segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Alzheimer

Não existe. Está presente. Sorri, às vezes sem razão aparente, noutras parecendo que está a entender o que se diz. A mão deixou de se movimentar para o cumprimento. Nada o aproxima e tudo o afasta. Dão-lhe a comida na boca e parece que isso lhe dá algum prazer. Sorri, a olhar para a colher. Saboreia, sem sofreguidão. Não se lhe escuta um som, uma palavra, nada.

E tanto que ele gostava de falar. Desloca-se com dificuldade, na cadeira de rodas que a mulher ou o filho empurram. Meia dúzia de passos, para ir mantendo alguma força nas pernas, mas sempre amparado.

- Tenho muito medo que escorregue, mesmo segurando-o.

Não tem memória. Os olhos vêem e não transmitem nada. Talvez o coração sinta, quem sabe. O cérebro parou e as reacções são escassas, esgares apenas. A malvada doença sacou-lhe tudo, até a dignidade.

A dedicação da mulher é enorme, o trabalho, uma luta inglória, noite e dia. Oficialmente está vivo. Estará?

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Sofrimentos

Ter as notícias à mão e no momento torna as tragédias mais violentas, ou melhor, impede que as ignoremos ou subvalorizemos. Não conseguimos evitar que nos causem dificuldades de entendimento, nos provoquem borboletas no estômago, nos façam desviar os olhos.

Não bastava a guerra na Ucrânia, que está quase a cumprir o seu primeiro ano, com muita gente que parece querer festejar a data, e surge um terramoto na Turquia e na Síria, nesta para juntar a uma outra guerra da qual já poucos falam e se mantém há mais de uma década. 

A lareira acesa, o jantar na mesa, o livro na mão, a música a tocar, o supermercado aberto e o cartão bancário pronto a mostrar-se à máquina (agora já nem se introduz), o carro cheio de gasolina, a roupa adequada ao frio ou à chuva, o mar ali a dois passos a convidar ao relaxamento, tranquilidade e paz, e perturbação, pouca ou nenhuma. O trabalho está feito e não tira o sono. O ordenado chega no dia aprazado, sem sobressaltos nem deslocações.

A televisão é ligada. A barbárie entra sem convite. O semblante fecha-se, os olhos condoem-se, a dúvida instala-se, a pretensa solidariedade aproxima-nos, não se entende o porquê, o sofá convida a pensar, a analisar, a achar e a dizer: não há nada que eu possa fazer ...

Embora possa parecer perto, foi lá longe, onde o sol não castiga tanto e o frio congela a água, não dando tréguas aos que restam em busca de alguma coisa que os possa aliviar. São muitos os que partiram sem dar conta da viagem. Muitos mais aqueles que carregam e vão continuar a suportar um sofrimento que, por muito que doa ver, custará muito mais viver.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Palavras bonitas

Décimo Poema do Pescador

Nem sempre o robalo vem
nem sempre ele traz aquele inexplicável e fundo
mistério de pulsar como o coração de alguém
ou talvez como o próprio coração do mundo.

Nem sempre me toca a graça e nem sempre está 
o vento de feição. E no entanto procuro
incansavelmente procuro o não sei quê que já
muitas vezes me trouxe um coração no escuro.

Não há senão esse buscar. Esse incessante 
navegar pelo sonho essa viagem
de Ulisses sem regresso. Como alma errante
não mais que um viajante de passagem.

Um intruso no mar um algo a mais
pela noite adiante obsessivamente procuro
na página nos astros nos canais
um verso um peixe um coração no escuro.

Eu pescador Ulisses alma errante
navegador da noite procuro nem sei bem
uma luz um robalo um breve instante.
O coração do mundo. Ou de ninguém. Ou quem.

Senhora das Tempestades
Manuel Alegre
Dom Quixote (1998)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Memória

A memória vai encontrando caminhos ínvios e desaparecendo por entre as mais estreitas vielas, ainda que conheça muito bem os locais, saiba os temas, domine os assuntos ou as tarefas, e tenha passado mais do que suficiente para encher avenidas das matérias que possam estar em causa.

