quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Palavras bonitas

COM FÚRIA E RAIVA

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se faz com o trigo e com a terra
Junho de 1974

O nome das coisas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Relatório

Se alguém tivesse de elaborar um relatório sobre a tarefa de deglutir hoje levada a cabo, escreveria, de certeza, que a estona foi efectuada quase, quase, até ao fim, e que os restos mortais do cabrito tenderam para zero quando se pretendeu concluir o inventário.

Havia a tentação de pedir para que as sobras realizassem uma viagem até à capital, mas foi sol de pouca dura. Coitados dos restinhos, pequenos e com mais osso que chicha, não aguentariam a turbulenta viagem e, talvez até acabassem por enjoar no caminho ou serem imersos na chuva que fez companhia aos visitantes, na viagem que empreenderam à província. 

Fazendo jus à sua hospitalidade, o S. Pedro oestino absteve-se de mandar chuva no durante, presenteando os ilustres apenas na viagem até cá e na de regresso. Ainda que S. Pedro não seja vingativo, não deixa de ser curioso que tenha permitido aos visitantes andar sem umbrela na visita, encontrando mais alguns motivos para invejarem a sorte de quem, não usufruindo da imensidão da oferta que a capital disponibiliza, vai por aqui convivendo com um tempo bem mais suave do que aquele que o lisboeta tem apanhado nos últimos dias.

E foi um bocado bem passado, com boas conversas pelo meio e algumas "entrelinhas" tão saborosas do nosso vocabulário, para recordar tempos idos, refrescar a memória e confirmar que a velha pode ir a estender cordões e a encolher cordões pela serra acima e que a obra-prima do mestre não chega nem aos calcanhares da prima do mestre de obras.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Inverno triste

Por mais difíceis que sejam as situações que se nos deparam, mesmo que não consigamos convencer S. Pedro a fechar as torneiras e clamemos que a culpa é das alterações climáticas e não da falta de planeamento de que falava Gonçalo Ribeiro Telles, há sempre uma música que se adequa e nos enche de satisfação.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Estonar

Estonar: 1. tirar a tona, a casca de; descascar. 2. tirar a pele de; pelar. 3. chamuscar, queimar. 4. raspar superficialmente (a terra). 5. cobrir (rego de semente) com terra do rego vizinho. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Os trabalhos agrícolas efectuados na quinta eram, na altura, ainda pouco mecanizados, sendo necessário recorrer a muito trabalho braçal, por vezes violento, recompensado com pouco e extremamente exigente, fosse qual fosse o ângulo que se encarasse.

Para cerca de trezentos hectares, dos quais apenas talvez uma dezena fosse de floresta, havia três tractores de pneus e dois de rastos, e eram suficientes para o trabalho que executavam. Todos os operadores destas máquinas tinham outras tarefas e mais de metade dos dias do ano elas não saíam das garagens, ou melhor, dos telheiros onde se encontravam. 

Estavam ainda longe os tempos das máquinas de semear, plantar, podar, cortar, vindimar, pulverizar e até de regar. Hoje, os automatismos lideram a actividade agrícola, os computadores controlam e dão informação e seria impensável voltar aos tempos idos. Basta olhar para as plantações de alho francês que acontecem aqui bem perto, para verificar que uma extensão enorme daquele vegetal, que cresce e é colhido em pouco mais de um mês, tem intervenção de duas, três pessoas na plantação e de quatro ou cinco para colher, encaixotar e carregar. A forma como aquilo cresce e se apanha em tão pouco tempo não vem ao caso e é melhor nem pensar nela.

A estona era uma tarefa pouco exigente do ponto de vista físico e consistia em cortar as ervas e enterrá-las para fertilização das terras. A sua "brandura" permitia que fosse executada maioritariamente por mulheres, equipadas com sacholas mais pequenas do que as enxadas tradicionais.

E porque me lembrei eu, velho, destas coisas de antanho? 

