NATAL
Um anjo imaginadoUm anjo dialéctico, actual,Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,Paz à imaginação!E todo o ritualQue antecede o milagre habitualPerdeu a exaltação.Diário IXMiguel TorgaGráfica de Coimbra (1977)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 25 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
sábado, 24 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
VOTO DE NATAL
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!Como quem na corrida entrega o testemunho,passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.E a corrida que siga, o facho não se apague!Eu aperto no peito uma rosa de cinza.Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,para sentir no peito a rosa reflorida!Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,como a casca do ovo ao latejar-lhe vida ...Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:dentro de mim não sei qual é que se eterniza.Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!Acende-se de novo o Presépio nas almas,Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.Obra Poética (1948-1988)David Mourão-FerreiraEditorial Presença (1997)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
NATIVIDADE
Arde no coração da noiteA ritual fogueira que anunciaO eterno milagreDo nascimento.Batida pelo vento,Que da cinza das brasas faz semente,É um sol sem firmamento,DirectamenteAcesoE presoÀ terraPor mãos humanas.De raízes profanas,Lume de vida a bafejar a vida,O seu calor aqueceA única certeza que mereceSer aquecida ...Diário VIIMiguel TorgaGráfica de Coimbra (1976)
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
O NATAL DA INFÂNCIA
Ah como se alongava a província Natalcom distritos de luz dentro do Novo AnoVinha já de mais longe um perfume lunarComeçava em Novembro a toilette dos AnjosNo mapa da Europa a Suíça a Suéciaganhavam posições de repente invejáveisAndava-se na rua à procura de neveA neve dos postais arquivava-se em casaE brincava connosco o menino Jesusmesmo antes da noite em que tinha nascidoMas ninguém se atrevia a tratá-lo por tuEra de todos nós o menino mais ricoAs prendas que nos dava E fingia-se pobreAdorávamos nele o amor do teatroo dom de liberdade e da metamorfoseSorríamos de quem nos dissesse o contrárioObra Poética (1948-1988)David Mourão- FerreiraEditorial Presença (1997)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
NATALNatal fora da casa de meu Pai,Longe da manjedoira onde nasci.Neve branca também, mas que não caiNa telha-vã da infância que perdi.Filosofias sobre a eternidade;Lareiras de salão, civilizadas;E eu a tremer de frio e de saudadePor memórias em mim quase apagadas ...Diário VIMiguel TorgaGráfica de Coimbra (1978)
terça-feira, 20 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
NATAL À BEIRA RIOÉ o braço do abeto a bater na vidraça?E o ponteiro pequeno a caminho da meta!Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,a trazer-me da água a infância ressurrecta.Da casa onde nasci via-se perto o rio.Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!E o Menino nascia a bordo de um navioque ficava, no cais, à noite iluminado ...Ó noite de Natal, que travo a maresia!Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.E quanto mais na terra a terra me envolviamais da terra fazia o norte de quem erra.Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-meà beira desse cais onde Jesus nascia ...Serei dos que afinal, errando em terra firme,precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?Obra Poética (19481988)David Mourão-FerreiraEditorial Presença (1997)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
NATAL
Foi tudo tão pontualQue fiquei maravilhado.Caiu neve no telhadoE juntou-se o mesmo gadoNo curral.Nem as palhas da pobrezaFaltaram na manjedoira!Palhas babadas da toiraQue ruminava a grandezaDo milagre pressentido.Os bichos e a naturezaNo palco já conhecido.Mas, afinal, o cenárioNão bastou.Fiado no calendário,O homem nem perguntouSe Deus era necessário ...E Deus não representou.Diário VMiguel TorgaGráfica de Coimbra (1974)
domingo, 18 de dezembro de 2022
Poesia de Natal
PRELÚDIO DE NATALTudo principiavapela cúmplice neblinaque vinha perfumadade lenha e tangerinasSó depois se rasgavaa primeira cortinaE dispersa e douradano palco das vitrinasa festa começavaentre odor a resinae gosto a noz-moscadae vozes femininasA cidade ficavasob a luz vespertinapelas montras cercadade paisagens alpinasE a multidão passavaE a chuva era tão finaque parecia filtradade taças clandestinasFinalmente chegavatriunfal em surdinaa noite convocadaem todas as esquinasMas não se derramavacomo tinta-da-chinaNa cidade acordadajá se ouviam matinasObra Poética (1948-1988)David Mourão-FerreiraEditorial Presença (1997)
sábado, 17 de dezembro de 2022
Natal
O Natal está quase a chegar, sem contemplações para todos aqueles que prefeririam um pouco mais de demora nesta corrida desenfreada que os dias empreendem, sem se vislumbrar qualquer ideia de abrandarem a velocidade.
