terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Partidas

Meia dúzia de coisas compradas, o carrinho do supermercado a tomar o rumo das caixas, sem grande movimento àquela hora da manhã. Só velhos ...

- Bom dia! Vais a pensar na morte da bezerra?

E ia. Concentrado em tudo e em nada, não me apercebi da chegada dele até ali, quase, quase encostado a mim. Nem valia a pena pedir desculpa. Ele tinha percebido que o corpo andava por ali, os olhos espreitavam as prateleiras, as mãos empurravam o carro, a cabeça estava bem longe.

Meia dúzia de palavras de circunstância, referências ao tempo que não há meio de trazer o sol para que o regresso à praia aconteça.

- Vamos pensar que só faltam três meses. É um instante.

Ambos sabíamos que havia qualquer coisa atravessada na garganta que queria sair. Era difícil. É sempre difícil ...

- Este ano vai ser menos um ...

- Pois ... quem diria. Desde sempre vendeu saúde e afinal ...

- Nem percebi bem como foi ... mas foi.

No próximo Verão, o LT já não nos fará companhia na "nossa" Foz. Os peixes deixarão de picar os seus anzóis e terão saudades, tal como nós.

E vendia saúde ... desde miúdo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Cópias

O que nos chega do Brasil não augura nada de bom para o futuro daquele país e deixa preocupações a quem, mesmo longe, vê o que a alienação, a demagogia, a falta de discernimento e de espírito crítico, podem trazer. Copiando o acontecido no Capitólio dos USA, uma quantidade significativa de vândalos invadiu e destruiu a sede dos poderes democráticos de Brasília, com, a julgar pelas imagens, a complacência de quem devia cuidar da segurança.

Nesta altura haverá muita gente a lembrar-se da sinistra ditadura militar, uns com as rezas a pedir a intervenção da tropa e muitos outros a prepararem o passaporte, não vá o diabo tecê-las.

A memória é curta, a manipulação intensa, o perigo real. Os tempos vão de molde a abrir portas a energúmenos, não acontece apenas do lado de lá do Atlântico e, é dos livros, as cópias são sempre muito piores que os originais.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Ano Novo

Hoje foi dia de Concerto de Ano Novo, não o de Viena - esse aconteceu no primeiro dia de 2023 - mas o que a Banda Comércio e Indústria dedicou à sua cidade.

O CCC esteve completamente lotado e mais de 700 pessoas assistiram a uma excelente tarde musical, com um conjunto de peças muito bem escolhido, onde não faltaram as polkas e as valsas de Strauss, o tango de Piazzola e duas gaitas de foles que fizeram as delícias da plateia, tal a qualidade exibida.

Está de parabéns a Banda Comércio e Indústria, superiormente dirigida pelo Maestro Adelino Mota, pela qualidade que, uma vez mais, foi possível apreciar e aplaudir, e também pelo prazer imenso de ver uma quantidade significativa de jovens talentos, que garantirão a continuidade da obra a caminho do século.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Palha

Depois de uma semana de sol radioso, apenas toldado pela escuridão de alguns figurões e figuronas (acertemos o passo com a moda) que, a qualquer preço, tentam gravar o seu nome nos anais da governação e nos respectivos currículos, volta a chuva. E com violência. Provoca algumas inundações e a  molha, impiedosa, dos jornalistas televisivos que têm o azar ou são obrigados a estar de serviço à reportagem do momento, ouvindo o balanço do primeiro transeunte que apareça disponível para as câmaras.

Bem melhor deve ser correr atrás de ministros e ministras (acertemos o passo com a moda), de microfone em punho e perguntas, repetidas mil vezes, na ponta da língua.

- Não sabia?

- Já disse tudo o que tinha a dizer no local próprio. Agora vou trabalhar ...

- Mas ... acha que tem condições?

- Já disse tudo ... 

- E não se demite?

Peripécias que se têm repetido nos últimos dias, por haver gente sem escrúpulos e que não se enxerga. A obtenção da primeira página, da abertura do telejornal, do cargo no currículo, da importância na ribalta, do acesso às portas que o poder abre (?).