Depois de amanhã, vou almoçar com umas amigas e uns amigos (assim fica bem mais bonito) e está previsto que a iguaria seja cabrito estonado. Todos saberão que a estona do cabrito não é feita com sachola e muito menos com enxada, e calcularão que este arrazoado todo apenas serve para comprovar que a língua portuguesa é muito bonita e extraordinariamente rica, ao contrário do país, que continua pobre, ainda que mecanizado.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Encontros

- Bom dia. Já não me conhece?

Ia completamente distraído, a pensar em tanta coisa, que os olhos não cumpriram a função que lhes está destinada e a pessoa passaria completamente ao lado se não se tivesse manifestado.

De máscara, bem mais magro do que (já) estava na última vez que tínhamos falado, há alguns meses. Fiquei sem jeito, mas lá me consegui recompor. 

- Desculpe. Ia a pensar ... não o vi. Como é que vai?

- Mal. O raio do bicho parece que agora me está a atacar as pernas. As veias estão entupidas e só vou ter consulta do especialista em Abril.

Era um homem danado. Sempre com pressa, que o trabalho fugia e não havia mãos a medir. Mal havia tempo para um café e o cigarro que se lhe seguia era acendido já na despedida. O bicho não teve contemplações nem foi sensível à importância para a sua pequena empresa e para os que nela trabalhavam. Não eram muitos - três ou quatro - mas passaram a gente desempregada. Talvez, entretanto, tenham arranjado outro emprego. Afinal de contas, eram bons operários, para lhe aturarem a exigência e o ritmo.

Arrasta-se com dificuldade. Tem vontade de conversar mas a respiração, difícil, não ajuda muito. Já não tem pressa ... o que tem a fazer pode esperar.

- Veja lá ... só para Abril!

sábado, 10 de dezembro de 2022

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Água

Nos últimos dois dias, as nuvens foram inclementes e despejaram milhões de litros de água, talvez para responderem aos inúmeros apelos de chuva efectuados no Verão passado. Todavia, não levaram em linha de conta que os campos há muito desapareceram das grandes cidades e foram substituídos pelo betão e pelo alcatrão. A água deixou de ter espaço para se infiltrar e passou a encaminhar-se para nenhures. Na época das chuvas, as vielas passaram a ser riachos, as ruas, ribeiros e as avenidas rios caudalosos, com apertados leitos entre os prédios construídos a eito.

Naturalmente e como é costume por cá, a "desgraceira" antecipou-se e surgiu logo na altura em que os projectos para resolver o problema, há muito pensados, estavam praticamente prontos e em vias de serem concretizados a breve trecho. Há anos que as autoridades vêm dando o seu melhor na busca das soluções e tinha de ser agora, quando tudo estava a postos para ser ... bem estudado durante mais uns tempos.

Os prejuízos são incalculáveis e foram relatados por pressurosos repórteres televisivos, com a clarividência do costume, em entrevistas feitas a muita gente que nada presenciou e sabe tudo ... de ouvir dizer. Os estragos são visíveis e tudo aconteceu por falta de limpeza das sarjetas e por os alertas terem chegado depois de a intempérie se ter desencadeado. 

O Ministério Público, sempre atento a tudo o que se passa, aguarda a conclusão do rigoroso inquérito que entretanto será aberto, com vista ao apuramento das responsabilidades criminais que, alegadamente, deverão existir numa situação destas e que, claro, serão devidamente punidas.

Alegadamente, todos apontam para a responsabilidade total de S. Pedro. A vontade de o incriminar por estes desmandos é inabalável, sendo grande a azáfama no recolhimento das provas, irrefutáveis, mas difíceis de concretizar a curto prazo, dada a escassez de meios humanos e a exigência do trabalho a desenvolver.

Entretanto, alguns estudiosos comentadores ou comentadores estudiosos, já expressaram as suas grandes preocupações e avançam com as dificuldades que irão surgir na concretização do julgamento. Não deverá ser possível conseguir a apresentação em Tribunal do, sempre alegadamente, responsável por tudo o que aconteceu, o que inviabilizará a sua condenação.

