domingo, 25 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Diário IX
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1977)

sábado, 24 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

VOTO DE NATAL

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida ...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas,
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATIVIDADE

Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento, 
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas, 
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida ...

Diário VII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976) 
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

O NATAL DA INFÂNCIA

Ah como se alongava a província Natal
com distritos de luz dentro do Novo Ano
Vinha já de mais longe um perfume lunar
Começava em Novembro a toilette dos Anjos

No mapa da Europa a Suíça a Suécia
ganhavam posições de repente invejáveis
Andava-se na rua à procura de neve
A neve dos postais arquivava-se em casa

E brincava connosco o menino Jesus
mesmo antes da noite em que tinha nascido
Mas ninguém se atrevia a tratá-lo por tu
Era de todos nós o menino mais rico

As prendas que nos dava  E fingia-se pobre
Adorávamos nele o amor do teatro
o dom de liberdade e da metamorfose
Sorríamos de quem nos dissesse o contrário

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão- Ferreira
Editorial Presença (1997)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas ...

Diário VI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL À BEIRA RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado ...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia ...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

Obra Poética (19481988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário ...
E Deus não representou.

Diário V
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)

domingo, 18 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

E a multidão passava
E a chuva era tão fina
que parecia filtrada
de taças clandestinas

Finalmente chegava
triunfal   em surdina
a noite convocada
em todas as esquinas

Mas não se derramava
como tinta-da-china
Na cidade acordada
já se ouviam matinas

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

sábado, 17 de dezembro de 2022

Natal

O Natal está quase a chegar, sem contemplações para todos aqueles que prefeririam um pouco mais de demora nesta corrida desenfreada que os dias empreendem, sem se vislumbrar qualquer ideia de abrandarem a velocidade. 

Não há radares que os assustem nem pontos na carta que os façam "levantar o pé". A velocidade vertiginosa a que circulam impede que se possa apreciar a paisagem ou dar dois dedos de conversa séria. Tudo é rápido e efémero. Mal se sai das comemorações da entrada no novo ano, aparece o Carnaval, comem-se umas amêndoas na Páscoa, tomam-se uns banhos no titubeante Verão, começa a cair a folha e eis-nos, de novo, a pensar nas prendas, na reunião de família, nos males do mundo, nos que padecem e nesta altura aparecem na boca de muitos distraídos pela vertigem.

A partir de amanhã e até ao Natal, "cessa tudo quanto a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta", como escreveu Camões. A Poesia é esse valor que por aqui se irá levantar até que as filhós (ou filhoses?) desapareçam, as rabanadas sejam deglutidas e os sonhos sejam saboreados e se mantenham vivos. 

NATAL

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce ...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrabaria.

Miguel Torga
Diário IV
Gráfica de Coimbra (1973)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Tempo e paciência

Na actividade profissional que desenvolvi durante muitos (e alguns) bons anos e da qual já só recordo as coisas boas, constatei, bem cedo, que o Direito tem linguagem própria, tempo único, urgência calma e sempre, pelo menos, duas interpretações para o mesmo acontecimento.

Seja a Lei que tem uma vírgula a mais ou a menos, seja a interpretação literal do que está escrito ou aquilo que é o seu espírito, há sempre possibilidades de recurso à leitura que mais convém à "dama" que é a nossa, com argumentação poderosa e convincente, mesmo que os factos aparentem ser tão evidentes que ao leigo pareçam não ter contestação. 

Aprendi, também bem cedo, que a Matemática era a ciência exacta, não havendo dúvidas para ninguém de que dois e dois são quatro. Todavia, um acontecimento desta semana veio provar que até aí pode haver duas interpretações e que ambas estarão correctas e poderão ser defensáveis.

Não por ter dado milho aos pombos mas por, alegadamente, ter recebido uns "trocos" indevidamente, Manuel Pinho, antigo Ministro de José Sócrates, está em prisão domiciliária há um ano, a aguardar que o Ministério Público produzisse, formalmente, a acusação, para a qual tinha o prazo de um ano. Para o Ministério Público, o prazo de um ano foi cumprido e a acusação entregue na data legalmente exigida. A defesa alega que o ano tinha acabado um dia antes e que, por isso, o arguido deve ser libertado.

A discórdia, como é fácil de perceber, encontra-se num dia a mais ou a menos, na contagem dos dias do ano, contagem extremamente difícil e que deverá ser aclarada por um orgão de decisão superior e que, como o sargento da companhia de antigamente, saiba contar bem. Após ser decidido o pleito, ocorrerá, naturalmente, um prazo para apresentação do conveniente e convincente recurso, para que outro orgão ainda mais superior decida, sempre analisando a argumentação de peso e a clarividência das razões que suportam mais uma interpretação.

Não há pachorra!