sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Partidas

Se há dias em que não apetece escrever nada, hoje é um deles. 

O blogue perdeu um leitor e eu, um amigo, ex-colega de um trato impecável, uma lealdade irrepreensível e um carácter extraordinário. Para além disto, que não é nada pouco e é cada vez mais raro, ainda era um excelente cozinheiro e disso deu provas em algumas comezainas que por aqui realizou, evidenciando grande capacidade e gosto.

Acabou o sofrimento para o E.R., que hoje deixou a Encarnação e partiu para o espaço do céu que, de acordo com a sua fé, lhe estava reservado. Dele vou sempre recordar o trabalho que comigo partilhou com grande proximidade, o seu incrível sentido de humor e a cumplicidade amiga com que sempre me distinguiu. 

Adeus, E.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Polémicas

A pandemia criou o hábito de postar diariamente qualquer coisa no blogue. Um simples texto, uma fotografia, alguma música, a poesia e a prosa de consagrados ou de menos conhecidos, uma simples opinião, uma estória, um facto, uma diversão.

O hábito não faz o monge mas ajuda a criar vícios e aquilo que, tudo o indicava, seria uma diversão passageira para iludir o tempo de "clausura", passou a quase obrigação quotidiana. Não devia acontecer, ainda por cima a alguém que já deixou, há quase meia dúzia de anos, os deveres que a vida lhe impingiu ou ofereceu. 

É mau! Ou melhor, é péssimo! Não pela falta de assunto - há sempre - (dos arroz de tordos de ontem à chuva que está a cair neste momento), mas porque escrever o que quer que seja é uma manifestação de ideias, opiniões, sensações, inclinações, que ficam registadas e por aqui permanecerão para sempre, vinculando o seu autor e pondo a nu as suas (in)capacidades. Tudo isto agravado por a opinião de hoje poder ser totalmente oposta à que foi emitida ontem ou há dez anos. Só não mudam de opinião os burros...

E corre-se o risco de aquilo que hoje é uma verdade insofismável, amanhã passar a uma mentira clarinha e sem fundamento. São consequências inevitáveis da sociedade vertiginosa em que nos tornámos, da vivência carregada de opinadores sem escrúpulos nem competência, de toda a gente, eu incluído, se sentir capaz de analisar, comentar e difundir tudo e mais um par de botas.

Nos últimos tempos, os esquecimentos, os desconhecimentos, os "sabia mas não pensei", "conhecia mas não me pareceu relevante", têm sido muitos e, alguns deles, de pôr os cabelos em pé.

Está em marcha mais uma polémica: o custo do altar que irá ser utilizado pelo Papa, nas Jornadas Mundiais da Juventude, que irão ter lugar na zona do Rio Trancão, em 2023. Há quem saiba, há quem diga que disse e quem negue ter ouvido, há quem considere exagerado e quem entenda o contrário, há quem afirme que o Papa Francisco vai ficar atrapalhado quando acessar àquele luxo, há quem contraponha que a ocasião, única, justifica tudo. Para calar todas as vozes, o Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, apareceu a defender, peremptoriamente, que não se trata de despesa mas sim de um investimento. Altamente rentável, afirmou. No presente, pela imagem que catapulta por todo o mundo; no futuro, pela utilização imensa que lhe vai ser dada.

A ver vamos ...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Tudo o que havia em casa tinha sido comprado antes da guerra. As panelas e os tachos estavam escurecidos, sem asas, os púcaros sem esmalte, os cântaros furados, remendados com uns bocados que se fixavam no buraco. Os casacos eram arranjados, os colarinhos das camisas virados, os fatos de domingo passavam a ser de todos-os-dias. Não pararmos de crescer era o desespero das mães, obrigadas a acrescentar os vestidos com uma tira de tecido, a comprar os sapatos um número acima, e já apertados no ano seguinte. Tudo devia ter uso, o estojo dos lápis, a caixa de pintura Lefranc e a caixa das bolachas de manteiga LU. Não se deitava nada fora. Os baldes da noite serviam de estrume no jardim, o esterco apanhado na rua depois de passar um cavalo servia de adubo para os vasos das flores, o jornal servia para embrulhar legumes, secar por dentro os sapatos molhados, limpar o rabo na casa de banho.

Vivíamos com falta de tudo. Objetos, imagens, distrações, explicações acerca de nós e do mundo limitadas ao catecismo e aos sermões da Quaresma do padre Riquet, às últimas notícias de amanhã anunciadas na rádio pela voz poderosa de Geneviève Tabouis, às histórias das mulheres que contavam as suas vidas e as da vizinhança durante a tarde à volta de uma caneca de café. As crianças acreditavam durante mais tempo no Pai Natal, que os bebés vinham no bico da cegonha ou que os meninos nascem das couves e as meninas das flores.

As pessoas deslocavam-se a pé ou de bicicleta, numa cadência regular, os homens com os joelhos afastados, as pernas das calças presas em baixo com molas, as mulheres com as nádegas apertadas na saia justa, desenhando movimentos fluidos na tranquilidade das ruas. O cenário era de silêncio e a bicicleta marcava a velocidade da vida.

Vivíamos quase na merda. E ríamos. (...)"

Os anos
Annie Ernaux
Livros do Brasil (2020)

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Quantos?

Os números dizem pouco e interessam menos. Fica a música, para quem dela gosta e hoje inicia mais um ano na caminhada.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Divagações

Desde sempre que encaro cada dia como um novo começo, o início de um ciclo, uma nova batalha, mais um desafio. O passado tem influência, dá lastro e experiência, permite corrigir e evitar, recordar, destapar, ponderar.

