sábado, 5 de novembro de 2022

Soninho

O espectáculo começa dentro de momentos. Agradecemos que desliguem os telemóveis. Não é permitido filmar ou fotografar durante todo o espectáculo.

As luzes apagam-se. A conversa com o "vizinho" termina. Há ainda um pequeno sussurro na sala, que depressa desaparece. No palco, os projectores acendem, levando feixes de luz direccionados aos locais onde os artistas tomarão o lugar que lhes está destinado.

São quatro e formam o Júlio Resende Fado Jazz Ensemble que, na noite de ontem, deliciou (quase) todos os espectadores que foram ao CCC. Júlio Resende ao piano, acompanhado da guitarra portuguesa superiormente tocada por Bruno Chaveiro. André Rosinha ilustrou bem que o contrabaixo é um grande instrumento, não só no tamanho. Alexandre Frazão deu um espectáculo dentro do outro, ao mostrar que é possível tocar bateria e deixar para os outros o acompanhamento. Foi a evidência, para quem ainda tivesse dúvidas, que, quando se é bom e se sabe o que se está a fazer, não importa se o estilo é fado, jazz, blues ou outro qualquer. A música feita ou é boa, como foi o caso, ou não presta.

Pouco tempo depois de aquela maravilha estar em curso, "espreitei" o meu "vizinho", com quem tinha mantido um diálogo de circunstância enquanto se aguardava o início. Nada fazia prever o que viria a acontecer. A conversa tinha decorrido fresca e o "vizinho" estava esperançado em ter uma bela noite, embora fosse a primeira vez que ouvia aqueles músicos. 

O "canto do olho" tinha-me sugerido que a cabeça lhe estava a pender para o peito. Pois ... estava a dormitar, ou a dormir, ou a ferrar o galho, ou a descansar, ou a meditar, ou, mais simples, a fazer ó-ó. A música acabou, as palmas soaram fortes e o "vizinho" também aplaudiu com força, embora iniciasse os aplausos com algum atraso.

Foi apenas um descuido, talvez fruto do cansaço do dia ... de reformado. Por vezes, mesmo quem não tem nada que fazer, tem muito trabalho ...

Concentrei-me na qualidade do que vinha do palco, que era muita. Não tardou muito que o "canto do olho" se apercebesse do percurso "cabeçal" e do encerramento das pálpebras. E assim foi, até ao fim, ou quase. Dorme, bate palmas, dorme, bate palmas, ...

Quando se aplaudia a pedir "mais uma", desejou boa noite e saiu pela "esquerda baixa".

O sono apertava e era urgente chegar a caminha, não a do Minho mas a oestina.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Fim de tarde

Do alto da colina onde se encontra o Hotel Inatel da Foz do Arelho desfruta-se uma vista soberba por toda a Lagoa e, perscrutando à direita, lá para o fundo, vêem-se surgir as Berlengas, hoje envoltas numa pequena mancha de nevoeiro. Em outros dias, a bruma aparece tão forte que as faz desaparecer da vista, mantendo-as no coração, naturalmente. 

Sossegadinhas, as ilhas aguardam que o sol nelas se vá esconder e sossegar.

Hoje ficamos por aqui.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Regras de brincar

Na época, os computadores não eram sequer uma miragem e telefones, fixos, apenas havia em algumas casas abastadas. Era um aparelho preto, com um disco para marcar o número pretendido, se a chamada fosse local. Se não, o zero era marcado e aguardava-se que a voz, simpática, de uma menina, ouvisse o número e estabelecesse a ligação.

Não era a época de D. Afonso Henriques mas, contado assim hoje, convenhamos que parece mesmo. Os jogos não eram de computador, de telemóvel, muito menos de consola. Não se brincava nem se jogava noutro sítio que não fosse a rua. Dos pontapés na bola de trapos à bilharda, do pião ao berlinde, do salto ao eixo à "carne sem osso", tudo se disputava no estádio ao ar livre.

Havia épocas para cada brincadeira e apenas a bola permanecia activa o ano inteiro. Os outros tinham a sua altura própria, que não constava do calendário, mas que todos sabiam e se adaptavam. Na época do berlinde, ninguém levava o pião ou a bilharda, por ser tempo perdido. Não haveria companheiros para a competição.

O pião exigia que não houvesse chuva, para que o chão estivesse seco, permitisse marcar bem a roda e o deixasse bailar. No bolso ia sempre um pião velho, para apanhar as ferroadas determinadas pelo jogo, evitando, desta forma, o desgaste do de competição.

Naquele dia, o bolso não trouxe o velho, e o pião de competição, lindo, com um bico bem grande e afiado, teve de sujeitar-se ao castigo imposto pelo falhanço. Eram cinco as ferroadas determinadas e, à terceira, já ele estava bem castigado e eram visíveis as mazelas. A quarta e a quinta foram ainda mais "dolorosas". O adversário, batoteiro, não dava mostras de querer parar. A mão esquerda não hesitou e foi lá abaixo retirar o desgraçado, que já nem beleza tinha. E conseguiu evitar a sexta ferroada que já ia a caminho. Não acertou no pião mas atravessou o indicador. Pânico na "bancada". O pião estava espetado e foi preciso alguma força para o retirar. A "torneira" abriu-se e o sangue jorrou em abundância. Alguém, mais expedito e talvez já com experiência em acidentes idênticos, atou um lenço e a "inundação" terminou.