Razão para mais uma impossibilidade da justiça: S. Pedro está em todo o lado mas não tem morada certa. Não deverá ser possível ao Tribunal conseguir notificá-lo e dias e dias de imenso trabalho serão deitados ao lixo ou à água que correrá pelas ruas, assim que surgirem mais umas nuvens com chuva a sério. Dizem os experimentados nestas coisas que o processo que seguirá para o Tejo terá sempre mais de 5.000 páginas e 100 dossiers.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Palavras bonitas

Ouvi hoje, neste podcast, uma excelente conversa com uma mulher que não conheço pessoalmente, tenho presente na minha estante com vários livros e cuja liberdade e coragem aprecio muito e há muito tempo.

Em sua homenagem ( que palavra ridícula), ficam uns versos de Cesário Verde - sobre quem ela escreveu uma excelente biografia - dedicados a uma loira que bem podia ser Maria Filomena Mónica.

LOIRA

Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto às montras dos livreiros
Quando passaste irónica e insolente,
Mal poisando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva,
Saía gente fina de uma igreja;
Destacavam no traje de viúva
Teus cabelos de um loiro de cerveja.

E a mim, um desgraçado a quem seduzem
Comparações estranhas, sem razão,
Lembrou-me esse contraste o que produzem
Os galões sobre os panos de um caixão.

Eu buscava uma rima bem intensa
Para findar uns versos com amor;
Olhaste-me com cega indiferença
Através do lorgnon provocador.

Detinham-se a medir tua elegância
Os dandies com aprumo e galhardia;
Segui-te humildemente e a distância,
Não fosses suspeitar que te seguia.

E pensava de longe, triste e pobre,
(Desciam pela rua umas varinas)
Como podias conservar-te sobre
O salto exagerado das botinas.

E tu, sempre febril, sempre inquieta,
Havia pela rua uns charcos de água
Ergueste um pouco a saia sobre a anágoa
De um tecido ligeiro e violeta.

Adorável! Na ideia de que agora
A branda anágoa a levantasse o vento
Descobrindo uma curva sedutora,
Cada vez caminhava mais atento.

Mas súbito parei, sentindo bem
Ser loucura seguir-te com empenho,
A ti que és nobre e rica, que és alguém,
Eu que de nada valho e nada tenho.

Correu-me pelo corpo um calafrio,
E tive para o teu perfil ligeiro
Esse olhar resignado do vadio
Que fita a exposição de um confeiteiro.

Vi perder-se na turba que passava
O teu cabelo de oiro que faz mal;
Não achei essa rima que buscava,
Mas compus este quadro natural.

O livro de Cesário Verde
Cesário Verde
Editorial Minerva

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Máquinas

O automóvel era uma maravilha. Pintura metalizada, estofos em pele, tablier em mogno, instrumentos modernos, alavanca de velocidades catita, motor silencioso, aceleração rapidíssima, velocidade quase supersónica, automatismos vários e perfeitos.

Teve anos de utilização contínua, sempre na máxima força e parecendo que o tempo não deixava marcas nem diminuía capacidades. Era um Rolls Royce, quer rolasse em autoestradas, subisse montanhas ou descesse aos infernos. Não existia nenhum outro que se lhe assemelhasse.

O tempo foi passando. Apareceram os primeiros riscos na pintura, o brilho foi-se desvanecendo, nos estofos surgiram algumas nódoas e, vendo bem, iam aparecendo alguns buracos, embora pequenos. O motor deixou o quase silêncio e elevou o ruído, por vezes parecendo que se iria desconjuntar em breve. As ultrapassagens tornaram-se lentas e mais difíceis, ainda que a velocidade se mantivesse em alta, quando comparada com a maioria dos outros veículos em circulação.

Apareceram máquinas novas, algumas com GPS incorporado, garantindo segurança, velocidade, automatismo, e, veja-se só, passaram a ultrapassá-lo com facilidade e alguma desfaçatez.

Chegou a altura de recolher à garagem e de limitar cada vez mais as saídas e, sobretudo, as viagens longas. Mantém-se um carro excelente, que fica na história, marcando um período de ouro. Nunca será esquecido por quem gosta de automóveis e, até, por quem não tem grande admiração por eles.

As condições para grandes viagens desapareceram. Vai continuar a proporcionar pequenos passeios, com elegância discreta, que é a forma de todos lhe renderem a admiração que merece.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022