Por mais notas que se registem, ou mnemónicas que se fixem, quando é necessária, a palavra, traiçoeira, esconde-se debaixo da língua e por lá permanece, por mais esforços que se façam para que a porta se abra.

- Não consigo. Daqui a bocado vou lembrar-me ... quando já não for preciso.

Vai acontecendo no dia a dia e causa mais perplexidade quando o assunto é por demais conhecido, dominado, e foi tratado durante muito tempo. Teimoso, está ali fresco que nem uma alface e não surge. Que se há-de fazer? Nada, ou melhor, um esforço para que o que agora se escondeu, não permaneça na toca e surja daí a pouco. Não se perde tudo e pode dizer-se, para consolo, que, afinal, o que estava escondido e bem resguardado, apareceu clarinho para se poder explicitar, já noutro tempo, é verdade, e, mais provável, a despropósito, agora que já a ninguém aproveita.

Não era nada disto que eu queria hoje deixar por aqui mas ... já se me varreu!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Trastes

Permaneciam paradas há vários anos, encostadas num canto da garagem e sem qualquer utilidade prática. Dos mais velhos aos mais novos, ninguém lhes ligava. Há muito que tinham cumprido a sua missão e perdido a actualidade. Duas delas ainda tinham dínamo na roda da frente ...

Degradavam-se a olhos vistos, sentindo o peso da idade e a ausência de utilização. Comprovavam, como se necessário fosse, que é melhor ir fazendo alguma coisa, mesmo que seja pouco.

"Acrescenta sempre alguma coisa, disse o rato. E fez xixi no mar."

O homem da oficina já só a mantém para se distrair. O papel na montra refere que aceita bicicletas velhas.

- Vou-me entretendo. Recupero, devagar, que já não tenho idade para correr nem a foguetes. Não as mande para o lixo, como fazem muitos. Traga-mas que dou-lhe destino capaz.

Lá foram, de certeza com pena de abandonarem o poiso que tinha sido seu, em exclusivo, durante bastante tempo e sem ninguém a aborrecê-las. Não se queixaram. Quem sabe ainda lhes resta alguma curiosidade e espírito de aventura. Saíram de um canto e foram para outro, com companhia, onde irão aguardar que as mãos do homem as comecem a tratar e lhes dêem uma "vestimenta" nova, bem oleada, para voltarem a andar, correr e saltar como nos velhos tempos.

- Reparar custa quase tanto como uma bicicleta nova. Olhe que um par de pneus não custa menos de 35 Euros. Mas dá muito gozo ...

As justificações continuaram, apesar de, à partida, estar garantido que o negócio não envolveria qualquer montante. Afinal de contas, ganhei um espaço livre na garagem, que dá sempre jeito.

Até quando? O mais certo é ser ocupado de novo com algumas coisas daquelas que se guardam "porque podem vir a ser precisas". Um dia saem, como as bicicletas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

Não me desloco muito ao Centro Comercial cá do burgo mas, por vezes, lá acontece. Isso implica sempre uma entrada na Bertrand, única livraria que ainda resta na cidade. Na maioria das vezes, pelo menos um livro salta da prateleira e pede boleia até a casa.

Naquele dia, o objectivo estava definido e dirigi-me logo às prateleiras em busca não do tempo perdido mas do livro pretendido. Olhei, vi, reparei, mirei, nada. A destreza para descortinar qualquer coisa nunca foi famosa e o defeito agrava-se cada vez mais.

- Não se importa de me indicar onde está a Biografia de Luiz Pacheco ...

- Está lá ao fundo, mas eu vou lá consigo.

O colaborador (agora ninguém é empregado ou trabalhador) acompanhou-me, solícito, até ao sítio onde eu já tinha estado.

- Já não há nenhum ...

- Não me diga?!

- Têm-se vendido como pãezinhos quentes, mas ainda tenho no armazém. É só um momento.

Voltou daí a pouco com três ou quatro exemplares e passou-me um deles.