Depois, bem, depois foi o cabo dos trabalhos para explicar em casa o acontecido,  e suportar a colocação da  gaze com tintura de iodo e o adesivo a segurar. Alguns dias depois, a boa carnadura fez o que lhe competia, embora a cicatriz ainda por cá permaneça.

O importante foi que o pião apenas apanhou as cinco ferroadas que lhe eram devidas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Qual lado?

Agora que a "guerra" se instalou no Brasil, com muita gente a ocupar as estradas e a bradar pela intervenção do exército, o conflito da Ucrânia passou, não para segundo plano, mas para um degrauzito abaixo.

O cepticismo, característica própria e comum dos velhos, garante que as coisas só podem piorar e que os dias que se aproximam vão ser de inverno rigoroso, mesmo que a Protecção Civil não emita alerta de nenhuma cor. 

Para agravar a situação e esclarecer bem quem não saiba, as televisões apresentam-se diariamente nos mercados, fazendo reportagens sempre muito interessantes e esclarecedoras.

- Bom dia. Em directo para a TV X, diga-me: já está a comprar menos peixe, não é verdade?

- Claro. Tem aumentado tanto ... 

- E também diminuiu a compra da carne, não é verdade?

- Pois ... está tudo pela hora da morte.

A câmara faz um grande plano e seguem-se as despedidas.

- Foi a reportagem possível, com toda a gente - compradores e vendedores - a queixar-se dos aumentos de todos os bens. É opinião unânime que, a continuar assim, não vamos a lado nenhum. Devolve-se a emissão aos estúdios. Boa tarde.

Fico intrigado. Pelos vistos, alguém teria programado uma viagem para mim e, agora, sem qualquer aviso, a mesma é anulada. Não vamos a lado nenhum,  de acordo com as palavras, singelas, do repórter de serviço e eu, submisso, sento-me no meu canto, aguardando que a guerra acabe, a inflação diminua, o vencimento aumente, o tempo melhore e os juros façam a quadratura do círculo, aumentando para quem recebe e diminuindo para quem paga, e o repórter determine, com o seu saber da experiência feito, quando me poderei deslocar a qualquer lado.

O meu sexto sentido alertou-me agora que o burro sou eu. Não entendi que o não vamos a lado nenhum era apenas uma figura de estilo. Estou mesmo velho!

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Santos

Dia de Todos os Santos, sejam eles devotos ou incréus, Manéis ou Joões, Chicos ou Zéquinhas. São todos, eu incluído, o que não abona nada a comemoração nem a torna mais importante, antes pelo contrário, como diriam alguns opinadores se, sobre o tema, fossem questionados.

Portugal é um país de Santos, ambição de muitos mas de cuja concretização poucos se podem gabar. Na Europa, devemos ser únicos ou muito perto disso; na Ásia, talvez restem ainda alguns lá por Macau e Timor; em África existirá uma percentagem tão ínfima que tenderá para zero; na Oceânia, se houver meia dúzia, já é um pau e, na América, aparecerão uns quantos que não conseguirão esconder as marcas infligidas pelos portugas que por lá passaram e deixaram semente.

As razões aduzidas mais do que justificam a ausência ao trabalho que a comemoração proporciona. Dificilmente se encontrarão outras coisas, ou temas, ou actividades, onde sejamos tão significativamente importantes e quase únicos.

Há Santos da porta para dentro, da porta para fora, longe, perto, ali, acolá, no Minho e no Algarve, nas Berlengas e nas Beiras, em Trás-os-Montes ou no Ribatejo, na minha rua e, quase certo, na viela mais estreita de Alfama, talvez até nos Farilhões. 

Para cúmulo, ainda há, por todo o lado, os Santos da casa, os quais, por mais que tentem, não fazem, nunca fizeram e não vão fazer, quaisquer milagres.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Poupar

No Dia Mundial da Poupança, até as palavras devem ser limitadas ao estritamente essencial, para que a inflação não dê cabo delas.

Luiz Inácio Lula da Silva derrotou ontem o "caramelo" da boca cheia de favas e será o próximo Presidente do Brasil, se tudo correr dentro da normalidade democrática, como se deseja.

"Amanhã, ninguém sabe"

domingo, 30 de outubro de 2022

Ser e estar

Excerto de uma entrevista a Carlos Tê, publicada no Notícias Magazine de hoje:

"(...) Pergunta - Como se define hoje?

Resposta - Aos 67 anos, das coisas que mais temo é a misantropia. Vir a ser um velho rezingão. É das poucas coisas que peço para não ser. Não que queira ser um velhinho muito alegre. Não é isso. Mas gostava muito de manter o equilíbrio que tenho desde os meus 15, 20 anos. É esse o meu longe (...)"