Não há radares que os assustem nem pontos na carta que os façam "levantar o pé". A velocidade vertiginosa a que circulam impede que se possa apreciar a paisagem ou dar dois dedos de conversa séria. Tudo é rápido e efémero. Mal se sai das comemorações da entrada no novo ano, aparece o Carnaval, comem-se umas amêndoas na Páscoa, tomam-se uns banhos no titubeante Verão, começa a cair a folha e eis-nos, de novo, a pensar nas prendas, na reunião de família, nos males do mundo, nos que padecem e nesta altura aparecem na boca de muitos distraídos pela vertigem.
A partir de amanhã e até ao Natal, "cessa tudo quanto a antiga musa canta, que outro valor mais alto se alevanta", como escreveu Camões. A Poesia é esse valor que por aqui se irá levantar até que as filhós (ou filhoses?) desapareçam, as rabanadas sejam deglutidas e os sonhos sejam saboreados e se mantenham vivos.
NATAL
Devia ser neve humanaA que caía no mundoNessa noite de amarguraQue se foi fazendo doce ...Um frio que nos pediaCalor irmão, nem que fosseDe bichos de estrabaria.Miguel TorgaDiário IVGráfica de Coimbra (1973)
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
Tempo e paciência
Na actividade profissional que desenvolvi durante muitos (e alguns) bons anos e da qual já só recordo as coisas boas, constatei, bem cedo, que o Direito tem linguagem própria, tempo único, urgência calma e sempre, pelo menos, duas interpretações para o mesmo acontecimento.
Seja a Lei que tem uma vírgula a mais ou a menos, seja a interpretação literal do que está escrito ou aquilo que é o seu espírito, há sempre possibilidades de recurso à leitura que mais convém à "dama" que é a nossa, com argumentação poderosa e convincente, mesmo que os factos aparentem ser tão evidentes que ao leigo pareçam não ter contestação.
Aprendi, também bem cedo, que a Matemática era a ciência exacta, não havendo dúvidas para ninguém de que dois e dois são quatro. Todavia, um acontecimento desta semana veio provar que até aí pode haver duas interpretações e que ambas estarão correctas e poderão ser defensáveis.
Não por ter dado milho aos pombos mas por, alegadamente, ter recebido uns "trocos" indevidamente, Manuel Pinho, antigo Ministro de José Sócrates, está em prisão domiciliária há um ano, a aguardar que o Ministério Público produzisse, formalmente, a acusação, para a qual tinha o prazo de um ano. Para o Ministério Público, o prazo de um ano foi cumprido e a acusação entregue na data legalmente exigida. A defesa alega que o ano tinha acabado um dia antes e que, por isso, o arguido deve ser libertado.
A discórdia, como é fácil de perceber, encontra-se num dia a mais ou a menos, na contagem dos dias do ano, contagem extremamente difícil e que deverá ser aclarada por um orgão de decisão superior e que, como o sargento da companhia de antigamente, saiba contar bem. Após ser decidido o pleito, ocorrerá, naturalmente, um prazo para apresentação do conveniente e convincente recurso, para que outro orgão ainda mais superior decida, sempre analisando a argumentação de peso e a clarividência das razões que suportam mais uma interpretação.
Não há pachorra!