- É este, não é verdade. Temos vendido bem ...

 - Talvez seja por Luiz Pacheco ter vivido nas Caldas em pequeno e ter voltado já bem adulto ... Apanhou por cá algumas pielas.

A admiração foi notória.

- Ah! Então talvez seja por isso. Tenho de o ler.

Não faço ideia se o colaborador da Bertrand já o leu. Por aqui, cerca de um terço das mais de 500 páginas já marchou ...

"(...) A expensas do pai e depois suas, Paulo Pacheco fazia desde jovem temporadas estivais em termas para serenar as convulsões de asmático. Frequentara as de Entre-os-Rios, no Douro, e depois as das Caldas da Rainha, que ficava mais perto de Lisboa, tinha um vetusto e celebrado hospital termal, com águas que haviam granjeado fama de vencer qualquer catarro respiratório. Dispunha para instalação de um requintado hotel, com salão de baile e 120 quartos, o Lisbonense, que só abria na época estival. Demais, entre o hotel e o hospital, desdobrava-se um vasto parque arborizado à inglesa, com um lago voluptuoso onde deslizavam cisnes à beira do qual as senhoras se vinham sentar, de sombrinha na mão, a contemplar o verde das águas. A vila era farta de comidas, com uma tradição barrista antiga e uma fábrica de loiças fundada por Rafael Bordalo Pinheiro. Mal o filho mostrou segurança no andar, logo pensou levá-lo consigo na temporada seguinte para a vila, para o iniciar nos benefícios das águas. Desta vez, em lugar de se instalar com o filho no hotel, preferiu optar por alugar uma parte de casa, de modo a ter apoio nas compras, na comida e no amparo da criança, já que não levava criada. Instalou-se em casa de uma senhora solteira, Eugénia Augusta de Vasconcelos Soeiro de Brito, filha de um coronel do exército, camarada talvez do velho oficial  de infantaria, Luiz Henrique, e que vivia numa vivenda do centro, na Rua General Queirós. Senhora culta, de meia-idade, que escrevia nos jornais, o seu estalão mental não diferia muito das poetisas de almanaque que eram as tias de Paulo Pacheco. Meio, educação e interesses eram idênticos. A senhora cedeu a pai e filho o primeiro andar, ficando ainda com o encargo da roupa e comida de ambos. Solteira, sem filhos e sem afectos, ligou-se à criança que conheceu quase de colo e acabou por ter junto dela um papel de peso. (...)"

O firmamento é negro e não azul
A vida de Luiz Pacheco
António Cândido Franco
Quetzal (2023)

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Palavras bonitas

Para o meu neto Miguel, o infante de um quarteto maravilhoso de netos, que muito merece porque tudo dá. 

Completa hoje 7 anos de uma vida cheia e desafiante, na qual se tem revelado perspicaz, inteligente, dotado de uma personalidade forte e de uma meiguice desarmante. 

O INFANTE

Na bandeira das almas há uma alma
Que pesa mais no prato da balança;
Irradia vontade e confiança,
E os seus olhos videntes
Iluminam os outros penitentes.

O além do mundo, embora mundo ainda,
É tenebroso.
E só o génio animoso
Dum inspirado
Tem a coragem nova de enfrentar
O medo acomodado
Que não deixa passar.

Segue ele à frente, pois, o espírito audaz,
Que só ele é capaz
De ir à frente e de ser o derradeiro.
Guia de todos os descobrimentos,
E sempre ele o gajeiro,
Com nomes vários nos vários momentos.

Poemas Ibéricos
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Cabril do Ceira

O meu amigo ADS enviou-me esta fotografia, para me lembrar, como se fosse necessário, que a zona das suas origens tem paisagens maravilhosas, que convidam à visita e ao deleite.

O blogue da União Progressiva da Freguesia do Colmeal, que pode ser consultado aqui, dá nota do que por lá acontece, da beleza da região, e salienta as tradições e a vida que a natureza, felizmente, ainda por lá vai fazendo acontecer.