Dei por mim a concordar com o autor de Chico Fininho e de Porto Sentido, entre muitas outras coisas que escreveu e das quais gosto bastante. Arquibaldo é um livro da sua autoria, "hospedado" cá em casa há pouco tempo, e que aguarda, calmamente, a sua vez de ser lido. Não teço, por enquanto, quaisquer comentários, mas estou convicto de que não me irá desiludir.

Voltando à entrevista, da qual transparecem ideias bem arrumadas e resolvidas, alertou-me para a ousadia de tentar sempre manter o contacto com as pessoas, os problemas, a cidadania, sem medo de ser chato, ultrapassado ou convencido, e muito menos deixar de ser aquilo que sempre fui, mesmo que a irreverência esteja fora de moda.

Afinal de contas, por muito burro que seja, quem já viveu mais de setenta anos, passou por tanto, viu tanta coisa, conheceu muitos "filhos da mãe" e muita gente de bem, não tem que fazer actos de contrição ou quedar-se a um canto à espera que chova.

" É esse o meu longe ", sem qualquer dúvida. Assim o consiga apanhar!

sábado, 29 de outubro de 2022

Desabafos

Conheci, há muitos, muitos anos, um homem que tinha sido motorista do Ministro do Interior, como era, na época, designado o actual Ministro da Administração Interna. Desempenhava ele essa função, de forma meritória, pela certa, quando saiu uma lei impedindo os funcionários públicos de poderem ter outra actividade. Parecia de propósito: ele tinha acabado de assinar um contrato de arrendamento para a exploração de uma bomba de gasolina na capital (bem perto da Gulbenkian, de onde saiu não há muito tempo) e, claro, ficou muito preocupado. 

Para conseguir dormir sossegado, contou a situação do Ministro e obteve como resposta, clarinha como água, uma frase lapidar:

- A., não te preocupes. Isso não se aplica a ti. É só para outros ...

O 25 de Abril trouxe, nas intenções e no papel, a universalidade da aplicação das leis, de forma atempada e justa. Quase meio século depois, continuamos a assistir a julgamentos na praça pública, a situações investigadas durante anos para acabarem no cesto dos papéis, a presenciar expedientes que prolongam os processos até às calendas, a constatar que a justiça, se chegar, poderá ser tudo menos justa.

É conhecido, e faz lei, que o tempo da justiça não pode nem deve ser o da cacha jornalística, muito menos o da câmara e do microfone em punho perseguindo quem é acusado de prevaricar e sem lhe permitir o pleno direito à defesa e à justificação na sede própria: os tribunais.

Porém, permitir que aos fogachos se sucedam os dias, os meses, os anos sem fim à vista, que os expedientes sejam regra e as habilidades sejam correntes, apenas contribui para que a justiça, se um dia chegar, seja tudo menos justa.

A continuarmos assim, corremos o risco de o tribunal aplicar a lei, sem remissão, ao roubo da lata de atum e deixar morrer solteira a culpa de quem "apenas" assinou um contrato que nem leu ou levou um banco à falência.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Festival de Jazz

Hoje é dia de assistir ao concerto que o Real Combo Lisbonense traz ao Festival Caldas Jazz deste ano. É o primeiro em sala dos seis que poderão ser vistos no auditório do CCC, pagando, claro. 

Espero lá estar um pouco antes das 21H30, hora prevista para o início do espectáculo. Já sei que haverá gente que, sem respeito pelos outros, chegará atrasado e com um sorriso nos lábios, rir-se-á da sua esperteza e da "estupidez" de quem chegou a horas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Futuro

Já está aprovado, na generalidade, o Orçamento de Estado para o ano de 2023, estando, por isso, garantido que todos os problemas serão resolvidos ou que todos serão agravados, consoante a perspectiva e o posicionamento político dos deputados sentados na AR. 

Nenhum dos lados da barricada pode garantir que as previsões sairão certas ou erradas, sendo que o mais provável é ninguém acertar. Os orçamentos assentam, todos, em previsões que, no caso do OE, suportam opções políticas. Em teoria, serão objecto de concretização no ano a que se referem. 

Se já é difícil, ou até impossível, acertar em circunstâncias normais, a actual conjuntura garante, sem margem para quaisquer dúvidas, que só um bambúrrio fará com que os números e as políticas explicitadas venham a corresponder à realidade conseguida.

A economia de guerra que parece estar (ou já está) a caminho e o aumento das taxas de juro hoje anunciado pelo Banco Central Europeu - apesar do comentário contrário à decisão logo feito pelo nosso sempre atento e opinioso Presidente - parecem indiciar que o mar vai estar encapelado e que não irá ser fácil nadar nas marés fortes que, inevitavelmente, surgirão no próximo ano.

Fica a esperança (há sempre esperança) que as "cabeças" europeias tenham capacidade de análise e de decisão, e que os interesses de todos se sobreponham aos de cada um. Aos políticos europeus, que estarão conscientes de que não há dois países iguais, cabe a responsabilidade de impedirem a ruptura e a obrigação de segurarem a Europa unida na diversidade.