Quase meio século passado, parece haver quem queira chamar o antigo, dar oportunidade de uns garganeiros gritarem e gesticularem, trazer excepções como retratos de regra. O exercício de qualquer cargo, público ou privado, deve acontecer com rigor, dedicação e empenho, tendo presente que poder não é colar cartazes em qualquer parede mas antes tomar decisões que, desagradando a alguns, tenham o bem de todos por objectivo.

Quem tem rabos de palha deve ficar instalado no palheiro onde os criou e esperar que o tempo passe...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Expresso

Passaram 50 anos. Meio século. Era sábado e, pela manhã, antes de me dirigir ao Lisboa & Açores da Rua das Montras para levantar o dinheiro necessário ao pagamento das jornas da semana - os bancos e muita outra gente, eu incluído, ainda trabalhava ao sábado - fui comprá-lo.

Era o primeiro número de um jornal com um conceito novo, desde logo por ser semanário, e porque as novidades, naquela época como ainda agora, atraíam quem tinha vontade de saber. A Jornália, onde o comprei, já fechou há largos anos. O Lisboa & Açores mudou de nome e de sítio e já poucos se recordarão dele e muitos menos do caixa - Sr. Mendonça - que estava de pé e contava o dinheiro a conversar sobre tudo, incluindo o tempo.

O Expresso continua e o vício de o comprar também, como sempre aconteceu ao longo deste meio século. Falhei muito poucos ...

A edição de hoje é enorme, com o tamanho original, para matar saudades de uma leitura que se apresenta tão diferente e, muitas vezes, logo desactualizada. Até o dia da saída mudou. Agora, sai o sábado à sexta-feira.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) As histórias da minha avó, que eu adorava ouvir, e ela me contava ao jantar e ao fim de semana, atraíam-me e estabeleciam entre nós um elo mágico. Ela revelava-me um mundo antigo, cheio de interditos e mistérios. De uma beleza escura, enigmática, que excitava a minha imaginação. Havia grandeza nas suas descrições da vida de outros tempos. As mãos rachadas pelo frio. O trabalho na mercearia do pai: a forma como pegava na barra de manteiga e cortava uma fatia de 50 gramas a pedido do freguês, porque a manteiga era um luxo para quem vivia com o dinheiro escrupulosamente contado. Descrevia-me o sabor do açúcar mascavado, a caligrafia perfeita do meu avô, anotando no livro de contas o que levavam fiado. Havia beleza no rigor. Contou-me que o seu nome, Josefa, surgiu porque a sua mãe tinha tido uma gestação de barriga bicuda, sinal de varão, e portanto decidiu-se que ficaria com o nome do pai, José, e bordou-se o enxoval com a inicial J em maiúsculo. O nome de uma rapariga não tinha importância, por isso simplificaram, feminizando o nome: Josefa. Com o desgosto, o pai recusou pegar-lhe ao colo e evitou olhá-la nos primeiros meses. Depois, foi-se fazendo à ideia. Não havia solução. A minha avó era uma criança bonita, com olhos azuis cheios de luz, e o pai quebrou. <<Uma linda criança. Uma menina abençoada.>>

Deus não deu mais filhos ao meu bisavô, porque o Senhor tem os seus desígnios. Decidiu que a menina iria estudar, para não acabar a vender, como ele, feijão-frade ou grão, bacalhau seco, toucinho fumado e banha de porco. Tudo a peso. A minha avó contava que tinha sido uma das poucas raparigas da vila a completar o liceu.(...)"

Um cão no meio do caminho
Isabela Figueiredo
Caminho (2022)

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Sossego

No sossego desta rua de pouco trânsito, nada acontece. Ouvem-se os melros, os cartaxos, as rolas e alguns mais cujo canto o ouvido já não consegue identificar. Os gatos passeiam pelo quintal, preocupam-se com a adubagem das flores e a rega da relva, aproveitam os cantinhos ensolarados para uma sesta reconfortante, sempre de olho atento ao que à sua volta se passa.

