqui, neste cantinho à beira mar plantado, Ventura afirma ser inspirado e abençoado por Deus.
Levanta-se a dúvida: chegarão estas notícias lá acima, ao lugar divino, ou de tanto ser invocado o seu nome em vão, Deus já não liga nenhuma e espera que o tempo faça o seu trabalho e liberte a sociedade de tais personagens, confiando no saber resultante da experiência de quem assistiu a tudo.
A mistura da religião com a política deu sempre mau resultado e originou muitas desgraças que ficaram e ficarão na história para todo o sempre, por mais véus que se tentem colocar. Estão a surgir "iluminados" que conseguem ser ouvidos, soletrando falinhas mansas e olhos doces, e tentando, a pouco e pouco mas de forma convincente, fabricar um futuro que não se afigura nada bom.
E tudo em nome de Deus, que não lhes passou qualquer procuração para o efeito.