Mas é o futuro, sempre o futuro, que interessa. É nele que nos projectamos, nos debruçamos, nos despimos e nos mostramos capazes, com a preocupação de tornar cada dia melhor do que o anterior. Não vai ser sempre possível. Não há estradas sem curvas, mares sem ondas, céus sem nuvens. Há um caminho a ser percorrido, com dedicação e profissionalismo, honestidade e preocupação, não isento de erros e apenas com a certeza de que, todos os dias, nos tentamos superar.

Surgirão - surgem sempre - aqueles dotados que tudo fariam muito melhor e que detêm a receita milagrosa para a pior doença. A maior parte são frustrados tocadores de ouvido, para quem o compasso da vida apenas desenha arcos e nunca circunferências.

Inicia-se hoje um novo ciclo, lá bem no centro da Europa, com muito frio e os tiros bem perto. Vai trazer a ansiedade distante bem perto, preocupação, receio e também, esperamos todos, muitas alegrias.

Continuarei, sempre, um "tuga" empedernido, mas vou "estar" polaco durante uns tempos.

domingo, 22 de janeiro de 2023

À procura da manhã clara

A perspectiva tem destas coisas, iludindo ou criando situações que parecem o que não são e são o que não parecem. 

Um olhar apressado pode indiciar que as Berlengas vieram até à "aberta" e querem entrar na Lagoa. Não é verdade! A manhã estava de sonho, sem vento, um sol radioso, a água, um espelho, mas as Ilhas continuavam no seu lugar, lá ao longe, dando apenas a ideia de que pretendiam, também, usufruir da beleza.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Memória

Ontem foi o Dia Mundial do Queijo e não me lembrei!

- Andas a comer muito queijo ...

Há inúmeras variedades de queijo, admiradas e deglutidas por milhões de pessoas em todo o mundo, Portugal incluído. Não há estatísticas, que eu saiba, sobre a percentagem de portugueses que gostam de queijo e também não se vislumbram trabalhos académicos que evidenciem quantos o comem regularmente. Mas são muitos, não há a menor dúvida.

Como resultado desse abuso gastronómico, os efeitos secundários fazem-se sentir e dão nas vistas. Nos últimos tempos tem aparecido muita gente, com e sem responsabilidades, com lapsos de memória acentuados, mesmo preocupantes. Consta que o Ministro da Saúde já nomeou um grupo de trabalho para estudar o gravíssimo problema e, enquanto não surge a solução definitiva, vão sendo feitos apelos para que se coma o queijo com moderação e acompanhado de um bocadinho de pão, para minorar os riscos.

Os exemplos recentes evidenciam que, quando os "queijeiros" fazem apelo à memória, ela já os abandonou e não se encontra.

Fontes bem informadas asseguram que, nesses casos, a memória foi, com o queijo, pela pia abaixo ...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Exagero

Está a fazer um pequeno alojamento rural, com duas ou três casas em madeira, para alugar a quem está longe da natureza e quer dela disfrutar, viajando pelo campo e beneficiando da proximidade citadina.

- Agora vou lá pôr um burro. Mas não é fácil.

A conversa, de café, mostrou, como se fosse preciso, as mudanças que se operaram na sociedade e no comportamento de todos, nos últimos 50 anos. 

- Comprei-o. Tem seis anos e é castrado, para se portar bem. Ainda lá não está. Não é nada fácil!

Fiquei a saber que, primeiro, o local tem de ser legalizado como morada do burro e este tem de ser registado. A habitação do asinino é obrigada a apresentar condições mínimas, definidas na lei (dos burros, presumo) e essas condições estão sujeitas a verificação por quem de direito. Não percebi bem se o registo do animal é feito na Conservatória do Registo Civil ou num outro local a esse fim dedicado. Também não indaguei se recolhem a impressão digital e certificam a altura do animal e também me passou indagar se o cartão do quadrúpede tem validade ou é vitalício.

Na próxima conversa, não me hão-de fugir estes detalhes, importantes, para mim que sou coscuvilheiro, e para o burro, que deve possuir identidade própria e única, de forma a evitar que seja mais um dos muitos indocumentados que por aí vivem (muitos vegetam). 

A todos os animais deve ser assegurada uma vida digna e quem o não faça deve ser responsabilizado e penalizado por isso, e impedido de os ter. Porém, com tanta gente a viver, ainda, em condições miseráveis, não estaremos a exagerar? Ou, contrariando o ditado, a pôr os bois à frente do carro?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Palavras bonitas

Passam hoje 100 anos sobre o nascimento do grande Eugénio de Andrade.

Agora as palavras

Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?

O sal da língua
Eugénio de Andrade
Associação Portuguesa de Escritores (2001)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Aviões

A TAP "voou" até S. Bento, aterrou e por lá passou uma boa parte do dia. Os controladores, aéreos, ainda tentaram fazer o seu trabalho, indagando a posição, procurando perceber as coordenadas, a altitude e a velocidade, de cruzeiro, de levantamento ou de aterragem. Foi muito difícil determinar o local exacto da "aeronave", o seu destino e a zona de partida, parecendo, por vezes, que o "avião" ia em piloto automático e ninguém sabia quem o tinha ligado. Talvez uma análise cuidada à caixa negra traga possibilidades de se entender o que aconteceu, quem decidiu o quê e quem assinou.

Com tantas indefinições de rota, sem o nónio do Pedro (Nunes), com muita gente a mandar palpites, uma parte dela sem sequer saber de que lado sopra o vento e qual a pista onde a aterragem deve acontecer, fica a desagradável sensação de ouvir alguém a responder, na Assembleia da República Portuguesa, num inglês algo engasgado e a obrigar alguns dos controladores a usarem o auscultador-tradutor no ouvidinho.

Enfim ... anda comigo ver os aviões.