A passagem de carros é rara. Quem trabalha, saiu de manhã e regressa no final do dia, estacionando à porta ou na garagem. São tão poucos ... Da meia dúzia que por aqui circula durante o dia, a maior parte enganou-se com a pressa ou distraiu-se com o telemóvel. Pelo combustível que se queima por aqui, o ambiente não se deteriora. 

Os caixotes do lixo "moram" na rua de cima e na de baixo, bem perto para serem utilizados e longe o suficiente para não serem cheirados. A avaliar pelo autocolante, a última lavagem já aconteceu há bastante tempo ou o papel não foi substituído. 

O bulício não entra! Não há crianças que joguem a bola, as poucas que aqui vivem saem de manhã e chegam no final da tarde, quando o sol já partiu para outro hemisfério. Os velhos aconchegam-se nas lareiras ou nos cobertores, o carteiro deixa o carrinho no cruzamento e uma das mãos chega-lhe para trazer a correspondência, a polícia nunca por aqui passa, por ter mais que fazer ... na esquadra. Até o sismo da noite passada, que parece ter sido sentido por muita gente, passou completamente ao lado e nem um tilinto fez.

Deixem-me sossegado!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Promessas

Nos tempos "da outra senhora" eram frequentes as anedotas, à boca pequena, a retratarem e a gozarem com as figuras gradas que faziam e sustentavam o regime déspota que por cá mandou quase meio século.

Desde dizer-se que o Botas mandava fazer casacos sem bolsos por deles não necessitar - mete as mãos nos bolsos dos outros - até aos envelopes redondos que o Tomás queria comprar para poder enviar as circulares, havia para todos os gostos, sempre com alguma graça e crítica feroz.

Contava-se que o Botas era muito esperto e que isso se manifestava desde miúdo. 

- O gajo é fino. Sempre foi!

Quando era criança, teria tido uma doença que fez a mãe desesperar pela sua sobrevivência. Recorreu à Santa lá do Vimioso e prometeu-lhe vender uma cabra e dar-lhe o respectivo valor, se o menino se curasse. Com maior ou menor dificuldade - disso não reza a história - o Botas salvou-se e ficou impecável. A mãe, naturalmente, resolveu cumprir a promessa e agradecer a graça concedida.

- Vais à feira, levas a cabra e o galo que já estão ali separados. Vendes os dois. O dinheiro da cabra é para a Santa e podes ir logo entregá-lo ao senhor prior, a quem dizes que é de uma promessa e que a mãe lhe explicará tudo na missa de Domingo. O do galo será para comprarmos qualquer coisa que nos recorde o milagre de teres ficado bom.

O Botas lá foi. Regressou ao final do dia e entregou à mãe duas notas de cem. Espantada, a mãe reagiu de imediato:

- Então não te disse para entregares o dinheiro ao senhor prior?

- Entreguei, mas só o valor da cabra, como me tinha dito.

- Queres-me fazer crer que o galo valeu duzentos mil réis ...

- E valeu, mãe. A quem me perguntava, eu respondia que só vendia os dois animais em conjunto. Houve um que se interessou e perguntou o preço. E eu disse-lhe: vinte mil réis pela cabra e duzentos pelo galo. Aceitou e eu vendi. Está tudo certo e a promessa cumprida.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Novo Ano

Cheguei!

Dei hoje início a uma longa caminhada, que faço votos decorra sem pedras no caminho, sem escolhos, sem atrapalhações, sem habilidades ou tratos de polé, sem ódios, sem atropelos, sem comportamentos miseráveis, sem chico-espertices, sem aproveitamentos, sem violência clara ou encapotada, sem discriminações.

Tenho consciência do lirismo que estas palavras encerram e que corro o risco (ou tenho a certeza) de que, em Dezembro, ao verificar o balanço final, dele constarão insucessos, os quais, como tem acontecido com os meus antecessores, serão mais do que as coisas boas que, naturalmente, irão surgir.

Ainda assim, vale a pena manter a esperança de que haverá um esforço universal para que muita coisa melhore e se consiga que o todo seja maior do que a simples soma das partes.